4.3 Analyser av mikrodata
4.3.3 KAT
As teorias e tendências expostas até então nesta pesquisa a respeito das intervenções em bens culturais no âmbito da conservação e do restauro, analogamente, aplicam-se a outras espécies de intervenções. Num contexto em que a arte urbana se desenvolveu e ganhou espaço nas cidades contemporâneas, tornando-se parte da construção da urbe, integrando-se ao patrimônio cultural edificado e, muitas vezes, conflitando-se com este, é possível lançar mão das noções de culturalização, significância e sustentabilidade cultural para compreender os valores introduzidos por esse novo elemento e questionar sua legitimidade, contribuição e limites na esfera preservacionista.
Cresce o número de exemplos pelo mundo de intervenções artísticas envolvendo o grafite que são realizadas no patrimônio cultural edificado. A cada novo painel executado nos espaços consagrados por seu valor histórico-cultural, o debate sobre a preservação do patrimônio é reacendido. Nessas circunstâncias, costumam se expressar especialmente aqueles que defendem uma prática preservacionista mais conservadora, apegada à ideia de intocabilidade do patrimônio cultural; e aqueles afinados às tendências contemporâneas da conservação, abertos para a possibilidade de intervenções, muito embora, quando atentos ao princípio da sustentabilidade cultural, não tratem com leviandade tais intervenções, considerando a necessidade de critérios em sua execução; além de um amplo espectro de opiniões e manifestações do senso comum, tal a complexidade do tema e a pluralidade de valores que envolve.
Um exemplo marcante desse tipo de intervenção foi o grafite realizado no castelo medieval de Kelburn, na Escócia, em 2007, pelos grafiteiros brasileiros Nina Pandolfo,
Nunca, e a dupla Os Gêmeos18. Para que fosse feita qualquer modificação no castelo, que data
do século XIII, requeria-se autorização das autoridades locais responsáveis pela preservação do patrimônio histórico. À época, o respectivo órgão autorizou a intervenção, que seria temporária, a pedido do proprietário do castelo, Patrick Boyle, conde de Glasgow. Patrick Boyle, todavia, pretende manter a obra, que se consagrou como um dos dez melhores exemplares de arte urbana do mundo, e para tanto entrou com pedido junto ao Historic Scotland, entidade governamental escocesa responsável por assessorar a gestão pública dos edifícios históricos. Com amplo reconhecimento, nem por isso o grafite deixou de gerar controvérsias quanto ao tratamento dos prédios históricos europeus. Neil Baxter, secretário e tesoureiro da associação escocesa de arquitetos Royal Incorporation of Architects in Scotland (RIAS), todavia, considerou o grafite uma espécie de provocação ao conservadorismo, e se mostrou favorável à obra, que não causaria danos ao edifício. Afirmou, ainda, que “os edifícios são inúteis se não estão vivos” 19
Figura 3 – Castelo escocês grafitado pelos artistas brasileiros Nina Pandolfo, Nunca e a dupla Os Gêmeos.
Fonte: divulgação.
18 “Castelo grafitado por brasileiros é alvo de controvérsia na Escócia”, notícia veiculada pelo portal da Deutsche
Welle Brasil (DW Brasil) em 12 de setembro de 2011, disponível em: <www.dw.com/pt/castelo-grafitado-por- brasileiros-é-alvo-de-controvérsias-na-escócia/a-15373522>. Acesso em: 12 de junho de 2016.
Em 2015, outra intervenção envolvendo o grafite ganhou visibilidade mundial, dessa vez na Espanha. A Igreja de Santa Bárbara, em Llanera, construção centenária projetada pelo arquiteto Manuel del Busto, que ficou abandonada durante anos sem recepcionar qualquer evento religioso ou de outra natureza, foi transformada internamente em uma grande pista de skate pública, denominada Kaos Temple, e coberta por grafites do artista Okuda San
Miguel20. Dois aspectos em especial correlacionam a intervenção na Igreja de Santa Bárbara
com as tendências contemporâneas da preservação já apresentadas nesta pesquisa: quanto à iniciativa para a execução da obra, que partiu de um coletivo, o Church Brigade, e foi financiada coletivamente através de campanha virtual, e por patrocínio angariado junto à iniciativa privada; e quanto à alteração do edifício, que não se limitou ao aspecto estético, reinventando também seu uso e possibilitando que seja novamente fruído pela comunidade diante do abandono em que se encontrava. É um exemplo que explicita a mobilização de diversos atores sociais pela questão patrimonial, e sua disposição para não somente reivindicar, como também executar intervenções que geram novas significâncias em torno dos bens culturais.
