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Function spaces of Dirichlet series and local embeddings

Entre os meses de março e junho de 2016, as cidades de Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo receberam a sexta edição do Fórum Shakespeare no Brasil. O projeto, que acontece em forma de festival, tinha, dessa vez, uma missão de maior porte: explorar, repensar e comemorar o legado do mais célebre dramaturgo do mundo no ano em que se completavam 400 anos de sua morte.

Nesse contexto, além das palestras e workshops habituais, a

programação do Fórum presenteou o público brasileiro com a montagem de três peças de Shakespeare – uma em cada cidade –, com elenco formado por atores brasileiros e direção de grandes nomes do teatro britânico, atuantes na Royal Shakespeare Company e no National Theatre of Wales, como o ator Greg Hicks e o diretor Vik Sivalingam.

Essa experiência inovadora começou em São Paulo, com os ensaios do clássico Macbeth, a história do nobre escocês que, incitado por personagens que ambicionam seu poder, acaba tomando decisões que desencadeiam tragédias e vê seu reinado ser marcado pela culpa e pelo medo. Apesar de só ter se concretizado em 2016, a ideia de reunir aspectos da cultura britânica e brasileira na encenação de uma peça de

Shakespeare é um sonho antigo, tenazmente perseguido por dois

parceiros de trabalho: o diretor de teatro inglês Greg Hicks e o niteroiense, preparador corporal e mestre de capoeira-angola, Carlo Alexandre, o mestre Carlão.

Segundo Carlo Alexandre – Alex, para os ingleses –, tudo começou quando, no final dos anos 1990, ele decidiu largar o consultório de fisioterapia em Niterói e tentar a sorte na Inglaterra dos Beatles e dos Rolling Stones. Ao chegar em Londres, começou a trabalhar como professor de

capoeira – atividade que já exercia no Brasil, de forma paralela – numa academia situada num dos parques da cidade. Foi lá que conheceu Greg Hicks, que já atuava como protagonista em várias montagens da Royal Shakespeare Company e, preocupado com seu condicionamento físico, praticava ioga nesse mesmo espaço. Carlão conta que, certo dia, Greg, que nunca tinha ouvido o som do berimbau, ficou paralisado à porta da sala onde ele estava dando aula de capoeira para seus alunos. Segundo ele, foi essa a gênese do sonho comum de unir a linguagem falada do teatro shakespeareano à linguagem músico-corporal da capoeira de origem africana. Antes desse encontro, Alex já havia tido outras experiências na

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Inglaterra, onde foi professor de capoeira em centros comunitários e escolas e chegou a desenvolver um circuito de rodas de capoeira em parques e praças de lá.

Hoje existe uma rede, o grupo está na Escócia, Londres e na Grécia. Em Londres, o nome é Kabula Arts. Foi lá que surgiu primeiro, existe desde 2004, está formalizada e é tocada por um grupo de ingleses, independente das minhas idas lá… Quando fui pela primeira vez, para me aventurar por minha conta, em 1995, a capoeira já estava surgindo como um fenômeno mundial e houve um interesse grande, porque a capoeira angola, tradicional, não existia lá. A galera que fazia era mais alternativa, canadenses, americanos, australianos, o bairro era Brixton, muito alternativo, bem diverso. O Greg é um dos meus alunos mais antigos e até hoje planta bananeira como ninguém!

Em 2000, Greg levou Alex – mestre Carlão – para trabalhar como preparador corporal numa formação de atores, iniciando assim a relação do brasileiro com o teatro inglês e com a Royal Shakespeare Company, que tem em sua equipe expoentes como a preparadora vocal Cicely Berry. Mestre Carlão notou então que havia organizações de teatro muito abertas a práticas culturais de outros lugares, como butô, capoeira, dança do ventre, para ele uma atitude não tão comum no teatro brasileiro.

O inglês é muito aberto, ele foi para o mundo e levou o mundo para lá, então eles têm esse olhar, principalmente os jovens. Mas o ator clássico inglês não tem essa coisa nossa de trabalhar com o corpo. O Greg é um grande exemplo na companhia e quebrou uma barreira com os atores de lá para eu entrar. Deu tão certo que a partir de 2004 eu ficava uns oito meses lá e vinha aqui [Brasil] passar dois ou três meses, meu trabalho era lá.

Fecha o pano e abre novamente em 2016, em São Paulo, numa das salas cedidas pela Funarte para ensaios e atividades artísticas. O grupo de atores de Macbeth é formado por jovens entre 25 e 35 anos, oriundos de várias partes do Brasil: Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Brasília. Todos moram em São Paulo atualmente e foram selecionados para o que consideram “a grande experiência”: representar o texto de Shakespeare, dirigidos em cena pela dupla formada pelo mestre na clássica arte da Royal Shakespeare Company e pelo mestre das rodas de capoeira do Cais do Valongo, responsável pela preparação corporal.

