• No results found

Neste dia, R se oferece para sinalizar o texto primeiramente assim que percebe que a professora se levantou de sua mesa e foi em direção ao quadro. Antes de deixar que o aluno sinalize o texto, a professora pergunta os alunos o que seriam as palavras

biografia e Cecília Meireles. Pergunta aos alunos se leram e se está tudo bem, então R

se oferece novamente para sinalizar o texto. Ela confirma com o aluno se ele realmente tinha lido e ratifica sua participação. A professora sempre pergunta aos alunos se leram o texto, considerando essa tarefa como uma atividade preparatória para participar do restante da aula. Inicialmente, a professora diz ao aluno para que ele “explique” o texto. As interações ocorridas nesse momento foram transcritas no quadro 27, apresentado abaixo.

Como se pode observar nas linhas de 1 a 6 no quadro, inicialmente, a professora faz um breve reconhecimento de vocabulário do título com os alunos. Excepcionalmente neste dia, a professora havia dado no “para casa” a consulta de duas palavras, antes da leitura, que ocorreriam no texto. Segue o “para casa”:

Para Casa

1) Procure no dicionário o significado das palavras: a) biografia b) bibliografia c) biblioteca 2) Escreva frases com as palavras:

a) montanhas b) passeei c) animal d) poesia

Como se vê na questão nº 1 do “para casa”, os alunos haviam consultado no dicionário as palavras “biografia” e “biblioteca” e, antes da leitura do texto, o grupo havia corrigido o “para casa”. Logo, antes de a palavra “biografia” aparecer no texto lido, o grupo já conhecia seu significado. A professora parece apenas verificar com os alunos a compreensão dessa palavra e do nome “Cecília Meireles”.

Em seguida, confirma com os alunos se leram e compreenderam o texto (linha 7) e aceita que R o sinalize, chamando-o para “explicar” o texto (linha 8). Até este dia, a professora, ao chamar os alunos para sinalizar o texto à frente, ainda não havia usado o sinal “EXPLICAR”, sendo que R parece ficar em dúvida sobre a forma como deve sinalizar o texto. R então inicia mostrando no quadro o nome de Cecília e sinaliza que esse era seu nome.

QUADRO 27

Sinalizando a biografia para a turma

L

in

h

a Texto Professora Alunos Observações

1 [A professora aponta para a palavra] <O-QUE>?

A professora pergunta o que seria a palavra “biografia”. Desta vez, não pergunta o sinal, mas o significado da palavra.

2 R – VIDA PESSOA ACONTECER (sinal incompreensível) R responde que seria o que aconteceu na vida de uma pessoa.

3

Biografia

[balança a cabeça afirmativamente] VIDA PESSOA NOME VIDA PESSOA

A professora confirma a resposta de R e explica a palavra dizendo que seria a vida de uma pessoa. Ao acrescentar o sinal NOME não fica claro se ela estava querendo dizer “NOME” no sentido de vocábulo em LP, já que alguns surdos usam o sinal “NOME” nesse sentido.

4 [aponta o nome Cecília] POESIA

5 D – MULHER [sobrepondo-se à fala da prof.] D reconhece que a expressão era o nome da mulher

6

Cecília Meireles

JÓIA MULHER POESIA JÓIA

A professora confirma a resposta de D e acrescenta a palavra poesia, provavelmente querendo indicar que Cecília era poetisa. 7 LER JÓIA [Imediatamente R levanta o dedo em indicação à prof. de que

quer apresentar o texto.]

A professora confirma com os alunos se leram o texto e se compreenderam, e R se oferece para sinalizar.

8 JÁ? VIR [em direção ao

quadro] EXPLICAR [R se levanta indo em direção ao quadro.]

A professora informa ao aluno o que ele deve fazer. Ele deve “explicar” o texto.

9 Biografia – Cecília Meireles

C MULHER NOME [aponta o quadro e olha para a professora] C VIDA DEL@ [em direção ao quadro] ACONTECER

Parece fazer uma introdução ao texto. Apresenta a preocupação de informar à turma que as palavras Cecília Meireles referiam-se ao nome da mulher. E ainda diz que vai falar

da vida dela. Dessa forma, ele lê o título para seus colegas.

10

JÓIA [e levanta a mão num gesto indicativo de que não iria interferir.]

A professora indica ao aluno que pode sinalizar utilizando o quadro.

11 Cecília Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro. Sua poesia é conhecida no Brasil e em outros países. Ela morreu em 1964.

C-E-C-I-L-I-A M-E-I-E-L NASCER SETE NOVEMBRO LÁ RIO-DE-JANEIRO [hesitação seguida de sinal

incompreensível] <BOM CONHECER POESIA>! [hesitação] BRASIL PAÍS OUTRO CONHECER BOM EL@ MORRER UM NOVE SEIS QUATRO (sinal incompreensível,

possivelmente para Chile) <CERTO>? [em direção à prof.] C- H-I-L-E

- Como não está lendo o texto (está sinalizando de costas para o quadro), não indica o ano do nascimento.

