Ao terminar sua sinalização, a professora chama os dois alunos, personagens do diálogo, para sinalizarem o texto. Para chamar os alunos, ela diz em Libras: “TEATRO VOCÊS-DOIS [R e T] À-FRENTE”. Nesse momento, a professora estabelece outra forma de “ler” o texto, ela não diz “sinalizem o texto” ou “leiam o texto”, ela pede que os alunos façam “teatro”, ou seja, encenem o texto. Os alunos se levantam e vão ao espaço à frente do quadro, visíveis para toda a turma. A professora pergunta se todos estão vendo e pede que esperem até que eu posicionasse melhor a câmera. Em seguida, pede aos alunos que comecem, mas logo interrompe e reforça com os alunos que façam em Libras o que entenderam do texto. Os alunos reiniciam a sinalização. Observa-se que a professora busca sinalizar para os alunos as expectativas dela em relação à tarefa e ao uso da Libras: sinalizar e encenar o texto, mas os alunos ficam presos ao texto, olhando para o quadro, com constantes hesitações.
Interessante notar que frente à tarefa escolar de “encenar o texto”, os alunos lidam com seus conhecimentos de eventos anteriores, inclusive da sinalização e explicação que a professora havia acabado de fazer, em que essa utilizou o quadro como referência durante todo o tempo. Parece que a atividade para os alunos ficou ambígua, pouco clara relativamente às expectativas da professora.
Então, assim que os alunos terminam a primeira sinalização/ encenação do texto, a professora explica novamente aos alunos como devem fazer o “teatro”. Diferentemente da sinalização anterior dos alunos em suas carteiras, do estudo do vocabulário e da explicação da professora, agora o texto escrito não deve ser mais referência durante a sinalização, devendo os alunos focarem apenas no conteúdo e na encenação em Libras. O quadro 23 traz a transcrição da interação em que os participantes do grupo redefinem como a Libras deve ser usada em sala de aula: na primeira coluna, apresento a participação da professora; na segunda, a dos alunos; e na terceira, comentários sobre a definição do uso da Libras na atividade.
Como disse anteriormente, o processo de letramento é um processo dinâmico e os participantes da sala de aula definem e redefinem a compreensão do que é considerado
como participação nas ações letradas. Nesse momento na sala de aula, explicita-se aos alunos como a Libras deve ser usada para “ler” ou “se referir a um texto”, além de se definirem formas de participação na atividade, tal como a apresentação do texto.
QUADRO 23
Redefinindo o uso da Libras para ler o texto
Professora Alunos Uso da Libras no grupo
1 [Os alunos terminam de sinalizar e, quando iam voltar a suas carteiras, a prof. diz] JÓIA ESPERAR [a prof. caminha em direção à frente da sala.]
A professora elogia os alunos em relação à sinalização deles.
2 AGORA R e T se sentam Distingue o momento que se seguirá do anterior.
3 [A prof. espera que a turma olhe para ela e acena chamando os alunos] VOCÊS-DOIS DE-NOVO DE-NOVO TEATRO <JÓIA>? MAS EU NÃO NÃO-QUERO CL<OLHAR-DIREITA-OLHAR- ESQUERDA> [à direita estava o quadro, à esquerda, a turma] CL<OLHAR-DIREITA-OLHAR- ESQUERDA> <NÃO>! LIBRAS SÓ PORQUE VOCÊS FAZER LIBRAS JUNTO PORTUGUÊS (movimento de corpo indicando hesitação) LIBRAS SÓ OK <NORMAL>!
Informa aos alunos que eles irão novamente fazer “teatro”, mas redefine com eles como a Libras deve ser usada e como os alunos devem se posicionar. Primeiramente, não quer que os alunos olhem para o quadro e interrompam a sinalização. Diz que devem usar somente a Libras e justifica dizendo que os dois usaram as duas línguas ao mesmo tempo. Reforça novamente que devem usar a Libras da forma mais natural.
4 G acena
5 ESPERA [em direção a G] EXEMPLO NORMAL VOCÊS- DOIS AMIG@ ENCONTRAR
CONVIDAR ASSISTIR
FUTEBOL DOMINGO LUGAR MINEIRÃO HORA <OK>? NORMAL JÓIA?
Pede a G que espere e continua explicando. É uma situação em que dois amigos se encontram e faz uma síntese do que é dito no diálogo, reforçando que os alunos devem se preocupar com o conteúdo do texto e não com a forma da LP. 6 VOCÊS CL<UM-IR- EM-DIREÇÃO- A-OUTRO> <OI TUDO BEM>! VOCÊS FALTAR
G insiste que eles devem encenar o encontro, o cumprimento, etc., sugerindo como a atividade deve ser feita junto a seus colegas e à professora e indicando que, na primeira sinalização, os colegas não fizeram dessa forma.
7 OK NORMAL <JÓIA>? VEM A prof. reforça que a sinalização deve ser o mais “natural” possível.
8 R e T se
levantam e vão em direção ao quadro.
Os alunos atendem à solicitação da professora.