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Nos ensaios bilíngues de Macbeth, o texto que será apresentado e serve como guia é a tradução de Barbara Heliodora, de 1995. A três dias da estreia, o clima é de seriedade e foco, e a dinâmica é basicamente a mesma para todas as cenas: Greg orienta os atores em termos de entonação e tenta passar, em inglês, sensações e imagens que os atores devem ter em mente naquele momento, buscando a ajuda de gestos e expressões faciais. A seguir, o texto é repassado em português e ele acompanha atentamente cada palavra, às vezes dando mais instruções e pedindo para repetir. Os atores compreendem a maioria dos comentários, mas a equipe conta com um intérprete sempre presente e atento para que a dinâmica não perca o ritmo por conta de um entendimento errado.

Alex, por sua vez, comanda o momento de aquecimento corporal, que Greg chama de liberating exercises (exercícios para soltar o corpo). Nessa parte do ensaio, Greg se descontrai completamente, pede para todos se concentrarem no ritmo e canta junto com o grupo, em português, o ponto de capoeira Camará. Alex também coordena paralelamente ensaios em cima de ritmos brasileiros, para as cenas em que atores tocam tambores e zabumbas. O ritmo é uma parte importante do trabalho conjunto. Mais tarde, em conversa depois do ensaio, Greg declara: “O que aproxima Shakespeare

do Brasil é o ritmo. Em Shakespeare o texto é puro ritmo e vocês tem o ritmo no corpo. Eu e Alex tivemos uma visão, anos atrás, de que essa combinação poderia dar um resultado interessante.”

Ainda assim, conectar capoeira angola e teatro não é trivial. Mas, para Alex, a encenação de um texto de Shakespeare traz um estímulo a mais, pois é um teatro originalmente mambembe, de rua, que busca aproximação com o povo.

A capoeira é um drama popular, mas não tem personagens fixos. O personagem você constrói a cada jogo, depende, muda muito, porque você está interagindo com alguém a cada momento. E se você consegue mudar o seu personagem a cada jogo, aí é melhor ainda, é uma libertação… Com os anos, se você pesquisa e entende isso, você se força a mudar a cada jogo, a não repetir o padrão. É uma metáfora para a vida… Se você joga o mesmo jogo o tempo todo na sua vida, não se recria, não se transforma e não aprende com o outro, nessa coisa da alteridade, você basicamente não muda. Eu acho que isso é ouro na capoeira, porque você está desenvolvendo um papel a cada jogo, a cada roda. Quando você pega o berimbau, você é um. Quando você vai jogar, você é outro. Você tá tomando conta da roda, fora da roda, você tem que ser outro. Quando você joga, principalmente, você tem que ser “aquele que se transforma”.

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E os atores, o que acham? Como eles classificam o projeto em que estão inseridos, em que são eles mesmos as peças de concretização de um intercâmbio cultural? “A encenação busca ‘mesclar’ as duas culturas”, diz um deles. Se assim é, a montagem de Macbeth no Brasil, com a utilização de elementos da cultura popular brasileira, não foi a primeira experiência da dupla deste tipo. Em 2009, num teatro de Londres, Greg e Alex haviam realizado juntos a montagem de The Bacchae (As Bacantes), texto baseado no épico de Eurípedes, que foi anunciado como “Britain´s first ever

professional Capoeira production” (“a primeira produção profissional de um espetáculo de capoeira realizada na Grã-Bretanha”). A ideia central da peça foi a de juntar dois personagens, Besouro Preto1 e Dionísio, num

personagem só, basicamente um Exu. E o resultado?

“Foi casa cheia todos os dias, sold out [lotação esgotada]. Um mês de capoeira dentro do teatro com percussão pesada. A plateia saía suada, todo mundo pingando. O inglês é todo travado e a peça era muito sensual, o ator principal era do Congo Belga, aprendeu capoeira com a gente e arrebentou. Foi um sucesso, a história de Dionísio, Baco, as Bacantes, a procissão era a capoeira, os instrumentos eram berimbau, ladainhas, Brasil total.”

