6.1 Del 1 – Analyse av rumensk sigøynermusikk
6.1.6 Modalitetenes samspill om ideasjonell meningsskaping
Diante do objetivo geral desta pesquisa, compreendi, pela inserção nas visitas dialógicas, que uma forma de acesso aos indícios das mediações e experiências intergeracionais, relativas à espiritualidade, seria pelas narrativas. Afinal, por elas é que ambos processos ganham inteligibilidade e alçam a uma outra experiência, do narrar, aglutinadora da memória e da imaginação daqueles envolvidos ou apenas ouvintes dos acontecimentos vividos.
Nesse sentido, essa tese se fortaleceu com o debulhar desses indícios em vivências e narrativas, emergentes das e nas palavras-geradoras Natureza, Torém e Medicina Tradicional. Categorias essas aglutinadoras de saberes e sentidos produzidos e transmitidos intergeracionalmente, demarcadores de uma sacralidade que a própria memória das histórias possui, como leio na fala da professora Andreína:
Eu acredito que o sagrado, assim, pra nós é, primeiro de tudo, é o que você acredita. No primeiro de tudo, vamos dizer, o sagrado é o pai Tupã... E eu acho que em seguida pode vim várias outras coisas, como por exemplo: a questão da memória das histórias que a gente tem. Eu acredito que isso é uma coisa sagrada... Porque a partir da memória é que você vai... é ... tipo assim... como é que eu posso dizer? Se aprofundando na sua própria história! Porque já pensou se não tivessem pessoas que não tivessem memória de como que era aquele tempo pra ir passando isso de geração em geração? Então eu acredito que uma das coisas sagradas, assim, talvez até como a gente diz... imaterial são essas coisas. A questão da história, da memória, que fica gravado e que vai passando (ANDREÍNA).
Um vínculo entre o ato de narrar, a memória e as gerações, que ao historicizar o mundo em que vivem, criam sua própria história nesse mundo, em um movimento descolonial, pois envolve a formação de laços com os antepassados, de vínculos dos que partiram com os que permanecem.
É importante, portanto, destacar alguns aspectos relativos às narrativas, principalmente, na constituição da experiência, sobretudo, por sua relação constituinte com a Espiritualidade, conforme o mosaico conceptual, retratado em capítulo anterior, a funcionar como fonte de indícios, dos rastros deixados pelo tema desta pesquisa na semântica das histórias contadas nas diversas interlocuções realizadas nas visitas.
Assim, refletir sobre o que envolve o processo de narração representa um ponto decisivo, inclusive, para a confecção dos arranjos metodológicos desta pesquisa qualitativa. Segundo Bauer e Jovchelovitch (2000), por meio das narrativas:
as pessoas lembram o que aconteceu, colocam a experiência em uma sequência, encontram possíveis explicações para isso, e jogam com a cadeia de acontecimentos que constroem a vida individual e social. Contar histórias implica estados intencionais que aliviam, ou ao menos tornam familiares, acontecimentos e sentimentos que confrontam a vida cotidiana normal. Comunidades, grupos sociais e subculturas contam histórias com palavras e sentidos que são específicos à sua perspectiva de mundo, e assume-se que as narrativas preservam perspectivas particulares de uma forma mais autêntica (p. 91).
Como exposto, há uma relação intrínseca entre memória e narração diante dos acontecimentos constituintes da experiência. Por tais processos, a complexidade do vivido adquire sentido aos indivíduos e aos grupos, ao serem encadeados cronológica e significativamente. Narrar implica em expor um acontecimento em termos de seus espaços, tempos, movimentos e participantes. Pressupõe, dessa maneira, uma ação frente ao mundo e a si mesmo. Indica modos de percepção e de entendimento da realidade, expressa lógicas de entendimento e identificação do Outro. Imprime e reflete significações ao tempo e ao espaço.
Dessa maneira, a narração é conduzida por intencionalidades, de teor intelectivo e afetivo, com desdobramentos éticos e políticos inerentes à sua ação frente ao mundo, ao próprio narrador e ao Outro. Nexos esses anunciadores de posições. Nesse aspecto, é relevante a menção dos autores ao papel apreensivo do ato de narrar perante aos arrebatamentos da existência promotores de aflições, de estranhamentos e de inquietações.
