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A experiência da Escola, sediada num dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro, sempre chamou atenção de fotógrafos profissionais, do Brasil e do exterior. Dante Gastaldoni conta:

Marc Riboud, por exemplo, fotógrafo francês da Agência Magnum, de 80 e poucos anos, que foi contemporâneo de Cartier Bresson e Robert Capa, estava num festival de fotografia em Porto Alegre, convidado para mostrar suas fotos sobre Maio de 68 na França, e disse que queria conhecer a Escola, que tinha ouvido alguém falar. Em 2014, recebi um telefonema dizendo que Oliviero Toscani7 estava no Brasil e

queria conhecer um projeto de fotografia numa favela brasileira. Na hora, o nome que deram para ele foi o da Escola de Fotógrafos Populares Imagens do Povo.

Mostrar novos olhares sobre a favela e fazer com que os fotógrafos da Escola conhecessem outras realidades foi um tipo de intercâmbio que se tornou marca importante do Imagens do Povo. Ainda que não fosse de forma sistemática, os alunos sempre foram estimulados a viajar pelo Brasil e pelo mundo, apresentando o trabalho do Imagens e conhecendo outras experiências afora. “O primeiro fotógrafo do Imagens que fez a Escola e deu

workshop no exterior foi Bira Carvalho, na periferia de Londres, em 2006”,

destaca Dante, citando a viagem organizada em torno da exposição

Belonging: an inside story from Rio´s favelas, apresentada na Canning House,

em Londres.

Segundo Kita Pedrosa, primeira coordenadora do Imagens do Povo (entre 2006 e 2010):

As pessoas estão o tempo todo se transformando e essa experiência de sair, atravessar uma fronteira, muito mais marcada, de um país para o outro, é fundamental, e marca qualquer um. Para um fotógrafo que mora em favela e que está acostumado com um outro tipo de

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fronteira, que também existe e é simbólica, da favela para a cidade formal, entre mil aspas, acho que é mais uma oportunidade de perceber que essa fronteira pode não significar uma violência, uma ruptura. É simplesmente uma oportunidade de conhecer algo diferente de alguma forma e que certamente vai te enriquecer, especialmente para quem está acostumado a observar o mundo, coisa que o fotógrafo faz. Para um fotógrafo acho que é uma experiência muito rica, e no caso desses, que estão nesse contexto que falei, muitas vezes as fronteiras simbólicas são um cruzamento doloroso, porque é a partir de uma visão de ser discriminado, de estar de um lado que não é bem visto. Ir a um outro lugar, uma fronteira sendo atravessada, é uma oportunidade de enriquecimento cultural e artístico. Talvez lá fora eles sejam enxergados como quaisquer outros, e não como o são aqui no Rio de Janeiro, como sendo de uma favela. Talvez lá eles se igualem a quaisquer outros. Mas aí tem outras questões também. Acho que o meio artístico recebe os fotógrafos bem. Por tudo isso, a experiência de intercâmbio só pode ser boa, enriquecedora.

“Eles têm oportunidade de ver outra realidade totalmente diferente da deles. Só isso já é um primeiro choque cultural e coloca muitas questões à prova”, diz Joana Mazza, que sucedeu Kita na coordenação do IP. Citando os

casos de AF Rodrigues e Ratão Diniz,8 Joana vê claras diferenças entre o

resultado do seu trabalho quando comparado ao de outros fotógrafos que não passaram pela experiência do intercâmbio. “É muito diferente do

trabalho de outros que viajam menos. Vejo muito claramente a diferença: o Ratão voltou de Londres com uma pegada muito urbana, principalmente no material do grafite. Acho que ele evoluiu muito”, diz.

Para Rovena Rosa, primeira aluna da Escola de Fotógrafos Populares Imagens do Povo a assumir a coordenação do projeto, ocupando o cargo entre 2015 e 2016, intercâmbio é sempre uma experiência enriquecedora:

“Não precisa ser num outro país: pode ser numa tribo indígena, quilombola, qualquer experiência que você saia da sua realidade e vai conhecer uma diferente, já te acrescenta de qualquer forma. Você já se torna uma outra pessoa. Se está sendo estimulado a desenvolver um projeto lá é melhor ainda”.

Rovena exemplifica citando o impacto causado por cada viagem de trabalho que Ripper fazia quando dava aulas no Imagens do Povo e convidava um aluno para acompanhá-lo como assistente. “Você via como a

pessoa desabrochava quando ia viajar com Ripper. E é provavelmente o que acontece quando esses fotógrafos saem para fazer esse tipo de intercâmbio em outro país”, compara.

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Os alunos do Imagens do Povo são bastante permeáveis às experiências que acontecem nos intercâmbios porque as trocas estão na base do programa da escola, acredita Joana Mazza: “A própria formação deles é com relação ao outro. Eles não têm um foco central na paisagem, a relação deles é com o outro”. Dante Gastaldoni, por sua vez, pontua um outro aspecto, ampliando a ideia de intercâmbio e troca de saberes para o contexto local:

O intercâmbio em si se insere magistralmente nessa política de troca, base de todo o curso. Quando você convida fotógrafos para falar, ou o Seu Joaquim,9 morador da Maré há 50 anos, para contar a história da

favela, é porque contar a história na ótica do morador, que morou na palafita e viu a Maré ser aterrada pelo Governo Lacerda, as casas irem crescendo… Ele deu aula para esses moleques também. Não é só fotógrafo que dá aula. Essa troca de saberes é altamente válida em si. Agora, se você pegar essa troca de saberes vinda através de um intercâmbio, ela já denota uma outra coisa: tem gente de longe interessada em mim. E eu estou interessado em tudo o que posso aprender lá. Isso se traduz, mesmo que de forma difusa, numa injeção gigantesca de autoestima nessa molecada. Não é só uma troca de experiências, mas é uma troca que revela uma interação além-mar, como se os horizontes estivessem subitamente se ampliando para além do que as objetivas alcançam.