Por se tratar de uma pesquisa Narrativa, o instrumento metodológico prioritário é a entrevista orientada para a assunção de narrações acerca das mediações escolares e comunitárias dos grupos geracionais de professores/as e de Velhas Lideranças, nas quais emergem suas experiências em torno da espiritualidade. Mas como emergiram as entrevistas, em princípio, abertas, e posteriormente, episódicas? Para explicitar a dinâmica das conexões
entre os instrumentos desta pesquisa, apresento a imagem abaixo que possui as técnicas e suas relações de influência.
Figura 03 – Interconexões dos instrumentos de pesquisa
Fonte: Elaboração do autor
Conforme o esquema, a entrevista episódica é a técnica resultante da convergência entre e dos instrumentos eminentemente de aproximação e de interlocução. Para chegar às situações de entrevista individuais e em grupo, primeiramente, realizei visitas, seja para uma observação participativa de eventos (Marcha, Seminários, Assembléia etc), ou de vivências de ações escolares ou comunitárias (aulas de campo pelas lagoas, casas de lideranças/pajés ou rodas de conversa na escola) para entrar em contato com os sujeitos de cada grupo geracional. As visitas podem ser entendidas como os instrumentos de base para todos os demais, pois possuíram um caráter disparador das interações, das condições de possibilidade para os momentos de aproximação, de inserção e de interlocução. Inicialmente, com as primeiras inserções nas comunidades, quando eu e Mazim íamos para realizar entrevistas preliminares com algumas lideranças mais velhas das comunidades citadas, observamos possíveis limites se mantivéssemos uma rigidez nos procedimentos, na postura adotada pelo entrevistador.
Nesse sentido, observamos que a entrevista aberta ou informal por se instituir em uma conversa seria mais potente para esse contato preliminar com as pessoas pois facilitaria a troca de ideias e diluiria a formalidade desse encontro, de modo a todos estarmos mais espontâneos e autênticos (GIL, 2010; DUARTE, 2005).
Além disso, optamos por essa técnica pois desejávamos explicar e pactuar a realização da pesquisa, conhecer melhor o universo simbólico dos Tremembé e, mediante esses aspectos, elaborar de forma mais contextualizada nosso problema e objetivos de pesquisa. E assim foram essas interlocuções de caráter exploratório. No decorrer dessas primeiras entrevistas vimos a potencialidade dessa postura mais aberta/informal para a comunicação franca e
INTERCONEXÕES DOS INSTRUMENTOS DE PESQUISA OBSERVAÇAO PARTICIPATIVA ENTREVISTA EPISÓDICA VISITAS VIVÊNCIA
espontânea. Com essa experiência, vimo-nos também dentro da proposta da entrevista em profundidade, entendida como uma:
técnica qualitativa que explora um assunto a partir de informações, percepções e experiências de informantes. [...] Entre as principais qualidades dessa abordagem está a flexibilidade de permitir ao informante definir os termos da resposta e ao entrevistador ajustar livremente as perguntas. [...] busca, com base em teorias e pressupostos definidos pelo investigador, recolher respostas a partir da experiência subjetiva de uma fonte (DUARTE, 2005, p. 28)
Ou seja, se a postura e o horizonte maior nessas entrevistas, as qualificavam como
abertas ou informais, seu alcance possibilitou um contato com a experiência vivida dos/as moradores/as das comunidades Tremembé, assim como conhecermos seus termos da resposta (do vocabulário e temáticas existenciais, à aquilo que pretendem e podem partilhar) e termos mais liberdade para refazer ou criar perguntas. Dessa maneira, pelo próprio desenrolar das elaborações dos recortes de nossos estudos, sentimos a necessidade de integrar a essa postura mais comunicativa na entrevista com o acréscimo de perguntas disparadoras de narrações em torno de nossas temáticas específicas. De modo geral, interessava-me as narrativas de mediações escolares e comunitárias nas quais a intergeracionalidade se fazia presente, e, entre elas, as de experiências nas quais a espiritualidade surgia como tema principal.
Diante desse desafio, imaginei, de início, que a entrevista narrativa seria a técnica mais apropriada, pois seu horizonte maior de produção de narrações obviamente seria bastante condizente com o teor, inclusive, teórico desta pesquisa – a experiência e a mediação como as categorias que articulam interculturalidade, intergeracionalidade e espiritualidade. Porém, ao conhecer mais dos procedimentos e da postura empregada nessa técnica, entendi que perderia em termos da intercomunicação com os/as professores/as e da possibilidade de enfocar situações concretas, conhecidas junto a professores e aos Troncos Velhos, que diziam respeito ao tema da espiritualidade. Por isso, após as interlocuções preliminares, procurei técnicas que mantivessem o princípio básico de assunção de narrativas via entrevistas, mas que possibilitassem uma maior flexibilidade na interação com os/as participantes e um enfoque maior, por intermédio das perguntas junto a entrevistados, quanto aos acontecimentos vividos em que o tema em estudo se mostrou pujante para os mesmos.
