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4. Experimental Work 1:

4.4. Experiments and results

4.4.5. Method selectivity

Bengasi OCEANO ATLÂNTICO Mar Mediterrâ neo OCEANO ÍNDICO Zanzibar Golfo Pérsico Mar Vermelho Mar Arábico Golfo de Bengala Equador ÁFRICA

Figura 5.5 A África, a Europa e a Ásia. Fonte: segundo um mapa estabelecido pelo Dr. Dulal C. Goswani, Departamento de Geologia e de Geografia, Universidade Howard, Washington, D. C.

no século XI, demonstram bem a importância de tal fenômeno nas diferentes regiões da Ásia. O extermínio dos Zandj não pode nos deixar esquecer que sua revolta contribuiu à ruína do califado abássida, bem como pôs fim à construção de barragens no sul do Iraque, atividade esta considerada por H. Deschamps como “o primeiro modelo de grande empreitada tropical edificada por queiras de escravos negros”. Um pouco mais cedo, no século VIII, dois escravos negros foram vistos na corte do Imperador da China e, no século XII, moradores de Cantão costumavam usar a mão de obra servil africana29. Alguns escritos da

época lembram -nos que o comércio dos escravos oriundos da África Oriental prosseguiu de maneira ininterrupta. Al -Mas‘ūdī o mencionou no século XI, assim como Al -Idrīsī no século XII, e no século XIV, Ibn Battūta descreveu a prosperidade de Kilwa, que devia muito ao tráfico negreiro.

29 UNESCO, 1979 e 1980; C. M. Wilbur, 1967, p. 93; E. Bretschneider, 1871, pp. 13 -22. No que diz respeito à diáspora africana na Arábia e na Ásia antes do período aqui em foco, ver UNESCO, História

É pena que os historiadores da diáspora africana não tenham estudado melhor a região da costa setentrional do Mar Mediterrâneo. Particularmente, nesse ponto de vista, a Turquia e os países vizinhos mereceriam um estudo apro- fundado, pois essa região constituiu durante séculos uma importante reserva de escravos provenientes de Tripoli e Bengasi, assim como uma zona de trânsito para o tráfico a destino das regiões do interior. A esse respeito, em 1696, a com- pra em Constantinopla de alguns jovens africanos para o Imperador da Rússia – Pedro, o Grande – merece destaque, já que entre eles figurava Abram Petro- vitch Hannibal, o bisavô de Aleksandr Pushkin. Ao que tudo indica, Hannibal teria nascido na Etiópia, onde fora capturado pelos Turcos. Ninguém sabe dizer quantos escravos africanos chegaram à Rússia e nas regiões vizinhas, passando pela Turquia, mas foram provavelmente poucos. Essa situação, assim como o fato da escravatura ter sido abolida na Rússia no decorrer do primeiro quarto do século XVIII, explicam talvez porque os africanos desse país eram empregados domésticos, e não escravos30. Ainda que insuficiente, a documentação ao nosso

dispor permite, contudo, pensar que a escravidão e a coerção a ela ligada não se desenvolveram na Rússia.

A maioria dos escravos importados para a Ásia eram crianças, com um número maior de meninas do que meninos. Embarcados nos portos da costa oriental da África, os escravos eram habitualmente transportados até al -Mukha (Moca), porto árabe do Mar Vermelho. A partir de lá, muitos deles eram enviados a al -Hudaydah (Hodeida), Djeddah, Meca e outros armazéns da Arábia. Outros eram mandados ainda para os portos do Golfo Pérsico, tais como al -Sharjah, Sur, Mascate, Bandar Abbas, Bandar Lengeh, Bahrein, Bushehr, Kuwait e Bassorá. Em geral, os portos indianos recebiam suas cargas de al -Mukha ou do Golfo Pérsico, porém, em alguns casos, chegavam diretamente da África Oriental. Dos portos indianos, podemos citar Bombaim, Goa, Surat, Karikal, Pondicherry, Calcutá e diferentes pontos da costa do Kutch, do Gujarat e do litoral da Ásia do Sudeste e da China, assim como algumas ilhas do Oceano Índico31.

Na Arábia, Omã ocupava uma posição chave na estratégia marítima e comer- cial do Oriente Médio e constituía o principal instrumento da participação árabe no tráfico negreiro. Sua capital, Mascate, controlava o acesso ao Golfo Pérsico, por onde passavam um grande número de escravos africanos. Em 1784 e 1785, os árabes de Omã conquistaram sucessivamente os portos de Kilwa e Zanzibar, 30 Pushkin celebrou sua herança africana em um de seus poemas; ver D. Magarshack, 1969, pp. 12 -17; A.

