• No results found

Van der Awera e Plungian (1998) destacam a impor- tância de se fazer um mapeamento semântico da modalidade para, a partir daí, ser possível se fazer previsões sobre os meios pelos quais as línguas expressam modalidade. Para tal mape- amento, os autores baseiam-se no caminho apontado por By- bee, Perkins e Pagliuca (1994).

A fi m de melhor compreendermos o que envolve o mapeamento semântico da modalidade, faremos uma pequena incursão sobre o caminho traçado por Bybee, Perkins e Pagliuca (1994). Primeiramente, defi niremos mapeamento semântico como uma “representação geométrica dos signifi cados, ou se alguém preferir, dos usos, e das relações entre eles”42 (VAN

DER AWERA & PLUNGIAN, 1998).

Então, segundo Bybee, Perkins e Pagliuca (1994), há três caminhos ou representações que se encaixam dentro da classifi cação de mapa ou também chamada minimapa. Enten- demos, pois, que tais caminhos aproximam-se de um mapea- mento. Contudo, há ocasiões em que o assunto não se esgota, havendo necessidade de mais detalhes, principalmente no to- cante à modalidade deôntica.

O caminho traçado por Van der Awera e Plungian (1998), de acordo com Bybee, Perkins e Pagliuca (1994), apre- senta a distribuição e o desenvolvimento dos marcadores mo- dais, que são verbais e considerados parcialmente gramaticali- zados (auxiliares, derivacionais ou com fl exão).

42 A semantic map is a geometric representation of meanings, or if one likes,

uses, and of the relations between them (VAN DER AWERA & PLUNGIAN, 1998, p. 86).

Tais marcadores podem-se desenvolver para dentro ou fora do status mencionado acima. E, embora Van der Awera e Plungian (1998) não trabalhem com marcadores modais que são substantivos, adjetivos, advérbios ou predicados de estados mentais, os autores acreditam que a base semântica do mape- amento que se estabelece nesse estudo servirá para os demais tipos de marcadores também.

Segundo Van der Awera e Plungian (1998), as ligações diacrônicas e sincrônicas constituem o caminho do mapa su- gerido por eles. Para efeito de nosso estudo, o mapeamento, ou melhor dizendo, a representação será sincrônica, uma vez que não trabalhamos com dados históricos.

A partir de Bybee, Perkins e Pagliuca (1994), o único ca- minho apontado é o da possibilidade. Contudo, tal trilha será entendida na perspectiva de Van der Awera e Plungian (1998). Em tal perspectiva, as entidades interligadas são consideradas tanto em relação ao signifi cado quanto ao uso. Os autores expli- cam que um signifi cado ou uso podem-se desenvolver de um para o outro (fl echas). Por exemplo, uma possibilidade de raiz pode-se desenvolver para possibilidade epistêmica.

Nos exemplos arrolados por Bybee, Perkins e Pagliuca (1994, p. 193) para o inglês arcaico, por exemplo, destaca-se “may” (mæg), usado para habilidade em geral, mas que se de- senvolve para a possibilidade de raiz.

Assim, a condição geral envolvendo habilidade ou ca- pacidade expressa pela modalidade de raiz inclui tanto condi- ções físicas como sociais, sendo que permissão inclui somente condições sociais. Consequentemente, a possibilidade de raiz insere o sentido de permissão social. Desta feita, de uma certa forma, a permissão seria derivada em parte da possibilidade de raiz.

82 Maria Fabíola Vasconcelos Lopes

No que diz respeito ao mapeamento semântico da mo- dalidade, é necessário explicarmos alguns pontos acerca da terminologia empregada no mapa. Para tal fi m, utilizaremos a terminologia apontada por Van der Awera e Plungian (1998).

Os referidos autores utilizam os termos “participante externo” e “participante interno” respectivamente para os as- pectos externos e internos do estado de coisas que a propo- sição refl ete. Assim, temos uma subcategoria da modalidade em que participantes externos e internos comportam, juntos, a modalidade não epistêmica.

Os autores usam a terminologia inspirada em Bybee, Perkins e Pagliuca (1994). Apesar de deôntico e epistêmico serem termos bastante difundidos, Bybee, Perkins e Pagliuca (1994) não usam o termo deôntico. Contudo, eles estudam os usos envolvendo permissão e obrigação. E consideram tais usos como orientados para o agente, uma vez que o falante é quem permite ou obriga, enquanto a modalidade orientada para o falante inclui os casos do imperativo, como discutimos no item 2.1.

Van der Awera e Plungian (1998) dividem a modalidade em quatro domínios. O primeiro, o do participante interno, refere-se ao tipo de possibilidade e necesidade interna ao par- ticipante engajado no estado de coisas. No caso de possibilida- de, lidamos com a habilidade (capacidade) do participante e, no caso da necessidade, lidamos com a necessidade interna do participante. O segundo domínio é o do participante externo. No caso da modalidade de participante externo, esta refere-se a circunstâncias externas ao participante.

Retomemos os exemplos de Van der Awera e Plungian vistos na introdução deste livro em (5) e (6) para ilustrar as cir- cunstâncias externas ao participante. Em (5), com o exemplo

“you can take the bus 66”, visto no início de nossa discussão, a modalidade “participante externo” envolve possibilidade, pois o ônibus 66 oferece somente um meio de transporte possível para o falante utilizar. Em (6), “you have to take bus”, a moda- lidade participante externo é de necessidade, haja vista que o ônibus 66 é o único meio de transporte para se levar o falan- te até a estação. Então, para chegar até lá, tomar o ônibus 66 constitui uma necessidade.

O terceiro domínio é o da modalidade deôntica. Nesse grupo, a modalidade deôntica identifi ca circunstâncias exter- nas ao participante, haja vista que alguém ou alguma norma ética ou social permite (ou obriga) ao participante se engajar no estado de coisas. Vejamos o seguinte.

(56) John may leave now. (João pode sair agora.) (57) John must leave now. (João deve sair agora.)

No caso que envolve permissão, em (56), há alguém com autoridade e/ou alguma norma que qualifi ca a saída de John como possível. A permissão é, então, uma questão de possibi- lidade deôntica. Ao contrário, em (57), vemos a obrigação ou necessidade deôntica, uma vez que a saída de John é necessária.

O último domínio, seguindo a ideia dos autores, é o da modalidade epistêmica, a do julgamento do falante.

Salientamos que, embora não trataremos do mapea- mento semântico propriamente dito, faz-se necessário com- prender os estudos nessa direção, uma vez que tais estudos auxiliarão nas interpretações em nossa análise desenvolvida no capítulo 5.

84 Maria Fabíola Vasconcelos Lopes