• No results found

As redes de cooperação estão envolvidas em diversas rotinas, tais como a produção de bens, procedimentos operacionais e administrativos, políticas de mercado, entre outras por elas desenvolvidas. As rotinas, para Nelson e Winter (2005, p. 235), constituem-se em “padrões repetidos de atividades que englobam desde tarefas individuais realizadas no dia a dia, até tarefas coletivas complexas que refletem a memória da organização”. Entretanto, na teoria evolucionária, essas rotinas funcionam como a bagagem genética das organizações, que, por meio de competências e aprendizado, respondem às contingências ambientais modificando-as quando necessário. Assim, desde a sua constituição, as redes alteram suas rotinas, desenvolvendo-se de acordo com os desafios internos de coordenação e das pressões externas que o mercado exerce sobre elas.

Com base nessa visão, Thompson (2003) acreditou ser possível estabelecer uma relação entre o desenvolvimento das redes com as teorias evolucionárias e biológicas. Para analisar o processo, partiu de três princípios utilizados nas teorias: a) rotinas: são consideradas como os genes das redes. A repetição das rotinas garante coerência entre o comportamento individual e o coletivo; b) mutação: envolve a geração de diversidade mediante a capacidade de criar novos conhecimentos, resultado de comportamentos que visam a explorar novas rotinas; e c) seleção: processo na qual rotinas e mutações são selecionadas, testadas e adaptadas pelas redes.

Por sua vez, Belussi e Arcangeli (1998) afirmam que o desenvolvimento de uma rede é um processo dependente do seu passado. Dessa forma, os próprios custos de coordenação da rede tendem a diminuir com o passar do tempo. Para eles, pode haver três tipos de redes em

função da forma como se deu o aprendizado no passado das mesmas: redes estáticas, adaptativas e evolucionárias. As redes estáticas são aquelas em que não há associados inovativos, capazes de introduzirem novas técnicas ou métodos de produção ou qualquer avanço do ponto de vista de geração de valor na rede. Apesar de não haver muitas redes que consigam sobreviver dessa forma, Belussi e Arcangeli (1998) destacam que, normalmente, essas estão vinculadas a atividades artesanais, mas que mesmo assim, estão perdendo espaço no mercado para outras organizações ou redes mais dinâmicas.

Redes com aprendizado adaptativo são caracterizadas pela flexibilidade em responder a mudanças tecnológicas ou da demanda. Essas redes possuem capacidades internas que lhes permitem acompanhar, por meio de uma estratégia de imitação ou seguidora, as principais inovações incrementais impostas pelas grandes empresas. Seus produtos e processos absorvem rapidamente o conhecimento desenvolvido pelos concorrentes, de forma que a rede consegue manter-se competitiva. Já aquelas que apresentam o chamado aprendizado criativo podem ser chamadas de redes evolucionárias. Essas redes são caracterizadas por estar sempre inovando e oferecendo novas alternativas para o mercado. Como resultado de sua ampla atividade de pesquisa e desenvolvimento, exercem um papel de liderança tecnológica nos mercados que atuam. Normalmente, essas redes possuem ligações com grandes empresas, viabilizando a quantidade e recursos necessários para manter a dinâmica de geração de conhecimento e aprendizado.

Portanto, para que o desenvolvimento das redes de cooperação ocorra de forma evolucionária é necessário que haja ciclos de aprendizagem (DOZ; OLK; RING, 2000). Chipika e Wilson (2006) destacam que há uma sequência típica de aprendizagem na rede. Inicialmente, a rede aprende a melhorar sua produção, depois aprende a melhorar os produtos para então aprender a desenvolver novos produtos conjuntamente. Para Hite e Hesterly (2001), o desenvolvimento das redes dá-se de forma a obter os recursos de que necessitam. A busca de novos relacionamentos será em função do potencial de recursos que esses podem agregar, ou seja, o crescimento passa a ser qualitativo.

Kim, Oh e Swaminathan (2006) apontaram para o risco das redes entrarem em inércia, ou seja, estabilizarem e tornarem-se rígidas, influenciadas por sua estrutura, processos e cultura. Para eles, o desenvolvimento é um processo sequencial, no qual, necessariamente, há uma dissolução de algumas ligações e a criação de novas. A inércia não pode exclusivamente ser atribuída à falta de habilidades de gestão dos associados, mas também como resultado de sucessos passados já alcançados pela rede.