Perry, 1923; B. Modzalevskii, 1907; N. Malevanov, 1974; B. Kozlov, 1970; A. Blakeley, 1976. 31 J. E. Harris, 1977, pp. 264 -268.

na costa oriental da África. A partir de então, tomariam posse de algumas outras cidades da costa. Depois do sultão de Omã ter assumido o controle de Zanzibar e de outras regiões da costa oriental da África, no fim século XVIII, cada vez mais escravos foram necessários para colher o cravo e os cocos das plantações árabes da região32.

No Iêmen e no Hadramaute viviam comunidades oriundas da África Negra, cuja implantação datava de uma época longínqua. Ao que tudo indica, tais comunidades seriam essencialmente oriundas da Etiópia. Em Áden, uma delas constituía um grupo comparável à casta dos intocáveis da Índia. Em outras regiões da Arábia do Sul, escravos negros da África serviam nos exércitos dos sultães locais. Encontravam -se também entre eles concubinas e domésticos, eunucos, marinheiros e lenhadores, administradores e trabalhadores agrícolas, trabalhando nas salinas e nas plantações de cana -de -açúcar e de tâmaras33.

Os africanos foram espalhados em várias ilhas do Oceano Índico. Os holan- deses procuravam escravos na África Oriental e em Madagascar para levá -los para a Indonésia. Os franceses e os ingleses fundaram colônias de escravos, oriundos de África Oriental, na Ilha Bourbon (atual Reunião), e na Ilha Maurí- cio do arquipélago de Mascarenhas. De fato, um observador notou que, de 1670 a 1810, importou -se em Mascarenhas por volta de 160 mil escravos oriundos de Madagascar, da costa oriental da África, da África Ocidental e da Índia. No que diz respeito à Ilha Bourbon, estima -se que, em 1808, o número de escravos era de 53.726, sendo sua maioria oriunda de Madagascar e Moçambi- que34. O avanço do tráfico negreiro no século XIX favoreceu o desenvolvimento

das comunidades africanas das ilhas Mascarenhas. Porém, antes desse período, constituíra -se uma comunidade de crioulos, de notável influência, no decorrer dos séculos XIX e XX. Sabe -se também que africanos foram até a Malásia com mercadores e peregrinos muçulmanos que voltavam de Meca35.

A presença de escravos africanos parece ter sido um pouco mais substancial na Ásia do Sul do que nas outras regiões do continente36. Isso se deu provavel-

mente pelo fato de as relações comerciais com a África serem mais antigas e intensas, comparativamente a qualquer outra região. O domínio exercido pelos 32 Para mais detalhes, consultar o capítulo 25.

33 R. B. Serjeant, 1967, pp. 67 e 287; J. E. Harris, 1971, pp. 39 -41. 34 UNESCO, 1979.

35 R. Maxwell, 1932. Trata -se aqui de outra questão, merecedora de um estudo mais aprofundado. 36 Na época, o imenso território hoje representado pela Ásia do Sul não estava unificado. Era composto por

um mosaico de entidades étnicas e políticas diferentes. Sendo a Índia o maior país a ocupar esse território e englobando a maioria das regiões evocadas neste capítulo, decidimos empregar aqui tal designação.

muçulmanos sobre a próspera costa ocidental da Índia, assim como a presença indiana na África Oriental, explicariam essas relações privilegiadas. De qualquer forma, a partir do século XIII, houve muitos escravos africanos na Índia. Dessa forma, a Rainha Raziya, que reinava no sultanato de Deli, foi seduzida por um escravo habshī (africano)37, chamado Djalalud -ud -dīn Yākūt, por ela nomeado

mestre dos estábulos reais. Outro africano, Mālik Sarvar, escravo do sultão Muhammad de Deli, tornou -se vice -sultão em 138938.

A segunda metade do século XV testemunhou o estabelecimento da presença africana em Bengala, no norte da Índia. Lá haviam emigrado africanos provindos da zona costeira de Calcutá, da região de Daca e outras províncias. O soberano de Bengala, Rukn -ud -dīn -Barbak (1459 -1474), costumava confiar altos cargos, na administração e no exército, a africanos que lhe eram leais. Dessa forma, dentre seus oito mil escravos -soldados africanos, encontravam -se vários oficiais de alto escalão.

