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1. General Introduction

1.3. Process analytical chemistry

Uma migração em massa ocorre quando todo um povo – homens, mulheres e crianças –, levando tudo que possui, abandona sua terra e percorre longas distâncias em um ou vários anos. Esses gigantescos movimentos populacionais estão ligados a verdadeiras catástrofes. A população migrante pode ser muito numerosa. É assim que em 429, pressionados pelos visigodos, 80000 vândalos passariam da Espanha para a África devido ao chamado de um governador bizantino revoltado. Mas essa migração era o resultado de uma redistribuição

geral da população da Europa31. A maior invasão que se deu na África do Norte

foi a dos banū hilāl e dos banū sulaym a partir de 1052. Ela ocorreria devido às secas ocorridas na Arábia. Ela continuou até por volta de 1500, data na qual ela atingiu a Mauritânia. Com as correntes migratórias dos árabes rumo ao Sudão e o Chade, ela modificou o mapa cultural de toda a África do Norte que se tornou inteiramente arabizada32. As verdadeiras migrações em massa são espetaculares

e suas consequências são consideráveis; portanto, não causa espanto que sejam muito raras. Entre 1500 e 1800, a única verdadeira migração em massa foi a dos oromo, à qual é preciso acrescentar os deslocamentos que ela provocou em outros povos. No século XIX, as únicas migrações em massa foram as do nguni, migrações muito conhecidas que alteraram drasticamente a África, do Cabo a Nyanza.

As migrações em massa eram empreitadas difíceis. Os batedores tinham de reconhecer o terreno. Era preciso guardar provisões para os migrantes, que não podiam satisfazer suas necessidades da mesma maneira que antes da partida. Tornava -se muitas vezes necessária uma nova organização social e política, que era frequentemente do tipo militar. Os migrantes deviam então se adaptar a novos meios naturais, inventar novas formas econômicas e sociais e eram, muitas vezes, levados a agressões e pilhagens, mesmo quando se tratava de criadores de animais se deslocando com seus rebanhos. Os membros de outras sociedades parcialmente ou completamente desorganizadas podiam se juntar aos migrantes, cujo número, deste modo, aumentava progressivamente. As migra- ções podiam também ocorrer de modo súbito, suscitando graves confrontos e provocando movimentos de refugiados, migrações secundárias ou expansões rápidas. Resumindo, tais movimentos populacionais implicavam cataclismos e alterações drásticas das relações do homem com o espaço em larga escala. Mesmo quando a migração inicial se desenrolava muito rapidamente, os movi- mentos populacionais que ela provocava podiam durar mais de um século, até a fixação dos últimos refugiados. Assim, a migração dos oromo começou talvez por volta de 1530 -1540, mas a região que eles atravessaram não reencontrou sua estabilidade senão por volta de 1700. É fato que as grandes expansões duravam muito mais tempo ainda.

Nossa descrição aplica -se aos casos mais extremos. Nos períodos mais anti- gos e muito menos conhecidos, é frequentemente difícil distinguir as migrações em massa das expansões rápidas mais maciças, em especial quando se trata de 31 C. Courtois, 1955.

pastores. É assim que a progressão dos luo através de inúmeros meios diferentes durante vários séculos é frequentemente considerada como uma migração em massa. Ela se dava com comunidades inteiras e provocou numerosos movimen- tos secundários, alterando de modo forte uma vasta região, principalmente a leste do Nilo Branco. Outros deslocamentos importantes do mesmo gênero se produziram, na mesma época, no sul do Sudão e no norte de Uganda. Entre- tanto, o deslocamento dos luo durou muito tempo, talvez cinco séculos, e o que sabemos disso33 permite -nos pensar que se tratava mais de uma corrente migra-

tória do que de uma migração em massa, com os luo se deslocando geralmente com seus rebanhos e parando para cultivar o solo. Certas fases da migração dos oromo apresentam as mesmas características. Tais exemplos mostram que uma migração em massa parece, às vezes, muito com uma expansão maciça e que ela pode ser acompanhada também de correntes migratórias. Há, todavia, uma grande diferença entre as duas, fundada nas capacidades de produção e na estrutura militarizada de um vasto povo em marcha. Os processos não são idênticos.

Correntes migratórias e migrações em massa podem se combinar. O deslo- camento dos luo foi em sua totalidade uma expansão, mas podemos considerar como uma migração em massa a explosão súbita dos luo do Quênia que, no século XVIII, invadiram regiões muito povoadas para tomar novas terras à força. Ao contrário, o deslocamento dos oromo começou como uma migração em massa, depois no fim do século XVII e sobretudo no início do século XVIII, se transformou em uma expansão.

Como as migrações de massa são alterações cataclísmicas, elas são expli- cadas em geral por causas igualmente cataclísmicas, por exemplo, por bruscas variações climáticas como as secas seguidas de fome e epidemias. Mas elas não têm sempre causas desta natureza. A migração dos vândalos, por exemplo, está ligada a outras migrações e à queda do Império Romano e não foi produzida por uma catástrofe natural. Certos autores explicaram -na por meio de uma superpopulação relativa às migrações dos banū hilāl e dos oromo e o Mfecane, mas, até o momento, eles não apresentaram muitas provas para comprovar sua hipótese. As apresentadas vêm, de fato, de sua defesa de que as migrações em massa tinham todas por causa uma brusca diminuição dos recursos em relação ao número de pessoas. Um raciocínio semelhante não é válido porque, se é ver- dade que o mecanismo das migrações redistribui os homens no espaço, sua causa

pode variar. A pressão demográfica é apenas uma das causas possíveis. Assim, se uma pressão demográfica exerceu -se ou não sobre os oromo, foi a destruição recíproca dos reinos cristão e muçulmano que a desencadeou, ou então a própria migração dos oromo, ao menos na direção que ela tomou34. Alguns arqueólogos

defendem a ideia de que a população cresceu nas regiões de onde o Mfecane partiu. Mas o crescimento demográfico não basta para explicar esse aumento da população. Seria preciso ligar tal aumento de população ao que sabemos da predominância que os chefes militares haviam conquistado e aos movimentos populacionais que pareciam ter precedido o Mfecane no Zimbábue35. A pressão

demográfica foi, talvez, um fator de todas as migrações em massa – o que o número de migrantes bastaria a comprovar –, mas ela não foi em nenhum caso a causa única da migração.