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Red letter days: annoyance, frustration and violent meetings

Entende-se que o estudante traz consigo, logo que se insere no contexto escolar, uma experiência de linguagem, que o torna único. Durante o período anterior ao seu ingresso nesse ambiente de educação formal, esse sujeito vem desenvolvendo, no(s) contexto(s) social(is) do(s) qual(is) participa, uma gramática própria, resultante das experiências vivenciadas na família, na igreja, com os amigos. E para que ele estabeleça comunicação e possa interagir em cada um desses contextos, faz-se necessário usar a língua de forma adequada.

Aparentemente a língua oficial de um país apresenta uma concepção de homogeneidade, já que existe uma normatização para determinados contextos e usos da língua. Entretanto, há que se reconhecer a variação linguística nos usos diários que o falante faz da língua materna, evidência da heterogeneidade sistemática da língua. Essa realidade encontra respaldo em Labov (1972), segundo quem “O caráter sociolinguístico da variação está fundamentado no estudo da estrutura e da evolução da língua no contexto social da fala”. Ou seja, não se pode ignorar o princípio da diversidade.

No Brasil, o professor de Língua Portuguesa se depara com uma multiplicidade de falares, de vocabulários ativos diferentes, e compete a ele lidar com essa situação. Dessa forma, a instituição responsável pela educação formal do aluno não pode ficar à margem dessa realidade. Em virtude desse fenômeno sociocultural, tornou-se urgente uma reformulação no currículo, na abordagem dos conteúdos, de modo a se conduzir o processo de ensino- aprendizagem valorizando a variação linguística. Os órgãos governamentais responsáveis pela condução do processo educacional do país criaram, em 1998, os Parâmetros Curriculares Nacionais1 - PCN, documento oficial, que traz orientações para os docentes embasarem a sua prática pedagógica, inclusive com a prerrogativa dessa variação.

De acordo com o estabelecido nos PCN, a escola precisa conhecer a realidade linguística do seu aluno para, então, elaborar o projeto pedagógico a ser aplicado, no sentido de que

A variação é constitutiva das línguas humanas, ocorrendo em todos os níveis. Ela sempre existiu e sempre existirá, independentemente de qualquer ação normativa. Assim, quando se fala em Língua Portuguesa, está se falando de uma unidade linguística que se constitui de muitas variedades. Embora no Brasil haja relativa unidade linguística e apenas uma língua

1 Ressalta-se a importância de o professor ler os PCN, a fim de conhecer a proposta pedagógica elaborada com o propósito de se trabalharem as habilidades e as competências adequadas para o processo de ensino- aprendizagem.

nacional, notam-se diferenças de pronúncia, de emprego de palavras, de morfologia e de construções sintáticas, as quais não somente identificam os falantes das comunidades linguísticas em diferentes regiões, como ainda se multiplicam em uma mesma comunidade de fala. (BRASIL, 1998, p.29). Vale destacar que se entende não ser fácil a tarefa de lidar com as variações linguísticas presentes em uma sala de aula e que o professor nem sempre consegue se desvincular dos preceitos da gramática normativa. Além disso, sabe-se que não se dispõe de fórmulas mágicas para solucionar essa questão e que são inúmeras as dúvidas a respeito de como administrar esse desafio. Os livros didáticos – apoio pedagógico frequentemente utilizado pelo docente - têm um enfoque mais centrado no estudo dos gêneros textuais, na produção deles, nas estruturas sintáticas tradicionais ou no emprego desta ou daquela regra gramatical. Pouco espaço é destinado ao estudo da variação linguística; ao reconhecimento de mais de uma forma válida de uso da língua; à existência de mais de um significado para um mesmo item lexical, de mais de um item lexical para se nomear um mesmo objeto/ser, de mais de uma maneira de o falante se expressar, de mais de uma possibilidade de se construir uma mensagem.

Dessa maneira, o objetivo da criação deste material pedagógico – Caderno de Oficinas Pedagógicas para Estudo das Variações Linguísticas – Copeval (versão para professores) - se fundamenta na necessidade de disponibilizar para o docente de Língua Portuguesa uma proposta de atividades as quais estão centradas no reconhecimento e na valorização da variação linguística. A abordagem desse tema foi feita de forma gradual, levando o aluno a conhecer a origem da nossa língua, a perceber as razões por que ocorre variação nos usos dos itens lexicais, a aceitar a diferença linguística no ambiente escolar, a identificar os mecanismos de formação, de criação, de desaparecimento de palavras ou de vocábulos, tais como arcaísmos, deslexicalização2, lexicalização3, relexicalização4.