A narração não garante um apaziguamento desses afetos, mas uma interpretação ou a condição para tal. Em decorrência desse papel, concordo com Bauer e Jovchelovitch (2000), ao indicarem que, a narração feita por determinados grupos expressará mais que “o” mundo, mas “seu” mundo em perspectiva. Seu vocabulário e significação existencial particular.
Assim, as narrativas de professores e de Velhas Lideranças aludem a seus acontecimentos vividos, mas também às suas linguagens por meio das quais codificam simbolicamente suas realidades geracionais e étnicas. Desse modo, as histórias são práticas sociais que produzem narrativas elucidativas das vidas dos sujeitos autores e personagens das mesmas. Sobre a relevância da narração para a apreensão da experiência, de si, do outro e do mundo, a concepção de Bruner (1997) acerca do por ele chamado, “modo de pensamento cognitivo”, converge e aprofunda o que trago nestas linhas. O autor distingue dois “modos de
ordenamento de experiência, de construção de realidade” (BRUNER, 1997, p. 12). A um, ele denomina de “paradigmático” e o outro de “narrativo”, complementares e irredutíveis entre si.
Eles diferem radicalmente em seus procedimentos para verificação. Uma boa história e um argumento bem formado são tipos naturais diferentes. Ambos podem ser usados como meio para convencer o outro. Não obstante, do que eles convencem é fundamentalmente diferente: os argumentos convencem alguém de sua veracidade, as histórias de sua semelhança com a vida. O primeiro comprova através de um possível apelo a procedimentos para estabelecer provas formais e empíricas. O outro estabelece não a verdade, mas a verossimilhança (BRUNER, 1997, p.12).
Como modos de ordenamento da experiência e de construção da realidade, acredito, em sintonia com o autor, que ambos sejam pertinentes e estejam presentes nos sujeitos, mesmo que em intensidades diversas em função também de sua valoração ser condicionada social e historicamente. O “paradigmático” mais incentivado na razão moderna ocidental, envolve o esforço de “explicação” da experiência e da realidade, através de sistemas de categorias organizados, preponderantemente, sob a lógica e a linguagem formal e matemática. O trabalho de elaboração desse sistema, ocorre pela adoção metódica de procedimentos a atestar as evidências empíricas das hipóteses formuladas e formuladoras de categorias abstratas, universais e isentas de contradições.
Já o narrativo busca o ordenamento da experiência e a construção da realidade voltada para outro horizonte: “A narrativa trata das vicissitudes das intenções humanas” (BRUNER, 1997, p. 17). Dessa forma, envolve um esforço de compreensão da experiência e da realidade, através da visibilização de um drama, da apreensão provisória e da verossimilhança do particular narrado, onde o “crível” é priorizado em detrimento do “verdadeiro”. E as contradições, ambiguidades e sinuosidades da experiência e da realidade são parte até dos critérios de credibilidade da história. Bruner (1997) alude à predominância do modo
paradigmático na ciência moderna, aspecto esse que reforço a partir do debate feito anteriormente quanto à colonialidade do saber. Nesse sentido, o que destaco nessa referência feita por ele, é o caráter colonial desse investimento e centralidade desse modo de pensamento no fazer científico e educacional. No entanto, assim como o próprio Bruner, há diversas iniciativas que identificam no ato de narrar um modo relevante de entendimento da experiência e da realidade. Encontrei na hermenêutica de Riccoeur, na sociologia de Ferraroti, na História Oral em Mehy e na pesquisa Biográfica de Delory-Momberger perspectivas teórico-metodológicas a ressaltar e enfocar a narrativa na produção do conhecimento. E, para além dessas proposições do campo acadêmico, identifico nas próprias cosmovisões ameríndias e africanas, em especial, na tradição oral epistemologias a desconstruir a centralidade do modo “paradigmático”.
Nesse aspecto, é bastante oportuna a compreensão de J. Vansina em Ki-Zerbo (2010) acerca das tradições orais a apontar o reducionismo reinante nas concepções de oralidade
como não existência da escrita, afinal, em civilizações africanas, mesmo com a vigência da escrita, teriam na palavra verbalizada mais que um forma de comunicação mas “um meio de preservação da sabedoria dos ancestrais, venerada no que poderíamos chamar de elocuções- chave, isto é, a tradição oral” (VANSINA in KI-ZERBO, 2010, p. 139-140).