Primeiramente, observamos a professora definindo com os participantes como deve ser feita a apresentação (linha 3). Para isso, ela usa a expressão “TEATRO” para indicar aos alunos que eles devem encenar o texto. Anteriormente, da primeira vez que os alunos encenaram o texto, a professora também havia usado esse termo em Libras; mas agora ela reforça que os alunos, além de encenarem o diálogo, não devem interromper a sinalização para olhar para o quadro – ela afirma que não quer que eles olhem para o quadro e sinalizem e, em seguida, voltem a olhar (linha 3). Isso é aceito e ratificado pela aluna G que sugere que os alunos realmente “encenem” o texto, encontrando-se, cumprimentando-se, o que, para essa aluna, “faltou” na primeira apresentação (linha 6).
A professora ressalta também que não se devem misturar as duas línguas “LIBRAS SÓ PORQUE VOCÊS FAZER LIBRAS JUNTO PORTUGUÊS LIBRAS SÓ OK <NORMAL>!”. Ao dizer isso, a professora assume que há duas formas de utilizar a Libras: “junto” com o português ou somente a Libras. É a primeira vez, durante o período de observação que a professora se refere ao uso da mescla entre Libras e LP. Porém ela não explicita para os alunos o que seriam “LIBRAS JUNTO PORTUGUÊS” e “LIBRAS SÓ”.
Esses diferentes usos da Libras exigem dos participantes uma competência comunicativa específica para participação na sala de aula, em diferentes eventos. Baseando-se em Bloome (1989), podemos notar que, nesta sala de aula, são estabelecidas diferentes formas de usar a linguagem ao longo dos eventos. Se antes deveriam estabelecer a simples relação sinal-palavra, lendo (olhando) para o texto; agora os alunos precisam mudar esse uso e buscar sinalizar o “mais natural”, esquecendo-se da LP. Porém, as experiências anteriores dos alunos nesta aula e outras experiências escolares os levam a inferir que um texto deve ser lido e sinalizado de acordo com a LP, que esse é o comportamento considerado apropriado pela escola e que será bem avaliado pela professora. No entanto, o grupo estabelece para eles uma nova forma de usar a linguagem para se referir a um texto em LP: usar “somente a Libras”. A professora não esclarece o que é usar “somente a Libras” e usar a Libras “junto com o português”; apenas enfatiza o fato de os alunos não olharem para o texto. Enquanto isso, G sugere aos colegas que “encenem” o texto, representando o encontro dos personagens, o cumprimento, etc.
Segue abaixo o quadro 24, em que apresento a transcrição da encenação dos dois alunos, após a redefinição de como a Libras deveria ser usada. Na primeira coluna, apresento o texto em LP; na segunda, a sinalização de R; na terceira, a sinalização de T.
QUADRO 24
Sinalizando e encenando o texto
Texto Participação de R Participação de T
Dois amigos se encontram no bar.
(Os dois alunos de cantos opostos da sala se aproximam um do outro no espaço à frente, próximo ao quadro, cumprimentam com toque de mãos típico dos adolescentes.)
_ Oi T. Tudo bem com você?
<VOCÊ JÓIA B-E-M>? _ Oi R, tudo
bem. E com você?
TUDO B-E-M <VOCÊ>?
_ Estou ótimo! Domingo tem jogo. Vamos ao Mineirão assistir Cruzeiro e Atlético? <ÓTIMO>! IR COMBINAR MINEIRÃO ASSISTIR ATLÉTICO CRUZEIRO
_ Que horas e onde
encontramos lá?
ACEITAR <ACEITAR>! <QUE- HORAS>? _ Ah! O jogo começa às 18 horas, mas vamos chegar antes, às 15:30 horas para aproveitarmos e comermos o delicioso feijão tropeiro que tem lá?
QUE-HORAS LUGAR LÁ HORAS CHEGAR LÁ COMEÇAR LÁ MINEIRÃO SEIS HORAS COMEÇAR JOGO (sinal incompreensível?) CHEGAR ANTES TRÊS METADE APROVEITAR ENCONTRAR COMER COISAS FEIJÃO MISTURAR ENCONTRAR APROVEITAR _ Ok. Então nos encontramos às 15h30 horas lá no restaurante do Mineirão. Até domingo! OK OK TRÊS METADE RESTAURANTE APROVEITAR RESTAURANTE OK _ Combinado, até domingo!
OK COMBINAR DOMINGO ATÉ DOMINGO DOMINGO OK
<OK>! (faz um gesto de estralar os dedos em sinal de empolgação) (faz um gesto de estralar os dedos em
No uso da Libras, também podemos notar algumas diferenças em relação às sinalizações anteriores. Os alunos, por exemplo, não usam mais os vocativos, que não são usados em diálogos em Libras e procuram sinalizar de uma forma mais espontânea. Também não sinalizam os verbos de ligação, entre outros. Além de se apropriarem de alguns usos feitos pela professora como, por exemplo, incluem o item da Libras referente a “aceitar um convite” na frase em que o personagem diz que “aceita” ir ao Mineirão com o amigo. No entanto, em relação, por exemplo, à expressão “Tudo bem com você?”, os alunos sinalizam da forma mais comum em Libras e reforçam com a datilologia em LP da palavra “bem”, “mesclando” as duas línguas.
Ou seja, os alunos, na realização do trabalho acadêmico (cf. BLOOME, 1989) cumprem com o papel designado a eles de sinalizar e encenar o texto, buscando inclusive se apropriar de usos que consideram que a professora avaliará como corretos. No entanto, em alguns momentos da sinalização, parece não terem compreendido ainda o que é sinalizar somente Libras (sem português).