O público-alvo desta proposta de intervenção é o nono ano do Ensino Fundamental II, mas as questões aqui apresentadas podem ser adaptadas para outras séries, conforme seja a finalidade do professor.

A concepção das atividades em forma de oficinas pedagógicas se deu em virtude de se entender que elas constituem uma estratégia eficiente de construção coletiva de

2 A deslexicalização pode ser entendida como o processo que leva determinado item lexical ao desuso, mesmo que ele ainda integre o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – VOLP. Castilho (2010, p. 117) define esse fenômeno como a morte das palavras.

3 A lexicalização é incorporação de novos termos ao vocabulário de uma determinada comunidade social, os quais são partilhados pelos integrantes desse grupo (FIORIN, 1999, p. 93-99).

4 Relexicalizar significa gerar “novas palavras que são estabelecidas como alternativas às existentes, ou em oposições a elas” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 240).

promovem-se oportunidades de manifestação de opiniões, de concordância com a dos colegas ou de discordância delas, de questionamentos, de reflexão, de desmitificação de preconceitos. E, tendo em vista essa intenção, foram preparadas cinco oficinas, divididas em dois módulos, nos quais se aborda um aspecto específico do tema.

Há, em cada um das oficinas, a especificação dos objetivos propostos para a realização das atividades previstas; a indicação das estratégias sugeridas para serem empregadas na aplicação dos exercícios; a descrição dessas atividades; os procedimentos a serem adotados; boxes com informações adicionais e/ou explicações complementares para orientar o docente quanto à metodologia de desenvolvimento de um ou mais tópicos. Adotou-se uma estrutura básica de abordagem do tema: um texto motivador inicial, que pode ser um poema, uma letra de música, uma charge, um texto em prosa. A partir dele, são promovidas discussões relacionadas ao assunto em questão para, com base no conhecimento prévio da turma, se proceder à resolução dos exercícios programados. Os estudantes terão oportunidade de verbalizar ideias, pensamentos, bem como de pesquisar acerca de algo desconhecido, de trocar informações com o colega e de se manifestar também por meio da escrita. Após a execução dos dois módulos, apresenta-se uma sugestão de culminância do trabalho desenvolvido, de modo a ser apresentarem os resultados desse processo: um glossário com termos recorrentes no lugar de origem do estudante; uma exposição com palavras/expressões indicadas pelos próprios alunos e que representam a diversidade linguística no país; a retextualização5 de uma história em quadrinhos, com o uso de termos/expressões extraídas do glossário já elaborado por eles; uma mostra de termos de origem indígena que passaram a constituir o léxico da Língua Portuguesa; uma pesquisa a respeito de palavras/expressões em desuso e apresentadas em mural na escola; uma produção de poema com o uso de neologismos; uma elaboração de texto que represente uma conversa em ambiente virtual de comunicação, com o uso de termos próprios dessa linguagem; um vocabulário com termos utilizados no ambiente militar de ensino. Além do material impresso, o professor encontrará, ao final deste volume, em anexo, um cd-rom (contendo os arquivos dos vídeos, dos slides em extensão ppt (PowerPoint), dos clipes das músicas utilizados nas oficinas).

Na Oficina 1, intitulada “O Português no e do Brasil”, procura-se, no Módulo 1, sensibilizar o estudante para que ele reconheça algumas formas de diversidade – inclusive a de aspecto semântico-lexical -, a importância delas para a construção da cultura de um povo. 5 De acordo com Marcuschi (1999, p.133), a retextualização representa a passagem da fala para a escrita, o qual envolve operações de compreensão do que foi dito por alguém.

Ainda se espera, por meio das discussões mediadas, que haja uma minimização de atitudes de preconceito de qualquer natureza, principalmente o linguístico. Já no Módulo 2, trata-se especificamente do entendimento da variação diatópica, aquela que se caracteriza pela utilização de itens lexicais diferentes para nomear um mesmo ser em virtude da região e do contexto sociocultural do falante e do reconhecimento de aspectos que promovem a constituição do léxico de um idioma.

