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O fotógrafo João Roberto Ripper1 tem longo histórico de documentação da

Maré, do tempo em que as palafitas ainda faziam parte do cotidiano, antes do lugar ser reconhecido como bairro – o 9º mais populoso do Rio de Janeiro, de acordo com os dados do IBGE, de 2010. Foi nesta condição de observador atento e testemunha das várias fases da Maré que Ripper chegou ao Observatório de Favelas, no início dos anos 2000, para fazer fotos para o livro Favela: alegria e dor na cidade.2“Fui contratado pelo Observatório

para fazer uma documentação que fosse um pouco diferente das que só mostram a história única das favelas”, ele conta.

Com a experiência de quem também já tinha feito um workshop na região – uma oficina aberta de fotografia no Morro do Timbau3 –, Ripper

sugeriu repetir a experiência e fazer com que os alunos, não exclusivamente moradores da Maré, registrassem as imagens dos lugares em que

moravam. “Tinha um contingente enorme de pessoas que via a favela de uma

forma totalmente diferente, com belezas, vidas, trabalhos, ações, fazeres. Pensava muito na imagem vista por quem vive, que não está lá para condenar, mas pode se debruçar sobre o que vê. A gente chegou à conclusão de que, mais importante do que eu continuar fazendo a documentação, era criar uma escola e uma agência de fotografia.”

Estava formado o ambiente em que surgiria, em 2004/2005, a Escola de Fotógrafos Populares Imagens do Povo, experiência com várias semelhanças com a Imagens da Terra,4 agência de fotografia criada por ele no início dos anos

90. Caso singular no Rio de Janeiro, o Imagens do Povo é uma escola, uma agência de fotógrafos e um banco de imagens sediado na favela da Maré, dentro do Observatório de Favelas, criado por fotógrafos experientes e conceituados no mercado, tendo à frente Ripper e sua visão de fotografia engajada na defesa dos direitos humanos. Na ocasião em que realizamos as entrevistas para esta pesquisa, o projeto atravessava uma crise bastante grave, principalmente financeira, ameaçando sua continuidade. Mas, nos dez anos em que se manteve atuante, o Imagens do Povo tornou-se sinônimo de uma fotografia

comprometida com a questão dos direitos humanos, apresentando novas formas de retratar a vida nas favelas e comunidades, muito além da narrativa da violência, que se tornou senso comum na representação dos espaços populares, especialmente nos veículos de comunicação de grande circulação.

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Ao voltar os olhos para a Maré, Ripper encontrou solo fértil para colocar em prática a construção de narrativas que combatem o que ele chama de história única, exemplificada, por exemplo, pela escritora nigeriana Chimamanda Adichie.5 Diz ele:

Minha teoria, em cima da vivência que tenho visto, é que quando você conta uma história única, que fala apenas da ausência de quase tudo e da violência, você tira as belezas e distancia essas pessoas das que recebem a informação. Se você quiser incriminar um determinado país, sociedade ou pessoa, conte uma história só, e então a pessoa, sociedade ou país se transformará nessa história, independente de ser verdade ou não, deixando os outros, de um modo geral, apavorados. Isso é o que se repete sobre favela, índios, seringueiros, populações tradicionais, sejam quais forem. Então qual é a única verdade da favela? Que potencialmente lá estão os criminosos, que não tem quase nada e é violento. Se você divulga essa história, alimenta essa violência. E a história da favela é outra. Digo inclusive que esse estereótipo está muito ligado aos poderes. E um dos mais opressores, que mais mantém o status quo, que é o jornalismo. A gente já teve na História exemplos de que o jornalismo pode ajudar a transformar a sociedade. Mas hoje ele é muito mais mantenedor e caminha como um poder do status quo.

Para Ripper, o Imagens do Povo é uma experiência que contribui para quebrar a repetição da história única.

