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Coordenadora de Metodologia e Coordenadora de Produção, Ana Paula Lisboa e Veruska Delfino, respectivamente, foram alunas de Faustini e trabalharam com ele em vários projetos até chegarem à Agência, onde estão desde o início. Responsáveis pela formação daqueles que lidam com os jovens na Agência – os mediadores, tutores e universitários –, para elas o intercâmbio com o Reino Unido provocou mudanças bastante sensíveis no projeto no Brasil. De acordo com Ana Paula, as questões mais específicas relacionadas à metodologia e às diferenças culturais entre os dois países surgiram a partir do momento em que os jovens no Reino Unido começaram a transformar ideias em projeto. “Nesse momento, começaram a demandar

mais coisas para a gente e senti necessidade de ter uma organização diferente, porque a gente tinha que pensar se havia projetos parecidos entre os jovens de lá e os daqui, para fazer as reuniões por Skype entre eles, por exemplo”, conta. “A gente perguntava sempre que ideias estavam surgindo lá para dizer com que ideias elas dialogavam aqui. Então os jovens de lá viram muitas referências de projeto da Agência”, reforça Veruska.

Como o idioma estrangeiro não é dominado pelas equipes de nenhum dos dois países, a presença do tradutor é sempre indispensável – seja nos encontros presenciais ou por Skype. A sistematização das práticas é uma

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das maiores diferenças entre a forma de operação brasileira e a britânica. Veruska explica:

Na Inglaterra, é tudo muito sistemático. Aqui é mais flutuante. Isso nos ajudou e, de alguma maneira, com certeza impulsiona a nossa organização a ser melhor, nos ajuda a ter mais clareza de que tipos de categorias a gente tem no nosso banco de projetos, por exemplo. Eles se espelham muito em nós porque a metodologia nasceu aqui e é aplicada lá de forma integral, como um espelho. E se demandas diferentes aparecem, quando a gente consegue sistematizar, temos respostas de forma mais rápida. Não dava para exigir isso quando o projeto nasceu. Mas hoje, depois de cinco ou seis anos, já temos mais clareza e precisão.

Um exemplo simples, mas crucial, nessa transferência de metodologia é a forma de relacionamento com o jovem, monitorado de perto pela equipe. O comportamento nos dois países apresenta traços semelhantes. Faz parte do procedimento e do desafio, tanto na Agência quanto na The Agency, treinar a equipe para manter o jovem bem próximo, ao longo de todo o ciclo. Ana Paula conta:

Há problemas que são previsíveis. Quando o jovem não aparece, a gente já sabe o que fazer: tem que ligar e perguntar o que aconteceu. Tem que telefonar antes da atividade também. Se foi marcado grupo de estudos às 14h, quando der 12h30, horário que o jovem sai da escola, tem que ligar e lembrar do compromisso. Entre 12h e 14h, muita coisa acontece na cabeça de um jovem. Então tem essas coisas que a gente replica e funciona. Isso é previsibilidade.

No processo de intercâmbio, as equipes que coordenam os projetos em Londres e Manchester costumam visitar o Brasil, assim como a equipe brasileira vai ao Reino Unido fazer treinamentos ou acompanhar a aplicação da metodologia. Ana Paula Lisboa foi a Londres pela primeira vez em abril de 2015, quando a The Agency estava em seu segundo ciclo. Veruska Delfino foi no segundo semestre de 2016. Quem viaja com mais frequência é Marcus Faustini, que criou outras oportunidades de intercâmbio com outros projetos que elaborou – um deles, o Festival Home Theatre.

A The Agency começou a funcionar com os jovens pouco depois que a equipe inglesa esteve no Brasil para a formação na metodologia. Como a metodologia da Agência era bastante diferente da forma como o BAC e o Contact estavam habituados a trabalhar, abrindo muito espaço para se

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adaptar às ideias dos jovens participantes ao longo do processo, as equipes do Reino Unido se propuseram a fazer um ano piloto, aplicando a

metodologia da maneira mais fiel possível para entender o funcionamento das ideias na prática e no contexto britânico. Faustini lembra o período:

Da primeira vez que fui, pedi para aplicar a metodologia inteira em dois dias num grupo de jovens, que era um grupo de controle. Com eles, fui vendo como me comportar, o que fazer. A relação com esses jovens foi muito boa. Tem muita coisa igual. Primeiro: lá, eles não se reconhecem na diáspora. Aqui, não se reconhecem na família anterior, que veio da Paraíba, do Nordeste, ou que tenham um discurso anterior de vida. Mas ele também ainda não tem lugar de fala na cidade. Não tem o discurso. Ele reconhece o presente, o “agora é minha hora”. Tem que rolar um jeito de se aproximar desse jovem.

