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3.1 Valg av design og metodologi

3.1.1 Kvantitativt og kvalitativt forskningsdesign

Conforme discutido no capítulo 1, o Bilinguismo dos surdos tem sido apropriado de diferentes formas em instituições que atendem alunos surdos, sejam elas escolas comuns ou escolas especializadas. Em escolas comuns de Belo Horizonte, na rede estadual e na rede municipal, há diversidade de experiências, sendo que há: turmas mistas – turmas em que há alunos surdos e alunos ouvintes, e as interações entre professor e alunos e entre os alunos são mediadas por um intérprete de Libras-LP; turmas somente de alunos surdos – algumas com professor usuário da Libras e outras com a mediação do intérprete na interação entre alunos e professores. Dentre as pesquisas que discutem essas experiências e suas implicações para a aprendizagem dos surdos, ressalta-se a importância de uma língua compartilhada em sala de aula entre alunos e professores (BOTELHO, 2002; LACERDA, 2006; RODRIGUES, 2008, entre outros), no sentido de dar aos alunos surdos acesso à aquisição da Libras e à possibilidade de construção social dos conhecimentos mediada pela LS.

Levando-se em consideração a importância de uma língua compartilhada pelos participantes da sala de aula, esta pesquisa foi realizada numa turma de alunos surdos com professor usuário da Libras, buscando-se evitar que as discussões e reflexões girassem em torno da falta de uma língua compartilhada, tema em evidência em pesquisas realizadas na área da educação de surdos. Obviamente, uma língua comum na sala de aula não garante o acesso às oportunidades de aprendizagem, mas essa situação possibilita o olhar sobre outras dimensões do processo de letramento do aluno surdo, temática em foco nesta pesquisa.

Segundo Spradley (1980), o processo de pesquisa etnográfica se inicia com a escolha de um projeto etnográfico considerando-se o grupo social a ser estudado. Segundo esse autor, o

primeiro passo para se fazer etnografia é identificar a situação social, a qual é composta por três elementos primários – lugar, atores e atividades. Buscando analisar a situação em que estou fazendo a pesquisa, posso então fazer algumas perguntas: que pessoas estão aqui?; o

que estão fazendo?; qual é o ambiente físico dessa situação social? (p. 32-33). Busquei então,

nos itens seguintes, dar a conhecer os elementos da situação social estudada, especialmente o grupo pesquisado, sendo que nos próximos capítulos analiso as “atividades” realizadas por esse grupo.

5.1.1 O grupo e a instituição

Em Belo Horizonte, na Rede Municipal de Ensino, em algumas escolas, pelo número de alunos surdos e por se constatarem as especificidades linguísticas e educacionais dos surdos, foram organizadas classes somente de alunos surdos, nas quais a língua de instrução é a Libras. Buscando então turmas que fossem organizadas dessa forma e por indicação de alguns colegas da área da educação de surdos, entrei em contato inicialmente com uma professora de LP de uma escola da rede municipal. Meu objetivo também era escolher uma professora que fosse considerada como uma profissional envolvida na área da educação de surdos e com formação em Libras, para que pudesse registrar, de alguma forma, práticas de ensino de LP para surdos que considerassem as especificidades desses alunos.

Nessa escola, por meio de um projeto desenvolvido pela Equipe Pedagógica da Regional Centro-Sul a partir de 2002, foram criadas turmas somente de alunos surdos52. De acordo com a professora, que explicou o projeto durante uma entrevista, nessa época a Equipe Pedagógica da Regional convidou alguns professores que sabiam Libras para atuarem nas turmas de surdos. Conforme a professora, o projeto surgiu da iniciativa dessa equipe diante das necessidades dos alunos que participavam das salas de recurso da prefeitura. Assim, foram convidados alguns professores efetivos que sabiam Libras para compor a equipe na época, sendo que, em certos casos, alguns professores efetivos de outras escolas “dobravam” o horário na escola para compor a equipe que atenderia as turmas de surdos.

52

A professora de LP da turma pesquisada é formada em Pedagogia e fez especialização em Psicopedagogia, tem fluência em Libras, além de atuar como intérprete de Libras-LP em outra turma da escola uma vez por semana, cobrindo o horário voltado para planejamento da intérprete da turma. Na entrevista, a professora informou que tem contato com a Libras desde o ano de 2000, participando efetivamente do projeto nas turmas de surdos da escola desde sua criação em 2002, já que um dos pré-requisitos para atuar nas turmas de surdos era “saber Libras”. Ela relatou que realizou vários cursos com o objetivo de aprimorar o uso da Libras: participou de um curso de Libras oferecido pelo MEC, outros realizados pela prefeitura, além de um curso numa associação de surdos, entre outros. A professora, durante a entrevista, ressaltou bastante sua busca por aprimorar o uso da Libras por meio desses cursos, o que observo como um ponto bastante importante para que ela possa atuar no ensino de LP de forma mais efetiva.

A turma é composta por sete alunos surdos, três do sexo masculino e quatro do sexo feminino. Os alunos têm entre 14 e 27 anos, são fluentes em Libras, sendo que uma aluna apresenta algumas dificuldades de comunicação. Abaixo apresento algumas informações que julgo serem importantes para conhecermos o perfil dos alunos do grupo. Esses dados são provenientes das entrevistas com os próprios alunos e de conversas com a professora ao longo da observação em sala de aula. Durante a entrevista, conversei inicialmente com os alunos sobre seu contato com a Libras e o processo de escolarização. Infelizmente, o tempo disponibilizado para a realização das entrevistas foi pouco, tive apenas um horário vago dos alunos para entrevistar toda a turma, sendo que uma aluna se recusou a fazer a entrevista, e outra aluna não quis ser filmada. Abaixo (quadro 10), sintetizo algumas informações a respeito de cada aluno, organizadas da seguinte forma: na primeira coluna, apresento as iniciais dos nomes dos alunos; na segunda coluna, coloco algumas informações a respeito do contato desses alunos com a Libras; na terceira, apresento alguns dados sobre seu processo de escolarização.

