1. General Introduction
1.2. Capillary electrophoresis
1.2.3. Instrumentation and analytical parameters
Os movimentos inabituais e coletivos da população se dividem em duas grandes categorias: as correntes migratórias e as migrações propriamente ditas. 15 D. N. Beach, 1980a.
16 P. S. Garlake, 1973; D. N. Beach, 1980a. Este exemplo mostra bem as tensões exercidas sobre o povoa- mento pela agricultura itinerante e a criação de animais praticada em pastos naturais.
17 Eis um outro exemplo que mostra de modo evidente como os deslocamentos individuais, quando nume- rosos, podem mudar completamente a distribuição da população em uma região limitada. A cidade de Jenné -Jeno, no Mali, se desenvolveu a partir de por volta de 200 a.C. e, sobretudo, depois de 250 d.C. Seu declínio após o ano 1000 é contemporâneo do desenvolvimento da cidade de Ojenné, situada a apenas três quilômetros de distância. Jenné -Jeno era circundada por povoados satélites cujo desenvolvimento tinha seguido o seu e cujo declínio levou a seu abandono por volta de 1400. Ver R. J. McIntosh e S. Keech -McIntosh, 1982.
Os movimentos da primeira categoria são movimentos progressivos e lentos que estendem a novos territórios as formas habituais da mobilidade e da produção alimentícia. A migração propriamente dita é um movimento súbito, que difere claramente dessas formas habituais. Uma corrente migratória não implica neces- sariamente o abandono do território de origem, salvo, às vezes a longo termo, ao passo que este abandono é parte da migração. Essas duas categorias de movi- mentos populacionais subdividem -se em vários tipos. Uma corrente migratória é chamada de “expansão” quando faz crescer o território de um grupo e se intitula “diáspora” quando é descontínua e se traduz pela fundação de estabelecimentos separados. Além disso, pode -se distinguir as migrações em massa, as migrações de bandos e as migrações de elites, que são respectivamente de uma população inteira, de uma fração da população (geralmente um bando de guerreiros que praticam a pilhagem) ou de grupos muito restritos ou mesmo de indivíduos, cuja chegada provoca importantes mudanças na sociedade que os acolhe. As migrações de elites quase se confundem com os deslocamentos individuais, mas falaremos delas aqui em função de sua frequência e de seus efeitos e porque elas são frequentemente assimiladas aos outros tipos de migrações.
A importância histórica e a amplitude de um movimento populacional dependem do número de pessoas que se deslocam, da distância percorrida, da duração do movimento, de suas causas, isto é, dos fatores que impelem uma população a emigrar e daqueles que atraem os imigrantes e, por fim, de suas consequências. É preciso levar em conta todos esses aspectos em cada caso, mas eles não podem servir para que se estabeleça uma classificação, pois sua significação é variável demais. Assim, a distância não é significativa por si mesma: várias centenas de quilômetros no Saara podem equivaler a menos de cinquenta quilômetros em uma região muito povoada. As causas são muito diversas. Não são sempre catástrofes naturais como as secas. Os motivos que incitam ou obrigam uma população a deixar o lugar em que vive (causas repulsivas) e aquilo que a atrai onde ela quer se estabeleça (causas atrativas) misturam -se de modo tão variado que há, a partir desta relação, quase a mesma quantidade de tipos de deslocamentos que de casos particulares. O número de pessoas que se deslocaram é frequentemente desconhecido e, se dispomos de números, eles geralmente não são suficientemente seguros para que se estabeleça uma tipologia. Levamos, então, em consideração apenas as carac- terísticas do próprio movimento, com suas causas e efeitos. Descreveremos sucessivamente os cinco tipos que distinguimos, sem perder de vista o valor puramente prático de nossa tipologia.
As expansões
Dada a mobilidade natural da maior parte da população africana, as expan- sões são inumeráveis. Elas apresentam características diferentes segundo o modo de vida da sociedade considerada. A agricultura itinerante torna -se expansão quando ela segue uma direção dada de preferência a uma trajetória aleatória ou circular. Os agricultores se deslocam por povoado; o deslocamento de um grande número de aldeias de uma comunidade ou de sua totalidade é uma expansão quando se efetua em uma só direção. As expansões resultam de des- locamentos pouco frequentes (a cada dez anos ou mais) em distâncias que são geralmente muito curtas (de dez a vinte quilômetros). Portanto, elas podem durar muito tempo sem que a população em movimento jamais deixe de parecer sedentária.
