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Para definir o conceito de inovação nas redes de cooperação, faz-se necessário analisar como as abordagens teóricas tratam esse conceito no nível organizacional, que compreende a unidade individual da rede. Dessa maneira, as características da inovação poderão ser associadas à promoção de mudanças no ambiente das redes. No qual, os atores individuais com objetivo de romper barreiras relacionadas às ameaças ao seu crescimento, criam condições de propensão a troca e compartilhamento de objetivos e recursos, visando atingir

níveis superiores de competitividade no contexto interorganizacional daqueles possíveis a atuação isolada, denotando com isso, a sua aplicação no nível de redes.

Nessa linha, de acordo com Wolfe (1994), os trabalhos científicos sobre inovação possuem quatro linhas principais orientadas em torno da sua definição conceitual: perspectiva estratégica da inovação, inovação como um padrão, inovação como processo e inovação com base em tipologias. Apesar dessa diferenciação, para esse autor, perante a diversidade conceitual existente sobre o tema, é possível notar que a ideia básica de inovação está sempre ligada à mudanças, ou seja, novas combinações de fatores que rompem com o equilíbrio existente (SCHUMPETER, 1982). Mudanças essas pertinentes às redes de cooperação, visto que as mesmas podem ser percebidas como grandes organizações, contempladas por recursos e limitações em sua atuação no mercado.

Por essa razão, tem-se que na perspectiva estratégica, o conceito de inovação está ligado à obtenção de vantagens competitivas sustentáveis, ao posicionamento competitivo, aos conceitos de core competence, à capacidade de inovação e a aprendizagem organizacional. Pode-se dizer que, quando se fala de estratégia, a inovação surge como um elemento fundamental da ação e diferenciação das organizações (PORTER, 1989; HAMEL, 2007; DAVILA et al. 2007). Davila et al. (2007), por exemplo, afirmam que a inovação precisa estar alinhada à estratégia da empresa, determinando os tipos e as quantidades de recursos necessários para dar suporte à estratégia do negócio.

Nessa perspectiva, inovação para Porter (1989) é definida como uma nova maneira de fazer as coisas que seja comercializada. Pela perspectiva estratégica desse autor, as invenções não precisam resultar em algo tangível. Uma nova maneira de fazer as coisas não precisa ser resultado de um novo equipamento. Porém, a criação ou a descoberta de uma nova maneira de fazer as coisas, um novo produto ou serviço, não é por si só condição suficiente para que uma organização obtenha lucratividade financeira ou social. Novos processos, produtos e serviços, com base nessa perspectiva, são postos em uso comercial produtivo. A ideia é a de que as inovações são para uso prático no fornecimento de produtos ou serviços novos ou aperfeiçoados e/ou que permitam às pessoas e organizações fazerem coisas com maior eficiência. Portanto, a definição de Porter (1989) sugere que a inovação é a invenção somada à comercialização. A inovação que põe o conhecimento novo em uso produtivo pode criar e comercializar processos, produtos ou serviços totalmente novos, do tipo que geralmente é associada ao termo invenção, no entanto, sem deixar de estar relacionado com o aspecto comercial.

Nessa mesma visão estratégica, Roberts (1988) compreende a inovação como a geração de uma ideia ou invenção e a conversão dessa ideia ou invenção em algum negócio ou aplicação útil. Para esse autor, os aspectos centrais da gestão de inovação envolve a criação de novos conhecimentos, a geração de ideias técnicas que visam novos produtos, processos de manufaturas, serviços ou melhorias daqueles existentes; a transformação dessas ideias em protótipos funcionais e, finalmente, a respectiva transferência para manufaturar, distribuir e usar.

A segunda perspectiva utilizada para conceituar inovação diz respeito ao padrão ou grau de novidade. Na literatura existem algumas diferenciações a esse respeito, sem fugir de ideias relacionadas ao grau de impacto nas organizações, nos produtos ou nos mercados alvo. Por exemplo, Freeman (1991) refere-se a inovação como sendo de dois tipos: radical ou incremental. A inovação radical, para esse autor, compreende a introdução de um produto ou processo inteiramente novo, que representa uma ruptura estrutural como o padrão tecnológico anterior. De outra forma, as inovações incrementais são definidas por Freeman (1991) como aquelas melhorias realizadas continuamente em produtos e processos sem alteração na estrutura industrial.

Considerada como processo, a inovação é definida como “a criação, o desenvolvimento, o uso e a difusão de um novo produto ou ideia” (UTTERBACK, 1983, p.240). Na mesma linha, Tidd et al. (2005) sugerem que o processo de inovação contempla a identificação de necessidades de consumidores, formulação de estratégia de referência para a inovação, desenvolvimento ou aquisição de soluções, criação de protótipos, testes, produção e disponibilização de produtos e serviços novos ou melhorados. Um ponto importante que esses autores destacam é o fato de que os próprios consumidores dessas inovações geram novas informações e realimentam todo o processo. Dessa forma, as definições do conceito de inovação a tratam como um processo gerenciável, que envolve desde as pesquisas básica e/ou aplicada até a comercialização no mercado de bens e serviços ou implantação na organização. Assim, nesta perspectiva, fica evidente que o processo de inovação não compreende somente atividades criativas, inventivas ou de descoberta de novas tecnologias, mas também as atividades de gestão, de difusão e adoção de novidades.