A morte de Barbak marcou o início de um período de instabilidade. Em 1486, Shāhzāda, um eunuco responsável pelos guardas do palácio, tomou o poder com um grupo de africanos e atribuiu -se o título de Barbak Shah. No entanto, foi logo assassinado por Amir -ul -Imona Malih Andil (Indīl Khān), também africano, mas que permaneceu fiel ao antigo soberano. Indīl Khān tornou -se Saif -ud -dīn -Firuz e reinou durante três anos. Quando da sua morte, foi sucedido por Nasr -ud -dīn, um jovem menino ainda menor de idade, e cuja identidade permanece incerta. Sabe -se contudo que o regente, Habesh Khān, era africano. No ano de 1490, outro africano, soldado da guarda real, Sīdī Badr, apossou -se do poder com um exército de trinta mil homens, cinco mil Etíopes dos quais, subiu ao trono e tornou -se Hams -ud -dīn Abū Nasr Muzaffar Shah. Após sua morte, em 1493, os africanos foram afastados das funções por eles ocupadas e expulsos do reino. Todavia, ainda que não tenham exercido o poder por muito tempo, sua influência foi notável nessa época39.

No Gujarat, africanos serviram o exército a partir do século XIII, ou talvez antes disso. Nessa época, representavam um importante fator político e econô- mico para a região. Em 1576, o governo do Gujarat teria pagado um tributo de quatrocentos escravos, “filhos de chefes hindus e de abissínios”40. Alguns desses

africanos eram descendentes dos negros capturados e reduzidos à escravidão 37 Habshī e siddi são dois termos substituíveis entre si, com os quais designavam -se os africanos na Ásia.

Para um esboço histórico geral dessa questão, ver J. E. Harris, 1971.

38 R. C. Majumdar, 1951, pp. 186 -187 e 698 -702; W. Haig, 1937, vol. III, pp. 251 -252. 39 Ibidem, pp. 214 e 215.

quando da invasão da Etiópia pelos árabo -muçulmanos, em 1527. No ano de 1531, outros foram levados ao Gujarat por Mustafā bin Bahrām, um capitão do exército turco que ajudava os indianos muçulmanos a defenderem -se contra Portugal41. Em 1537, os serviços governamentais da cidade de Ahmadābād

empregavam nada menos do que cinco mil africanos42. Essa primeira implanta-

ção africana no Gujarat teria constituído o núcleo a partir do qual os africanos emigraram depois rumo a outras partes da região43.

No século XVI destacaram -se alguns desses africanos do Gujarat. Yākūt Sabit Khān Habshī (Ulūgh Khān), Khayrāt Khān e Jhujhar Khān foram emi- nentes chefes militares; Ikhtiyar -ul -Mulk formou um exército de aproximada- mente vinte mil homens, incluindo afegãos, rajputs, gujaratis e africanos, para enfrentar as tropas de imperador mongol Akbar. Ikhtiyar foi derrotado, mas ganhou a estima de Akbar e dos gujaratis. Um ex -escravo africano, Shaykh Sayyid al -Habshī Sultani, serviu como soldado no exército de Jhujhar Khān. Uma vez terminada sua carreira militar, ele fez a peregrinação a Meca, e em seguida, desmatou e explorou as terras por ele compradas, o que lhe permitiu, diariamente, oferecer comida a centenas de miseráveis. Ademais, fundou uma biblioteca que atraiu numerosos eruditos44.

Em 1573, Sayyid (Sa‘īd) mandou erguer uma mesquita em Ahmadābād e o cronograma de sua construção era assim concebido: “Pelo amor de Deus ergueu esta mesquita, e o construtor é Sa‘īd.” A mesquita Sīdī Sa‘īd devia sua reputação à simplicidade de sua concepção: um teto sustentado por arcos e lindas janelas arqueadas, vazadas por finos entrelaços e motivos florais. James Fergusson, reno- mado especialista em arquitetura indiana e oriental, fez o seguinte comentário a respeito dessa mesquita: “O talento e a justeza com as quais as formas vegetais foram estilizadas parecem insuperáveis [...] mas talvez seja, sobretudo, a maneira com a qual o motivo se desenvolve em toda a superfície que revela a superio- ridade da técnica. Nos preciosos mármores de Agra e Deli, podemos admirar algumas finas amostras de entrelaços, porém longe de tanta beleza45.”

Segundo Fergusson e um de seus colegas: “Tais motivos aproximam -se, talvez, mais da obra da natureza do que de qualquer outro detalhe arquitetural 41 M. S. Commissariat, 1957, vol. II, p. 470.

42 Hadjdjī al -Dabir (s. d.), pp. 407 e 447.

43 Encontram -se comentários sobre as grandes figuras do Kutch, entre as quais alguns africanos, e minia- turas representando -os, no artigo de B. N. Goswamy e A. L. Ballapeceola, 1978.

