Já se constatou que a língua sofre, ao longo do tempo, mudanças causadas por fatores, que operam em conjunto, uma vez que ela está em uso e integrada ao cotidiano dos que a falam. As variações linguísticas estão presentes no convívio diário e cotidiano das pessoas e os diversos modos de falar, de usar a língua, são igualmente eficientes nas interações sociais em que esses sujeitos se envolvem. Essas variações são ocorrências naturais em uma língua, próprias da natureza dela, resultantes da multiplicidade de ambientes sociais e estão presentes em nosso convívio com os semelhantes. Em relação a esse assunto, Bagno (2007) diz que
[...] a variação e a mudança linguística é que são o ‘estado natural’ das línguas, o seu jeito próprio de ser. Se a língua é falada por seres humanos que vivem em sociedades, se esses seres humanos e essas sociedades são sempre, em qualquer lugar e em qualquer época, heterogêneos, diversificados, instáveis, sujeitos a conflitos e a transformações, o estranho, o paradoxal, o impensável seria justamente que as línguas permanecessem estáveis e homogêneas [...]. A língua, já se constatou, só tem existência em sociedade, quando é utilizada pelos falantes nos diversos contextos sociais dos quais faz parte, pois, se uma forma não é usada, ela tende a desaparecer. Quando uma forma está em uso frequente, a variação surge inevitavelmente. Não há como refreá-la ou impedir que ela aconteça. Seria o mesmo que podar os galhos de uma árvore, na tentativa de impedir que eles se expandam. E, uma vez que o indivíduo participa de situações sociais diferentes – igreja, família, amigos, escola -, vão surgir padrões de usos. Ou seja, a língua é um fato social, situado em um tempo e em um espaço concretos, com funções definidas (Antunes, 2007, p. 104).
A tão propagada uniformidade do Português brasileiro não passa de um mito, pois a adaptação dos falantes aos diferentes contextos constitui um processo natural. Essas manifestações são nomeadas, pelos estudiosos da área da Sociolinguística, como variações. Elas podem ser diacrônica, diatópica, diastrática, diamésica, diafásica.
De acordo com Ilari e Basso (2007), toda a sociedade evolui com o passar do tempo, em virtude de eventos históricos e de mudanças culturais e sociais. Esse fator se estende à língua, refletindo-se nas construções gramaticais, na fonologia, na morfologia e, em especial, no léxico. Essa variação diacrônica pode ser percebida ao se compararem falas de pessoas de gerações distintas, observando as gírias, por exemplo. Nesse processo de mudança, ocorrem dois fenômenos bastante comuns: o da gramaticalização e o da lexicalização.
O primeiro se caracteriza por ser um processo de mudança linguística que altera o valor semântico de uma palavra ou de uma expressão, no sentido de o seu significado lexical perder importância em relação ao seu significado gramatical. É o que aconteceu, a saber, com
o atual advérbio de concessão “embora”. Conforme atesta Teyssier (2004, p.85-86), essa atual grafia é uma evolução da saudação “(vai-te) em boa hora”, usada para se desejar boa sorte a alguém que estivesse partindo para algum lugar. O segundo se origina na mudança do valor morfológico de uma palavra ou de uma expressão, tal qual pode ser atestado com o uso de “os entretantos”, em que a conjunção coordenativa adversativa passou a ser empregada como um substantivo. Essas situações comprovam que a língua passa por muitas inovações, ocorridas com o passar do tempo, fazendo com que surjam novas palavras e que outras deixem de ser usadas.
A variação diatópica se caracteriza por apresentar diferenças encontradas na mesma língua dentro de um determinado espaço geográfico. Isso pode acontecer, por exemplo, entre países que adotam uma mesma língua oficial e entre as regiões de um país, como é o caso do Brasil. Essas alterações podem ser percebidas na pronúncia de alguns sons, na preferência por certas estruturas gramaticais, no emprego de determinados itens lexicais. Cita-se, para exemplificar, o uso de “grossista” no Português europeu para nomear o que, no Português brasileiro, se denomina de “atacadista”; na região Sul, emprega-se o vocábulo “negrinho” para se referir ao doce conhecido como “brigadeiro” em outras regiões.
Por variação diastrática, entende-se a diferença no modo de falar entre os grupos sociais escolarizados e os menos (ou não) escolarizados (ILARI; BASSO, 2009). Ela está bem marcada pela fonética, quando ocorre monotongação de ditongos crescentes em posição final (sustança em vez de substância), mas se manifesta também na morfologia e na sintaxe.
Para se referir às mudanças a que a língua está sujeita conforme os meios de comunicação ou meios de expressão em que é utilizada, usa-se a denominação de variação diamésica. Essas diferenças podem ser observadas, especificamente, entre o uso da língua na modalidade falada e na modalidade escrita.
