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A Língua Portuguesa, língua românica de origem latina, tem, desde a sua chegada às terras brasileiras, manifestado a característica da heterogeneidade, intrínseca a todas as línguas. É composta, em sua substância, por itens lexicais provenientes de diferentes lugares, apresentando uma “mistura” resultante dos vários usos existentes, incorporando e assimilando variedades linguísticas, como empréstimos lexicais oriundos de outras línguas faladas pelos povos nativos, apresentando alterações tanto na pronúncia quanto na grafia. Assim, as características linguísticas vão sendo definidas e redefinidas constantemente, devido às suas propriedades de variação e de mudança inerentes (LABOV, 1972). Desse modo, a ampliação do léxico do Português brasileiro se deu ao longo do curso de um processo dialético de transformações sociais, culturais e históricas.

Cabe lembrar que, segundo os pesquisadores Ilari (1997) e Azeredo (2009), a Língua Portuguesa, durante a fase colonial, convivia com o Tupi, com o Guarani e com línguas africanas. Eles apontam que, nos primórdios da história da língua brasileira, chegaram a existir as chamadas “línguas gerais”, forma de comunicação adotada pelos jesuítas no processo de catequização, as quais surgiram da necessidade de adoção de uma variedade que intermediasse o contato com os nativos. Como exemplo de língua geral, destaca-se o nheengatu, da região amazônica, e a língua geral paulista.

Ainda com base nos referidos autores, pode-se dizer que a partir da segunda metade do Século XVII, com a imigração de muitos portugueses para o Brasil, começa a se intensificar o fenômeno da variação, pois várias línguas coexistiam no território brasileiro.

Uma vez que as línguas indígenas não desapareceram totalmente e eram faladas por um grupo de sujeitos, os quais utilizavam o próprio idioma e as línguas gerais, foi inevitável a incorporação de termos indígenas para designar, principalmente, pessoas, animais, seres míticos, vegetais, moradia, topônimos, antropônimos. Assim, conforme Azeredo (2009), passou-se a empregar termos como “caipira”, “jirau”, “arara”, “pitanga”, “Iracema” e “maracanã”, oriundos do tupi e do tupi-guarani e que hoje são constituintes do léxico do Português brasileiro.

De acordo com o autor, os africanos também contribuíram para a constituição do léxico da Língua Portuguesa. Logo que desembarcavam nestas terras, essas pessoas eram separadas, para que não houvesse comunicação, evitando que se rebelassem. Houve um processo de fragmentação linguístico-cultural, pois eles não podiam se unir em agrupamentos por origem étnica, nem por meio da língua, nem por meio da família. Então diferentes línguas africanas estiveram em contato e se espalharam pelas regiões do Brasil, possibilitando que o léxico fosse incorporando-se progressivamente ao Português, visto que os africanos também precisaram aprendê-lo.

Dessa forma, Azeredo (2009) também aponta que a Língua Portuguesa assimilou um grande número de palavras das línguas africanas, tais como “minhoca”, “cachimbo”, “maxixe”, “dengue”, “angu” e tantas outras, oriundas do Quimbundu, do Suaíli e do Iorubá. Uma vez que os negros provieram de diferentes regiões da África, com eles vieram também termos do árabe, falado pelos negros muçulmanos. Como exemplo de lexias de origem árabe incorporadas ao português, pode-se citar “açafrão”, “alazão”, “alambique”.

Mais tarde, já no século XIX, segundo Ilari (1997) e Azeredo (2009), começaram a vir para o Brasil um grande número de italianos, de japoneses, de alemães, de turcos, de espanhóis, todos em busca de trabalho nas lavouras, de uma vida mais promissora. Nas comunidades das quais faziam parte, muitas vezes restritas ao campo, cada grupo de imigrantes falava o próprio idioma. Todavia, eles precisaram aprender a se comunicar no idioma nacional. Havia, então, a convivência de, pelo menos, duas línguas em um mesmo espaço geográfico.