Na floresta, a expansão dos mongo rumo ao sul, partindo do arco do rio Zaire, tinha começado bem antes do século XVI e ainda continuava no fim do século XIX na maior parte da região compreendida entre o Zaire a oeste e o Lomami a leste. Seu objetivo parece ter sido os atraentes vales do Kasaï inferior e do Sankuru bem como a rica região situada mais a leste, próxima à floresta. Esta expansão provocou uma corrente a partir dos centros de povoamento muito densos situados entre o equador e o primeiro paralelo sul, em direção aos vales fluviais e às bordas das florestas18.
As expansões podiam facilmente se acelerar. Bastava que se percorresse uma distância maior a cada deslocamento ou que esse deslocamento fosse mais fre- quente, talvez a cada dois ou três anos. Elas se tornavam então um fenômeno consciente, que respondia a intenções precisas, frequentemente motivadas por uma atração. Assim, durante somente meio século, os nzabi do Gabão -Congo, deixando suas terras situadas a leste da grande curva do rio Ogooué, dirigiram -se no sentido sudoeste a fim de se aproximarem das rotas comerciais e de poder explorar novos recursos minerais19. Os fang da Comoé superior ganharam o
estuário do Gabão em apenas vinte anos, em seguida, continuaram sua expansão a uma velocidade um pouco menor durante quarenta anos em direção do delta do Ogooué. Cada uma de seus povoados se deslocava apenas em intervalos de alguns anos, mas podiam percorrer então até quarenta quilômetros. Tais des- locamentos foram bem estudados em suas modalidades. Os fang jamais foram forçados a abandonar seu modo de vida habitual. Seus povoados se deslocavam 18 J. Vansina, 1981.
sucessivamente, cada um ultrapassando, por sua vez, os precedentes. Esta pro- gressão desenrolava -se em um meio natural uniforme. Os caçadores efetuavam reconhecimentos no decorrer de suas expedições habituais20.
As expansões dos criadores de animais seguiam um esquema diferente. Em geral, jovens deixavam os pastos do grupo para estabelecerem -se com seus ani- mais em pastos virgens. Como eles encontravam esses pastos em regiões nas quais as chuvas muito raras ou muito irregulares tornavam impossível a cultura do solo, sua expansão era submissa, em larga escala, às condições naturais. Foi assim que os masaï progrediram, nos séculos XVII e XVIII, até que todas as terras próprias para a criação de animais fossem ocupadas21. Um outro exemplo
bastante conhecido é o dos trekboer da África do Sul. Colonos europeus da segunda geração se estabeleceram perto do Cabo a partir de 1680, aproxima- damente. Desde o início, os criadores se lamentaram de ser muito numerosos, ainda que a população estivesse dispersa. O solo era árido, e eles tinham neces- sidade de vastas pastagens. No começo do século XVIII, uma família se sentia apertada quando podia perceber de sua casa a fumaça da chaminé de uma casa vizinha. Conduzindo uma parte dos animais, os caçulas partiam então em uma carroça puxada por bois e se instalavam em outro lugar. Até por volta de 1780, esta expansão prosseguiu em regiões ocupadas principalmente por outros cria- dores (grupo khoi) dos quais os trekboer tomavam o lugar. Mas eles se chocaram, em seguida, com uma fronteira constituída pelas terras muito mais irrigadas que aquelas que, por eles atravessadas, eram ocupadas pelos agricultores e criadores de animais xhosa22.
Em certos casos, os percursos dos criadores eram longos e faziam conexão entre vários lugares de permanência. Os awlād sulaymān da Líbia deslocavam- -se, em função das estações, entre o golfo da Grande Sirte próximo do Medi- terrâneo e os oásis de Fezzān, na Líbia do Sul. Uma derrota desastrosa sofrida em 1842 próximo de Trípoli obrigou -os a abandonar o pólo da Grande Sirte. Eles tomaram então, para retornarem ao sul do Fezzān, a rota das caravanas que conduziam ao Borno, indo inicialmente no sentido do Borku e depois rumo ao Kānem, apesar da resistência determinada dos tuaregues cujos territórios eles atravessavam. Eles atingiram o lago Chade por volta de 1850 e, após alguns fra- cassos iniciais, chegaram a dominar em 1870 toda a região compreendida entre 20 P. Alexandre, 1965, p. 532. Mas o ponto de vista deste autor sobre a expansão dos fang em sua totalidade
é errônea. Ver C. Chamberlin, 1977, p. 23 -80. 21 T. T. Spear, 1981, p. 63 -66.
Fezzān e o Chade23. Como esta expansão se deu graças às vitórias de bandos
armados, é tentador ver aqui uma migração de bandos. Mas, na sua totalidade, ela é na verdade semelhante às expansões de outros criadores de animais. Des- locando um dos pólos de transumância, ela teve por efeito a ocupação de um novo território.
