4.2 Skype Interviews
4.3.2 Press Freedom
Nesta segunda parte, denominada como Acompanhando a Professora Maria, abordaremos como Maria foi observada durante todo o processo formativo. Cabe ressaltar que esse processo formativo foi construído e desenvolvido sobre três pilares, a saber: (i) dos pressupostos teóricos nacionais e internacionais que abordam a formação continuada de professores. Esses pressupostos vão ao encontro dos estudos de Alarcão (2010), Fiorentini (2008) e
Nacarato et. al. (2009) no que se refere às estratégias formativas; de Bolzan (2002) e Rogoff (1998) no que tange à práticas compartilhadas; (ii) na Teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud (1983, 1988, 1990, 1991), mais especificamente do Campo Conceitual Multiplicativo (multiplicação e divisão); e (iii) nas necessidades formativas das professoras que foram levantadas pelos pesquisadores por ocasião do amplo diagnóstico (aplicação do questionário aos estudantes realizado no primeiro semestre de 2009), que antecedeu o processo formativo.
O processo formativo teve início em junho de 2009 se estendendo ao longo do segundo semestre de 2009, tendo como objetivo central a discussão, com o grupo de 14 professoras das séries iniciais do Ensino Fundamental, dos aspectos conceituais, didáticos e cognitivos do Campo Conceitual Multiplicativo, especificamente aqueles relacionados ao ensino dos conceitos de multiplicação e divisão. Em todos os encontros havia a mediação dos três formadores/ pesquisadores, os quais cumpriam, a priori, o papel de conduzir tal processo. Destacamos alguns objetivos específicos do processo formativo:
Identificar as estratégias para lidar com as dificuldades levantadas pelas professoras no ensino do Campo Conceitual Multiplicativo;
Instrumentalizar as professoras com ferramentas didáticas e metodológicas (concretas e/ou abstratas), que as auxiliem na sua prática em sala de aula como o ensino do Campo Conceitual Multiplicativo; Propiciar a reflexão das professoras na e sobre a sua própria prática
pedagógica, de tal forma que o grupo procure e encontre alternativas didáticas e metodológicas para o ensino do Campo Conceitual Multiplicativo, mais especificamente aquelas relacionadas ao ensino da multiplicação e divisão.
Durante o desenvolvimento do processo formativo acompanhamos a Maria em três momentos distintos: o primeiro foi no processo formativo propriamente dito, inserida no G3; o segundo, na sua prática pedagógica; e o terceiro, na entrevista.
Para facilitar a compreensão, retomamos o esquema da síntese do estudo, ressaltando a parte denominada Acompanhando a professora Maria.
Nesse primeiro momento, o processo formativo centralizou-se, basicamente, na discussão de cada eixo do Campo Conceitual Multiplicativo, quais sejam: eixo 1: proporção simples; eixo 3: comparação multiplicativa; e eixo 4: produto de medidas (4A configuração retangular e 4B combinatória). Salienta- se que não foi o foco do processo formativo o trabalho com as situações pertencentes ao eixo da proporção múltipla (eixo 2), pois esse eixo envolve ideias matemáticas mais complexas, que extrapolavam o nível de ensino que estava sendo trabalhado. Colocaremos aqui, neste item da subseção, uma síntese do processo formativo. A estratégia do processo formativo, com cada eixo, centrou- se em três etapas – ação teórica, ação prática e ação reflexiva – que serão apresentadas no esquema e detalhadas a seguir.
A ação teórica consistiu na discussão de cada eixo do Campo Conceitual Multiplicativo e no planejamento de atividades. Dessa forma, essa ação foi caracterizada pela retomada, mais amiúde, do desempenho dos estudantes em cada eixo e, posteriormente, foram discutidas diversas situações do Campo Conceitual Multiplicativo. Em seguida houve a elaboração de duas atividades, pertinentes ao eixo discutido, em cada subgrupo (1ª, 2ª, 3ª e 4as séries). Para cada subgrupo foram fornecidos materiais (pincéis e uma folha de papel craft) para a transcrição das situações elaboradas. Assim, no final de cada etapa teórica, havia um total de 8 situações elaboradas.