Foi nessa busca que entrei em contato com a chamada entrevista episódica exposta por Flick (2000) sobre a qual aponta os seguintes critérios para sua realização: a) a articulação de solicitações a sujeitos específicos a narrar acontecimentos de suas experiências com indagações para o entendimento de concepções dos mesmos intrínsecas à temática; b) a abordagem de situações ou episódios vividos pelos sujeitos que caracterizam suas
experiências; c) proporcionar a seleção, por parte do entrevistado, do que e de como contar tais acontecimentos, não necessariamente por uma narrativa em si.
Perante esses parâmetros elencados por Flick (2000), na entrevista episódica
identifiquei elementos metodológicos mais condizentes com os objetivos deste estudo, calcados nas mediações e nas experiências em que a espiritualidade se inscreve em relações intergeracionais Tremembé. Ao voltar-se aos episódios e às concepções trazidas pelos sujeitos acerca desses acontecimentos, essa modalidade de entrevista convergiu inclusive no que se refere a aspectos de suas fases preconizadas por Flick (2000).
A aproximação preliminar junto ao campo, para aprimoramento dos objetivos da pesquisa e de que perguntas disparadoras da interação e das narrações seriam mais pertinentes, mostrou-se compatível com a primeira fase indicada pelo autor. A segunda etapa, cujo horizonte é a familiarização do entrevistado com o tipo de entrevista e de perguntas referentes ao tema, ocorreu em todas aquelas realizadas já no momento exploratório inicial.
Inclusive, trago que essas duas primeiras fases se deram, seja no período de aproximações preliminares em 2013, ou nas inserções em campo posteriores, em visitas a cada participante (nas escolas ou em suas casas), nas quais buscávamos tão somente o convite e a explicação quanto aos temas e aos momentos da pesquisa. Só posteriormente é que as entrevistas propriamente ditas eram realizadas. Com isso, acreditamos ter valorizado mais o processo de reconhecimento mútuo entre nós, pesquisadores estrangeiros e os Tremembé.
Ressalto também que a essas visitas e entrevistas acompanhavam-se de nossa participação em ações das comunidades e dessas três escolas Tremembé. Sobre elas, a presença nas defesas dos TCC´s e das celebrações de colação de grau do MITS´s, entre 2012 e 2013; em boa parte das Marchas Tremembé a ocorrer no dia 07 de setembro desde então; e no cotidiano escolar e comunitário que adentramos, inicialmente, para fins de efetivação das duas fases elencadas por Flick (2000). Ainda quanto às contribuições referentes às fases da
entrevista episódica, que não me pretendi adotar mecanicamente, mas absorver suas potências, as terceira e quarta fase de Flick (2000) se fizeram presentes nas visitas mencionadas, nas entrevistas propriamente ditas e até nas observações participativas nas ações citadas. Essas duas fases dizem respeito “a concepção do entrevistado sobre o tema e sua biografia com relação a ele” (FLICK, 2000, p. 119) e “o sentido que o assunto tem para a vida cotidiana do entrevistado”(p. 120).
Tais premissas da entrevista episódica não foram apropriadas por mim como “fases”, mas referências teóricas que indicam os aspectos relacionais e significativos alvos dessa
técnica de estudo. A terceira me proporcionou a abertura a, na situação de entrevista, convidar a narrações sobre a espiritualidade nas experiências geracionais, e a indagar quanto às concepções que os sujeitos trazem a cerca dessa temática e de suas práticas educacionais.
O quarto pressuposto me fez estar atento às significações explicitas e implícitas nas narrativas e descrições de concepções surgidas nas entrevistas. Em especial, aos nexos sinalizados, via sentidos, entre as experiências relacionadas à espiritualidade e ao cotidiano das gerações em questão. Esses aspectos exigiram mais do que a formulação de perguntas, mas o exercício da escuta dos modos de apreensão dos sujeitos, dos enredos tecidos pelos indivíduos e grupos geracionais sobre suas experiências.
Os locais para realização das entrevistas, a princípio, foram a escola ou a residência dos participantes, de acordo com o que facilitou sua expressão e disponibilidade. Quanto aos cuidados éticos na pesquisa, foram consideradas as diretrizes para pesquisa com seres humanos conforme as resoluções atuais das pesquisas em Ciências Humanas. Além disso, a pesquisa foi cadastrada na plataforma brasil com o número CAAE 49655915.9.0005054.