Esse projeto, bem sucedido, ajudou certamente a manter vivo, dos dois lados do Atlântico, o sonho de juntar a capoeira a um texto de Shakespeare, uma tragédia, projeto só realizado sete anos depois. Nesse meio tempo, Mestre Carlão continuou realizando projetos nos dois países, dando continuidade à luta pela popularização da capoeira no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que seu trabalho disseminava cada vez mais a sua prática entre os ingleses. Embora, como ele mesmo esclarece, a

metodologia de ensino não possa ser aplicada da mesma forma aqui e lá. É necessário se adaptar às diferenças:

Lá você tem que trabalhar com a razão, tem que explicar porque você faz esse movimento, de onde veio isso… Aqui não, já tá tudo no imaginário… Aqui o seu corpo já faz parte daquilo ali… Na Inglaterra para você explicar que o movimento tem que ser sincopado, o que é sincopado, o que é o pandeiro sincopando, como você traduz isso para o corpo… Porque é legal ter essa quebra do movimento e não ser só linear, né? Lá eu faço toda uma abertura, um alongamento totalmente diferente, até para eles não se lesarem. Aqui a galera chega pedalando, já tá todo mundo aquecido e alongado, você faz um pouquinho de alongamento e o pessoal já quer movimento! Tem que ter essa

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percepção cultural… Além disso, o inglês tem um padrão de comportamento que vem muito a partir da educação, e os códigos deles são bem diferentes dos brasileiros.

Em seguida constata, expondo o próprio âmago de um projeto de intercâmbio de culturas, em que o esforço de adaptação pode trazer resultados inesperados:

… Eu me transformei com isso, ensinando dessa forma eu me transformei. A minha forma de ensinar aqui hoje em dia melhorou muito. Muita gente que foi lá para fora trouxe essa forma de trabalho para o Brasil . Mudou muito a forma de trabalhar no Brasil com capoeira. Essa parte técnica mesmo, aquecimento, alongamento, antigamente não tinha aqui! Hoje em dia todo mundo trabalha isso aqui, essa parte bem prática, e também junta com o ensino da história e da filosofia da capoeira, hoje em dia se ensina mais aqui porque lá fora foi necessário fazer isso. É um caminho muito estranho, porque você mudou lá fora, não mudou aqui, que é a sua origem… Você mudou porque você viajou!

O processo de imersão nos ensaios e preparação da montagem de Macbeth, numa base de 10 horas diárias, aconteceu durante três semanas e é profundamente exaustivo. Mas todos os atores envolvidos acham que essa experiência vai mudar definitivamente o seu modo de atuar. E o que levam da convivência com Greg para a vida de ator? “Disciplina e generosidade”, respondem em uníssono.

Alex e Greg também têm a sua visão do que se traz e do que se leva, do que fica consolidado e do que se cria junto. Alex tem agora identificações diferentes em Londres, como Alex, e colabora com companhias de teatro e projetos culturais da Inglaterra. Mas não abandona a luta pela valorização da cultura popular como sua motivação primordial, que é capaz de ultrapassar as barreiras que por ventura possam surgir, como a língua ou os costumes:

Hoje vejo nessa iniciativa uma tentativa de trazer a cultura popular – e nem falo só da capoeira – para uma esfera em que ela seja valorizada, em que as pessoas enxerguem a capoeira ou a cultura popular de uma forma diferente, dentro de um teatro, como um trabalho profissional. Junto ao teatro inglês, trouxemos isso para um nível ao qual geralmente as pessoas não têm acesso. A capoeira, ou o samba, tá basicamente na rua, e por isso ninguém consegue vê-la como uma arte que pode ser levada a um nível de artes eruditas, finas, algo

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assim. Trazer a capoeira para o ambiente teatral, eu acho que a valoriza, dá esse valor que a pessoa não consegue enxergar quando vê simplesmente uma aula de capoeira. Com toda a mitologia, com toda a simbologia que ela tem na rua, mas trazendo isso para o teatro.

E completa:

“Quando você está lá [Inglaterra], você realça mais essa coisa da brasilidade. Mas acho que o que me identifica mais lá é essa minha visão da capoeira ligada a outras áreas da cultura, outros setores como o teatro e a literatura. Querer levar a capoeira para um outro nível, um outro ambiente, para que esses setores ajudem a capoeira.”

Para terminar a conversa que tivemos em duas sessões de entrevista sobre seus processos de intercâmbio com o Reino Unido – que já acontecem há trinta anos e que resultaram num trabalho conjunto com Greg Hicks a partir de um texto de Shakespeare –, peço a Alex para me tirar um dúvida: como é que se descreve o que é a capoeira, para um inglês? Ele responde:

“‘Capoeira class is a mixture of martial arts, dance, theatre and music’ [A aula

de capoeira é uma mistura de artes marciais, dança, teatro e música].

Quatro elementos basicamente E eles ficam: ‘Mas como pode? Como pode uma luta ter música? Como pode uma dança ser jogo e um jogo ainda ter ritual?’ Aí você ganha interesse deles.

NOTAS

1. Besouro Magangá, também conhecido como Besouro Negro e Besouro

Cordão de Ouro, foi um capoeirista baiano que no início do século XX tornou-se o maior símbolo da capoeira baiana. Sua fama chegou ao nível nacional a partir dos anos 1930 e, com a expansão da capoeira para outros continentes, internacionalizou-se.

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SHAKESPEARE:

UM CLÁSSICO BRASILEIRO