A ação prática consistiu na discussão das situações planejadas na etapa anterior, na definição das estratégias para aplicação das atividades aos estudantes e na elaboração do relatório 1 (Apêndice 6). Para proceder à discussão foi elaborado um painel contento todas as situações. Cada subgrupo teve a oportunidade de fazer a leitura em voz alta, das situações elaboradas, para o grupo maior. Na sequência abria-se o debate para discutir, no grupo maior, a pertinência das situações em relação ao eixo discutido, a sua consistência, o grau de complexidade, adequação da linguagem utilizada e as estratégias para aplicação das atividades. Após o painel de debates, cada subgrupo elaborava o relatório 1 (Apêndice 6), registrando as duas atividades e, a priori, sobre as suas expectativas em relação ao desempenho dos seus estudantes, e as estratégias de ensino a serem adotadas.
A ação reflexiva consistiu na análise dos resultados provenientes da aplicação das atividades planejadas e discutidas na etapa anterior. Cada subgrupo apresentava oralmente, para o grande grupo, os resultados de suas respectivas turmas, as dificuldades encontradas durante aplicação das atividades, os procedimentos e estratégias adotados, os pontos positivos, os negativos e as sugestões. Cada professora teve a oportunidade de se manifestar e ao mesmo tempo refletir sobre o que deu certo e o que não deu certo, confrontando as suas experiências com a dos seus pares e, principalmente, teve a oportunidade de refletir sobre as expectativas, a priori, registradas no relatório 1 (Apêndice 6). Na sequência, cada subgrupo dispôs de um tempo de aproximadamente meia hora para elaboração do relatório 2 (Apêndice 7). Nesse relatório era registrada a participação dos estudantes nas atividades, as diferenças entre as estratégias planejadas a priori e as efetivamente realizadas, o número de acertos e de erros e a forma com que o erro foi trabalhado na sala de aula.
Cabe ressaltar que Maria participou ativamente dessas três etapas da estratégia do processo formativo, recém descritas, juntamente com as outras professoras do G3. Além disso, é conveniente salientar que acompanhamos, com especial interesse, a atuação da professora Maria nas discussões, nos planejamentos e nas reflexões acontecidas no G3.
No segundo momento, acompanhamos a professora Maria na sua prática pedagógica. Como citamos anteriormente, ao final da ação teórica de cada eixo, o G3 elaborava duas situações para que pudessem ser aplicadas aos seus respectivos estudantes. Sendo assim, para que pudéssemos observar essa aplicação, combinávamos o dia da semana em que a professora Maria aplicaria as duas atividades, elaboradas pelo G3.
Suas aulas, de maneira geral, eram sistematicamente planejadas: ela iniciava com uma situação semelhante ao eixo estudado. Essa situação, comumente, tinha um nível menor de complexidade e era transmitida oralmente. Ela discutia, junto aos estudantes, as diversas formas para sua resolução. Somente após essa discussão, é que ela entregava as atividades (sempre impressas em folha de papel A4) elaboradas pelo G3, a cada um dos estudantes.
Em seguida, pedia que algum estudante lesse o enunciado da primeira situação e abria espaço para que a classe pudesse discutir os possíveis modos de resolução. A professora Maria fomentava a discussão a partir das estratégias de resolução e respostas sugeridas pelos próprios estudantes. Paralelamente, incentivava seus estudantes a irem ao quadro para registrarem suas estratégias, estando ou não corretas. Ao final, fechava a discussão indicando a(s) estratégia(s) correta(s) dos estudantes e, caso fosse necessário, complementava com outra(s) estratégia(s). Logo após era dado um tempo para que eles registrassem na folha a sua própria resolução. Procedimento semelhante se dava para a segunda situação apresentada.