44 Hadjdjī al -Dabir (s. d.), pp. 441 -443, 448, 471 e 508 -524; E. D. Ross, 1921, vol. II, pp. 640 -643. 45 J. Fergusson, 1876, pp. 236 -237.

já concebido, mesmo que seja pelos melhores arquitetos da Grécia antiga ou da Idade Média46.”

M. S. Commissariat notou: “Esta maravilhosa mesquita, famosa no mundo inteiro, constitui o último prodígio do grande período criador da arquitetura islâmica do Gujarat47.”

Outro Africano, Sīdī Bashīr, construiu também uma renomada mesquita em Ahmadābād. Era única pelo fato de constar de dois minaretes “que tremem”, cada um composto de três andares. Ao fazer tremer um dos minaretes, a vibração é transmitida ao outro. Tal estilo era completamente novo naquela época.

Não muito longe do Gujarat encontra -se a Ilha de Janjira, antigo centro das prósperas atividades comerciais de uma zona que se estendia a todo noroeste da Índia e englobava a região da atual cidade de Bombaim e a costa do Con- can. Segundo as tradições locais, os siddi de Janjira eram os descendentes dos africanos provenientes do Gujarat, em 1489, quando um etíope a serviço do

nizām (rei) de Ahmadnagār, travestido de comerciante, desembarcou na ilha

com trezentas caixas de mercadorias. Tais “mercadorias” consistiam, na reali- dade, em soldados siddi que, uma vez recebida a ordem, tomaram posse da ilha, nomearam um rei e fundaram assim a primeira das dinastias de nawab (reis)

siddi. A maioria dos africanos da ilha de Janjira descende provavelmente dos

escravos importados da África Oriental48.

A partir de 1530, os portugueses exerceram um domínio político e econô- mico sobre várias regiões da costa ocidental da Índia, notadamente na costa do Concan, onde um grande número de escravos africanos foi importado. Nunca chegavam mais de seis a dez escravos ao mesmo tempo, porém as importações de escravos continuaram de forma quase constante até 1740, quando franceses e ingleses ameaçaram seriamente a supremacia portuguesa nos mares. Na sua maioria, esses escravos eram oriundos do Moçambique, mas os portugueses capturaram também escravos africanos quando venceram os árabes de Mascate em Diu, em 1670. Esses escravos eram habitualmente empregados no qua- dro de atividades comerciais, agrícolas ou domésticas e para diversos trabalhos subalternos. Alguns deles receberam uma formação de padre e de professor de escola religiosa, principalmente em Goa, que se tornou o quartel -general dos portugueses para suas colônias da Ásia e da África Oriental.

46 J. Fergusson e T. Hope, 1866, pp. 86 -87. 47 M. S. Commissariat, 1957, p. 505.

Durante todo esse período, a ilha de Janjira conservou sua autonomia. No século XVII, os siddi, aos quais pertencia a maioria dos muçulmanos da ilha, tornaram -se os maiores proprietários fundiários. Um conselho de anciões junto aos principais chefes siddi escolheu um nawa para desempenhar o papel de soberano temporal e espiritual. Com o aval do conselho, o nawab podia nomear e revogar os funcionários civis e religiosos. Após terem consolidado a sua autori- dade política, os siddi de Janjira estenderam sua influência à ilha inteira e a certas zonas das costas indianas. Graças à potência naval, estabeleceram sua hegemonia na costa do Noroeste. Em 1616, aliaram -se a Mālik Ambar, rei habshī do Decan, na Índia Central. Os dois exércitos uniram -se no combate contra os mogois, que durou anos. O especialista indiano K. M. Panikkar sustenta que as opera- ções navais dos mestres de Janjira obrigaram os mogois a constituir uma frota indiana. Essa afirmação demonstra a importância do papel desempenhado pelos

siddi. Sir Jadunath Sarkar, historiador indiano especialista das questões militares,

escreveu que “os Abissínios de Janjira representavam uma potência temível49”.

No século XVII, a Companhia Britânica das Índias Orientais tentou suces- sivas vezes negociar uma aliança com os siddi, que dominavam a costa indiana do Concan. Entretanto, esses últimos, como potência independente, continua- ram a dominar a região, e mais tarde negociaram também com os holandeses. Os ingleses só conseguiram conter sua potência em 1759, e Janjira acabou se submetendo à dominação colonial inglesa no século XIX.