A palavra enunciada em e por grupos que adotam a fala como abrigo de seus testemunhos, documentos históricos e saberes, não é apenas unidade de comunicação mas de produção de conhecimento e de existência para e de certos sujeitos, que neste caso, também visualizo os Tremembé. Assim, a narrativa, conforme o pensamento acima descrito, é uma forma de tradição oral, de mensagem histórica e de literatura oral, pela qual, compreendo que significados e saberes próprios à etnicidade de alguns sujeitos, ou de uma geração pertencente a um grupo étnico são transmitidos e apropriados. Conforme Vansina (2010, p. 140), se “a tradição pode ser definida, de fato, como um testemunho transmitido verbalmente de uma geração para outra”, concordo com o autor quando sinaliza que deve ser estudada de modo a compreender “o meio social que as cria e transmite e a visão de mundo que sustenta o conteúdo de qualquer expressão de uma determinada cultura” (VANSINA, 2010, p. 142). Essa integração entre tradição-narrativa-cultura parece-me inserir-se no modo narrativo de ordenamento da experiência e de construção da realidade pensado por Bruner (1997) e de modo algum, deve ser encarado em uma dicotomia ao paradigmático, bem como à escrita, mas com pesos distintos em seus grupos adotantes, já que isso reflete seu próprio modo de viver e de apreender a vida.
Assim, por reconhecer a complementaridade desses modos de pensamento, por entender a coexistências de ambos e suas possíveis interinfluencias, não identifico-me com uma mera mudança de modelo hegemônico totalitário. No entanto, compreendo que neste estudo, pela potência da narrativa, como ação interpretativa e instituinte dos acontecimentos, dos sujeitos e do mundo, ela terá um protagonismo na mediação do encontro com os participantes e na forma de produção dos constructos. Daí que, ao optar pela Pesquisa Narrativa, não busco apenas a narrativas canônicas de distintas gerações em torno de suas experiências relativas à espiritualidade. Mas entendo que, as narrações nas situações de entrevista, constituem, em primeiro, elaborações a atualizar os modos específicos de encadeamento dos acontecimentos marcantes para esses sujeitos geracionais e étnicos. E em segundo, os saberes e o ethos inerentes a seus modos de construção da realidade e significação da espiritualidade Tremembé. Assim, o que me interessa na tessitura de
contextos vividos pelos e entre os narradores, anunciadoras de saberes de espiritualidade e de seu ingresso na intergeracionalidade. Dessa forma, observo em Bauer e Jovchelovitch (2000), apoiados no olhar de Paul Riccoeur acerca da ação, que:
A estrutura de uma narração é semelhante à estrutura da orientação para a ação: um contexto é dado; os acontecimentos são sequenciais e terminam em um determinado ponto; a narração inclui um tipo de avaliação do resultado. Situação, colocação do objetivo, planejamento e avaliação dos resultados são constituintes das ações humanas que possuem um objetivo (BAUER, JOVCHELOVITCH, 2000, p. 92). Essa semelhança quanto à orientação da narrativa e do ato é bastante potente na medida em que possibilita o entendimento do encadeamento criado no narrar e no agir, bem como indica elementos para a interpretação de ambas. Conforme Riccoeur, a ação sensata, plena de significado, possui a mesma estrutura refletora da intencionalidade do narrador de uma história. Esse paralelo entre as estruturas orientadoras da narração e da ação tem como propósitos indicar seus aspectos constituintes e o horizonte de sua interpretação.
Quanto ao primeiro, envolve um caráter significativo a permear os nexos de seus encadeamentos e intenções. E sobre o segundo, aponta o quanto são passíveis de serem interpretados, mas sem presunções absolutas para esse exercício. Um terceiro aspecto que trago para este debate é a recursividade entre narrativa e ação, pois só narramos porque agimos e só agimos porque somos capazes de narrar, encadear e enredar, nossos feitos. O elo recursivo entre esses processos é a produção e a tessitura de significados. Dessa maneira, ao narrarmos e agirmos estamos a realizar encadeamentos, seleções e improvisações atravessadas de intenções, planas de significações, sob um pano de fundo social e histórico do e sobre o qual incide o narrar e o agir. Ao falar em significado do/no agir e narrar, aproximo-me do que os autores inferem acerca daquilo que traz e institui o sentido (direção, significação) a esses processos. Desta forma, uma ideia torna-se fundamental para identificarmos a expressão do sentido nessas estruturas:
O enredo é crucial para a constituição de uma estrutura de narrativa. É através do enredo que as unidades individuais (ou pequenas histórias dentro de uma história maior) adquirem sentido na narrativa. Por isso a narrativa não é apenas uma listagem de acontecimentos, mas uma tentativa de isi-los, tanto no tempo, como no sentido. [...] É o enredo que dá coerência e sentido à narrativa, bem como fornece o contexto em que nós entendemos cada um dos acontecimentos, atores, descrições, objetivos, moralidade e relações que geralmente constituem a história (BAUER, JOVCHELOVITCH, 2000, p. 92).
