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A dual formulation and asymptotic calculations

“Em Becontree, quando a gente se deparou com a comunidade, existiu alguma dificuldade de se inserir, do projeto ser acolhido por eles. Aí, o desafio inicial foi: como é que a gente conseguiria fazer com que as pessoas se interessassem pela proposta? Aqui no Brasil, se eu chego com a câmera em um espaço popular, as pessoas vão ficar meio cabreiras, mas se aproximam. Lá, não. É aquela coisa: “Quem é esse cara?”

Nascido na Maré, filho de pais nordestinos e formado nas primeiras turmas do Imagens do Povo, AF Rodrigues comenta a experiência de fazer

intercâmbio no Reino Unido, onde esteve pela primeira vez em 2015 para ministrar workshops de fotografia que resultaram na exposição Becontree

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. Com um portfólio composto por imagens que abordam vários aspectos da vida na favela – do carnaval à paisagem, dos retratos dos moradores às cenas do cotidiano –, AF mantém seu foco na documentação social, capturando nas suas imagens cenas da vida política, cultural e pessoal do ambiente que o cerca.

Entrevistado antes e depois da sua viagem à Inglaterra, AF Rodrigues fala sobre suas expectativas em relação ao intercâmbio e relata suas impressões sobre a experiência vivida nas cinco semanas em que compartilhou com aquela comunidade britânica a formação profissional adquirida no projeto Imagens do Povo. As comparações entre a Maré e Becontree, entre Rio e Londres, e as diferenças que percebeu entre as características das periferias cá e lá atravessaram todo o seu depoimento. O impacto desses contrastes foi, sem dúvida, um aspecto marcante da temporada de AF Rodrigues no Reino Unido.

Ele conta: “Falaram para mim que Becontree era a favela de Londres.

Olhei na internet e vi uns prédios uniformes, todos muito parecidos. A realidade da pobreza deles é distinta da nossa. O pobre lá tem mais recursos”.

Mas AF nota que existem, também, muitas semelhanças: “As realidades

são distintas até certo ponto”. E explica:

Fui apresentar a forma como a gente se apropria da imagem para contar uma versão diferente da que é disseminada na mídia sobre a Maré e outros espaços favelados do Rio e do Brasil. E soube que as práticas de dominação lá são muito parecidas: também é dito para o cara de Becontree que ele mora num lugar horrível, que não tem direito de circular na cidade, a grande Londres. Becontree é a periferia da periferia.

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A partir das observações dos traços em comum, AF Rodrigues foi

construindo a dinâmica de trabalho, aplicando a perspectiva empregada no Imagens do Povo: fotografar o familiar. E começou logo na primeira semana, numa das visitas que realizou para divulgar o workshop, quando fez uma saída fotográfica com alunos de fotografia de uma faculdade local e, no final desta, realizou uma mostra relâmpago dos resultados. Tudo foi feito no mesmo dia. Antes da saírem para fotografar, AF apresentou o briefing da proposta: “Falei: 'Vocês passam por aqui todos os dias e deixam de perceber

os detalhes. Então esse momento é para a gente observar e entender que existe uma imagem interessante aqui’". O processo de construção da

exposição também foi nos moldes do Imagens do Povo:

A gente não fez nada diferente do que se faz lá: teve um papo inicial, todos falaram, depois saímos para fotografar, eles perguntaram e eu perguntei, porque não conhecia o lugar. Depois, não poderia ser diferente: construímos a montagem da exposição coletivamente. Eu poderia ter simplesmente pendurado as fotos na parede, mas nós estávamos aprendendo juntos. Assim, montamos uma linha

cronológica de acontecimentos, tentando criar uma historinha. Depois, perguntei qual seria o nome da exposição. Ninguém falava, todo mundo tímido. Perguntei: “Quanto tempo ficamos fotografando?”. “40 minutos”, responderam. “Beleza, o título vai ser ‘40 minutos em Becontree’”.

Desde esse primeiro momento, a grande diferença de recursos e

infraestrutura de uma instituição acadêmica situada na periferia londrina e as existentes no contexto da Maré e outros territórios populares do Rio de Janeiro deixaram AF surpreso e assombrado:

“Quando cheguei lá, perguntei: “Isso aqui é uma faculdade ruim?” A parada parecia futurismo, era tudo colorido, tinha laboratório disso, daquilo, tudo! Paredes de vidro, você passava no corredor e via a galera nas salas estudando ou trabalhando. Era surreal. Tinha estúdio, com fundo infinito de três metros de altura, com mais dois metros para dentro, pé direito gigantesco para colocar luzes. Tinha uma sala de estudo gigante, com várias baias, vários Mac’s gigantes, de 27 polegadas, para quem tivesse que fazer trabalho ou pesquisa, conectados com duas impressoras HP gigantes para fazer cópias de um metro e pouco, com papel fotográfico, tudo com internet, tudo fantástico. E ainda tinha outra sala, uma galeria para expor o trabalho. E essa era a faculdade para a galera de Becontree, os que lá eles consideram como pobres coitados.

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Se, no entanto, por um lado, a experiência inicial deixou evidente que a infraestrutura não seria uma dificuldade para a realização do trabalho, por outro, a adesão da comunidade à proposta – de se deixar fotografar e realizar a exposição com imagens feitas nos quintais, jardins e espaços abertos da região – não foi tão bem recebida. AF atribui essa resistência a uma questão cultural: “Quando a proposta foi apresentada à comunidade,

houve alguma dificuldade dela ser acolhida por eles. Aí, o desafio passou a ser: como fazer com que as pessoas se interessem pela proposta?” Essa

resistência chama a atenção de AF, que destaca as nuances que percebeu entre as diversas comunidades de Becontree – a comunidade negra, a galera latina, a galera muçulmana. Explica: “No Brasil, se eu chegar com

uma câmera em um espaço popular, as pessoas podem até ficar meio cabreiras, mas vão se aproximar. Lá, não. É aquela coisa: 'Quem é esse cara? Nem parece um inglês, está mais para marroquino, ou colombiano'”.