Bagno (2007) descreve a variação diafásica como aquela que trata do uso que cada indivíduo faz da língua, levando-se em consideração o grau de monitoramento que ele atribui à adequação da linguagem a cada contexto. Essa é uma variação de estilo, que depende dos interlocutores, da classe social, do gênero, da idade. Até mesmo em um grupo homogêneo, de uma mesma época e de uma região, sendo todos os indivíduos do mesmo nível social, pode ocorrer variação.
Ainda tendo como base as ideias desse autor, é possível constatar que cada variação linguística se distingue uma da outra e a melhor maneira de se trabalhar esse assunto na escola é apresentar ao estudante como se processam essas mudanças. Cunha (1994, p.79) alega que as mudanças que ocorrem na língua são contínuas, porquanto ela é a expressão da vida. Ele diz que
escola, a finalidade básica deve ser a promoção do letramento do estudante, de modo que ele consiga transitar por vários ambientes, com a habilidade necessária para entender o outro e se fazer entender. É importante o aluno conhecer os tipos de variações, o contexto em que elas são e podem ser utilizadas, o que não prejudica o sistema linguístico. Acredita-se que, se são criadas oportunidades para que o aluno tenha essa concepção, a escola terá cumprido a sua missão, qual seja ela a de preparar esse estudante para ser atuante na sociedade da qual faz parte, de forma consciente e crítica.
Nenhuma língua permanece uniforme em todo o seu domínio, e ainda num só local apresenta um sem-número de diferenciações de maior ou menor amplitude. Porém, essas variedades de ordem geográfica, de ordem social, e até individual – pois cada indivíduo tem o seu idioleto, como hoje se diz, isto é, procura utilizar o sistema idiomático da forma que melhor lhe exprime o gosto e o pensamento não prejudicam a unidade superior da língua nem influem na consciência que têm os que a falam diversamente de se servirem de um mesmo instrumento de comunicação, de manifestação e de emoção. A variação linguística é um fato, faz parte da identidade de uma pessoa. Por isso, na
4 LÉXICO
Neste capítulo, apresenta-se a definição de léxico e de Lexicologia. Além disso, são mostradas as diferenças entre palavra, vocábulo, lexia, para fundamentar a elaboração do glossário e do vocabulário21, dois produtos finais desta pesquisa.
Pode-se entender o léxico de uma língua como o conjunto de unidades significativas - as palavras -, as quais, por seu turno, estão submetidas às regras estruturais e gramaticais que regem essa língua. Portanto, o léxico e a gramática representam os mecanismos fundamentais para que aconteça a produção das mensagens elaboradas pelo falante e a compreensão delas por parte do interlocutor (Rey-Debove, 1984, p. 45-69). Dessa maneira, um indivíduo, no processo de aquisição de uma língua natural, passa a incorporar tanto o léxico quanto o sistema de normas.
Por meio de pesquisas desenvolvidas na área da Geolinguística, além das pesquisas de variação diatópica com frequente interesse na identificação da norma, tem-se demonstrado uma preocupação em investigar as variáveis sociais que interferem nos atos linguísticos (Cristianini, 2012, p. 22). A Geolinguística incumbe-se de pesquisas relacionadas a diversos aspectos da língua, quais sejam eles de caráter fonético-fonológico, morfossintático, semântico-lexical, pragmático, entre outros.
Neste trabalho, buscaram-se fundamentos também nos estudos da Geolinguística e da Sociogeolinguística. Para Cristianini (2012), a palavra vista como elemento central das sentenças elaboradas para a manifestação de uma ideia ou de um pensamento e que, desvinculada de um contexto, ela não adquire significação, a escolha de itens lexicais por um falante está diretamente vinculada à visão que o sujeito-falante tem do mundo, às suas vivências, às suas experiências. De acordo com a referida autora,
[...] é no léxico de uma língua que primeiramente encontramos o repositório do saber linguístico de uma comunidade, a configuração da realidade extralinguística e a representação da imagem vista pelo sujeito de si mesmo, bem como do mundo que o abriga.
Ainda com base nas constatações de Cristianini (2012, p. 22), certifica-se que é por meio do acervo de itens lexicais de uma comunidade que se podem identificar as características desse grupo de indivíduos, uma vez que se tornam evidentes as crenças, os valores, as ideologias, os costumes praticados por essas pessoas, bem como se pode traçar um
21 Julga-se importante e necessário informar que não se pretendeu elaborar o Glossário e o Vocabulário conforme a regulamentação da Lexicografia, mas apenas compilar os dados obtidos nessa pesquisa em um volume.
panorama da evolução histórica – incluídas as transformações culturais, sociais, políticas por que passaram ao longo dos anos.