Na visão de Knoben e Oerlemans (2006), o conceito de proximidade como sendo um conjunto de critérios que aproximam as organizações cooperantes em uma rede de cooperação é importante para o estudo e desenvolvimento evolutivo das redes. Fazendo uma ampla revisão da literatura, esses autores apontam para sete abordagens em relação à proximidade: institucional, cultural, social, tecnológica, cognitiva, organizacional e geográfica. Devido à grande ambiguidade existente quanto à definição de cada uma das proximidades, os autores propõem que se agrupem em três tipos: geográfica, tecnológica e organizacional (KNOBEN; OERLEMANS, 2006).

De maneira complementar, Horbach (2008) caracteriza alguns fatores que também determinam a inovação em redes de cooperação. Para esse autor, as inovações nas redes de cooperação podem ter os seguintes determinantes: a) demandas de fornecedores (caracterizadas por meio de capacidades tecnológicas dos atores, das características do mercado e da apropriação de inovações); b) demandas do mercado (caracterizadas por expectativas demandadas pelo mercado por responsabilidade social, produção limpa e pela preferência por produtos que não agridem o meio ambiente); e c) influências institucionais (caracterizadas por políticas ambientais e estruturas institucionais de apoio à inovação).

Sob a perspectiva estratégica, tem-se o modelo Diamante proposto por Porter (1989) composto por um quadro de determinantes que também podem ser utilizados como fatores que promovem a competitividade, estimulando o processo de inovação no contexto das redes de cooperação. Isto ocorre devido a representatividade que os determinantes à competitividade propostos por esse autor representam no contexto externo das redes, visto o imbrincamento das relações mantidas pelas redes nos seus ambientes de inserção. Os fatores propostos por esse autor são: a) estratégia, estrutura e rivalidade das empresas; b) condições de demanda; c) relação entre indústrias; e d) fatores condicionantes.

Para Porter (1989) a estratégia, estrutura e rivalidade das empresas compreende a dinâmica que determina o ambiente competitivo das organizações. Por isso, com base no entendimento desse componente do modelo diamante, a competição direta poderá levar as redes de cooperação a trabalharem orientadas para aumento da produtividade e do grau de inovação, pois, na visão de Porter (1989), o desempenho nacional em setores particulares é relacionado, inevitavelmente, às estratégias e à estrutura das instituições no setor em que fazem parte. Assim, percebe-se que a competição é fundamental para incentivar a inovação e, consequentemente, a criação de uma vantagem competitiva. Portanto, se a competição doméstica é mais direta, a mesma poderá causar um impacto mais acentuado na estrutura e estratégia de atuação das redes de cooperação no mercado de atuação.

Por sua vez, as condições da demanda de acordo com o modelo proposto por Porter (1989), contempla uma relação entre demanda excessiva e a pressão competitiva sobre as organizações, fazendo que elas melhorem sua competitividade com a criação de novos produtos, aumento da qualidade, entre outras ações. As condições da demanda no mercado doméstico sustentam processos de crescimento, de inovação e de aumento da qualidade. A premissa extraída desse condicionante é que um mercado doméstico forte poderá estimular as redes de cooperação a crescer cada vez mais para atender às demandas existentes, sejam estas de fornecedores ou do mercado consumidor. Um exemplo são as redes de fabricantes de automóveis na Alemanha. Essas redes de fabricantes, por meio do atendimento de seu mercado interno, conseguiram dominar o mundo por meio do estabelecimento de parcerias e alianças estratégicas no segmento de automóveis de alta performance (FIGUEIREDO, 2004).

Para Porter (1989), a relação entre as indústrias compreende os relacionamentos que as indústrias de um mesmo setor promovem entre si e com setores externos, visando a troca de contínua de informações, o compartilhamento de ideias e o desenvolvimento de inovações. Dessa mesma forma, de acordo com Verschoore e Balestrin (2008), percebe-se que para muitas redes de cooperação, a presença de indústrias relacionadas que oferecem suporte é de importância crítica ao crescimento das redes de forma específica. Um conceito que pode ser percebido nesse ponto é que as forças das redes de cooperação tendem a ser associadas aos clusters industriais. Um exemplo é o Vale de Silício, nos EUA, pois compreende um cluster de indústrias de alta tecnologia que inclui redes de empresas de software e fabricantes de hardware (FIGUEIREDO, 2004).

