A abordagem do tema da variação linguística, nas atividades que compõem as oficinas pedagógicas, foi feita de forma gradual, levando o aluno a conhecer a origem da nossa língua, a perceber as razões por que ocorre variação nos usos dos itens lexicais, a aceitar a diferença linguística no ambiente escolar, bem como a identificar os mecanismos de formação, de criação, de desaparecimento de palavras ou de vocábulos, tais como arcaísmos, deslexicalização36, lexicalização37, relexicalização38.
A concepção da proposta de intervenção em forma de oficinas pedagógicas se deu em virtude de se entender que elas constituem uma estratégia eficiente para a construção coletiva 36A deslexicalização pode ser entendida como o processo que leva determinado item lexical ao desuso, mesmo que ele ainda integre o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – VOLP. Castilho (2010, p. 117) define esse fenômeno como a morte das palavras.
37A lexicalização é incorporação de novos termos ao vocabulário de uma determinada comunidade social, os quais são partilhados pelos integrantes desse grupo (FIORIN, 1999, p. 93-99).
38 Relexicalizar significa gerar “novas palavras que são estabelecidas como alternativas às existentes, ou em oposições a elas” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 240).
de conhecimentos, representando uma oportunidade de interação entre os envolvidos. Os alunos-colaboradores, durante a realização das atividades, têm oportunidade de manifestar opiniões, de concordar com a dos colegas ou de discordar delas, de questionar, de refletir, de desmitificar preconceitos e, principalmente, de reconhecer que a Língua Portuguesa é, de fato, heterogênea.
As atividades planejadas para a discussão acerca da temática desta pesquisa foram concebidas em virtude do repertório linguístico bastante diversificado que existe no país e, especialmente, em uma instituição militar de ensino. Acredita-se que, desse modo, seja possível criar condições para que o estudante possa ampliar seu repertório linguístico, levando-o a entender que a variação linguística semântico-lexical é o reflexo de uma sociedade, uma vez que nem todos os integrantes de um mesmo grupo falam de uma só maneira, pois há que se considerarem vários fatores: idade, etnia, gênero.
Quando a professora-pesquisadora procedeu à seleção do material que comporia o Caderno de Atividades para o estudo da variação linguística, já havia sido traçado um perfil social e cultural das duas turmas dos alunos-colaboradores. Portanto, no momento da seleção dos textos a serem usados para a discussão e a reflexão do tema, procurou-se dar prioridade àqueles em se percebessem os muitos motivos que justifiquem o surgimento e a existência das variações linguísticas, tais como as marcas de regionalismos, os neologismos, a herança indígena na constituição do léxico, os fenômenos culturais e sociais que interferem nos usos linguísticos de certas comunidades.
E, por entender que para se promoverem condições para a construção do saber, o caminho mais apropriado para o ambiente da sala de aula se dá por meio de oficinas, definiu- se por essa metodologia para a aplicação da proposta de intervenção. Dessa forma, a proposta de intervenção contém cinco oficinas, cada uma delas estruturada em dois módulos.
Há, em cada uma delas, como já dito anteriormente, a especificação dos objetivos estabelecidos para a realização das atividades previstas; a indicação das estratégias sugeridas para serem empregadas na aplicação dos exercícios; a descrição dessas atividades; os procedimentos a serem adotados; boxes com informações adicionais e/ou explicações complementares para orientar o docente quanto à metodologia de desenvolvimento de um ou mais tópicos. Adotou-se uma estrutura básica de abordagem do tema: um texto motivador inicial, que pode ser um poema, uma letra de música, uma charge, um texto em prosa. A partir desse texto, são promovidas discussões relacionadas ao assunto em questão para, com base no conhecimento prévio da turma, se proceder à resolução das atividades programadas. Os estudantes terão oportunidade de verbalizar ideias, pensamentos, bem como de pesquisar
acerca de algo desconhecido, de trocar informações com o colega e de se manifestar por meio da escrita. Após a execução dos dois módulos, apresenta-se uma sugestão de atividade para a culminância do trabalho desenvolvido, de modo a se observar se houve uma mudança de postura quanto ao reconhecimento das variações linguísticas, quanto ao conceito de “erro”, quanto à minimização de atitudes de preconceito linguístico, e principalmente no que concerne à ampliação lexical.
E, como resultado desse processo, tornou-se possível organizar um glossário com termos recorrentes no lugar de origem do estudante; uma exposição com palavras/expressões indicadas pelos próprios alunos e que representam a diversidade linguística no país; a retextualização39 de uma história em quadrinhos, com o uso de termos/expressões extraídas do glossário já elaborado por eles; uma mostra de termos de origem Tupi-Guarani que passaram a constituir o léxico da Língua Portuguesa; uma pesquisa a respeito de palavras/expressões em desuso e apresentadas em mural na escola; uma produção de poema com o uso de neologismos; uma elaboração de texto que represente uma conversa em ambiente virtual de comunicação, com o uso de termos próprios dessa linguagem; um vocabulário com termos utilizados no ambiente militar de ensino. Além do material impresso, o professor encontrará, ao final deste volume, em anexo, um cd-rom (contendo os arquivos dos vídeos, dos slides em extensão ppt (PowerPoint), dos clipes das músicas utilizados nas oficinas).
