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Nos estudos funcionalistas recentes sobre gramática e discurso (GIVÓN 1991; HEINE et alii, 1991; BYBEE, 2003a, 2003b, 2005), encontramos a relação entre gramática e cognição. Para Givón (1991), embora as línguas codifiquem, diferentemente, um mesmo evento, existe uma relação icônica entre o empacotamento cognitivo e o empacotamento gramatical. Há, portanto, no fenômeno lingüístico, um componente cognitivo que está por trás do componente gramatical e que representa o conhecimento do falante, como suas competências comunicativa e lingüística, e seu conhecimento de mundo (cf. HENGEVELD, 2000, p. 4).

Como a gramática está constantemente sendo criada por força do uso, é comum que morfemas e estruturas gramaticais desapareçam e que outros sejam criados. Na constante formação da gramática, atuam processos cognitivos básicos. Para entendermos como atuam esses processos, precisamos, inicialmente, compreender que os itens lexicais, fonte de itens

gramaticais, representam aspectos concretos e básicos das relações do homem com seu ambiente, com forte ênfase ao ambiente espacial e às partes do corpo.

A relação espacial entre um objeto e outro é expressa, com freqüência, em termos da relação de uma parte do corpo e o restante dele. Segundo Lakoff e Johnson (1980), o pensamento tem base corporal, por isso é comum utilizarmos o corpo para descrevermos nossas experiências. A palavra “cabeça”, por exemplo, envolve o significado de termos, como acima, em cima, no

topo.

Os conceitos mais abstratos, portanto, estão ligados aos mais concretos. Dessa forma, podemos encontrar as origens das noções gramaticais mais abstratas em conceitos mais concretos, físicos, que envolvem movimento e orientação do corpo humano no espaço As construções gramaticais que expressam noções abstratas, como Tempo, relações de caso, definitude etc, podem ter sido originadas por aspectos básicos da experiência humana.

A importância de fatores cognitivos na formação da gramática pode ser mais bem compreendida se considerarmos a gramaticalização, processo pelo qual um item lexical ou uma seqüência de itens torna-se gramatical (cf. capítulo 2), como um processo de automatização de seqüências de elementos lingüísticos que ocorrem freqüentemente. Bybee (2003a) argumenta que os princípios de automatização, aplicados a todas as atividades motoras, podem também ser aplicados à gramaticalização.

Dessa forma, as construções gramaticais são rotinas motoras automatizadas que podem ser organizadas para que o discurso se torne mais fluente. Essa automatização ocorre devido à repetição, por meio da qual seqüências de unidades, anteriormente independentes, tornam-se uma só.

A repetição constante leva à habituação e à emancipação. Segundo Bybee (2003a, p.154), habituação é o processo pelo qual um organismo não mais responde a estímulos repetidos, perdendo, assim, sua força semântica; e emancipação é o processo pelo qual a função instrumental original assume uma função simbólica inferida do contexto no qual ocorre17.

Um bom exemplo, bastante utilizado na literatura da área, de como a repetição freqüente influencia na formação da gramática é da construção do inglês be going to. Originalmente, a

17 […] habituation, the process by which an organism ceases to respond at the same level to a repeated stimulus. (…). […] the process of emancipation, by which the original instrumental function of the practice take on a symbolic

construção be going to18 tinha o significado literal de movimento no espaço em direção a um

objetivo. Com o tempo, o valor informacional da construção passou a ser menos de movimento e

mais de propósito, de forma que a nova função de expressar objetivo ou intenção, gradualmente, tornou-se a função principal dessa construção.

O uso de be going to para expressar intenção mostra que a habilidade do falante de fazer inferências é uma característica importante no processo comunicativo. Para Bybee (2003a), quando o mesmo padrão de inferências ocorre freqüentemente com uma construção particular, a inferência passa a fazer parte do significado da construção. Se be going to é usado para falar sobre intenções, então intenção passa a fazer parte de seu significado19. Podemos, então, afirmar que os significados abstratos de construções gramaticais são originados por padrões de inferência.

A repetição freqüente, como vimos, é responsável pela habituação, o que faz com que morfemas gramaticais percam seu significado lexical de origem e tornem-se mais gerais. Tornando-se mais geral, o item ou construção pode ser usado em um maior número de contextos. Um verbo, por exemplo, perdendo conteúdo lexical, pode ter um uso mais generalizado e, dessa forma, a possibilidade combinatória de sujeito é expandida.

Quando um verbo seleciona o sujeito, o faz considerando um conjunto de traços definidos semanticamente. Por exemplo, um verbo de ação, como correr, tende a selecionar sujeitos com o traço agentivo. Essa escolha é feita com base em uma categorização. A categorização é um processo mental de classificação, cujo produto são as categorias cognitivas, ou seja, conceitos mentais armazenados em nossos cérebros (cf. CUENCA; HILFERTY,1999, p. 32).