A Oficina 2, denominada “Uma língua; vários usos”, basicamente está centrada na origem e na formação da Língua Portuguesa. Tanto no Módulo 1 quanto no Módulo 2, faz-se um breve estudo do percurso histórico da língua oficial do país, destacando a influência dos povos indígenas nativos, dos africanos escravizados e dos colonizadores nas regiões geográficas, seja na estruturação da cultura seja na constituição do léxico. Ainda se pretende estabelecer uma comparação, quanto ao emprego de itens lexicais, entre o Português europeu e o Português brasileiro. Já se começa a introduzir, inclusive, o conceito de norma linguística.

Na Oficina 3 - “Não há uma língua portuguesa, há línguas em português” -, tem-se como foco as variações que acontecem na Língua Portuguesa em virtude de fatores sociais que influenciam o surgimento e/ou o desaparecimento de palavras e de expressões, além dos parâmetros utilizados para a(s) definição(ões) mais recorrentes de “norma”. Com esses subsídios, já será possível promover discussão com a turma acerca do que se considera “certo” e “errado” em relação aos usos da Língua Portuguesa. No Módulo 1, apresentam-se textos produzidos por escritores de diferentes regiões do país, a fim de que os alunos possam comparar os itens lexicais recorrentes desses lugares, conhecê-los e, a partir daí, ampliar o próprio acervo lexical; no Módulo 2, pretende-se que o aluno conheça as denominações atribuídas às variações linguísticas, fundamentadas nos estudos Sociolinguísticos, e que ele tenha clareza quanto à necessidade de adequação da fala aos contextos de usos.

Na Oficina 4, nomeada “Palavras vêm; palavras vão”, mostra-se o caráter mutável da língua, cujo reflexo repercute principalmente no léxico. No Módulo 1, expõem-se alguns processos que promovem a incorporação de palavras de outros idiomas, a criação de novos termos (lexicalização), o desuso de alguns itens lexicais em razão da passagem do tempo e as transformações ocorridas em vários campos do saber, a mudança de significado de palavras e de expressões conforme o contexto de uso e a intencionalidade discursiva. No Módulo 2, pela leitura de textos, procura-se levar o aluno a tentar compreender o sentido de palavras estranhas ao seu acervo lexical, fazendo consultas ao dicionário, por exemplo. Ainda nessa parte, destina- se um espaço para o reconhecimento das relações semânticas que o aluno possa

exofórico.

Na Oficina 5, a qual se chamou de “No colégio militar se diz assim...”, no Módulo 1, o texto base é um poema escrito por um ex-aluno, no qual ele revela suas impressões a respeito da instituição militar de ensino. Com base nesse texto, procura-se conhecer a opinião dos discentes em relação à rotina do colégio. No Módulo 2, visa-se levar os alunos a compilarem esses termos e agrupá-los em um vocabulário, com base nas características específicas desse ambiente e dos termos empregados em situações do cotidiano escolar.

Espera-se que, após a realização das oficinas, de fato, se perceba que, tanto na fala quanto na escrita dos alunos, tenha havido uma ampliação vocabular, que eles tenham conseguido desconstruir a noção de “erro”, entendendo que se faz necessário adotar o critério da adequação no ato de escolha dos itens lexicais em certas situações comunicativas e que tenham percebido a riqueza cultural e lexical presente no ambiente de uma sala de aula.

Quanto ao professor, almeja-se que a proposta de intervenção ora apresentada tenha sido útil para que ocorra uma mudança de postura no trato da variação linguística com os alunos, considerando-a como fator preponderante para o enriquecimento do acervo lexical dos estudantes, que ela sirva como material complementar para o planejamento das aulas, como ponto de partida para uma visão mais real da língua e que ela possa trazer contribuições para uma diminuição do preconceito linguístico.

Que a sua prática pedagógica possa ser ainda mais motivadora, ainda mais inovadora, proporcionando aos seus alunos um conceito de língua que se aproxima da realidade dele, quebrando os tabus de que a Língua Portuguesa é uma matéria difícil, de que o estudante não sabe falar o próprio idioma, de que ele não sabe escrever direito. Que também a sua consciência linguística seja ampliada, aceitando e valorizando as outras formas de usos da língua, aproveitando essa característica da heterogeneidade para formar usuários e falantes cada vez mais competentes.

Bom trabalho!

OFICINA 1: O Português no e do Brasil