O entendimento dos constructos – as narrativas, principalmente-, foi tecida a partir dos pressupostos da Hermenêutica de Profundidade (HP), uma metodologia de análise cultural proposta por Thompson (1995). A escolha dessa perspectiva interpretativa ocorreu devido à sua congruência com a postura compreensiva adotada para este estudo, na medida em que compreender o que o Outro diz e partilha nas narrativas de seus episódios vivenciados, traz consigo um exercício hermenêutico mediado pela linguagem e por todas as mediações (ações e afetos) tecidos nas relações construídas no decorrer das visitas.
Além disso, a HP me pareceu bastante oportuna por ser uma hermenêutica voltada para investigações sócio-históricas, que buscam o entendimento das condições de possibilidade da produção, da transmissão e da apropriação das formas simbólicas. E, também, parte de dois pressupostos fundamentais para este estudo: “o objeto de nossas investigações é, ele mesmo, um território pré-interpretado” (THOMPSON, 1995, p. 358) e “os sujeitos que constituem o campo-sujeito-objeto são, como os próprios analistas sociais, sujeitos capazes de compreender, de refletir e de agir fundamentados nessa compreensão e reflexão” (THOMPSON, 1995, p. 359).
Essas ideias políticas e epistemológicas tornam possível uma interlocução com os referenciais da Colonialidade do Poder e do Saber (WALSH, 2008) e de Santos (2010) que afirmam a relação de tradução nas análises histórico e culturais, o que exige uma Hermenêutica Diatópica (SANTOS, 2010) ou Pluritópica (MIGNOLO, 2008), que afirmam os lugares de enunciação da alteridade no ato de compreensão das experiências e dos saberes do Outro, sem a reprodução das cisões constituintes da modernidade.
Assim, desenvolvo este trabalho com a busca de adoção da radicalidade desses pressupostos indicados por Thompson (1995), de modo que as narrativas episódicas não apenas contam um acontecimento, mas expressam visões de mundo, ethos, posições sociais, expectativas, enfim, enunciações que, conforme Freire (1987), envolvem, potencialmente, a denuncia e o anúncio do mundo e do humano. Ao voltar-me para as narrativas, invisto em um exercício de apreensão complexo, pois tanto busco os vestígios semânticos da Espiritualidade nas relações intergeracionais, como os modos de enunciação de cada geração, sem pretensões generalistas, mas que alcancem suas características delineadoras de seus laços, experiências e posições etárias. Dessa maneira, o processo interpretativo da HP, sob os atravessamentos das discussões da Descolonialidade (FIGUEIREDO, 2010), possuiu as seguintes etapas de acordo com o proposto por Thompson (1995): primeiro, a análise sócio-histórica que abordará os contextos nos quais as mediações e experiências relatadas nas narrativas se deram.
Neste caso, aproximo-me de uma modalidade dessa análise que consiste em “identificar e descrever as situações espaço-temporais específicas em que as formas simbólicas são produzidas e recebidas” (THOMPSON, 1995, p. 366). Os momentos deste modo de análise emergem neste estudo seja nas discussões acerca da história dos Tremembé, da religiosidade na América Latina e, em específico, das interações a compor os episódios narrados pelos/as participantes e as posições geracionais neles e deles constituintes.
Em segundo, a HP implica em uma análise discursiva, neste caso, mais precisamente, a ‘análise narrativa temática’ que indicará os temas trazidos pelo participante (CRESWELL, 2014). Aqui, faço uma conexão com a ideia de tema-gerador de Freire (1987), pleno de significações para aqueles que o pronunciam e são por eles pronunciados, de modo a emergir, portanto, nos e dos enredos das narrativas. Para exercitar essa parte da Hermenêutica Profunda, foi necessário optar, dentre as várias narrativas que tive a oportunidade de escutar nas visitas, aquelas que melhor atendiam aos objetivos específicos desta pesquisa. Primeiramente, ao de descrever as experiências intergeracionais nas quais surgem saberes sobre a espiritualidade, pois o enfoque deste estudo está nas dinâmicas intergeracionais nas e
pelas quais a semântica e saberes relacionados à espiritualidade são identificados por professores/as e velhas lideranças.