O processo de trabalho da equipe da Agência e da The Agency é bastante semelhante. Lá e cá a equipe é formada por monitores e tutores. No Brasil, há participação de universitários e, no Reino Unido, de recém-formados. Os jovens se inscrevem já com uma ideia para um projeto que, ao longo do processo criativo, será avaliado por uma banca. A escala no Reino Unido é menor que a do Brasil: lá são apenas dois núcleos – um em Londres, outro em Manchester – e a quantidade de participantes em cada um deles também é menor: 15 jovens em cada. Cada núcleo está vinculado a uma instituição distinta e em territórios diferentes – o BAC, em Winstanley Estate, em Londres, e o Contact Theatre, em Moston e Harpurhey, no norte de Manchester. Os ciclos de formação dos jovens duram os mesmos três meses. O espanto com as semelhanças e diferenças dos contextos é uma constante. Ana Paula conta:

Tem uma coisa muito básica de diferença: a gente, brasileiro, toma um susto quando eles mostram o que seria a “ favela”, o lugar mais pobre. A gente fica meio “tem certeza?”. Tem uma diferença básica que é a estrutura. A gente está aqui nas favelas do Rio ainda lutando por saneamento básico. Os meninos da Inglaterra, quando vieram pra cá, ficaram espantados ao ver que as pessoas estavam na rua

protestando e pedindo por algo tão básico como saneamento.

O objetivo da Agência é atingir os jovens das comunidades que normalmente não estão no radar dos projetos estabelecidos nesses lugares. Ana Paula explica:

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Quando a gente fala que é parecido o perfil do jovem daqui e de lá, é o que a gente provoca que seja. Trabalhamos com jovem pobre que tem poucas oportunidades de acessar um repertório diferente. O jovem que a gente procura é aquele que não está inserido ainda na rede, que está na parte mais pobre da cidade, que está ainda mais distante. Quando a gente fala de favela, a gente coloca tudo como um bloco só, mas dentro da favela tem muita diversidade social. É tão surreal que quem mora na parte mais pobre da comunidade às vezes não acessa a rua principal, por exemplo, onde tem tudo.

Veruska completa: “Por isso há entrevista com o jovem: precisamos traçar

esse perfil de alguém que não tem oportunidades de acesso. É esse cara que a gente quer. Por isso temos que usar a estratégia de conceder bolsa, da produção ligar perguntando por que ele faltou… É uma conquista”. Para

Veruska, há uma diferença bem importante entre os jovens dos dois países.

“Lá eles têm escolaridade”, aponta. Os do Brasil, em geral, não chegaram a

concluir o ensino médio. Como lida com jovens em situação econômica bastante vulnerável, a Agência, assim como The Agency, viabiliza a participação deles nas atividades concedendo uma bolsa ao longo da formação e um prêmio para que as ideias sejam implantadas e possam contribuir para o sustento deles.

Faustini vê clara diferença entre as propostas que surgem no Brasil e no Reino Unido. “Aqui o desejo, a ideia dos jovens é mais social, como atender

grávida, criar jornal comunitário. Lá, é mais indústria cultural, criar projeto para música, arte, fashion. De alguma maneira, eles veem lá a indústria criativa como a rede a se acessar. Aqui, a possibilidade de eles começarem alguma coisa é no campo social e artístico”, compara.

NOTAS

1. Programa de segurança pública implantado pela Secretaria de Estado de Segurança do Rio de Janeiro a partir de 2008, que prevê parcerias entre a administração municipal, estadual e federal com a sociedade civil organizada, com o objetivo de atuar e retomar comunidades dominadas pelo tráfico, contribuindo para o desenvolvimento social e econômico ao permitir a entrada de serviços públicos, infraestrutura, projetos sociais, esportivos e culturais, investimentos privados e oportunidades nestes territórios. Oito anos depois de seu início, há 38 UPPs instaladas no Estado, mas, em crise, o programa de pacificação demonstra sinais de esgotamento, sem ter alcançado seus objetivos iniciais.

123 umA metodologiA cAriocA no reino unido

UMA METODOLOGIA CARIOCA