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Del I Historien

9.3 Norsk fredsdiplomati

9.3.4 Quetta-sporet

Jacob Pick Bittencourt, carioca nascido em 1918, tem um papel importantíssimo e incontestável na história do choro. Por suas composições, arranjos e estilo de interpretação, Jacob ganhou grande reconhecimento, tanto na música brasileira em geral como na história de seu instrumento, maior que qualquer outro bandolinista atuante no século passado. Suas composições são gravadas corriqueiramente por diversos intérpretes até os dias de hoje e são tocadas nas rodas de choro pelo Brasil e mundo afora. Diversos álbuns com suas músicas foram produzidos enquanto vivo e em sua memória, depois de falecido.

O bandolinista contribuiu para a construção estilística do gênero em diversos aspectos. O primeiro foi o composicional. Seus choros ajudaram a conceber a estética de composição do choro. Suas músicas trazem a bagagem da linguagem genuína do gênero e inspiraram diversos compositores que vieram posteriormente. Diversos de seus choros marcaram a história da música brasileira. Suas músicas são uma aula de composição e de como funciona o gênero choro, melódica, harmônica e ritmicamente falando, também em aspectos formais, de trabalho de conjunto, de expressividade e tantas outras coisas. Além disso, contribuiu com a forma de arranjar o choro e de pensar o trabalho de um regional, com a forma muito expressiva de tocar (que acabou por ser tornar uma forma estética interpretativa do gênero, por conta dele e de outros grandes chorões) e com tantas outras coisas. A convivência próxima com grandes músicos como Pixinguinha, Radamés Gnattalli e Dino 7 Cordas com certeza colaboraram muito para o desenvolvimento da musicalidade de Jacob. Seu repertório era imenso - além de possuir mais de uma centena de composições, gravou diversos clássicos que se consagraram em sua interpretação. Músicas de Pixinguinha, Radamés Gnattali, Ernesto Nazareth, Joaquim Callado, Noel Rosa, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque e Luís Americano, entre outros compositores. Seus CDs são objetos de estudo da grande maioria dos bandolinistas, e de diversos chorões. Entre estes CDs, está o Vibrações, seu álbum de mais representatividade, gravado com o Conjunto Época de Ouro em 1967, que será abordado mais à frente na pesquisa. Côrtes (2006, p. 1) afirma:

“Jacob Pick Bittencourt (1918-1969) foi uma das personalidades mais influentes no desenvolvimento do choro. Além do seu legado enquanto pesquisador, confirmado através de seu arquivo pessoal, e de sua contribuição na condição de compositor, deixando peças hoje essenciais no repertório chorístico, Jacob teve um papel importante como

intérprete, demonstrando através de suas releituras, características peculiares, onde destacamos a sonoridade e a expressão musical”.

Uma marca registrada de Jacob era sua meticulosidade. A interpretação impecável, a sonoridade limpa, a expressividade, sua sensibilidade, a ornamentação riquíssima e a complexidade e exatidão do conjunto que o acompanhava, sempre guiado por ele, com todo seu perfeccionismo, formaram sua identidade. Essas suas características refletiam em suas composições, consideradas parte do repertório mais bonito do choro. Para Moura (2011, p. 16), “o estilo de Jacob seria decisivo para a consolidação da prática do bandolim brasileiro.” Henrique Cazes (1998, p. 103), em seu livro do quintal ao Municipal, assim se referiu: “Jacob deu personalidade própria ao bandolim no que se refere à forma de tocar.” Jacob do Bandolim, por esse e por outros motivos, é importantíssimo na vida dos bandolinistas brasileiros. Na minha carreira não foi diferente.

Para esta pesquisa, é importante citar este trecho de seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em fevereiro de 1967:

“(...) há o chorão distante, que eu repudio, que é aquele que bota papel pra tocar choro e deixa de ter, perde a sua característica principal que é a da improvisação, e há o chorão autêntico, verdadeiro, aquele que pode decorrer a música pelo papel e depois dar-lhe o colorido que bem entender, este, me parece o verdadeiro, o autêntico, o honesto chorão”.