Como exemplo de palavras de origem italiana, pode-se listar “avaria”, “bússola”, “charlatão”; de palavras de origem alemã, citam-se “kombi”, “hamster”, “encrenca”, e até “gás” (do holandês gas). Quanto a palavras de origem oriental, que também transitam no vocabulário brasileiro, encontram-se “ofurô”, “sumô”, “origami”, “tempurá”. Sem contar as inúmeras palavras originárias do inglês que hoje estão incorporadas ao léxico do Português brasileiro, tais como “futebol”, “piquenique”, “blecaute”, dentre muitas outras.

Em decorrência do convívio com línguas estrangeiras, houve o enriquecimento lexical dos falantes, por meio da adoção de termos para designar aspectos relacionados à cultura, principalmente no tocante às atividades do cotidiano. Para Azeredo (2009), surgem, então, muitas lexias usadas para nomear alimentos, objetos, utensílios, instrumentos.

O léxico pode ser definido como o amplo acervo de palavras22 que está à disposição dos

falantes para estabelecerem contato entre si. Segundo Antunes (2012, p. 24), “O léxico deve ser visto como elemento de composição do texto, em suas funções de criar e de sinalizar a expressão dos sentidos e das intenções, os nexos de coesão, as pistas de coerência”.

O Português do Brasil resulta de um processo histórico, com as influências dos povos que aqui vieram morar e que trouxeram contribuições para o conjunto de lexias, as quais são escolhidas e empregadas de diferentes formas em diferentes contextos. Nesse processo de interação social, palavras desaparecem, enquanto outras são criadas, em função de variáveis como crenças, valores, cultura, características sociais, gênero, faixa etária. Ou seja, o léxico está em constante movimento: renovou-se, adaptou-se, ampliou-se.

A constituição do léxico do Português do Brasil foi um processo que ocorreu por meio de fenômenos de nomeação do universo referencial. Na opinião de Ilari e Basso (2007, p.135), esse processo se deu com a utilização de quatro grandes conjuntos de palavras e de expressões. Para esses autores, basicamente

[...] podemos distinguir, no léxico do português do Brasil quatro grandes conjuntos de palavras e de expressões: a) as que remontam ao latim vulgar, como resultado do seu desenvolvimento fonético; b) os empréstimos recebidos das línguas com que o português teve contato; c) palavras eruditas, tiradas diretamente do latim e do grego clássicos; d) as criações vernáculas, isto é, palavras criadas no interior da própria língua com base em palavras preexistentes.

Em relação ao primeiro e ao terceiro conjunto, não será feita uma abordagem mais aprofundada, pois eles estão diretamente atrelados à origem da Língua Portuguesa e não estão necessariamente vinculados à temática desta dissertação.

Por outro lado, entendendo que o segundo e o quarto conjunto estão efetivamente relacionados às variações linguísticas, focalizar-se-ão apenas esses dois conjuntos, que são os empréstimos e as criações vernáculas, elementos constituintes da Neologia. Para Azeredo (2009), a Neologia é “o surgimento de novas lexias, as quais vão sendo incorporadas ao léxico”, “processo de renovação lexical de uma língua”, “fenômeno atribuído às formas de acepções criadas ou absorvidas pelo seu léxico” (AZEREDO, 2009, p. 399). Ressalva-se, ainda segundo o autor, que a duração de um neologismo é determinada pelo tempo de uso feito pela comunidade na qual ele veicula.

Quanto ao segundo conjunto, os empréstimos, estes podem ser classificados, de acordo com Azeredo (2009, p. 401), como (i) xenismos (estrangeirismos): quando a palavra mantém 22Para os linguistas, não há uma definição precisa para “palavra”, que, segundo Biderman (1999, p. 83), “[...] seria uma sequência fônica que constitui uma emissão completa e após a qual a pausa seria possível”.

a grafia original, por exemplo, show, pen-drive, selfie; (ii) adaptações: processos de “aportuguesamento”, adotando-se a grafia da língua que assimilou as novas palavras/expressões, como se pode perceber em “basquete”, “clicar”, “hambúrguer”; (iii) decalques: traduções literais da palavra de língua estrangeira, tais como “arranha-céu”, “cachorro-quente”, “jardim de infância”; (iv) siglas: surgem da utilização das iniciais das palavras que constituem o estrangeirismo, tais como “GPS” (Global Positioning System) e “DNA” (Deoxyribo Nucleic Acid); (iv) acrônimos: surgem da leitura silábica das letras iniciais das palavras que constituem o estrangeirismo, tais como Aids (Acquired Immune Deficiency Syndrome) e Ipod (International Patent Organism Depositary).

