6.1 Del 1 – Analyse av rumensk sigøynermusikk
6.1.5 Musikkens samspill med andre meningsbærende systemer
Nesse momento de escrita da pesquisa, anuncio alguns elementos dos quais lancei mão para desenvolver e explicitar os constructos originados dessa leitura profunda, sobretudo, dos textos das narrativas produzidas nas entrevistas episódicas durante as visitas.
Como parte do exercício de apreensão descolonial, que entendo ser permeado de contradições e de ambiguidades, sigo no horizonte metodológico de uma Hermenêutica Profunda, mas também, Pluritópica. Ou seja, que parta dos lócus de enunciação dos sujeitos, de suas palavras-geradoras de pronúncia, de denúncia e de anúncio do mundo, conforme Freire (1987) aponta em sua Pedagogia Dialógica.
Então, sinalizo a quem lê essas linhas, que aqui exercito uma apreensão em torno da inscrição da Espiritualidade nas relações intergeracionais de professores e velhas lideranças Tremembé. E para tal, as metáforas conceptuais que confecciono neste estudo voltam-se para a análise e a interpretação das narrativas produzidas nas situações sociais de entrevista. O debulhar dessas metáforas media a leitura profunda das narrativas, entendidas aqui, como
formas simbólicas interculturais. E, ao mesmo é resultante dessa artesania hermenêutica. Uma primeira metáfora conceptual já foi por mim apresentada nos capítulos anteriores, quando trago as ideias do mosaico ethosmetodológico e de um mosaico conceptual da Espiritualidade. Nesse caso, aproprio-me do domínio experiencial do mosaico, histórica e artisticamente, para realizar um peculiar arranjo conceptual, em interlocução com algumas definições acadêmicas, acerca da categoria “espiritualidade”. Do mesmo modo, invisto nesse trabalho metafórico no que tange à noção de experiência, sobretudo, para construir um
No entanto, interessa-me partilhar aqui, outras duas metáforas conceptuais que confecciono a partir de minha apropriação de parte da semântica Tremembé, delineadora de sua etnicidade fundada em seu interculturalizar contínuo. A primeira é a do Uru da Intergeracionalidade Tremembé, inspirada na referência a esse objeto por parte de professores e de lideranças em várias das visitas a Almofala, à sua presença nas escolas, principalmente, em atividades comunitárias ali desenvolvidas, e, sobretudo, por sua menção no Seminário Uru da Diversidade de Saberes Tremembé, que pude participar na Passagem Rasa e que é uma das fontes mobilizadoras da metáfora que aqui trago no estudo. O Uru, segundo os professores José Vicente e Luiz Henrique, em seu TCC do MITS,
é um elemento feito da palha da carnaubeira, confeccionado de vários tamanhos e tem inúmeras utilidades. Os menores são usados para guardar tabaco, cachimbo ou ovos. Os médios são usados nas pescarias no mar, rio e lagoas para colocar peixes e crustáceos. E os maiores são feitos para a colheita do feijão e milho (SANTOS, SANTOS, p. 41, 2012).
O Uru possui, portanto, diversos tamanhos e possibilita guardar e colocar diferentes coisas, mas todas elas, de uso no cotidiano dos Tremembé e, em boa parte, para fins de alimentação. Então, diante desse domínio semântico do objeto Uru, desloco-o metaforicamente, para um outro significado a abraçar essas características, porém de modo que seja feito das mediações intergeracionais pelas quais a espiritualidade ingressa nas ações escolares-comunitárias de professores e de lideranças Tremembé.
Então, o Uru da Intergeracionalidade Tremembé que trago nessa e dessa leitura profunda é tecido pelas dinâmicas geracionais experienciadas por professores e lideranças no contexto escolar-comunitário. Daí que parto para um outro aspecto dessa metáfora para melhor situar esse Uru, que está associado à trança nesse objeto, geralmente de palha. Se o seminário acima influiu na construção da metáfora do Uru Intergeracional, o contato com os trançados de palha de dona Elita, da localidade da Tapera, constituiu a vivência inspiradora dessa ideia. E que, pela exposição abaixo, adquire validade por sua valorização local:
é feita da palha do olho da carnaubeira. Retira-se o olho da carnaubeira, coloca no sol, depois de três dias risca-se para separar umas das outras, selecionando as melhores palhas e em seguida faz a trança. Após uma boa parte feita, confecciona-se a saca em grade de madeira, tecendo uma na outra, amarrando com a própria palha. Serve para guardar farinha, goma, feijão e milho (SANTOS, SANTOS, p. 40, 2012). Ao entender que o Uru é feito por meio de um trançado, que relaciono na interpretação dos constructos das narrativas, às relações intergeracionais a aparecer nas Histórias e, até, mesmo nas vivências de ações que pude fazer parte nas localidades do
aldeamento de Almofala: Marcha Tremembé, Assembléia do Povo Tremembé, caminhadas pela mata, aulas de campo e tantas outras.