Mesmo os caçadores -colhedores podiam seguir correntes migratórias. Isto poderia explicar, por exemplo, a presença de caçadores baka no Camarões orien- tal. Esses pigmeus, que falavam línguas ubanguianas, vivem mais a oeste em relação aos agricultores que pertencem ao mesmo grupo linguístico. Mais do que uma migração em massa, trata -se provavelmente de um movimento partido do vale superior da região de Sanga e destinado a estender rumo a oeste o território de caça dos baka24.
Os vastos movimentos de expansão são o indício de uma nova redistribui- ção da população. Eles são frequentemente acompanhados pela colonização de zonas anteriormente exploradas de modo mais extensivo. Uma das tendências mais profundas e mais duráveis da história da África é esta progressão inexorá- vel dos homens em número sempre maior em um espaço sempre mais vasto e adaptando cada vez melhor seu meio natural a seu modo de vida ao invés de se deixar determinar e limitar por ele. Assim, a expansão dos povos de língua bini na floresta a oeste do Níger começou no início da era cristã e, provavelmente, teve seu fim somente por volta de 1200 com o desenvolvimento da cidade de Benin25. Temos poucos conhecimentos sobre a expansão dos igbo a leste
do baixo Níger, mas sabemos que ela já havia definitivamente começado por volta de 1800 (Igbo -Ukwu) e que ela teve por efeito a valorização da floresta e, consequentemente, a transformação completa da paisagem, bem como um crescimento sensível da população. À medida que os agricultores de língua bini simplesmente se adaptaram ao meio pré -existente a fim de submetê -lo a uma nova forma de exploração, os agricultores igbo destruíram o meio ambiente original. É, portanto, natural que essas expansões sejam geralmente feitas a partir de regiões relativamente povoadas rumo a terras com menos densidade popu- lacional. Elas contribuíram para aumentar a densidade populacional de cada região do continente na medida em que a população geral da África crescia. Não se podem atribuir esses movimentos à “superpopulação”, a não ser no sentido muito limitado em que certas comunidades, como os trekboer, estenderam -se 23 D. D. Cordell, 1972; E. Rossi, 1978.
24 J. M. C. Thomas, 1979. 25 P. J. Darling, 1979.
territorialmente, apesar de sua fraca densidade, porque elas se consideravam muito numerosas. A superpopulação é uma medida relativa da pressão exercida sobre a terra pelas técnicas de exploração em vigor. Uma nova técnica podia aliviar esta pressão, bem como a regulação da população ou a emigração.
Os movimentos de expansão devem ter ocorrido muito cedo na África. Os caçadores e os colhedores foram levados a estender seus territórios, seguidos pelas comunidades que exploravam seu meio de modo mais extensivo. Em cer- tos casos, as expansões tinham como causa uma lenta deterioração dos recursos provocada por uma mudança climática cujo exemplo mais espetacular foi o des- secamento do Saara. A arqueologia da Mauritânia mostra como este fenômeno expulsou paulatinamente os agricultores desta região rumo ao sul entre 1500 a.C. e o impulso do reino de Gana por volta de 70026.
Expansões mais rápidas como a dos Fang, dos Nzabi ou dos Awlad Sullay- man são atribuídas a outras causas. No caso dos dois primeiros, a atração para as rotas e centros comerciais. E os Awlad Sullayman saíram da Tripolitânia, após uma derrota militar, em direção ao Chade, onde sabiam que havia uma rota comercial.
Expansões dos agricultores jamais tiveram como causa uma catástrofe como a fome ou uma epidemia. Quando passavam por uma crise grave demais, eles não podiam conservar seu modo de vida, e suas estruturas econômicas, sociais e políticas desabavam. Se eles abandonavam seus territórios nestes casos, era para emigrarem massivamente e em desordem. Não se tratava de uma simples expansão. Além disso, tais casos parecem ter sido extremamente raros.
Um povo em expansão não expulsava necessariamente os outros povos que encontrava em seu caminho. Frequentemente, ele se mesclava a eles e novas sociedades emergiam desse processo. Os autóctones adotavam então a cultura daqueles que chegavam, como no caso dos fang. Ou então, desta fusão, resulta- vam uma sociedade e cultura novas. Assim, a expansão dos mongo rumo ao sul deu origem a vários povos, dentre os quais os famosos kuba27. Quando a fusão
não ocorria, os autóctones tinham de abandonar pouco a pouco seu território: é o que ocorreu com os caçadores san e talvez também com os criadores de ani- mais khoi diante da expansão dos grupos de língua banto do sudeste (mas uma parte dos khoi talvez tenha sido assimilada). Aparentemente, jamais ocorreu de um povo expulso de seu território invadir, por sua vez, um território vizinho.