O terceiro momento diz respeito à reflexão sobre a prática. Após o término de cada uma dessas aulas (aplicação das atividades elaboradas pelo G3), fazíamos uma entrevista semi-estruturada para que Maria pudesse expor suas reflexões a respeito de sua prática pedagógica junto aos seus estudantes.
Por ser uma entrevista semi-estruturada, tínhamos um roteiro com questões pré-elaboradas e com objetivo de fazê-la refletir sobre a sua prática sob diferentes perspectivas. As quatro primeiras tinham por objetivo saber se suas expectativas em relação à aula e à reação dos estudantes tinham sido alcançadas.
1. SUA AULA TRANSCORREU COMO VOCÊ HAVIA PENSADO QUE ACONTECERIA?
2. OS ALUNOS REAGIRAM A SUA AULA TAL QUE VOCÊ PREVIU?
3. QUANDO VOCÊ COMEÇOU A AULA HOJE, QUE PREOCUPAÇÃO VOCÊ TINHA COM RELAÇÃO AO QUE PODERIA DAR ERRADO?EXISTIA ALGUMA?
4. E NO DECORRER DA AULA, HOUVE ALGUMA?
Dando continuidade ao roteiro, as questões seguintes requeriam que a professora Maria refletisse sobre a sua prática, permitindo que ela fizesse memória dos momentos de sua aula, para que pudesse refletir sobre eles. Esses momentos poderiam estar relacionados aos aspectos didáticos, conceituais ou cognitivos. Em suma, os questionamentos direcionavam a reflexão sobre a prática, sobre como foram esses momentos e se eles seriam repetidos, modificados, repensados ou não em uma próxima oportunidade.
5. RELEMBRANDO A AULA, COMO VOCÊ RESUMIRIA OS CAMINHOS SEGUIDOS NA AULA?
6. PENSANDO AINDA NESSA AULA A QUE EU ASSISTI, SE VOCÊ FOSSE REPETIR ESSA AULA, FARIA IGUAL?O QUE MUDARIA NELA?
7. VOCÊ ACHOU QUE A AULA PAROU BEM?
8. VOCÊ ACHA QUE A PARTIR DA ATIVIDADE DESSA AULA OS ALUNOS APRENDERAM ALGUMA COISA?(O QUE, POR EXEMPLO?)
9. O QUE VOCÊ ACHOU DO MATERIAL UTILIZADO?
10. O QUE MENOS VOCÊ GOSTOU NA AULA? O QUE NÃO CORREU TÃO BEM? POR QUÊ?
11. REFLETINDO AGORA SOBRE ISSO, O QUE VOCÊ FARIA PARA MELHORAR ESSA PARTE QUE VOCÊ ACHOU QUE NÃO FOI TÃO LEGAL?
12. E O QUE VOCÊ MAIS VOCÊ GOSTOU NA AULA? QUER DIZER, QUAL FOI O PONTO ALTO DA AULA?
Finalmente, a última questão desse roteiro teve por objetivo a avaliação global de Maria após ter refletido a respeito de sua prática pedagógica.
13. QUAL A SUA AVALIAÇÃO GLOBAL DA AULA?
Como citamos anteriormente, trata-se de uma entrevista semi-estruturada, significando que, dependendo das respostas que a professora Maria nos desse, poderíamos fazer outros questionamentos, assim como eliminar algumas questões prescritas, porém sempre tendo como foco a reflexão sobre a prática.
Queremos destacar ainda que ao acompanharmos Maria seja no processo formativo, na prática pedagógica ou ainda na entrevista, utilizamos ainda de outros dois instrumentos para que pudéssemos coletar dados: o diário de bordo e a audiogravação.
O diário de bordo consistia em caderno de anotações onde registrávamos todos os episódios que considerássemos relevantes. A audiogravação, no âmbito do estudo, objetivou complementar o diário de bordo, uma vez que ao final de cada encontro/aula assistida confrontávamos e quando necessário complementava as anotações do diário de bordo. Todo esse material depois de organizado e sistematizado, segundo o critério de relevância, também se configurou em dados para análise.