• No results found

A sufficient condition for interpolation in H p

A história desse intercâmbio inicia-se com alguns encontros em que as instituições envolvidas identificam um ethos semelhante entre si. Contact Theatre, Battersea Arts Centre (BAC) e ARPJ definem-se como instituições artísticas e têm seus objetivos organizacionais2 claramente voltados para a

124 umA metodologiA cAriocA no reino unido

em diferentes graus, voltados para jovens. Embora a redução das desigualdades, no caso das organizações britânicas, não seja um objetivo tão central como ocorre com a ARPJ, seus diretores artísticos claramente estabelecem diretrizes para que os programas implementados reflitam cada vez mais a diversa demografia das cidades onde estão sediadas as organizações, engajando artistas e público historicamente não tradicionais dos seus centros. Assim, embora de diferentes maneiras, as três

instituições apresentam fortes semelhanças no que diz respeito à sua visão organizacional, que inclui um papel social para a arte.

O Contact Theatre é possivelmente a mais importante organização britânica dedicada ao trabalho com jovens. Por muitos anos, o Contact tem incluído os jovens em seus processos de decisão, programação e criação de atividades para e por eles. Essa característica tão central da organização parte do princípio de que a arte é transformadora na vida dos jovens, especialmente daqueles que tem menos acesso a oportunidades educacionais e culturais.

O Battersea Arts Centre (BAC) é um dos principais centros culturais de Londres. Fundado em 1980 para ocupar a antiga prefeitura de Battersea, quando o bairro tornou-se parte de Wandsworth, sua missão até muito recentemente3 era a de “inventar o futuro do teatro”. David Jubb tem

trabalhado como produtor teatral no BAC por muitos anos, assumindo o papel de Diretor Artístico em 2004. Sob sua liderança, o BAC tem se concentrado em colaborar com artistas emergentes e já estabelecidos, desenvolvendo espetáculos através de processos criativos “não tradicionais”. Através de seu antigo programa, chamado Scratch, empresas são estimuladas a colaborar com novos artistas e

sistematicamente receber feedback de seus colegas, produtores e público desde os estágios iniciais de seus processos de planejamento. O Scratch tornou-se uma palavra onipresente no BAC, uma metodologia que ajuda a conduzir cada projeto, desde espetáculos até o desenvolvimento da sua sede. Scratching [arranhar] um projeto ou uma ideia geralmente significa criar uma série de discussões (geralmente testes práticos e

experimentais) com os envolvidos, especialmente com o público ou usuários finais.

Liz Moreton é uma produtora sênior que também tem trabalhado por mais de uma década no BAC, liderando o programa de sua jovem companhia teatral (Homegrown) por alguns anos. Nessa função, Liz tem sido o principal ponto de contato para o BAC, em conversas com a ARPJ desde o início. Scratch e Homegrown resumem dois dos principais

elementos da programação do BAC que se identificaram com a metodologia da ARPJ, já que na época eles eram as duas principais vertentes através das

125 umA metodologiA cAriocA no reino unido

quais o BAC se conectou com os jovens e aplicou a criatividade, além da realização de espetáculos com artistas profissionais.

David Jubb, Liz Moreton e Marcus Faustini4 encontraram-se pela

primeira vez numa ocasião informal em um café no Rio de Janeiro, tendo sido apresentados por Paul Heritage.5 Segundo Jubb, a informalidade do

encontro e a ausência de uma agenda pré-determinada permitiu que um relacionamento baseado em valores se desenvolvesse antes mesmo de um projeto conjunto ser cogitado. Ele acredita que isso teve um importante papel no sucesso do projeto, especialmente no que diz respeito ao seu desenvolvimento no longo prazo.

O Contact Theatre e o Battersea Arts Centre há anos admiram o trabalho produzido um pelo outro e têm uma longa história de troca de espetáculos sendo apresentados entre as duas instituições. No entanto, nunca tinham trabalhados juntos num mesmo projeto, como na The Agency.

Coincidentemente, Suzie Henderson, Chefe de Desenvolvimento Criativo (Head of Creative Development) do Contact Theatre, também tinha visitado o Rio de Janeiro em 2010, através do programa Pontos de contato.6

Ela não se encontrou com Faustini na ocasião, mas conheceu várias organizações que trabalhavam em contextos sociais semelhantes. Para Jubb, quando a ideia de realizar um projeto inspirado na ARPJ surgiu, instigada pela divulgação do edital da Fundação Gulbenkian, a oportunidade de trabalhar colaborativamente com o Contact foi

simplesmente “natural”, dada a liderança nacional daquela instituição no trabalho com jovens.

O primeiro encontro de Faustini e Henderson ocorreu em Manchester, em março de 2012, também pelo programa Pontos de contato. “Descobrimos

que havia valores compartilhados ao pensar no trabalho que estávamos fazendo com os jovens: sua liderança e seu empoderamento”, diz Henderson.

Nesse momento, BAC, ARPJ e Contact já conversavam sobre uma potencial inscrição conjunta no edital da Gulbenkian Foundation.

Se parte das razões pelas quais esse encontro foi possível se coloca na abertura de David para novas práticas encontradas, talvez de forma inesperada, no Brasil, para ele são claras as duas principais razões pelas quais, dentre todos os artistas e organizações com quem encontrou no Brasil, foi com a ARPJ que o relacionamento se desenvolveu. Primeiramente, na sua dimensão política, a metodologia objetivava subverter hierarquias tradicionais, dando oportunidade para os próprios jovens liderarem com a transformação social de suas localidades. Em segundo lugar, o programa lhe pareceu muito similar com prática da Scratch, no que diz respeito ao uso da atividade criativa para fins não necessariamente artísticos, ao mesmo tempo em que oferecia elementos novos.

126 umA metodologiA cAriocA no reino unido