26 J. Devisse, 1982, p. 171 -173. 27 J. Vansina, 1978.
As expansões geraram poucos refugiados dada as densidades populacionais geralmente envolvidas.
As diásporas
A diáspora é um movimento populacional descontínuo que tem por efeito a fundação de estabelecimentos separados da população -mãe. Todas as diásporas estão ligadas ao comércio ou a peregrinações, salvo, talvez, aquelas dos pastores fulbe, espalhados por toda África Ocidental. Os fulbe não encontraram resis- tência porque sua diáspora estava limitada a nichos ecológicos desocupados dos quais os outros povos retiravam apenas recursos secundários. De fato, é preferível considerar o deslocamento dos fulbe como uma simples expansão comparável àquelas dos turkana, dos nandi ou dos masaï no norte do Quênia ou na Tanzânia28.
O comércio está na origem das diásporas mais típicas. Os estabelecimentos dos fenícios, dos gregos e dos árabes na costa do Chifre da África, os pontos estratégicos dos europeus e a colônia do Cabo foram todos fundados por mer- cadores estrangeiros vindos de além -mar. O comércio fluvial e a pesca desempe- nharam um importante papel na história das diásporas. A história dos bobangui, entre 1750 e 1850 é um exemplo disso. Os habitantes de um grande povoado situado na embocadura do Oubangui fundaram estabelecimentos e feitorias ao longo de todo o Zaire até a embocadura do Kasaï. Eles se misturaram a outros povos e seu domínio se estendeu para formar uma nova etnia, os bobangi29. Os
suaílis e sua cultura espalharam -se da mesma maneira na África oriental, das costas da Somália e do Quênia até a ilha de Ibo, ao largo de Moçambique, e até Comores. Alguns suaílis provavelmente se estabeleceram na Idade Média no nordeste de Madagascar30. Outras diásporas seguiram igualmente as rotas
comerciais terrestres. Mercadores mande fundaram assim feitorias jahanka entre o alto Níger e a costa do Senegal, bem como feitorias jula (dyula) entre o alto Níger e a costa do país Akan. Mercadores yarse de língua mossi organizaram uma rede de feitorias no país Mossi.
Outras diásporas deveram -se à peregrinação anual a Meca (hādjdj). Os pere- grinos viajavam normalmente sozinhos ou em pequenos grupos. Quando, por uma razão qualquer, eles não podiam continuar sua viagem, estabeleciam -se 28 Ver o capítulo 27.
29 R. Harms, 1981.
onde eram obrigados a parar. É assim, que os takruri, originários da África Ocidental, estabeleceram -se no Sudão no século XIX, da mesma maneira que os djallāba (mercadores) que vinham em geral da região de Dongola fundaram povoados próximos às rotas comerciais por eles utilizadas. Os marabtin bilbaraka de Barka descendiam em sua maior parte de peregrinos da África do Norte.
Os povos dispersos mantinham relações com seu país de origem, seja pelo comércio, seja porque viviam próximos de rotas seguidas pelos peregrinos. Em certos casos, essa relação não era mais direta ou mantinha -se por pouco tempo com os elos de origem. Por exemplo, no século XV, os habitantes de Sofala mantinham uma ligação mais estreita com Kilwa do que com as cidades situ- adas mais ao norte e não estabeleciam relações particulares com o arquipélago de Lamu ou com as Ilhas Bajun, que estavam no coração do país suaíli. Era a consequência de seu distanciamento progressivo. Do mesmo modo, Cerné, na costa atlântica de Marrocos, era uma colônia de Cartago (e não de Tiro). Até mesmo as colônias européias tendiam a se afastar de sua metrópole para estabe- lecer relações comerciais com outras colônias. Os colonos do Cabo se sentiam mais próximos do império holandês das Índias orientais organizado em torno de Batavia do que da Holanda; Moçambique dependeu diretamente de Goa durante séculos, ao passo que após 1648, Angola tornou -se praticamente uma colônia brasileira.
As diásporas são movimentos populacionais muito visíveis. Elas supõem a existência de redes de comunicação estendidas e multiplicam -se com o desen- volvimento das rotas comerciais. Se algumas delas começaram muito antes de 1500, a maior parte daquelas que conhecemos na África pertencem ao período seguinte e dão testemunho de um novo aspecto do domínio do espaço por parte do homem. Elas ocorreram onde populações bem estabelecidas começavam a ter economias complementares ou a trocar produtos com outros continentes. Sua presença é um sinal da luta humana para se estabelecer no espaço.