Dessa maneira, com a foto de fundo abaixo, retirada do TCC dos professores Tremembé outrora citados, ilustro a imagem metafórica que guia e surge de minha leitura profunda das narrativas de cada sujeito geracional participante desta pesquisa. Criação essa, permeada pelas diversas vozes e experiências vividas nas visitas às comunidades.
Figura 14: Imagem da metáfora conceptual do trançado intergeracional
Fonte: Foto de fundo do TCC do MITS de Santos e Santos (2012).
No trançar das relações entre professores e velhas lideranças, em ações em um cenário escolar e comunitário, a espiritualidade ingressa e fortalece essa amarração formadora do Uru. Os vestígios desse processo pude ler nas narrativas desses sujeitos e, por isso, tento expressar na forma simbólica intercultural acima, esses enlaces a se concretizar nas Histórias que ouvi de cada uma dessas gerações.
Assim, o Uru da Intergeracionalidade Tremembé, nesta pesquisa, é feito dos
trançados das relações entre essas gerações e nas quais há o ingresso da semântica da espiritualidade. Consequentemente, esse Uru está em contínua transformação, seus trançados são feitos, desfeitos, refeitos conforme as dinâmicas geracionais e os atravessamentos de aspectos diversos.
O Uru Intergeracional, como também sinalizado no Seminário da Passagem Rasa, constitui um receptáculo dos saberes, neste caso em específico, relacionados à espiritualidade emergentes das e nas experiências das mediações de e entre professores e lideranças. Com a seguinte imagem de fundo, retirada do TCC dos professores Tremembé José Vicente e Luiz Henrique, procuro a ela acrescentar as ideias que articulo com essa metáfora:
Mediações Intergeracionais
Ações, enteléquia e ethos de velhas lideranças
Ações, enteléquia e ethos de professores
Figura 15: Imagem da metáfora conceptual Uru da Intergeracionalidade
Fonte: Foto de fundo do TCC do MITS de Santos e Santos (2012)
Dessa maneira, para completar esse arranjo interpretativo, explicito agora, a terceira metáfora com a qual leio os saberes de espiritualidade transmitidos e vivenciados intergeracionalmente em ações escolares e comunitárias.
Refiro-me a um objeto que está presente em boa parte das ações Tremembé de que pude participar, pois é presença certa em uma roda do ritual sagrado, o Torém, nas Marchas Tremembé é empunhado em meio às faixas e aos cartazes sobre o tema daquele ano, nas escolas que visitei é parte do chamado material escolar educacional e nas aberturas e fechamentos de reuniões, seminários e assembleias tem sua voz presente junto àqueles/as que
abrem dos trabalhos: o Maracá. Segundo Santos e Santos (2012), professores participantes do MITS, o Maracá significa:
chocalho indígena ou aguaim é um instrumento importantíssimo do nosso ritual sagrado do Torém. Ele é muito usado no Torém e também nas escolas pelos professores e alunos. O som do maracá dá o ritmo da música do Torém. Esses são confeccionados em uma oficina de artesanatos indígenas, pelos alunos do ensino médio da escola de Tapera. Ele é feito de coco e cabo de madeira. Dentro dele são colocadas sementes de giriquiti e pau-brasil para dar o som (p. 47).
O Maracá, portanto, é um instrumento que adentra nas ações performativas dos rituais dos Tremembé, conforme Dussel (1986), soma-se às demais ações que agregam sacralidade ao ritmo do Torém e aos eventos acima descritos desse grupo étnico. Nesse sentido, segundo Miranda (2004), são muitos os relatos de cronistas do Brasil Colonial acerca do papel mediacional do maracá de comunicação dos povos indígenas com os espíritos, vistos por aqueles, pela colonialidade cosmogônica atravessadora desses relatos, como malignos.