A compreensão do enredo de uma narrativa, ou de uma ação, proporciona a apreensão da lógica das intenções nas conexões entre os acontecimentos, as operações e as relações descritas pelo narrador ou realizadas por um agente. Ao narrar atribuímos nexo a uma série de feitos que por si só, podem ter nenhum ou infinitos sentidos. Ao agir também o realizamos,
inclusive, de acordo com nossos entendimentos dos enredos de acontecimentos conterrâneos e contemporâneos. É possível notar que o exercício de interpretação de uma narrativa, ou de uma ação, não se completa sem a leitura do enredo pelo e no qual as lógicas, as intenções e as perspectivas de mundo conectam em um mosaico histórico, social e biográfico uma experiência humana. A noção de enredo admite que a experiência humana, assim como a
narrativa e a ação, não são uma justaposição de feitos, embora não negue a complexidade da mesma, e rejeite qualquer ideia de determinismo (seja biológico, social etc.). Por isso, aproxima-se a ela muito mais a palavra drama e trama que aludem a conflitos e à imbricação das relações. Aspectos esses só compreensíveis mediante o conhecimento de sua dinâmica de enlace de certas microhistórias, cenas, conflitos e personagens. Assim,
o enredo fornece critérios para a seleção dos acontecimentos que devem ser incluídos na narrativa, para a maneira como esses acontecimentos são ordenados em uma sequência que vai se desdobrando até a conclusão da história, e para o esclarecimento dos sentidos implícitos que os acontecimentos possuem como contribuições à narrativa como um todo. Decidir o que deve e o que não deve ser dito, e o que deve ser dito antes, são operações relacionadas ao sentido que o enredo dá à narrativa (BAUER, JOVCHELOVITCH, 2000, p. 93).
Sem o enredo, não há nexos entre os acontecimentos, nem intenções a instaurar conflitos, alianças, paradoxos, não há dramaticidade. Não residem, portanto, significações a conectar os passos, as partes presentes nas situações, a tonar apreensiva o porvir a acontecer das horas. No enredo, habitam as perspectivas de vida dos sujeitos e das coletividades enunciadoras das narrativas. Nele imprimem-se as tensões referentes às posições sociais e históricas nas quais os personagens e as tramas se desenvolvem. Há, portanto, enredos particulares a cada unidade geracional, aos seus desafios e apropriações de suas experiências históricas e biográficas, e, mais peculiarmente, à temática da espiritualidade em suas vidas. Por e nesses enredos a etnicidade emerge na intergeracionalidade das práticas escolares e comunitárias dos Tremembé. Neles se dão as negociações e disputas por significações acerca do ser índio, de uma educação e de uma saúde diferenciada. Os enredos não apenas indicam ou contêm as lógicas de encadeamento, de omissões, de visibilização, de linguagens, das temporalidades e territorialidades dos indivíduos e grupos narrados ou narradores. Eles trazem as marcas sociais das tensões interculturais e étnicas pelas quais os tempos históricos e biográficos se aglutinaram em narrativas e em ações a legitimar e a dignificar as suas histórias e os seus saberes. Assim, ao enfocar os enredos nas e das narrativas e seus contextos de produção e transmissão, volto-me para as mediações escolares e comunitárias a partir das quais experiências intergeracionais emergem e nelas, apresenta-se a espiritualidade.
O principal, seja no que se refere à formulação dos objetivos desta pesquisa, seja quanto aos seus aspectos metodológicos, é a percepção de que “uma narrativa não é apenas seguir a sequência cronológica dos acontecimentos que são apresentados pelo contador de histórias: é também reconhecer sua dimensão não cronológica, expressa pelas funções e sentidos do enredo” (BAUER, JOVCHELOVITCH, 2000, p. 93).