Quanto ao quarto conjunto, correspondente às criações vernáculas, Azeredo (2009, p. 400-401), destaca que elas podem ser (i) formais (morfológicas) – uma vez que se faz uso dos processos de formação de palavras próprios do idioma, como a prefixação, a sufixação, a composição, a ser observado, por exemplo, em “sambódromo”, “bota-fora”; ou (ii) semânticas – a palavra adquire novo sentido conforme o contexto, o que se verifica em “jacaré” (pessoa que assalta os companheiros de cela) e em “pardal” (radar eletrônico de trânsito).

Outra forma bastante recorrente de criar palavras é a corruptela. Trata-se de uma espécie de deformação da grafia original do item lexical, o que pode ter sido causada pela má compreensão, seja pela audição, seja pela rápida visualização. Então surge uma nova materialização e a posterior reprodução, resultante de um lento e gradual processo de transformação. Essa modificação pode acontecer na pronúncia, na grafia e até mesmo na semântica. Às vezes, o emprego de outro modo de se expressar se justifica em razão de se preferir um eufemismo ao uso de uma expressão de valor negativo ou a uma de baixo calão, como acontece com a palavra “putz”.

Entende-se que, de fato, a língua passa por constante renovação. No entanto, nem sempre é possível precisar quem ou quando algumas palavras foram “inventadas”. Da mesma maneira, não se encontra a explicação do por que elas deixam de ser utilizadas. Apesar disso, pode-se encontrar essa origem explicada por histórias modificadas pela ação do tempo. Para exemplificar esse caso, considere-se, como exemplo, o dito popular “cor de burro quando foge”, que, segundo registros da cultura popular, é uma variante da frase “corra do burro quando ele foge”. Em nível de palavras, um dos casos mais recorrentes é o de “estambo” (estômago).

E como já se tem reafirmado tantas vezes, inclusive ao longo deste trabalho, o caráter de heterogeneidade da língua e da alta frequência com que ocorrem renovações no léxico, não

se pode deixar de considerar o surgimento do “internetês”, uma linguagem criada com o propósito de agilizar as conversas produzidas no meio virtual. Ela compreende uma maneira bem peculiar se se tentar reproduzirem, pela escrita, as marcas típicas da oralidade de um sujeito, tais como a expressão fisionômica, as reações emocionais, a entonação. Para isso, foi criado um sistema próprio de símbolos e de sinais diacríticos por meio dos quais o falante tenta dar conta de se fazer entender pelo outro. À primeira vista, parece um monte de desenhos e de traços aleatórios, mas há uma lógica ordenada nesse conjunto de elementos que estão à disposição do falante que promove interação social por meio de conversas via computador.

Se, por um lado, as características desse sistema organizado de troca de informações levam ao errôneo entendimento de que se trata de uma linguagem sem normatização, desorganizada, sem uma estrutura típica, por outro, pode-se observar que, por meio dele, o contato, a conversação, a troca de informações proporciona uma interação cada vez mais frequente, que flui com grande eficiência comunicativa.

Para Soares (2002, s/p), a tela, dir-se-iam as telas (de diferentes aparelhos) que permitem o acesso aos ambientes digitais são “um novo suporte para a leitura e escrita; um novo espaço de escrita” que “traz[em] mudanças significativas nas formas de interação entre escritor e leitor, entre escritor e texto, entre leitor e texto e até mesmo entre o ser humano e o conhecimento”.

Com base nessa resumida descrição da constituição do léxico do Português brasileiro, foi possível delinear, em linhas gerais, a ideia de que a heterogeneidade presente nas manifestações linguísticas é parte constituinte do processo de formação de qualquer língua. Considera-se o caráter da variação linguística, principalmente no que se refere ao conjunto de palavras e de expressões que formam o léxico. Não há, portanto, como negar a existência do multilinguismo no Brasil, visto que as influências na Língua Portuguesa foram e ainda são bastante significativas.