Trançado das
mediações
intergeracionais
Ingresso da
Espiritualidade
Dessa maneira, com vista a uma leitura descolonial,o Maracá, como objeto sagrado a acompanhar os rituais Tremembé, assume o lugar metafórico das experiências de espiritualidade narradas nas Histórias de professores e de velhas lideranças. Ele encarna, nesta pesquisa, o paradoxo do visível e do invisível, que se desdobra no do saber e não saber, na medida em que sua sonoridade, sua voz, a abrir os trabalhos, a cadenciar o Torém e a fechar uma atividade, é enunciada conforme cada uma dessas ações e a depender de quem e de como o empunha.
O Maracá é partícipe e testemunha das experiências de mediações escolares e comunitárias de professores e de lideranças, nas quais a espiritualidade ingressa, muitas vezes, pelo chamado do seu chacoalhar. O Maracá, nessa metáfora, é um código polissêmico denotador do ingresso e da inscrição da semântica e dos saberes da espiritualidade nas experiências intergeracionais narradas pelos participantes da pesquisa.
Por isso, refiro-me neste exercício de apreensão das narrativas, aos Saberes-sementes
do Maracá da experiência de espiritualidade, que ilustro ao final de cada passo da leitura profunda das narrativas, os saberes a entoar significações acerca dessa temática mediante relações intergeracionais. Com isso, destaco esses Saberes-sementes dos Maracás dessas experiências produzidos e guardados nos trançados do Uru da Intergeracionalidade Tremembé.
Essas são as grandes metáforas conceptuais que desenvolvo neste estudo, que nascem, como dito anteriormente, tanto pela presença desses objetos nas atividades e nas falas de professores e de velhas lideranças Tremembé, como por seu uso simbólico, em rituais e músicas – no caso do Maracá- e em atividades escolares-comunitárias – no Seminário Uru da Diversidade de Saberes Tremembé na Passagem Rasa. Por isso, destaco que as metáforas conceptuais que aqui apresento são polifônicas, originadas e constituídas a partir das diversas vozes com quem tive a oportunidade de encontrar.
Ainda nesse processo é que pude conhecer, na biblioteca da Escola da Praia, algumas imagens de Maracás desenhados em um livro escrito pelos Tremembé e outras etnias do Ceará, a conter, assim como o Uru, narrativas sobre diversos temas a se abordar nas escolas diferenciadas indígenas. Na leitura desse material educacional, pude visualizar duas imagem que adquiriram uma relevância semântica nesse momento da pesquisa, pois elas convergiram com algumas apreensões debulhadas no refletir sobre as narrativas.
Por isso, trago-as nesta pesquisa para melhor explicitar a metáfora conceptual relativa ao Maracá como vibração e chacoalhar – referentes à experiência-, na figura 16, e àquilo que
brota de suas sementes, a semântica do Encanto e os saberes de Espiritualidade, na figura 17. Como imagens que transmitem vivências e múltiplos sentidos, em mim evocaram, respectivamente, a “vibração” inerente à noção de experiência tecida das narrativas e das interlocuções teóricas aqui feitas, bem como os saberes que emergem desses processos.
Figura 16: Maracá como chacoalhar da experiência e cujas sementes brotam saberes
Fonte: Imagens extraída de “O Livro da Vida Tremembé” de 2007
4.4.2. “os que já, que foram, e voltam e ensinam, aqueles que eles vê que pode ensiná”
A proposta da entrevista episódica apregoa a relevância para a pesquisa de uma situação social de conversa em que, paralela à criação de narrativas acerca de um acontecimento, emergem acepções acerca da temática principal a conduzir e conduzidas pelas interlocuções entre pesquisador e participantes, entendidos em seus lugares históricos, políticos e geracionais distintos.
Essas concepções acerca do tema em estudo são vistas, nessa perspectiva, em parte, como anteriores à situação de entrevista, pois considera a historicidade dos sujeitos e de seus saberes. Porém, também pressupõe a existência de criações ou reelaborações no decorrer do processo de entrevista, pois essa interação se dá em um contexto social, invariavelmente, a desacomodar os sujeitos nesse encontro.