Vista como um mecanismo que organiza a informação obtida a partir da apreensão da realidade, a categorização é um fator importante para a dinâmica das línguas. Segundo Bybee, as categorias lingüísticas têm uma estrutura prototípica, não podem ser definidas como uma série de condições necessárias e suficientes, mas caracterizadas em termos de membros mais centrais e mais periféricos. O fato de ser possível a entrada de novos membros em uma categoria permite maior produtividade no uso da língua.

O membro que apresenta o maior número de propriedades que caracterizam uma categoria é chamado de protótipo. Produto de nossas representações do mundo, de nossos modelos

18 Cf. capítulo 2, seção 2.5 e capítulo 3, seção 3.1.2.

19 When the same pattern of inferences occurs frequently with a particular grammatical construction, those inferences can become part of the meaning of the construction. If ‘be going to’ is frequently used to talk about intentions, it begins to have intention as part of its meaning. (BYBEE, 2003a, p. 156)

cognitivos idealizados, o protótipo é o responsável pela classificação de outros membros dessa categoria, considerando o grau de semelhança que tenham com ele.

O conceito de protótipo reforça a relação entre gramática e cognição, pois entidades e categorias gramaticais são explicadas levando-se em conta a noção de categorização. Como as capacidades gerais do cérebro humano permitem, ao indivíduo, categorizar, estabelecer identidade, similaridade e diferenças, lingüistas que não dissociam a estrutura da língua de seu uso consideram gramática como a representação cognitiva da experiência de um indivíduo com a

língua (cf. BYBEE, 2005, p. 711).

A gramática, como uma mediação da experiência do indivíduo com a língua, é criada por meio de rotinização, que estabelece construções neuromotoras. No fazer-se da gramática, a repetição, como vimos apresentando, é um dos fatores mais importantes. Bybee e Thompson (1997) apresentam dois principais efeitos da freqüência: o efeito redução e o efeito conservação.

A redução tem efeito na fonética, com a perda de material fônico; na sintaxe, com a perda de constituência interna; e na semântica, com a perda de conteúdo semântico. Palavras de alta freqüência tendem a mudar mais rapidamente que palavras de baixa freqüência. A construção be

going to, para citar novamente o exemplo, ilustra o caso de redução fonética, pois é reduzida para

[‘g n ].

Por outro lado, a repetição também produz o efeito conservador, expressões de alta freqüência são fixadas em nossas mentes, sendo mais facilmente acessadas e, assim, tornam-se mais difíceis de serem substituídas por outras expressões. Isso ocorre porque a freqüência fortalece as representações da memória de palavras ou frases, tornando-as menos sujeitas à reformulação analógica. Bybee e Thompson (1997) citam, como exemplo do efeito conservador da freqüência, os verbos regulares do inglês que, por serem mais utilizados, resistem a mudanças, em comparação aos irregulares que, vez por outra, são conjugados analogamente ao padrão regular.

Dessa forma, podemos dizer que as construções gramaticais são modificadas ou mantidas por meio do mesmo mecanismo, a repetição, atendendo às necessidades cognitivas e comunicativas do falante.

Para dar conta dessas necessidades, as gramáticas das línguas naturais não podem ser concebidas como estáticas e acabadas. O seu aspecto não-estável manifesta-se por meio da variação e da mudança. Assim, dizemos que a gramática está em um contínuo processo e que sua

estrutura lingüística apresenta uma relativa estabilidade, pois, sincronicamente, a gramática exibe, de modo simultâneo, padrões regulares, rígidos, e padrões que não são completamente fixos, mas fluidos.

Em outras palavras, podemos dizer que, ao lado de padrões relativamente fixos e resistentes a alterações, há, na gramática, formas que tendem a assumir novas funções, padrões novos que se estabilizam, resultando numa reformulação da gramática. Isso ocorre porque as gramáticas adaptam-se às necessidades de expressão dos usuários. É a situação comunicativa que motiva, em parte, a estrutura da gramática.

Considerando a maleabilidade da gramática, Hopper (1987), expoente do funcionalismo norte-americano, cunhou, não sem críticas, a expressão “gramática emergente”. Para o lingüista, a noção de gramática emergente é usada para sugerir que a estrutura – ou regularidade – vem do discurso e é formada pelo discurso.

Essa visão de gramática implica uma mudança na compreensão de signo lingüístico, visto como uma unidade que liga uma forma lingüística com um significado ou função. Segundo essa visão, os signos são equipados antes do ato de comunicação com todas as informações necessárias para o uso comunicativo bem-sucedido. Assim, para Hopper (1998, p.156)

uma língua é um inventário de tais signos com suas combinações de regras; e os discursos (...) são arrumados “sintaticamente” de acordo com essas regras. Tanto a gramática quanto o léxico existem em um nível abstrato antes de qualquer uso que é feito deles no discurso.20

A gramática seria, então, emergente, por ter as mesmas propriedades provisórias e dependentes do contexto que o signo. O termo emergente é concebido como um movimento contínuo em direção à estrutura, visto como sempre provisória e sempre negociável.