Com esse objetivo específico, voltei-me para as experiências contadas por cada sujeito geracional em que o tema deste trabalho emergia. Dessa maneira, algumas narrações e histórias que pude entrar em contato no decorrer das visitas de aproximação e de inserção, apesar de tão ricas de significações quanto as que trouxe para estas linhas, não adentraram nesta parte escrita da pesquisa, pois, em alguns casos, não traziam explicitamente aspectos geracionais de modo suficiente para melhor abordar nas análises. Isso demonstra a fertilidade para novos estudos em torno dessa temática. Assim, tendo o objetivo específico acima como linha central para a delimitação das narrativas a priorizar nesse momento da HP, outros a ela se articularam e dizem respeito às mediações a compor as relações entre gerações e suas experiências de espiritualidade, são elas: identificar as mediações escolares e comunitárias relativas à espiritualidade vividas por professores e aquelas vividas por velhas lideranças Tremembé. Com o enlace desses objetivos, já indico compreender que as experiências relativas à espiritualidade são constituídas por mediações, por um lado, semióticas, por envolverem a apropriações da linguagem e de significados, e por outro, educacionais, por envolverem relações entre gerações e interétnicas, seja na escola e/ou na comunidade.
Essa ação, portanto, de filtragem, em que peneirei as muitas e diversas linhas e fluxos de textos orais foi realizada na medida em que presenciava, transcrevia e lia as narrativas originadas nas visitas às localidades de Almofala. Esse enlace dos objetivos, tal qual os fios de um trançado, permitiram, como no manuseio da urupema, a filtragem da parte mais densa de sinais e vestígios semânticos e experienciais em torno da temática. Nesse sentido, essa comparação com o uso da urupema nas farinhadas- que pude presenciar na Varjota junto à família da professora Nova e à do pajé Luís Caboclo- é bastante oportuna, pois as funções, a constituição e a apropriação dos Tremembé desse objeto propiciam nexos pertinentes para o entendimento desse momento da Hermenêutica Profunda de análise das narrativas.
é um elemento indispensável em uma casa de farinha, na farinhada, pois a mesma serve para peneirar massa, goma e borra de mandioca, que nosso povo tem tradição de fazer. É feita da casca da cana e de bambu, suas laterais são feitas com madeira e amarrada com o fio do algodão. A urupema hoje vem sendo substituída por outro material que é o arame. Sua durabilidade é bem menor do que a feita de materiais naturais (SANTOS, SANTOS, 2012, p. 34)
A esse momento Urupema refiro-me, portanto, ao exercício de peneirar e encontrar os sinais e indícios da semântica da espiritualidade em mediações intergeracionais, e dessa maneira, caminhar no horizonte da análise da narrativa como segunda condição de artesania
dessa Hermeneutica Profunda Diatópica. Com isso, os objetivos específicos, ao serem entrelaçados, tornaram-se os aspectos orientadores do olhar junto aos sinais semânticos da espiritualidade – o que se revelou como “encanto”- e dos indícios de mediações intergeracionais - escolares e/ou comunitárias- nas e das experiências narradas por professores e velhas lideranças. Destaco que esse papel “orientador” dos objetivos específicos não veio a priori mas concomitante às compreensões, interrogações e inquietações nas visitas. Afinal, os próprios objetivos específicos foram reconstruídos no desenrolar dos quatro anos de aproximações, inserções e interlocuções junto a narradores/as das experiências aglutinadoras da espiritualidade e da intergeracionalidade.