No mesmo depoimento, ainda sobre improvisação, Jacob fala, ainda:

“Bom, eu improviso quando interpreto, mas improviso não com o desejo de improvisar, mas sim, de aumentar a gama, aumentar a faixa do sentimento daquilo que ele compôs, porque eu não estou absolutamente vinculado àquilo que o compositor fez e eu não sou obrigado a reproduzir exatamente igual. Posso reproduzir da maneira que me apraz, como um pintor que reproduz um quadro da natureza que se apresenta a todos de uma forma e ele interpreta de outra. Então não é o desejo de improvisar, de ser original, é de encontrar dentro dessas frases uma riqueza tal que me dá capacidade, ela que me dá capacidade, essa capacidade não é minha, é que a composição é tão bem feita, é tão sutil, é tão requintada em todos seus detalhes, que me dá possibilidades inúmeras, como o caso do Lamentos, quantos arranjos diferentes você ouviu do Lamentos? hã? Você já ouviu “N” arranjos e ainda ouvirá muito mais, porque a riqueza do Lamentos permite isso. Então você tem de onde extrair, você tem essência, você tem gabarito, você tem alicerce de onde, onde se agarrar, onde fazer alguma coisa, agora quando a coisa é vazia você não faz nada.”

Lamentos, acima citado, é um clássico do choro, de autoria do mestre Pixinguinha. O

arranjo e a interpretação de Jacob, citados anteriormente nesta pesquisa, marcaram a história da música brasileira e são reproduzidos até hoje por diversos grupos de choro, em rodas no mundo inteiro. Assim como Lamentos, tantas outras interpretações (e seus arranjos) de Jacob foram imortalizadas. Sá (1999, p. 147 e 148) coloca que “Jacob tornou-se modelo para muitos bandolinistas brasileiros que o sucederam e continua influenciando novas gerações através de seus discos”.

Sève (2016), discorre sobre o assunto, ao dizer que Jacob, ao reler choros antigos, reinventou as melodias de forma que a interpretação passou a integrar tais peças até hoje. Ele diz:

“Jacob do Bandolim chegou mesmo a estabelecer novas tonalidades para a execução de choros de diferentes autores, como de obras de Ernesto Nazareth e Luiz Americano. Peças desses e de outros compositores costumam ser executadas por conjuntos regionais com as variações melódicas e harmônicas gravadas por Jacob. São inúmeros exemplos como Brejeiro, de Nazareth, É do que há, Assim mesmo e Numa seresta, de Luiz Americano, Murmurando, de Fon-Fon, Tira poeira, de Sátiro Bilhar, Flamengo, de Bonfiglio de Oliveira etc” (p. 10).

Jacob, além de músico, era escrivão. Mas isso não fazia com que ele deixasse de lado sua dedicação ao ofício de músico. Além de compor, arranjar e tocar como ninguém, o bandolinista era um grande pesquisador, como já citado anteriormente. “Seu estúdio (chamava- o de escritório) era sua extensão, um espaço onde se exercia como rigoroso e disciplinado pesquisador, a zelar por fotos, partituras, por tudo que dissesse respeito à música que ele amava – e o amava, sem qualquer sombra de dúvida, numa reciprocidade furiosamente lúdica, quase sensual”6. Como disse o próprio Jacob, o arquivo era a sua vida. Nele ele passava os dias e as madrugadas datilografando suas fichas - das quais ele próprio projetou os campos de acordo com os espaços da máquina de escrever - onde catalogava suas quase 6.000 partituras, registrava suas fotos e gravava centenas de programas de rádio, discos e saraus em seus gravadores, constituindo o maior arquivo conhecido do gênero choro”7.

Moura (2011) e Côrtes (2006) falam sobre a proximidade de Jacob com a música portuguesa, resultando na sonoridade do seu bandolim, nas suas escolhas interpretativas e inclusive no formato de seu instrumento.

6 Hermínio Bello de Carvalho, texto extraído do site do instituto Jacob do Bandolim -

http://www.jacobdobandolim.com.br/

Côrtes (2006. p. 31), em uma comparação com o bandolinista Luperce Miranda, diz que o fator que destacava Jacob era “a expressão – Jacob tinha uma preocupação maior com elementos que contribuíssem para ressaltar a expressão de cada frase, era mais minucioso, possuía uma preocupação maior com valores estéticos (...) e conseguiu melhor timbre em suas gravações”.