Os siddi de Janjira influenciaram consideravelmente a história da Índia. Não se sabe exatamente como eles conseguiram manter tal supremacia sobre os grupos autóctones, mas sua religião (eles eram muçulmanos) e sua superioridade técnica nos domínios naval e militar constituíram indubitavelmente trunfos da maior importância. É fundamental destacar a que ponto esse pequeno grupo de imigrantes africanos pôde influir na política e nas ações da Grã -Bretanha, de Portugal e da Holanda, sem mencionar os Estados indianos da região.

Africanos instalaram -se também em vários lugares da costa do Malabar. Nos séculos XVII e XVIII, judeus negros, descendentes de escravos africanos, deixaram Cochin e o Kerala, no sul da Índia, para estabelecerem -se na costa do Malabar. Trabalhavam em geral como empregados domésticos e contrataram casamentos com os autóctones e outros judeus50.

Os portugueses obrigaram os escravos africanos a instalarem -se em diferen- tes lugares da costa de Malabar, e principalmente nos arredores de Goa, chamada 49 K. M. Panikkar, 1945, p. 8; J. Sarkar, 1919, vol. IV, p. 237 -238.

Figura 5.6 Mālik Ambar, rei africano que reinou na Índia do século XVII. [The Ross -Coomaraswamy Collections, com a amável autorização do Museum of Fine Arts, Boston (MA).]

a tornar -se uma das praças -fortes de Portugal no século XVI. Nos séculos XVI e XVII, os escravos negros serviram o exército como soldados, em Goa, Ceilão, assim como em Macau51.

O letrado viajante italiano Pietro della Valle assinala que negros da África Ocidental e Oriental (oriundos da Guiné e de Moçambique) eram transpor- tados por mar rumo aos territórios portugueses52. Em todo território da Índia

portuguesa, os escravos negros executavam as tarefas domésticas, inclusive transportar água em imensos vasos. Os portugueses usavam -nos também como carregadores e guardas de suas escoltas. Quanto às mulheres, escolheram -nas muitas vezes como amantes.

Uma outra região da Índia, o Decan, testemunhou a incrível ascensão do afri- cano Mālik Ambar. O etíope foi vendido como escravo na Etiópia, no Hedjaz, em al -Mukha e Bagdá, antes de terminar sua viagem na Índia. Ambar passou uma grande parte de sua vida em Ahmadnagār, onde já viviam alguns milhares de afri- canos, dentre os quais, cerca de mil foram recrutados para sua guarda pessoal.

A importância histórica de Ambar deve -se ao fato de ele ter se tornado o chefe do potente exército de Ahmadnagār, com o qual ele repeliu vários ata- ques dos mongóis, impedindo assim os imperadores mongóis de conquistarem o Decan. Durante quase um quarto de século (1602 -1626), Ambar dominou totalmente a região de Ahmadnagār. Durante tal período, fundou cidades, criou canais e sistemas de irrigação, favoreceu a expansão do comércio com a Ásia e a Europa, atraiu na sua corte eruditos e poetas e mandou construir alguns dos mais imponentes edifícios do Decan53.

A ação de Mālik Ambar permite destacar a importância dos dois pontos a seguir. Em primeiro lugar, os africanos desempenharam, como indivíduos, um papel importante na história da Índia. Em segundo lugar, esses mesmos africanos conseguiram o apoio e a estima de vários indianos, sem perder suas especificidades.

Conclusão

Pelo fato do tráfico escravagista intercontinental ter ocultado uma boa parte da história do povo africano, é mister sublinhar que vários africanos viajaram, 51 C. R. Boxer, 1969.

52 E. Grey, 1892, pp. 50 -51. 53 J. E. Harris, 1971, pp. 91 -98.

por vontade própria, de um continente ao outro, principalmente os comerciantes, eclesiásticos, marinheiros e aventureiros, entre outros. Se quisermos estabelecer um quadro suficientemente completo e realista da civilização mundial, torna -se imprescindível estudar essa antiga presença de negros livres no exterior.

Porém, a presença dos negros no mundo inteiro deve -se principalmente ao tráfico intercontinental de escravos54. De fato, a natureza de tal tráfico e suas

consequências, mais especificamente na América e nos Caribes, levaram os africanos a travarem lutas por sua liberdade. Essas lutas, com o passar do tempo, despertaram nas consciências a preocupação generalizada da redenção da África e da libertação dos negros do mundo inteiro. Esse processo constituiu -se no iní- cio da época moderna e demonstrou, por volta de 1800, uma real influência em escala mundial. De fato, Toussaint Louverture apareceu, nesta ocasião, como um