Essa teoria encontra respaldo em Santos (2012, p. 37), quando ela observa que em sua atividade discursiva, a todo instante, os sujeitos se servem da língua para transmitir e reiterar significações e informações. A inclusão a um dado grupo pode ser notada quando se observa que, no discurso, os sujeitos expressam sentimentos, crenças e valores que não são exclusivamente seus, mas do grupo social a que pertencem.
Em Soares e Cavalcante (2012, p. 52), encontra-se fundamento para o fato de que é a relação de um item lexical com o ambiente exterior que leva o falante a reconhecê-lo, a identificá-lo e, a partir de então, utilizá-lo em variados contextos. Dessa forma, começa-se a perceber a existência de um mesmo item lexical com acepções diferentes em lugares diferentes, assim como o emprego de diferentes itens para nomear um mesmo ser. É importante e fundamental saber que esse item possui uma história, um contexto de formação, um propósito comunicativo, uma intencionalidade implícita, de responsabilidade do falante.
Sendo assim, a Lexicologia
estuda as diversas relações do léxico com outros sistemas da língua e, principalmente, as relações internas do próprio léxico. Essa ciência abrange diversos domínios como a formação de palavras, a etimologia, a criação e a importação de palavras, a estatística lexical, relacionando-se necessariamente com a fonologia, com a sintaxe e, em particular, com a semântica. (ABBADE, A lexicologia e a teoria dos campos lexicais. Anais do XV Congresso Nacional de Linguística e Filologia. 2011, p. 1332)
Nesse campo de estudos, depara-se com uma questão problemática: a distinção entre lexia, palavra e vocábulo. Pottier (1979) estabelece que a lexia é uma unidade memorizada; o vocábulo é a lexia em estado de dicionário e a palavra, a ocorrência em um texto.
Na linguística tradicional, a palavra é um elemento linguístico significativo composto por um ou mais fonemas. Essa sequência é suscetível de uma transcrição escrita compreendida entre dois espaços em branco; ela conserva sua forma, total ou parcialmente, em seus diversos empregos sintagmáticos; a palavra denota objeto (substantivo), uma ação ou em estado (verbo), uma qualidade (adjetivo).
O conceito de palavra, conforme Biderman (1999, p.81), é problema complexo em Linguística, não sendo possível defini-la de modo universal. Segundo ela, “O termo palavra é operacional apenas como elemento da linguagem comum. Num uso específico, é a designação pertinente, já que qualquer falante do idioma identifica o seu designatum sem problemas”.
Já a lexia, de acordo com Pottier, é a unidade de comportamento léxico. Ela se opõe à morfema (menor signo linguístico) e à palavra (unidade mínima construída). Portanto, é a
unidade funcional significativa do discurso. A lexia simples pode ser uma palavra; a lexia composta pode conter várias palavras em vias de integração ou integradas; a lexia complexa é uma sequência estereotipada.
Tendo como ponto de partida a tricotomia norma/sistema/fala proposta por Coseriu (1979), pode-se dizer que a lexia é tida como unidade léxica no nível do sistema; que o vocábulo é a unidade léxica no nível da norma e que a palavra é cada uma das ocorrências da lexia/vocábulo em um texto. Com base nesses estudos, Barbosa (2001, p. 39) chegou à conclusão de que os dicionários de língua se encaixariam no nível do sistema, trabalhando com todo o léxico disponível e se manifestando por meio das lexias; os vocabulários estariam relacionados à norma e trabalhariam com conjuntos, manifestando-se por meio dos vocábulos ou dos termos; já os glossários se encontrariam no nível da fala e trabalhariam com os conjuntos, manifestando-se pelas palavras. Essas definições podem ser observadas no quadro abaixo, organizado por FROMM (2004).
Quadro 4: Dicionário, vocabulário e glossário.
Dicionário Vocabulário Glossário
Nível do sistema. Nível da norma. Nível da fala. Trabalha todo o léxico
disponível e o virtual.
Trabalha com conjuntos manifestados dentro de uma área de especialidade.
Trabalha com conjuntos manifestados em um determinado texto.
Unidade: lexema (significado abrangente; frequência regular).
Unidade: vocábulos/termos (significado restrito; alta frequência).
Unidade: palavras
(significado específico; única aparição).
Apresenta (teoricamente) todas as acepções de um mesmo verbete.
Apresenta todas as acepções de um verbete dentro de uma área de especialidade.
Apresenta uma única acepção do verbete (dentro de um contexto determinado). Perspectivas: diacrônica, diatópica, diafásica e diastrática. Perspectivas: sincrônica e sinfásica. Perspectivas: sincrônica, sintópica, sinstrática e sinfásica. Fonte: FROMM (2004).
Na próxima seção, será apresentado um breve histórico da formação da Língua Portuguesa e das características do idioma falado no Brasil. Além disso, serão descritos alguns processos por meio dos quais são criadas as palavras que estão à disposição do falante.