Por fim, o modelo diamante de Porter (1989) considera os fatores condicionantes como o conjunto de oferta de insumos que uma indústria possui que a torna mais competitiva em uma competição comercial. De acordo com esse autor, no século passado, o simples fato de uma nação possuir alguns fatores de produção como terra, mão de obra em abundância e recursos naturais, era considerada como detentora de uma vantagem estratégica superior. No entanto, no ambiente das redes de cooperação, pode-se observar que essas condições são necessárias mas não suficientes para determinar à inovação.

Para Sato e Ângelo (2007), especificamente no setor vitivinícola brasileiro, os fatores condicionantes referem-se as características básicas da economia necessárias para a atividade produtiva a ser realizada. De acordo com esses autores, terra e mão de obra são fatores de baixo custo e vantagens competitivas que as vinícolas brasileiras possuem. Centros de pesquisas tais como a EMBRAPA Uva e Vinho, têm gerado técnicas de produção adequadas para condução de parreirais e mão de obra especializada em tecnologias de vinificação e

enologia, além da geração de fatores que melhoram a qualidade da matéria prima e do produto final. Sato e Ângelo (2007) mencionam ainda, que a partir de meados de 1980, foram realizados investimentos em tecnologia nesse setor e, atualmente, os processos de produção e vinificação são modernos, objetivando atender demandas do mercado internacional de vinhos finos e espumantes. Portanto, tais aspectos podem ser considerados também como fatores condicionantes determinantes à inovação de difíceis imitabilidades.

Para Porter (1989), a dinâmica deste conjunto de fatores determinantes à inovação confere a determinado setor a capacidade para competir com outros países. Entretanto, o papel do governo, no modelo Diamante, é atuar como um catalisador de todo o processo, incentivando as organizações (e redes) a moverem-se para níveis mais elevados de desempenho. Ou seja, no ambiente das redes de cooperação o governo deve incentivar as estruturas organizacionais a atingir a excelência, estimular a demanda por produtos mais avançados e inovadores, manter o foco na criação de fatores-chave para o desenvolvimento e estimular a rivalidade local, limitando a cooperação direta e reforçando regulamentos antitruste (PORTER, 1989).

É importante ressaltar que, utilizando os determinantes propostos por Porter (1989), Sato e Ângelo (2007) analisaram por meio de dados secundários de exportações e derivados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MCDI/SECEX), o setor vitícola brasileiro, com especificidade na rede de organizações associadas ao Projeto Setorial Integrado Wines from Brazil, no período compreendido entre 2003 a 2006. Entretanto, os resultados encontrados não permitiram uma análise mais aprofundada da efetividade desses determinantes nas inovações geradas por essa rede, pois tratou o setor analisado como homogêneo em suas iniciativas. Também foi notada ausência de uma reflexão maior a respeito da importância de programas planejados e implementados pelos atores públicos na integração e consolidação com outros setores da economia brasileira que buscam no processo de internacionalização, uma forma de aumento da capacidade de inovação. Assim, caracterizados os determinantes à inovação relacionados com os contextos das redes de cooperação, o quadro a seguir resume os elementos considerados.

Determinantes da inovação em redes Autores Proximidade geográfica

Knoben e Oerlemans (2006) Proximidade tecnológica

Proximidade organizacional

Demandas de fornecedores e do mercado Horbach (2008) Influências institucionais

Fatores condicionantes

Porter (1989); Sato e Ângelo (2007) Condições de demanda

Relação entre indústrias

Estratégia, estrutura e rivalidade das empresas

Quadro 1 Determinantes à inovação em redes de cooperação Fonte: o autor

Descritos e relacionados determinantes que podem estar relacionados com a inovação em redes de cooperação, são apresentados, a seguir, os tipos de inovação possíveis às redes a partir do conceito de inovação proposto.