O início

Para implantar o projeto na Maré, os primeiros que Ripper convidou para a empreitada foram o documentarista Ricardo Funari e o fotógrafo Dante Gastaldoni, professor de fotografia na UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro – e na UFF – Universidade Federal Fluminense. Dante é o responsável pela estrutura acadêmica da Escola de Fotógrafos Populares Imagens do Povo, para onde criou a matriz pedagógica que norteou o currículo das aulas, adaptado a cada edição. Explica: “O programa sempre foi

aperfeiçoado. A matriz da Escola é totalmente mutante. Essa é outra diferença da universidade, onde se faz um currículo e demora 10 anos para mexer. Por isso não gosto da expressão grade curricular. Uso matriz porque grade engessa. Grade é uma prisão".

Em vez do tripé escola-agência-banco de imagens, usado por Ripper, Dante prefere definir o projeto Imagens do Povo como um binômio: agência-

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escola. “Qual era o sentido da agência? Que o fotógrafo formado pela escola,

ou o aluno, tivesse um padrão mínimo de sustentabilidade: ter um banco de imagens para postar suas fotos, uma administração que pudesse vender pauta, fidelizar alguns clientes", conta Dante, que levou o projeto para a

Pró-Reitoria de Extensão da UFF em 2006, que chancelou a iniciativa. “A UFF

diplomou os alunos da escola em 2006 e 2007. Em 2012 e 2013, quem diplomou foi a UFRJ “, explica.

Estima-se que o Imagens do Povo, ao longo dos seus anos de atividade, tenha formado pelo menos 350 fotógrafos. Dante, que em 2005 coordenou o núcleo da fotografia da ESPOCC – Escola Popular de Comunicação Crítica, outro projeto do Observatório de Favelas, conta:

Na Escola Imagens do Povo encontrei um aluno visceralmente diferente daqueles para quem eu dava aula em universidade. Na Maré, todas as aulas terminavam com aplausos. Se você dizia uma coisa de mais impacto, ouvia um grito da turma feito a 40 vozes, que era uma sirene. Passou a ser uma marca registrada dos alunos. Era uma coisa diferente, era um solo muito fértil. Tudo conspirando para dar certo.

Nomes que vieram a se tornar conhecidos na fotografia – como Ratão Diniz, AF Rodrigues, Bira Carvalho, Francisco Valdean, entre outros – estiveram desde o primeiro momento entre os alunos da Escola de Fotógrafos Populares Imagens do Povo, que desde o início teve uma proposta de educação arrojada. “O que mais ocorre, na maioria dessas comunidades todas, é que você não dá a oportunidade da qualidade de ensino. Quem tem posses tem ensino de qualidade. Quem não tem, não. Lá no Imagens do Povo eles tiveram um ensino de qualidade. E absorveram tudo! Eles sabiam da importância e responsabilidade que tinham”, diz Ripper.6

Desde o início, a ideia era de que a formação dos fotógrafos não se restringisse aos aspectos da técnica ou estética, mas incluísse disciplinas abrangentes, questões relacionadas ao trato profissional e também ao estigma enfrentado por muitos alunos, moradores de favelas, comunidades e bairros populares. “De alguma maneira, o aluno é discriminado por ser morador de favela, e aí você tem que conversar sobre isso”, diz Ripper. “Essa, inclusive, é uma das razões da escola existir: que as pessoas tenham orgulho de seu espaço. E uma das coisas que me motivou o tempo todo a trabalhar foi a perspectiva de permitir que outras histórias fossem contadas. Ninguém tem uma história só.”

Ripper também chama atenção para o papel do Imagens do Povo na trajetória do Observatório de Favelas:

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O Observatório tem um trabalho importantíssimo na defesa dos direitos humanos e de pesquisas para a educação, que viraram políticas públicas. Tem pessoas com brilhantismo lá. Mas o único trabalho concretamente de base que eles tinham era com os

fotógrafos. E a arte foi um susto na vida dessa organização. Reconheço o esforço imenso do Observatório e um aprendizado muito grande de conviver com a arte e deixar fazer essa experiência.