- Associa ao sinal relativo a “CONHECER” o sinal “BOM”, o que não fica claro em sua sinalização.

- Confere com a professora sobre o sinal que utilizaria para “Chile”, sendo que não é o mesmo que a professora utiliza.

12 CHILE A prof. então oferece a R o sinal que utiliza

para referir-se a “Chile”.

13

Neste ano foi inaugurado na cidade de Valparaíso, no Chile, a biblioteca com seu nome: Biblioteca Cecília Meireles.

Também no Rio de Janeiro tem uma sala de espetáculos com seu nome. Ela escreveu uma poesia muito famosa: “Ou Isto ou aquilo”.

CHILE LÁ CIDADE V-E-L-P-I [faz um gesto indicando impaciência e vira-se, procura a palavra no quadro, aponta e olhando, faz em datilologia] V-A-L-P-A-R-A-I-S-O [começa a fazer o sinal de Chile que estava usando] CIDADE LÁ MORRER COLOCAR BIBLIOTECA COLOCAR NOME C- C-L-A NOME MULHER COLOCAR INVENTAR ESCREVER O-U I-S-T-O O-U A-Q-U-I-L-O MUITO FAMOSO [aponta o quadro]

[R retorna à carteira.]

- Ele se apropria do sinal oferecido pela professora e continua sua sinalização.

- Demonstra não ter decorado o nome da cidade e vira-se para ler no quadro (o que é aceito pelo grupo).

- Usa o sinal COLOCAR para indicar o nome

da biblioteca.

- Substitui a datilologia do nome Cecília pela explicação NOME MULHER

- Suprime a informação sobre o fato de no Rio haver também uma sala com o nome da autora. - Não informa que Ou Isto ou Aquilo é um poema.

14

<JÓIA>! [acena chamando R] <CONFUSO POUQUINHO CONFUSO POUQUINHO>!

A professora elogia a sinalização de R, mas informa que em alguns pontos ficou um pouco confusa.

Ao utilizar o quadro, R olha para a professora buscando aprovação sobre essa forma de sinalizar, então a professora responde que está tudo bem e que não vai interferir (linha 10). Na verdade, o aluno confirmava se tinha que sinalizar independente do quadro (contando apenas com sua memória, como em outros eventos) ou se poderia usá-lo como referência e consultá-lo, o que é aprovado pela professora.

No processo de construção das práticas de leitura no grupo e de seus significados, é importante observar com os participantes nomeiam essas práticas, como eles se referem aos textos, à forma de ler esses textos, etc., a fim de interpretar os significados dessas práticas pelo grupo. No caso da “tarefa” de sinalizar o texto à frente, a professora a nomeia como “explicar”, diferentemente de aulas anteriores. Observa-se também, nesse caso que, apesar de o grupo construir padrões relativos à aula de leitura – por exemplo, geralmente os alunos sinalizam o texto à frente para o grupo com a ratificação da professora – esses padrões são reconstruídos ao longo da história do grupo. Bloome (1986 apud CASTANHEIRA, GREEN, DIXON, 2007) aponta que o letramento não é estático, monolítico. Os membros do grupo, apesar de compartilharem enquadres sobre os usos da leitura e da escrita, a partir do momento em que se reúnem e interagem, estabelecem um contexto comunicativo compartilhado e podem redefinir formas de se engajar na leitura e na escrita de textos, reconstruindo a definição local de letramento. Daí a importância de considerarmos a análise dos eventos interacionais observando-se como a situação específica é definida pelos membros da sala de aula, como concebem a leitura num determinado evento, a partir de padrões já construídos, observando a história do grupo.

Procuro analisar então, em algumas aulas anteriores, como os participantes negociaram o uso da Libras nesse tipo de atividade, considerando-se, como Bloome e Bailey (1992) destacam, a historicidade dos eventos e como essa historicidade está relacionada à construção dos significados pelo grupo. Na aula do dia 16/02, por exemplo, a professora chamou T à frente e pediu que fizesse um “RESUMO” do texto, indicando com isso que o aluno deveria falar as ideias principais do texto; o aluno inicia sinalizando palavra por palavra, a professora o interrompe, pede novamente que faça um “RESUMO” e toca em seu ombro, virando-o para que olhe para os colegas, indicando com isso que o aluno não deveria olhar o texto no quadro. Já na aula do dia 05/03, a professora propõe aos alunos:

falem sobre o que compreenderam do texto. Nesse dia, depois de alguns colegas falarem o que compreenderam, R se levanta e vai à frente, sinalizando o texto para a turma de costas para o quadro.