Na Oficina 1, intitulada “O Português no e do Brasil”, procura-se, no Módulo 1, sensibilizar o estudante para que ele reconheça as variadas formas de diversidade – inclusive a de aspecto semântico-lexical -, a importância delas para a construção da cultura de um povo. Ainda se espera que haja uma minimização de atitudes de preconceito de qualquer natureza, principalmente o linguístico. Já no Módulo 2, trata-se especificamente da variação linguística como resultante de fatores relacionados ao contexto sociocultural do falante e de aspectos que promovem a constituição do léxico de um idioma.
A Oficina 2, nomeada “Uma língua; vários usos”, basicamente está centrada na origem e na formação da Língua Portuguesa. Faz-se um breve estudo do percurso histórico da língua falada no Brasil, destacando a influência dos povos indígenas nativos, dos africanos escravizados e dos colonizadores das terras na estruturação da cultura, bem como na constituição do léxico do Português brasileiro.
39De acordo com Marcuschi (1999, p.133), a retextualização representa a passagem da fala para a escrita, o qual envolve operações de compreensão do que foi dito por alguém.
Na Oficina 3, denominada “Não há uma língua portuguesa, há línguas em português”, tem-se como foco as variações que acontecem na Língua Portuguesa, os fatores sociais que influenciam o surgimento e o desaparecimento de palavras e de expressões, além dos parâmetros utilizados para a(s) definição(ões) mais recorrentes de “norma”. Com esses subsídios, já será possível promover discussão com a turma acerca do que se considera “certo” e “errado” em relação aos usos da Língua Portuguesa. No Módulo 1, apresentam-se textos produzidos por escritores de diferentes regiões do país, a fim de que os alunos possam comparar os itens lexicais recorrentes desses lugares, conhecê-los e, a partir daí, possam ampliar o próprio acervo lexical; no Módulo 2, pretende-se que o aluno conheça as denominações atribuídas às variações linguísticas, fundamentadas nos estudos Sociolinguísticos, e que ele tenha clareza quanto à necessidade de adequação da fala aos contextos de usos.
Na Oficina 4 - “Palavras vêm; palavras vão” -, procura-se analisar o caráter mutável da língua, cujo reflexo se dá principalmente no léxico. No Módulo 1, expõem-se alguns processos que promovem a incorporação de palavras de outros idiomas bem como a criação de novos termos. No Módulo 2, pela leitura de textos, procura-se levar o aluno a tentar compreender o sentido de palavras estranhas ao seu contexto de uso, recorrendo aos próprios elementos linguísticos ou fazendo consultas ao dicionário, por exemplo. Ainda nessa parte, destina-se um espaço para o reconhecimento das relações semânticas que o aluno possa estabelecer com base no contexto endofórico, antes de partir para as relações com o contexto exofórico.
Na Oficina 5, intitulada “No colégio militar se diz assim...”, com base nas características específicas dessa instituição de ensino e dos termos empregados em situações do cotidiano escolar, visa-se levar os alunos a compilarem esses termos e agrupá-los em um vocabulário.
Para o desenvolvimento das atividades das oficinas, foram previstas 16 horas/aula, assim distribuídas: duas para a Oficina 1; três para a Oficina 2; quatro para a Oficina 3; quatro para a Oficina 4; e três para a Oficina 5. Importa ressaltar que o estudo da variação linguística semântico-lexical faz parte do conteúdo trabalhado no terceiro trimestre do ano letivo de 2016, e as atividades da proposta de intervenção fizeram parte do Plano de Sequência Didática do nono ano.
Reafirmando o que já foi dito, cada oficina foi elaborada em dois módulos. Em cada módulo, encontram-se, também, a indicação dos PowerPoints (registrados no cd em anexo ao caderno de atividades) com a teoria necessária para a fundamentação do conteúdo estudado e
algumas recomendações/orientações – em boxes – para o professor que, eventualmente, possa aplicá-las. Essas oficinas estão compiladas em um Caderno de Atividades para o Professor. Para o aluno, todos os exercícios das cinco oficinas foram organizados em forma de um Caderno de Atividades, apresentados como apêndices desta pesquisa. Como produto pretendido, construído a partir dos dados obtidos na aplicação das oficinas, criou-se um glossário (com palavras/expressões recorrentes dos estados de origem dos alunos) e vocabulário (com termos utilizados no contexto de uma escola militar), ambos publicados sob a forma de livreto. Cada aluno recebeu um exemplar desses dois materiais, entregue durante a formatura solene40, realizada pela companhia do nono ano, na última sexta-feira do mês de novembro.