Dessa forma, à palavra narrativa soma-se outra, enredo, que não apenas alude a uma sucessão de acontecimentos, mas às tramas que expressam suas conexões, e aos dramas enunciadores dos afetos e das indagações a acompanhar as situações e seus personagens. Quanto a isso, a própria história da significação desse termo indica os horizontes para os quais aponta seu sentido: A etimologia da palavra enredo também é bastante marcante, remetendo- nos ao ato original de enredar, fazer a rede e seus pontos (ABREU, 2011, p. 31).
Enredo é o substantivo do verbo referente à ação de conectar e promover junções de conexões. É, portanto, a rede, o tecido costurado do emaranhado de significados, eventos e movimentos presentes na existência. Em certa medida, o enredo é a fonte pulsante de uma
narrativa e possui uma relação especular e constitutiva da ação, pois nele se visibiliza o agir de e entre sujeitos em um espaço e tempo definidos, dele emergem indagações acerca dos por quês dessa ação e dos sujeitos, e com ele se institui realidades e o existente, visto nos e por seus conflitos. Diante desses elementos, narrar implica em tecer nexos entre acontecimentos, afetos e sujeitos em um certo espaço e tempo que também são significados nesse processo. O
enredo representa a lógica peculiar dessa tessitura, é a expressão da ação de enredar o emaranhado de afetos, de pensamentos, de relações e acontecimentos vividos. E ainda nesse sentido, considero importante destacar aqui uma modalidade de enredo possível às narrativas detentoras de aspectos intergeracionais e acerca da espiritualidade: o drama.
Em seu sentido estrito, etimológico – drama é uma “ação imitada no palco por atores” [...] Como na ação dramática (teatral) há conflito, o sentido da palavra, com o tempo, se deslocou para esse outro significado: o significado de “conflito” ou, informalmente, na língua do povo, de “situação ou sequência de acontecimentos em que predomina emocionante conflito de forças (DELL´ISOLA, 2007, p. 1701). O drama, nesse sentido etimológico, traz-me a visão de uma ação representada e instituída. No primeiro aspecto, tornada, particularmente, presente de novo pela narrativa de um sujeito, e, no segundo, a anunciação inventiva de uma ação ou o agir já estabelecedor de um substantivo em si mesmo. Com isso, entendo que o drama como modalidade de enredo
presente em uma narrativa convida a pensar e a sentir as tensões e conflitos produzidos e produtores dos nexos de uma trama na qual sujeitos enlaçam acontecimentos e são enlaçados por eles, por seu modo de narrá-los, a depender de para quem se dirige e em que
circunstâncias relacionais e de espaço e tempo. Nesse rumo, compreendo que as narrativas
são uma linguagem expressiva da intersecção do tempo histórico e biográfico (FERRAROTTI, 1997), e por tal aspecto, condizem com a lógica instituinte de uma geração, que em si, é uma posição social que resulta dessa mesma intersecção. O ato de narrar, suponho ser o mecanismo primordial de uma geração para situar-se frente as demais, já que sua constituição envolve a demarcação de suas diferenças experienciais, afetivas e intelectivas diante de outras. Bem como, a narração é uma ação, entre outras, participante dos modos de transmissão do ethos de cada grupo etário aos demais. Como expresso em Vansina (2010) e Hampaté Bâ (2010), a força significadora do narrar é a da fala na tradição oral, vista não somente como meio de comunicação, mas como performance instauradora do existente: “Quase em toda parte, a palavra tem um poder misterioso, pois palavras criam coisas” (VANSINA, 2010, p. 140). Ou seja, o mundo é construído por cada sujeito geracional em consonância com sua experiência e seus respectivos significados produzidos e transmitidos pelo e ao narrar. Diante disso, ao se tratar do tema da espiritualidade, em suas inscrições na e pela intergeracionalidade, entendo serem as narrações os modos de produção de sentidos e de partilha dos mesmos em mediações específicas, frente aos aspectos comumente relacionados a essa temática: a finitude, a temporalidade e a territorialidade, a transcendência e incomensurabilidade da existência.
Assim, os enredos elaborados e elaboradores das narrativas, ao imprimirem nexos a conectar acontecimentos, sentimentos, lugares e tempos, pessoas e grupos, possibilitam aos
narradores de cada grupo geracional a expressão das suas apropriações e disposições perante