Essa artesania se deu em consonância com o Paradigma Indicíario de Ginzburg (1989), a meu ver, por dois aspectos, em primeiro, porque o exercício descolonial, por não ser hegemônico, traz formas simbólicas interculturais cuja semântica não é facilmente codificável a corpos atravessados pela colonialidade, como o deste pesquisador, assim, os sinais e indícios da espiritualidade, do encanto, estão vivíveis e invisíveis nas narrativas, nos enredos dos acontecimentos vividos por e entre professores/as e velhas lideranças. Em segundo, pela peculiaridade desses saberes, reveladores de um ethos, de cosmogonias e ancestralidade, que não estão necessariamente passíveis de entendimento por parte de um estrangeiro, como este pesquisador. Dessa forma, a processualidade das visitas, das inserções e interlocuções criadas, do diálogo exercitado nas situações de conversa e de entrevista, foram fundamentais para uma melhor apreensão, nas narrativas, de temas-geradores e saberes relativos à espiritualidade, bem como dos seus modos de ingresso na intergeracionalidade.
Os indícios dessa inscrição foram, ainda em consonância com a função da Urupema, identificados no fluxo semântico de encadeamento dos enredos dos episódios relativos à espiritualidade, através do horizonte de análise exposta por Flannery (2011) dos componentes das narrativas, que chamo de Curtas ou Longas Histórias, segundo a extensão das mesmas. Os referidos componentes da narrativa, originalmente formulados por Labov, trago para esse movimento analítico de peneiração, conforme a exposição de Flannery (2011), para melhor identificar e compreender as partes das histórias e, sobretudo, os sinais das experiências de espiritualidade e das mediações intergeracionais a transitar pelas narrações.
Por fim, a Interpretação/re-interpretação, na qual, em acordo com Thompson (1995), como pesquisador busco uma compreensão dos modos de interpretação prévios dos sujeitos e de seus aspectos históricos e sociais. Com ela, expresso o exercício de apreensão por meio de metáforas conceptuais que traduzem e são traduções provisórias e inventivas do que aprendi
nesta experiência. As metáforas conceptuais, segundo Sardinha (2007), implicam em um modo de conceitualização de uma dada experiência a partir da linguagem de outro domínio experiencial, não necessariamente de modo consciente. Neste caso, as metáforas debulhadas por mim surgiram principalmente no decorrer do processo Urupema anteriormente descrito.
São, nesse sentido, convencionais às mediações sociais nas quais emergem, portanto, trago elas a partir de alguns insights no decorrer da pesquisa, seja nas visitas- ao alimentarem de conteúdo vivencial e simbólico o pensar acerca do tema de pesquisa-, seja neste momento mais intenso de escrita, mobilizado com a Urupema do fluxo de contação das histórias.
Além disso, ainda sobre as metáforas conceptuais que debulhei nessa e com a leitura profunda indiciária (outra metáfora conceptual), destaco, através de um cruzamento entre as explanações de Sardinha (2007) e Walsh (2008), serem elas interculturais, pois refletem a artesania envolta nos entrelugares dos modos de apropriação do mundo e, inclusive, de racionalidades constituintes da realidade. Por fim, posso apontar que a categoria teórica ‘Espiritualidade’ acompanhou a escuta na entrevista e o olhar na compreensão desde o início do processo de produção das narrativas, e com ela foi possível visualizar outras três grandes categorias empíricas: Natureza, Torém e Medicina Tradicional, pois foram as significações identificadas na própria denominação das disciplinas nas escolas e entrevistas.
O esquema abaixo sintetiza as ideias deste tópico de modo a mostrar como os momentos da Hermenêutica Profunda de Thompson (1995) são apropriados e contribuem para a compreensão do tema desta pesquisa. Com isso, também anseio explicitar como penso as relações entre esses momentos e o exercício apreensivo a articular o Paradigma Indiciário com a Pluritopia dos diferentes lugares de enunciação geracionais – professores e velhas lideranças- e na pesquisa, o meu lugar de estrangeiro ao aldeamento de Almofala.
Figura 04: O fluxo do exercício desta Hermenêutica Profunda Pluritópica
Fonte: Elaboração própria
Análise Sócio-histórica e discursiva Interpretação e re-interpretação
Experiências e mediações Intergeracionais URUPEMA Narrativas Semânticas do Encanto
Apreensão das formas simbólicas interculturais e Criação de metáforas
conceptuais da Espiritualidade
Leitura Profunda Indiciária
2 OS TREMEMBÉ E O GIRO DESCOLONIAL