Dessa forma, trago alguns trechos das entrevistas realizadas que ocorreram no processo das visitas de modo que, pela dialogicidade fomentada na relação entre pesquisador e participantes, paulatinamente, algumas concepções e problematizações sobre a palavra
espiritualidade foram debulhadas entre ou nas narrativas produzidas.
Nesse aspecto, as circunstâncias de apropriação e uso dessa palavra, a evocação e valorização da palavra encanto ou encantado tornaram esse exercício de apreensão de concepções gerais em torno do tema da pesquisa, uma rica reflexão em torno das relações
entre linguagem, geração e etnicidade. Dessa forma, não trago essas concepções no intuito de esgotar essa temática, pois neste trabalho me detenho sobretudo é à inscrição da espiritualidade, ou de tudo que venha a ingressá-la, na intergeracionalidade Tremembé. Por isso mesmo, creio ser importante para a compreensão das narrativas orais que me deterei posteriormente, partilhar algumas dessas noções não só circulantes nas entrevistas, mas em dizeres em ações escolares ou comunitárias que presenciei ou participei.
Com essa apresentação pretendo também tecer algumas reflexões em torno de nexos e desconexos da concepção provisória trazida por mim, a partir da análise de alguns referenciais conceituais da saúde e da educação. Inicio, portanto, essa exposição com a reflexão de Manoel, filho de seu Zé Domingo, também liderança da Passagem Rasa, que diante de minha pergunta sobre a presença longínqua ou recente da palavra espiritualidade, teceu as seguintes considerações. Diante das quais, confeccionei o título que abre esta seção do texto para partilhar aquilo que me despertou admiração (FREIRE, 1987) no seu processo de leitura ampliada (quando junto a transcrição e a análise do texto escrito):
é, é muito, a espiritualidade, eu acredito que, ela surgiu, junto com povo, com os índios, com o povo, junto com esse povo, apareceu no, no Brasil, no mundo, a espiritualidade já, já vinha junto, porque, tem gente mais, que já nasceu já mais pra aquilo, pra fazer aquilo, e tem, tem gente que, mais, mais forte, que trabalha com a espiritualidade mais forte, e gente que trabalha com a espiritualidade mais fraca, que tem os mais forte e os mais fraco, e, e as, e as coisas que, que surge no meio da espiritualidade, é, num é, num é muito as coisas que a pessoa aprende, num é eu, nem que sei, e num é outro, que sabe, que as vezes, ensina praquele não, ali ele já nasce com aquilo, já nasce com aquele dom, com aquilo, de ser aquilo, de aprender aquilo, aprendê mais por obra da natureza, aprendê mesmo, por obra da natureza, os que já, que foram, e voltam e ensinam, aqueles que eles vê que pode ensiná, aqueles que eles vê que pode ensiná, aqueles que eles pode, num sonho, até, num sonho, pode dizer alguma coisa, dizer algo, dizer alguma coisa (MANOEL DOMINGOS). É interessante notar que a espiritualidade, no olhar de Manoel, não tem sua presença delimitada a e por um tempo cronológico, mas pela sua inerência ao surgimento dos povos indígenas. Dessa forma, ela aparece no Brasil e no mundo junto a esses sujeitos.
Então, ela não é algo levado aos povos nativos. Essa conjunção da espiritualidade com os índios é entendida no pensamento de Manoel como algo “intrínseco” a uma pessoa que “nasce já mais pra aquilo, pra fazer aquilo”. Algo que nasce junto com o povo e, por isso, há aqueles mais fortes e mais fracos que justamente trabalham com a espiritualidade mais forte ou mais fraca. A espiritualidade que surge junto com os índios é, nessa acepção de Manoel, algo com que se trabalha e esse fazer é algo inerente, que certas pessoas já nascem feitores nesse sentido. É nesse ponto, que ele delimita que, a pessoa aprende, mas não com alguém,
inclusive alguém que sabe – “num é eu, nem que sei, e num é outro, que sabe, que as vezes ensina praquele não, ali ele já nasce com aquilo”.