E a resistência foi tal que a proposta inicial precisou ser adequada. AF relata:

A ideia era escolher umas locações, conversar com os donos dos quintais, do jardinzinho das casas, jogar um painel e espalhar as fotos por toda Becontree. Assim, por onde alguém andasse, a pé, de ônibus ou de carro, veria uma obra de um artista local. Só que as pessoas eram meio fechadas e isso não foi possível. Essa dificuldade de adesão só não foi um problema maior porque conseguimos resolver na “capoeira”, no jogo de cintura. A biblioteca, local que concentra a comunidade e é um ponto de referência e encontro da juventude, estava disponível e resolvemos fazer a mostra ali mesmo.

Essa não foi a única ideia de que AF precisou abrir mão. Antes de iniciar o trabalho, tinha pensado em propor saídas fotográficas com a turma também para fora de Becontree. Ele justifica, dando o exemplo do trabalho que realiza no Brasil: “Faço um trabalho dentro da Maré, mas, se fico só na Maré,

reproduzo uma política de confinamento. Por isso minha ideia era que o trabalho revelasse qual o olhar de Becontree para a grande Londres. Mas não pude realiza-la porque o projeto para o qual fui convidado previa que o campo fosse restrito a Bencontree. E, como tivemos que ganhar a adesão do público, fizemos o que já estava combinado”.

Os alunos do workshop eram de origens e idades variadas e alguns aproveitaram para dar continuidade a ideias fotográficas que já tinham, sem que tivessem tido oportunidade de desenvolvê-las anteriormente. AF Rodrigues, com sua experiência, pôde dar uma grande contribuição para a realização do trabalho fotográfico, discutindo ideias, formatos e questões

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técnicas. Mas, para isso, precisou enfrentar outra ordem de obstáculo, que dificultou de forma considerável sua comunicação com a turma: a falta de domínio do idioma.

“Você se depara com a situação de querer aproveitar as coisas na sua plenitude e não consegue, porque não fala a língua. É cruel. Eu não tinha nenhum problema em pegar o metrô no meu horário livre e ir para algum canto, mas ficava receoso. Eu ia, mas quando chegava no museu, por

exemplo, diante de uma obra de não sei quantos mil anos atrás, não conseguia ler o que estava escrito para aproveitar melhor a história”, relata.

AF menciona ainda um aspecto que considerou importante para o resultado do intercâmbio: sua localização espacial na cidade e a possibilidade de conviver com a comunidade onde se realiza o trabalho. No início da temporada, ele ficou hospedado na região central de Londres e ia diariamente para Becontree, utilizando transporte coletivo. Segundo conta, “era maneiro estar numa região de

classe média, mas, como o trabalho era na periferia, eu queria estar na periferia. Acordar, se eu quisesse dar um rolé de manhã naquelas ruas próximas, para não me perder, já que quase todas as ruas eram iguais, seria ótimo. Mas como o transporte lá funciona e o ônibus e metrô chegam na hora, acabou dando certo”.

Mais adiante ele se mudou para Becontree e pôde ter a experiência de viver naquela periferia: “Becontree é grande pra cacete, só que não tem nada, é um

dormitório. A rua principal tem o mercado, a estação, a biblioteca, um comércio, um pub. O resto é só casa. Aquilo ali foi projetado depois da guerra para as pessoas trabalharem, voltarem para dormir e ficar no pêndulo, né?”.

Ao comparar Becontree com bairros-dormitório do Rio, AF Rodrigues percebe uma grande diferença entre as duas periferias, para além do menor poder aquisitivo que geralmente caracteriza quem mora nesses locais:

Acho que a questão climática influencia: lá não tem como ficar na rua o tempo todo. As pessoas ficam mais entocadas do que a gente. Elas são mais fechadas. No Brasil não tem como ficar em casa. Nosso

problema é diferente: a gente sempre foi educado para mendigar, entendeu? Então, qualquer coisa que aparece, o pobre está receptivo. Lá, não. A pobreza é entendida pelo Estado de uma forma diferente, a educação é diferente da nossa. Então, isso influi no comportamento social, nas relações sociais que os moradores das periferias de lá têm entre eles e com os estrangeiros.

Analisando seu período de intercâmbio em Londres, AF Rodrigues avalia que teve uma experiência produtiva e transformadora. “Acho que foi uma

vivência de troca, sim. Aprendi muito”, diz, destacando ainda outro aspecto

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“Quando eu ia nos museus, como, por exemplo o de Ciências Naturais, que é muito interativo, vendo aquelas crianças tendo acesso àquele tipo de espaço, de informação, de vivência, que o pobre brasileiro não tem, pensei: isso tinha que ser para todo mundo. Aí me vêm aquelas questões da meritocracia. Que meritocracia é essa? Não tem como dizer que uma criança com essas possibilidades de acesso à informação e à cultura tem as mesmas chances do que o Dudu, morador da rua Jorge Luís, na Maré, cujo pai trabalha o dia inteiro e a mãe também. Aqui no Brasil, pegam uns casos específicos e únicos, como o do rapaz que estava no lixão, pegava os livros e se formou, e querem generalizar. Você vê como é um país de primeiro mundo e como é a pobreza do primeiro mundo e percebe que toda pobreza é cruel, mas que há diferenças importantes. Aí, nesse sentido, quando você viaja, ganha capital de conhecimento, se instrumentaliza, querendo ou não, para as suas lutas pessoais. Penso assim”.