Figura 4 – Igreja de Santa Bárbara, em Llanera, grafitada e transformada em pista de skate.
Fonte: divulgação
20 “Igreja com mais de 100 anos é transformada em pista de skate supercolorida”, notícia veiculada pelo portal
Gazeta do Povo em 17 de dezembro de 2015, disponível em: <www.gazetadopovo.com.br/haus/estilo- cultura/igreja-com-mais-de-cem-anos-e-transformada-em-pista-de-skate-super-colorida/>. Acesso em: 12 de junho de 2016.
No Brasil, a arte urbana também já foi mote de alguns conflitos envolvendo a questão da preservação patrimonial. Em fevereiro de 2015, em São Paulo, os Arcos dos Calabreses – construídos provavelmente entre os anos de 1875 e 1877 por imigrantes italianos provenientes da região da Calábria, e hoje conhecidos como “Arcos do Jânio”, por terem sido redescobertos em 1987, quando Jânio Quadros, à época prefeito de São Paulo, determinou a desapropriação e a demolição dos cortiços que os haviam encoberto ao longo dos anos, revelando, assim, o monumento (NASCIMENTO, 2015) – tiveram seus vãos grafitados com a autorização e o incentivo do prefeito Fernando Haddad. Os arcos foram tombados em 2002, razão pela qual a intervenção artística precisou do aval do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) para se
realizar21. A presidente do Conpresp, Nádia Someck, declarou que a intervenção buscou gerar
maior visibilidade para o patrimônio. Além disso, destacou que os grafites foram autorizados somente nos vãos dos Arcos, feitos de arrimo e já pintados com tinta impermeabilizante seis anos antes; devendo-se livrar os tijolos aparentes, expressão da técnica italiana aplicada na construção dos arcos (RASPANTI, 2015).
A despeito das autorizações e dos limites estabelecidos pelo Conpresp, a intervenção foi alvo de inúmeras críticas, muitas delas atreladas à ideia de preservação como intocabilidade do patrimônio cultural, eivadas de conservadorismo e despidas de maior embasamento; outras, sinceramente questionando a possibilidade de o grafite causar danos à estrutura dos arcos, estas respondidas pelo Conpresp com as informações já apresentadas; e houve ainda aqueles que, entusiastas da intervenção em alguns aspectos, criticaram-na em outros. O historiador e professor Paulo de Assunção, por exemplo, disse acreditar que “a intervenção representa uma possibilidade de diálogo muito avançada e interessante com a cidade. O grafite é quase um grito chamando a atenção para a existência dos arcos” (RASPANTI, 2015). Questionou, todavia, o conteúdo do grafite, que considera poder ser mediado pelo Poder Público. Quanto ao conteúdo, Nádia Somekh, em nome do Conpresp, já havia defendido a liberdade dos artistas ao criar, ao mesmo tempo em que destacou o caráter efêmero, e, portanto, reversível, intrínseco à arte de rua (RASPANTI, 2015).
21 “Haddad aprova grafite em patrimônio histórico de São Paulo”, notícia veiculada pelo portal de notícias Terra
em 2 de fevereiro de 2015, disponível em: <noticias.terra.com.br/brasil/cidades/hadadd-aprova-grafite-em- patrimonio-historico-de-sao-paulo,3ecc21552d94b410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html>. Acesso em: 12 de junho de 2016.
Figura 5 – Arcos do Jânio grafitados em São Paulo.
Fonte: divulgação
Aspecto comum a todas as intervenções aqui comentadas é a recorrência em suscitar discussões acerca da tratativa do patrimônio cultural envolvendo diversos segmentos sociais, discussões essas às vezes arrefecidas e que ganham novo fôlego a partir das intervenções urbanas. À vista do abandono pelo qual passam muitos dos bens culturais brasileiros, carentes de uma gestão mais afinada com as demandas contemporâneas, que lhes dê uso social visando à sua preservação, polêmicas como a gerada pelo grafite nos “Arcos do Jânio” podem, através mesmo dos conflitos entre valores que despertam, ser frutíferas para o desenvolvimento da prática preservacionista no País, perfazendo-se, destarte, um dos potenciais da arte urbana, qual seja, o de gerar reflexões. Cada caso, no entanto, possui singularidades que devem ser observadas numa investigação quanto à legitimidade da intervenção artística no patrimônio. O presente trabalho se debruçará especialmente sobre o estudo de um caso, o grafite realizado no Farol do Mucuripe no ano de 2013, e as reverberações causadas por ele no monumento e no seu entorno, assunto amiúde abordado no capítulo a seguir.
4. PRA LHE “APERRIÁ”: O GRAFITE E A OCUPAÇÃO DO FAROL DO