Não se trata do fazer algo que pode ser ensinado de qualquer pessoa a qualquer outra. Há uma peculiaridade em quem trabalha com a espiritualidade, é o dom, presente no povo, nos índios, “com aquilo, de ser aquilo, de aprender aquilo, aprendê mais por obra da natureza, aprendê mesmo, por obra da natureza...”.
O dom, portanto, refere-se a algo que a pessoa traz consigo mesma, algo qualificador do seu ser, que lhe propicia aprender algo em específico (sobre e com a espiritualidade), neste caso, um fazer e ser indissociáveis. Mas cuja aprendizagem, ao ser mais obra da natureza, também diz da conexão estabelecida com e para esse processo e da transformação na pessoa que dela resulta. Por ser “criação” da natureza, o fazer e o ser, são parte dela também.
No entanto, não é por se referir a natureza, que não exista uma mediação e experiência, pois a espiritualidade, aí subtendida, ao meu ver, como os que “já, que foram e voltam e ensinam”, pressupõe, por um lado, uma relação entre quem foi e quem tem o dom, e por outro, uma ação com intenção e significado, que é o ensinar. A própria delimitação desse ensinar a quem tem o dom, já traz uma significação a quem participa desse processo e, inclusive, às suas ações mediadoras, como mencionado por Manoel, o sonho, mediador entre os que se foram e aqueles que podem aprender.
A concepção de espiritualidade, por mim percebida em Manoel, é conjugada aos índios, relativa aos que se foram e seus ensinamentos àqueles que tem o dom de aprender o que se faz em um processo da natureza e não sobre ela. Assim, a espiritualidade tem uma inscrição intergeracional e na/da natureza, em que a finitude é perpassada pela ancestralidade dessa mediação e relação com os que se foram, embora se localize no tempo presente de quem aprende os ensinamentos, pressupondo saberes da espiritualidade acessíveis primeiramente a quem tem o dom, um mediador entre os que foram e os que estão, entre esses saberes e as demais pessoas. Por fim, compreendo que o trecho que trago como título deste subtópico, “os
que já, que foram, e voltam e ensinam, aqueles que eles vê que pode ensiná, aqueles que eles vê que pode ensiná”, remete-me ao tema desta pesquisa, a inscrição da espiritualidade na
intergeracionalidade.
Mais especificamente, por mediações que envolvem o ensinar e, conforme Brandão (1981), subtendo haver simultaneamente um aprender, mais precisamente, entre aqueles que se “foram”, ao passo que ainda se fazem presentes, por “obra da natureza” junto aos Tremembé.
O sonho constitui uma mediação entre essas gerações e do processo de ensinar e
aprender que leio na fala de Manoel. No sonho, os que “já foram” podem “dizer alguma coisa”, ou seja podem agir – o dizer-, e isso pode se dá em e como experiência educativa para aquele/a que sonha e assim é ensinado/a.
A Espiritualidade ingressa, portanto, nessa relação intergeracional, entre os que se foram, e aí adentram os antepassados, e os que tem um dom para aprender com eles/as, por exemplo, por meio de um sonho. Mas isso pode ocorrer em experiências atravessadas por outras mediações, que Manoel, em continuidade à fala anterior, narra do seguinte modo:
ficou comigo essa, uma história, que o cacique me falou em uma conversa, numa conversa um dia, nós falando das lutas, a gente falando das lutas, aqui da Passagem Rasa, das questão, das coisa tudo e aí os cabôco, os índios réi aqui na luta contra os posseiros, e foram obrigado a derrubá aí umas cerca, queimá umas casas de farinha, móde os posseiros arredarem, e aí até que os posseiros tinham podê, e denunciaram os índios, no Acaraú, e aí os índios réi daqui, iam, né, nos tempos das audiência, íam pro Acaraú, tiveram que viajá doze audiência, pro Acaraú, de pés, daqui pro Acaraú de pés, pro Acaraú, essas audiência, no dia que tinha audiência, tinha que ir aquele bando de gente que ajudô a fazê essas coisas, tinha que ir pra audiência, aí como tinha gente aqui da passagem rasa, tinha gente da Almofala, eu num sei se tia, ou vó do seu João Venanço, o cacique, e aí eles íam também, eles íam também, tava me contanto, que, eles foram, quando vieram de pés, nas horas, no dia, quando vieram de pés, já, lá pra volta da meia noite, perto da madrugada, que vinham, aí que