Em outras palavras, a gramática é vista como uma atividade em tempo real, on-line, que emerge cotidianamente no discurso e que nunca está completa. Dessa forma, a gramática é apenas o nome para certas categorias de repetições observadas no discurso; suas formas não seriam fixas, mas emergiriam na interação face a face, refletindo a experiência do falante e sua avaliação do contexto presente. Essas repetições são responsáveis, como vimos, pela rotinização

20 A language is an inventory of such signs, together with their combinatorial rules; and discourses are strings of form-meaning dyads arranged “syntactically” according to these rules. Both grammar and lexicon exist at an abstract level prior to any use that is made of them in discourse (…). (HOPPER, 1998, p.156)

de palavras e expressões usadas no discurso, e reorganizadas para atender aos nossos propósitos a cada situação comunicativa.

Para explicitar a rotinização de uma expressão, DeLancey (2000) evoca a imagem de uma tarefa realizada freqüentemente. Devido à freqüência com que essa atividade é realizada, aos poucos, o esforço mental para sua realização diminui, a ponto de se tornar automatizada, ou seja, rotinizada. É o que ocorre com vocábulos e construções em uma língua. Segundo DeLancey (2001, p.15)

(...) sabemos que há um conjunto de mudanças estruturais que tipicamente acompanham este tipo de rotinização, é o caso de construções verbais que ao se tornarem rotinizadas em um tipo de função, perdem seu comportamento tipicamente verbal (por exemplo, a marcação de concordância, de tempo e aspecto), tornando-se instrumentos para designar propósitos específicos21.

DeLancey (2001), ao discorrer sobre motivação, apresenta a linguagem como sendo instrumento que os falantes usam para organizar e comunicar representações mentais, e cuja forma só pode ser compreendida em relação a sua função. Mas, como qualquer artefato, a forma não é completamente determinada por sua função. DeLancey quer enfatizar que, na língua, alguns fatos sintáticos são claramente motivados funcionalmente, e outros carecem de motivação funcional evidente.

Em relação a muitas expressões, já não é possível encontrar motivação sincrônica para o uso. Em casos como esse, dizemos que atua uma outra importante força para compreendermos a organização da gramática, a opacidade. DeLancey (2001), ao estudar o uso de from e de of, no inglês, conclui que há casos em que mudanças diacrônicas apagam a motivação original de um aspecto particular de uma construção.

O que se observa é que determinadas formas que inicialmente eram criativas e expressivas tornam-se, devido à freqüência, habituais e fixas, sendo necessária a criação de outras formas. Em outras palavras, se uma determinada forma já não cumpre tão bem sua função no discurso, é descartada pelo falante que já segue em busca de outra forma mais expressiva. É por isso que se afirma que a gramática está sempre em movimento, pois, não sendo estável, fechada ou autocontida, é um eterno fazer-se.

21 “(…) we know that there is a set of structural changes which typically accompany this kind of routinization – as a verbal construction becomes routinized in this kind of function, it tends to lose its typically verbal behaviors (e.g. agreement, tense/aspect marking and other specifically verbal morphology), turning into a more streamlined tool,

Assim, a gramática vai sendo construída pelas pressões de uso das quais resultam as regularidades. Os propósitos comunicativos do falante em ser expressivo e informativo e a existência de lacunas nos paradigmas gramaticais ou no universo de conceitos abstratos são os interesses que motivam o eterno fazer-se da gramática.

Para Hopper & Thompson (1994), a gramática é modelada por uma gama de fatores cognitivos, sociais e interacionais envolvidos no uso real da linguagem. Para eles as regularidades da gramática surgem devido a certas estratégias utilizadas pelos falantes no momento da interlocução.

Nesse sentido, a gramática é um sistema adaptativo em que forças motivadoras dos fenômenos externos, i.e., discursivas, penetram no domínio da língua e passam a interagir com forças organizadoras internas (estruturais), competindo e conciliando-se sistematicamente com elas (DU BOIS, 1985).

A concepção de gramática emergente recebeu inúmeras críticas, de modo que preferimos conceber gramática, de forma mais equilibrada, entre estabilidade e fluidez. Givón (1995) sugere que as categorias lingüísticas são categorias de protótipos que exibem estabilidade no centro e fluidez nas margens. Assim, nem tudo seria fixo e nem tudo seria variável; ou, para sermos mais explícitos, na língua, há elementos fixos e há elementos variáveis.

SÍNTESE CONCLUSIVA

Abordamos, neste capítulo, os principais pressupostos do paradigma funcionalista, modelo segundo o qual a língua é um instrumento de interação e serve a uma gama de propósitos. Oposto ao paradigma formal, o funcionalismo apregoa que os textos ocorrem em algum contexto de uso, e que a estrutura do material lingüístico é flexível e em continua transformação.

Relacionamos gramática e cognição, por compreendermos que processos cognitivos atuam na construção das estruturas gramaticais, sendo a repetição um fator importante na criação da gramática. A gramática é, assim, concebida como em constante mudança devido às pressões do próprio sistema e às pressões contextuais.

Essa visão de gramática como estrutura não-discreta, suscetível a mudanças e deveras afetada pelo uso que lhe é atribuído pelo falante, nos conduz a um outro importante conceito, o de “gramaticalização”. É sobre este conceito que discorreremos no capítulo seguinte.