Observa-se que, nas aulas anteriores, quando os alunos iam à frente sinalizar o texto, deveriam fazer uma síntese desse texto, mais independente do quadro. Como vimos também na análise dos eventos relacionados à leitura de diálogos ocorridos na aula do dia 20 de março (item 6.3.1 deste capítulo), três dias depois da aula sobre a “biografia”, o uso da Libras para ler o texto foi novamente redefinido pelo grupo – os alunos deveriam fazer “TEATRO”, o que mostra a constante redefinição da forma de sinalizar o texto. No entanto, no dia em análise, a professora diz ao aluno para explicar o texto, ele então mostra as palavras no quadro e espera que a professora aprove seu comportamento. O quadro então é utilizado para: explicar o título como se o aluno dissesse “esse é o nome da mulher” e essa palavra (biografia) quer dizer “o que aconteceu na vida de uma pessoa”; para relembrar os nomes da autora e da cidade Valparaíso. Não mais recorre ao quadro, mantendo contato visual com a professora e os colegas, contando apenas com a memória.

Assim como na sinalização de G (quadro 26), como R não olha todo o tempo para o quadro, observa-se como os alunos se apoiam na memória no momento da sinalização, o que, às vezes, ocasiona certas dificuldades. Observamos isso, por exemplo, na sinalização de nomes próprios, em que R ou aponta para o quadro, inicia a soletração manual, mas não termina explicando que seria o nome da mulher (linha 9) ou olha para o quadro e soletra manualmente, como no caso da indicação do nome da cidade “Valparaíso” (linha 13). Os nomes próprios cujos referentes não têm sinais conhecidos pelos alunos exigem mais de sua memória no caso da sinalização, já que os alunos surdos contam com sua memória visual. Nesse processo, os alunos recorrem a certas estratégias para evitar a constante soletração manual dos nomes que deixaria a sinalização mais demorada, como a substituição por um substantivo (“MULHER”para se referir a Cecília Meireles)

Ainda relativamente ao apoio na memória durante a sinalização, observa-se que R esquece alguns detalhes do texto, por exemplo, o ano do nascimento de Cecília Meireles. Em outros momentos, deixa de sinalizar trechos inteiros, tal como a menção à

sala de espetáculos com o nome de Cecília, o que aconteceu também na sinalização de G (quadro 26).

No entanto, neste último caso, podemos questionar se R realmente esqueceu ou simplesmente não compreendeu esse trecho, devido a alguns desafios trazidos pelo texto. Observamos no trecho sobre a biblioteca no Chile e a sala de espetáculos com o nome de Cecília Meireles, alguns elementos de difícil compreensão pelos alunos, o que se reflete na sinalização. Analisam-se abaixo alguns desses trechos.

Durante a leitura do trecho “Sua poesia é conhecida no Brasil e em outros países”, R apresenta algumas dificuldades - ele sinaliza que seria bom conhecer poesia no Brasil e em outro país, o que, em Libras, perde o sentido. Já no trecho, “Ela morreu em 1964. Neste ano foi inaugurado na cidade de Valparaíso...”, o aluno lê a primeira oração corretamente, indicando o ano da morte da autora, mas não compreende a oração seguinte, relativa à inauguração da biblioteca, inferindo que Cecília morreu na cidade de Valparaíso. A referência da expressão “neste ano” e o uso de vocábulos aparentemente desconhecidos pelo aluno (inaugurada) podem ter ocasionado tal confusão. Outro trecho do texto que trouxe algumas dificuldades foi “a biblioteca com seu nome: Biblioteca Cecília Meireles”: pela sinalização de R, observa-se que o aluno compreende que foi “colocado” o nome de Cecília em algo, falando de forma bem genérica, mas não consegue compreender ou expressar em Libras que o nome é da biblioteca.

Como se nota, alguns trechos desse texto são de difícil compreensão pelos alunos, sendo que a professora, depois da sinalização de R, procura explicar esses trechos de forma mais detida, como analiso a seguir. Antes de passar à análise da explicação da professora, observa-se ainda algumas características da sinalização de R: como se vê na linha 13, R interpreta a expressão “ela escreveu uma poesia...”, apropriando-se de explicações prévias da professora e atribuindo ao verbo “escrever” o significado de inventar, criar, o que considero extremamente significativo, pois em LP o verbo escrever traz esse sentido, diferentemente do sinal “ESCREVER” que pode referir-se ao sentido de grafar. Nessa perspectiva, observa-se que o aluno busca expandir a significação do verbo em LP, não atribuindo simplesmente um sinal à palavra. Ao final da sinalização de R, a professora elogia o aluno, mas avalia que ficou um pouco confuso

(linha 14), passando então a explicar o texto para a turma, evento esse que analiso no item seguinte.