O intercâmbio envolveu muitos dos profissionais do Sage diretamente e muitos mais indiretamente. Formalmente, o projeto foi encerrado, mas muitos dos envolvidos continuaram em contato uns com os outros desde então. Três deles, que vêm de diferentes especialidades e estiveram envolvidos em diferentes momentos do projeto, são Kathryn Davidson (Folk Strand Leader; responsável pelo programa de repertório popular
tradicional), que participou desde o começo e fez três visitas a São Paulo; Edward Milner (Head of Music Learning; responsável pelos programas educacionais), que temporariamente também assumiu muitas das responsabilidades de Katherine Zeserson;1 e Pauline Brandon, que é a líder
do In Harmony, um projeto de orquestra jovem imersivo, agora2 em seu
terceiro ano, e engajando cerca de 450 crianças e jovens das escolas da região. Os participantes do In Harmony têm de 3 a 14 anos e fazem 4,5 horas semanais de treinamento musical durante o horário escolar. Além disso, em certos momentos se juntam para tocar com o grupo mais amplo.
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Como especialistas em áreas diferentes, eles engajaram-se em diferentes atividades de intercâmbio. Brandon concentrou-se em pedagogia de cordas, Davidson em tradições da música folclórica britânica e Milner em sua expertise na condução de corais jovens.
É claro para eles que o intercâmbio foi construído como um projeto de pesquisa no qual suas investigações pessoais eram parte de uma jornada mais ampla de descobrimento. O projeto foi baseado na ideia de
coaprendizagem, e as atividades foram planejadas para produzirem oportunidades para se observar, questionar e refletir sobre as práticas uns dos outros. Logo, o intercâmbio não começou com um conjunto de objetivos de aprendizagem claros e definidos, mas com alguns poucos objetivos iniciais e atividades programadas. Katherine Zeserson, que liderou o intercâmbio pelo Sage Gateshead, encorajou sua equipe a manter diários pessoais nos quais deveriam registrar o que vissem, o que esperavam ver no dia seguinte, e quais questões emergiam da experiência. Especialmente no primeiro ano, essas reflexões individuais foram cruciais para informar como o intercâmbio progredia. As atividades, em geral, se deram na forma de observações de aulas (seguidas por discussões focadas), projetos curtos resultando em apresentações (por exemplo, duas semanas de ensaio, seguidas de apresentação de canções folclóricas britânicas com coral de crianças e jovens brasileiros) e o eventual momento em que eles criavam, improvisavam e tocavam juntos.
Kathryn Davidson nos conta como encontrou seu caminho individual de investigação e o que a motivou enquanto aprendia sobre o Projeto Guri:
Eu acho que o estabelecimento de objetivos surgiu do próprio projeto na medida em que ele se desenvolvia, porque, no primeiro ano, quando fomos a São Paulo […], para mim foi um processo de juntar
informações. Eu não tinha ideia do que esperar, porque eu nunca tinha estado lá antes. E não havia nenhuma história que tivesse sido trazida para nós de outras visitas – então, quando Pauline foi [na segunda visita], nós a atualizamos sobre como tinham sido os anos anteriores. Aquele primeiro ano foi muito assim: no local, o que nós vemos? O que nós fazemos? Como nós trabalhamos juntos, como músicos? O que aprendemos uns com os outros? E então fomos trabalhando com pessoas como Marta,3 conversando com ela. Marta, aliás, usava a
instigante expressão “educação musical holística”. Era "educação holística". E ela tratava o jovem como uma pessoa integral, não apenas como um músico. Isso despertou algumas coisas em nós. Então, quando o Guri voltou para cá, nós tivemos um seminário sobre o que seria educação musical democrática. Nós não sabemos a resposta
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para essa questão. Ela é vasta, e na verdade não estou certa de que, um dia, iremos respondê-la. E talvez respondê-la possa interromper o processo democrático.
Ao descrever retrospectivamente a estrutura do intercâmbio, ela o compara à estrutura de uma série de TV.
E eu penso que ao longo dos anos eu comecei a descrever a estrutura do projeto de formas diferentes […]. Você tem um enredo que atravessa todo o projeto, mas então você tem uma série de arcos… E eu acho que nós tivemos arcos de intercâmbio. Então nós tivemos um tipo de intercâmbio musical, coisas técnicas, prática, repertório… Tudo isso está acontecendo cada vez que você vê alguém trabalhando – e você tem aquele diálogo. Mas então, acima de tudo, está a prática reflexiva, a pedagogia social e “o que é a educação musical democrática”. Para mim, acho que essas são as três questões principais.
Como diz Davidson, Pauline Brandon teve uma experiência mais focada desde o início e, embora o elemento social da prática do Projeto Guri seja onipresente em cada relato da experiência, os objetivos claros que ela possuía desde o começo parecem ser a razão pela qual ela aponta as metodologias que observou e praticou em São Paulo como os elementos mais valiosos do intercâmbio:
Os métodos de ensinar [foram mais valiosos]. Isso me lembrou de coisas que eu não usava já há um bom tempo, que voltei a usar desde o meu retorno. Compartilhar repertório que, de novo, eu usei desde então. Trocamos também muitas metodologias uns com os outros. Passei muito tempo observando a prática pedagógica, formações de conjuntos e como eles trabalham. E eles passaram metade de um dia aqui, em que eu mostrei como nós apresentamos as crianças à música. O que realmente funcionou para mim foi ver uma pedagogia de cordas muito específica, e ver como algumas de suas formações de conjuntos funcionavam. Eles geralmente ensinam num contexto de sala de aula. Embora seja como uma aula individual, todas as demais crianças estão assistindo àquela lição individual. E há um grupo variado de idade e de backgrounds […].
A diversidade de backgrounds e idades nas aulas do Projeto Guri foi particularmente marcante para Brandon. Ela se pergunta se essa diversidade se deve à cultura local, que permitiria aos alunos trabalharem juntos em meio às suas diferenças.
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Eu sempre me deparei com o limite de [idade]. Se estou tentando juntar um grupo de violinos em uma classe, eu evitaria colocar um garoto de 18 anos com uma garota de oito anos, mas no Brasil isso não acontece. Porque o garoto de 18 anos havia decidido que queria aprender violino na semana passada, e a garota de oito anos havia acabado de começar, eles estavam no mesmo grupo. E isso não era um problema. Não sei se isso era uma coisa cultural, suspeito que era, porque o que eu vi era apoio e amizade extrema entre as crianças. E respeito pela equipe e respeito uns pelos outros. E o que eu levei comigo disso foi principalmente “como eu posso criar esse tipo de atmosfera ao trabalhar com as crianças com as quais eu trabalho?” De forma que eles respeitem uns aos outros e apoiem uns aos outros, não vendo esses limites. Isso foi muito, muito, valioso para mim, porque sempre há desafios em como montar nosso projeto In Harmony. No momento lecionamos para um grupo de dois a três. São coisas como essas que eu vi e testemunhei que realmente funcionaram no intercâmbio. E eles estão avaliando como eu posso usar isso em nosso projeto.