Pelo que pude constatar nas entrevistas, as experiências linguísticas dos alunos são bastante diversificadas e os arranjos linguísticos também, utiliza-se a LO na família e a LS na escola; utiliza-se a LS com alguns membros da família; etc. No entanto, podemos apontar algumas semelhanças que confirmam outras pesquisas. Uma dessas semelhanças é o fato de a maioria dos alunos afirmarem ter aprendido Libras na escola, ou seja, a escola torna-se um espaço

privilegiado de contato com a LS, já que os surdos são filhos de ouvintes e, em suas famílias, são poucos os membros que efetivamente utilizam a Libras para interagir com eles.

QUADRO 10 Perfil dos alunos Aluno/

idade

Contato com a Libras Escolarização

G

17 anos Afirma ter aprendido na escola especial que frequentava desde pequena, com quatro anos, e também com os colegas que a ajudavam mostrando alguns sinais que ela perguntava. Na família, apenas o pai consegue comunicar com ela em Libras, a mãe e o irmão sabem somente o alfabeto manual e utilizam gestos.

Estudou numa escola oralista particular de quatro anos até 16 anos, na sexta série. Depois se transferiu para a escola municipal, onde fez a 7ª e está cursando a 8ª série.

D 15 anos

Aprendeu Libras na escola especial onde estudou.

Estudou primeiramente numa escola comum (por volta dos nove anos), em seguida a mãe decidiu transferi-la para uma escola especial pública, onde estudou até a quarta série. Estuda na escola municipal atual desde a 5ª série.

T 19 anos

Ele relata que quando criança não sabia Libras, a família não sabia como fazer, pois ele era o primeiro surdo. Estudou numa escola especial particular, onde aprendeu Libras e também recebeu atendimento fonoaudiológico. Em sua família, ele afirma que apenas a mãe sabe Libras. O pai conhece somente o alfabeto manual, e alguns primos também conhecem um pouco de sinais.

Estudou numa escola oralista particular, desde criança até mais ou menos 16 anos, quando se transferiu, a partir da 5ª série, para a escola municipal onde estuda.

R 14 anos

Afirma ter aprendido a Libras e a falar português na escola especial onde estudou. Na família, comunica-se apenas oralmente, sendo que, em sua família, há bastante estímulo à oralidade, sendo que seus pais o ensinam a falar ou corrigem quando sua pronúncia está errada.

De quatro até seis anos, estudou numa escola comum junto com ouvintes. Ele relata que essa época não sabia sinalizar, nem falar e escrever. Depois se mudou para uma escola particular para surdos, onde estudou até 2002. Mudou-se, em seguida, para uma escola municipal, onde havia também uma turma composta somente de alunos surdos, sendo que em 2007, a partir da na 6ª série, transferiu-se para a escola municipal onde está atualmente.

S 18 anos

Ele afirma que não sabe bem sinais, sua Libras seria “dura”, ou seja, ele não se avalia como fluente em Libras. Relata que aprendeu Libras com os amigos surdos, sendo que na família se comunica apenas oralmente.

Ele relata que começou a estudar com cinco anos numa escola de ouvintes, onde ele era o único surdo. Mudou para a escola municipal onde estuda na sexta série. K 14 anos [A aluna recusou-se a ser filmada, dando apenas algumas informações.]

Informou que aprendeu Libras na fonoaudióloga que frequentava.

Informou que estuda desde quatro anos em escolas de ouvintes e, a partir da sexta série, mudou-se para a escola que está atualmente. V 27 anos [A aluna recusou-se a dar entrevista. Obtive algumas informações sobre ela apenas com a professora.]

Usa Libras para se comunicar com os colegas, mas apresenta algumas dificuldades de compreensão.

Estudou durante um longo período em escolas comuns, sem atendimento adequado ou intérprete, sendo que seu diagnóstico de surdez foi tardio. Mudou- se para a escola atual em 2005, depois de muitos anos de escolarização em escolas comuns.

Emeli Leite (2005) e Cristina Lacerda (2006), ao discutirem o processo de inclusão dos alunos surdos em escolas comuns, apontam o fato de que o contato surdo-surdo é essencial para a aquisição da linguagem, contato esse que pode ficar comprometido no processo de inclusão nos moldes em que propõe o MEC. Essas pesquisadoras e outros argumentam também sobre a importância desse contato entre os surdos no processo de escolarização para que se viabilize não só a aquisição da linguagem, mas também a construção social do conhecimento mediada pela Libras. No caso desta pesquisa, pode-se reafirmar também, pelo relato dos alunos, a importância da escola nesse processo.

O processo de escolarização desses alunos também é bastante diversificado, sendo que alguns frequentaram escolas especiais, particulares ou públicas, com diferentes abordagens. A escola frequentada por G e T, por exemplo, é uma escola oralista onde, no entanto, a comunicação entre os surdos ocorre por meio da LS. Vemos também, pelas entrevistas, um bom número de

alunos que frequentaram escolas comuns, juntamente com ouvintes. Com certeza, essa experiência educacional é reflexo do movimento inclusivo que se intensifica a partir da década de 90, do qual participaram esses alunos.

De modo geral, a experiência de observação nesse grupo foi muito gratificante já que havia uma língua compartilhada entre os participantes por meio da qual se construíam os processos de ensino-aprendizagem, o que possibilitou a observação do engajamento do grupo nas práticas de leitura de textos. Abaixo, apresento então esse processo de observação.