Nessa linha, o trabalho de Rogers (2003) aborda a teoria da difusão clássica e seus construtos para definir inovação. Para esse autor, a inovação é “uma ideia prática ou objeto que é percebido como novo por um indivíduo ou outra unidade de adoção” (ROGERS, 2003, p.12). Esse autor afirma que pouco importa se uma ideia é objetivamente nova ou não. O que realmente importa é a reação do indivíduo, ou seja, se para ele a ideia é nova, então é uma

inovação. Todavia, essa é uma definição subjetiva, pois depende da interpretação do indivíduo de forma em particular. Em outra visão, Nelson e Rosenberg (1993) definem a inovação como um processo pelo qual as empresas, mediante aquisição do conhecimento, colocam em prática novos produtos ou novos processos de manufatura que até então eram novos para elas.

Hirschman (1981) define inovação como processo, enfatizando dimensões tecnológicas e simbólicas de atributos que são adicionados para caracterizar uma inovação. A dimensão simbólica sugere um novo significado social, no qual a forma física permanece inalterada. Em termos cognitivos, a inovação possui diferentes atributos intangíveis em relação ao estágio anterior ao seu surgimento. Para Hirschman (1981), caso seja usada a técnica de adoção no tempo como critério para classificar os adotantes das inovações simbólicas, sem levar em conta atributos intangíveis, a classificação pode acabar sendo distorcida. Por isso, esse autor conclui que uma inovação simbólica representa uma redefinição de significado social, no qual o padrão de difusão será guiado por sua utilidade como um dispositivo de comunicação social, ao invés da performance tecnológica (HIRSCHMAN, 1981).

De outra forma, a dimensão tecnológica da inovação apresenta atributos tangíveis que não existiam anteriormente ao seu surgimento. Nesse caso, o tempo de introdução dentro de um sistema social pode ser calculado com precisão, bem como os adotantes podem ser corretamente classificados em relação ao tempo de adoção de inovações. Além disso, as inovações se difundem de maneira diferente como ocorrem com as inovações simbólicas. Elas são adotadas em função de características de desempenho ao invés do simbolismo social representado. Desse modo, inovações na dimensão tecnológica podem se disseminar de acordo com necessidades em relação às características técnicas e não por meio do desejo de aprovação social. Essas inovações apresentam novos atributos que podem ser percebidos como muito diferentes ou descontínuos, se comparados a uma inovação simbólica (HIRSCHMAN, 1981).

Sink e Tuttle (1993) definem a inovação como um processo criativo capaz de mudar aquilo que o sistema organizacional faz e, também, o modo de fazer. Esse processo deve incluir mudanças na estrutura da organização, na tecnologia, nos produtos, nos serviços, nos métodos de procedimentos, nas políticas e em outros aspectos julgados necessários. Essas mudanças afetam, de modo positivo, a flexibilidade do sistema organizacional e permitem uma reação, com êxito, às pressões, oportunidades, ameaças internas, externas e desafios.

Por outro lado, quanto a perspectiva conceitual que define a inovação com base em tipos, considera-se mudanças em: matérias primas, produtos, serviços, processos, operações, marketing, estratégia, inovação organizacional e inovação gerencial (TIDD et al. 2005; OCDE, 2005, TIGRE, 2006; HAMEL; 2007, BIRKINSHAW; HAMEL; MOL, 2008). Nesse sentido, o Manual de Oslo (OCDE, 2006, p. 55), trata a inovação como: “a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas”. Essa definição de inovação compreende um amplo conjunto de inovações possíveis, pois o requisito mínimo para se definir uma inovação é que o produto, o processo, o método de marketing ou organizacional sejam novos (ou significativamente melhorados) para a organização. Isso inclui produtos, processos e métodos cujas organizações são as pioneiras a desenvolver e aqueles que são adotados de outras organizações ou mercados, mas no entanto, são novidades para os adotantes.

Com base nestas perspectivas que definem o conceito de inovação no nível organizacional, conclui-se que todas, apesar de contemplar diferentes enfoques, acabam sendo complementares na explicação da inovação como algo sempre ligado às adaptações e mudanças diante de alterações dos contextos de inserção das organizações. No entanto, para as redes de cooperação, compreende-se que a visão do conceito de inovação envolve uma maior abrangência, superando a análise meramente reativa ou proativa condizente ao nível organizacional na geração de inovações. Ressaltando-se que se entende como uma inovação reativa como aquela que acompanha as mudanças de mercado e tenta um processo de adaptação da forma mais rápida. De outra maneira, uma inovação proativa utiliza dados históricos confiáveis para antecipar mudanças no mercado.

Por isso, no caso das redes de cooperação, o conceito de inovação precisa criar mudanças no mercado, de maneiras profundas ou graduais, por meio da geração de novos significados, evoluindo assim, a visão organizacional da inovação. Isso ocorre porque quando as redes inovam, elas não só agem de maneira reativa ou proativa, ao contrário, criam novos conhecimentos e informações, de dentro para fora, a fim de redesenhar tanto as limitações quanto as possibilidades de soluções, e neste processo, recriar o seu significado social (SCHIBANY; POLT, 2001).

Dessa forma, a inovação em redes de cooperação pode ser definida como mudanças radicais ou incrementais estabelecidas por meio de relacionamentos interorganizacionais em matérias-primas, produtos, processos, gestão organizacional ou marketing, que visam a

geração de valor frente às necessidades de seus contextos de inserção visando a evolução das redes, bem como o desenvolvimento de seus membros. Esse conceito demonstra que a inovação nas redes de cooperação é compatível com a visão schumpeteriana, pois, tem como característica o rompimento do equilíbrio de mercado por meio de nova combinação de recursos de forma criativa.

Nesses termos, como a inovação é o ponto central para que as redes de cooperação consigam suplantar limitações em torno de uma trajetória de evolução contínua, a seguir, dado a percepção que o ambiente externo das redes pode estar relacionado com as inovações geradas, influenciando a forma que os membros das redes coordenam recursos em torno da criação de novos valores para eles e seu contexto de inserção, são examinados os determinantes à inovação presentes nos contextos das redes de cooperação.