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4. Experimental Work 1:

4.5. Discussion

muita resistência e apoderou -se de toda a Síria e da Palestina até o deserto do Sinai, fazendo da Síria um Estado -tampão entre a fronteira oriental do Império Otomano e o Egito1.

Entretanto, é evidente que os esforços dispensados pelos novos chefes a fim de retomarem a Síria, combinados à insistência dos conselheiros do Sultão e dos emires mamelucos, que se juntaram ao campo otomano, após a batalha de Halab, e empurraram -no a coroar sua campanha com a conquista do Egito, incitaram Selim a continuar sua marcha. Sem grande dificuldade, ele chegou ao Cairo e derrotou as tropas mamelucas, comandadas por Tūmān Bey, o último dos sultões mamelucos, em uma curta batalha ocorrida em Raydāniyya, em 23 de janeiro de 1517. Foi, então, o fim do sultanato mameluco.

A vitória dos otomanos sobre os mamelucos não se deu apenas em razão da superioridade militar, já que esta foi só a causa mais evidente. Aliás, a razão principal disso deveu -se à diferença das situações econômicas e políticas entre os dois Estados. Na Europa e na Ásia Menor, o Império Otomano esten- dia seu domínio pelos territórios que possuíam uma vida econômica evoluída, fundada na extração de minerais e na exploração de matérias -primas. Estas atividades concentravam -se em um certo número de centros de produção, cujas relações comerciais internacionais eram intensas, o que abria largas perspectivas de crescimento ao Império. Por outro lado, o Estado mameluco praticamente não dispunha de nenhum recurso mineral e apoiava -se, quase exclusivamente, na agricultura e no comércio internacional que transitava em seu território, cujo elemento principal, o comércio de especiarias do Oriente, pouco tempo antes, havia caído nas mãos dos portugueses, gerando, assim, um rápido declí- nio dos benefícios. Além disso, as importações de metais preciosos da África encontravam -se em clara regressão. Durante muito tempo, o Estado mameluco esforçou -se para resolver tais problemas através de uma utilização sistemática das reservas econômicas internas, completada por confiscações e sobrecarga tributária, medidas que suscitavam, entre os autóctones, o ódio para com a casta estrangeira dos mamelucos que os exploravam, e a esperança de uma libertação decorrente da queda do regime.

A vitória de Selim em Mardj Dabik, em 1516, causou profundas repercussões para a Ásia Ocidental e para a África do Norte. Ela selou o destino do sultanato mameluco do Egito, poupando a Pérsia do choque de uma nova invasão oto- mana, e salvou a Síria de uma destruição certeira, assegurando -lhe, ao contrário,

Figura 6.1 O Sultão Selim I, conquistador do Egito. ©The Hulton -Deutsch Collection, Londres.

um período de estabilidade que lhe permitiu se reforçar e, ironia do destino, até mesmo se tornar uma ameaça permanente para os otomanos. A conquista do Egito iria igualmente modificar a política otomana, a partir de então orientada para o domínio das rotas marítimas do Mediterrâneo, e levar o Império a empre- ender a conquista de outros países árabes da África do Norte.

Os últimos territórios conquistados abrangiam as regiões possuidoras de grande importância econômica, política, mas também estratégica. O Egito des- pertava um interesse muito particular em razão de sua agricultura intensiva, de sua numerosa população e de sua posição no Mar Vermelho, que impunha aos seus novos senhores a tarefa de continuar a luta contra os portugueses pela supremacia no Oceano Índico. Além disto, o prestígio dos sultões otomanos foi

realçado pelo fato de eles terem se tornado – como antes, os sultões mamelucos – os guardiões das duas cidades santas do islã, Meca e Medina, e das rotas de peregrinação da Ásia e da África.

Antes de abandonar o Egito, em setembro de 1517, Selim colocou Khāyr Bey, o antigo emir mameluco, à frente da província do Egito, decidindo mantê- -la na condição de entidade administrativa única. O tempo que duraram as funções de Khāyr Bey pode ser considerado como o período da transição para a autoridade otomana, sem concessão sobre o território conquistado. Khāyr Bey teve que abandonar a gestão do conjunto do território do antigo Egito, apesar do fato de dispor apenas de meios limitados para sustentar sua autoridade. Ele governou o Egito mais como vassalo do Sultão do que como administrador de província, ainda que seu mandato tenha sido renovado em termos oficiais, de forma que ele ocupou essa função até sua morte, ocorrida em 1522. Conservou o seu título mameluco Malik al -umarā (rei daqueles que comandam), mantendo sua corte segundo o ritual dos sultões mamelucos. Também se cercou de antigos dignitários mamelucos, dispostos a servir ao novo regime, confiando -lhes não só importantes tarefas na gestão das finanças, mas também cargos políticos e militares. Ademais, as modalidades da antiga administração não foram em nada modificadas e o pessoal administrativo permaneceu, por assim dizer, idêntico. A organização da justiça continuou baseada em um sistema de quatro juízes supremos, um para cada escola de direito.

Selim entregou a renda da província ao inteiro controle de Khāyr Bey. Quanto às ofertas regularmente enviadas por este último a Istambul, sede do poder otomano, mais representavam presentes pagos com suas próprias fontes, como prova de sua lealdade ao Sultão, do que tributos da província destinados ao Tesouro do Estado.

Khāyr Bey empregou grandes esforços para controlar os recursos materiais da província. Para conseguir isso, mas também para reduzir o poder político dos dignitários mamelucos, ele aboliu os iktā‘ (feudos) ainda existentes e os incorpo- rou aos bens do Estado. E, em contrapartida, aos seus antigos detentores foram atribuídos salários fixos pagos pelo tesouro provincial. Ele revisou também o regime de doação. Estas medidas permitiram a realização de um recenseamento cadastral completo e a atualização dos registros. Além disso, permitiram a Khāyr Bey cumprir o dever que lhe incumbia: assegurar o abastecimento em trigo das duas cidades santas, Meca e Medina.

Entretanto, os poderes de Khāyr Bey não eram ilimitados. O Sultão Selim tinha deixado um forte contingente de tropas estacionadas no Egito, destinado a consolidar o poder otomano e a dissuadir, caso necessário, os mamelucos de

Figura 6.2 Janízaros. Miniatura turca do século XVI. [Topkapi Museum, Istambul. ©Sonia Halliday Photographs.]

qualquer tentativa de retomarem o poder. Estas tropas eram compostas por dois corpos de infantaria, a saber, um destacamento de janízaros e outro de ‘azabān, e por dois corpos de cavalaria, aquele dos tüfenkçiyān e o dos gönüllüyān. Aos janízaros cabia a missão mais importante, ou seja, guardar a cidadela do Cairo, centro administrativo, sede do governo e do Tesouro da província. Os azabān eram encarregados de vigiar as rotas que conduziam ao Cairo, e de formar as guarnições dos fortins construídos nas zonas agrícolas, a fim de assegurar a pro- teção contra os ataques dos nômades. Os dois destacamentos da cavalaria eram utilizados para garantir a aplicação progressiva das novas decisões de Khāyr Bey sobre o conjunto do território egípcio. A fim de manter sua autoridade sobre estas unidades mal disciplinadas, Khāyr Bey formou suas próprias tropas de cavalaria, recrutadas dentre os antigos e novos mamlūk.

No momento da morte de Khāyr Bey, em 1522, o processo de incorporação do Cairo, a antiga capital de um Estado independente durante séculos e levada à posição de província otomana, estava plenamente lançado e tudo parecia indicar que ele estava prestes a se realizar.

A administração otomana e os conflitos internos da