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Os mecanismos de coordenação em redes de cooperação são elementos que formam um conjunto de atividades que tem como objetivo fomentar o funcionamento de uma estrutura organizativa (HAKANSSON; SHARMA, 1996). A discussão em torno do seu conceito se insere no contexto de aspectos estruturais e processuais da cooperação, envolvendo questões relacionadas aos conflitos e adaptações necessárias para que as redes possam se inserir harmoniosamente em uma realidade de culturas distintas (BOEHS; SEGATTO-MENDES, 2006). Portanto, para alguns autores (CHEN; LEE; TONG, 2006; TODTLING; KAUFMANN, 2002; entre outros), a dinâmica que permite a evolução da cooperação por meio de mecanismos de coordenação dão ênfase ao papel desempenhado por atores centrais. Esses atores centrais, também denominados hub firms, coordenam atividades de gestão da rede por meio de mecanismos que enfatizam o uso da autoridade e poder hierárquico (KNOKE, 1994; DOZ; OLK; RING, 2000; HACKI; LIGHTON, 2001).

A literatura contempla que a definição dos atores centrais durante a evolução da rede sugere três critérios para a definição dos mesmos: a forma da rede (tamanho e diversidade), a estrutura da rede (densidade e força das ligações) e posição da rede (centralidade). Vale destacar que a forma da rede compreende a definição do tamanho da rede, ou seja, o total de ligações efetivas (relações reais) existentes em um determinado grupo de atores. Para Scott (2000), o tamanho da rede trata de um critério fundamental na identificação dos padrões estruturais da rede, uma vez que todos os demais critérios de análise estrutural são calculados com base nele, além da diversidade, que alude aos tipos de relacionamentos que são mantidos (CARRINGTON; SCOTT; WASSERMAN, 2005). Em redes de cooperação produtivas, baseados em Verschoore e Balestrin (2008) e Teixeira, Guerra e Ghirardi (2005) alguns relacionamentos podem ser observados como conteúdos transacionados, entre eles: técnicos, comerciais, amizade, pesquisa e desenvolvimento compartilhados (P&D), práticas de gestão administrativa ou políticos.

Por sua vez, considerando aspectos inerentes a estrutura da rede, a literatura sugere que atores centrais sejam definidos a partir da densidade e das forças das ligações estabelecidas (WASSERMAN; FAUST, 1994; SCOTT, 2000). Vale destacar que a densidade da rede, segundo Scott (2000), representa o quociente das ligações efetivamente existentes e o total de ligações possíveis entre os atores da rede. Para DiMaggio (1991), a densidade das relações entre as organizações que compõem uma rede pode ser interpretada como o grau de interconexão do campo organizacional ou como parte de um campo. Para esse autor, devido à propensão de surgimento de canais de troca de informações e recursos nas redes altamente

interconectadas, com respectivo aumento da facilidade de difusão de normas e valores, tende- se a uma maior conformidade organizacional com as demandas e requerimentos institucionais.

Katz, Lazer, Arrow e Contractor (2004) afirmam que as forças das ligações referem-se às similaridades existentes entre atores. Para esses autores, quando organizações se percebem similares em determinado aspecto dentro de uma rede de cooperação, tendem a se relacionar com maior intensidade. Para esses autores ainda, um relacionamento pode ser considerado forte se as organizações parceiras, no mínimo, possuem quatro características similares, tais como: tamanho da empresa, grau de inovação, qualidade nos produtos, vínculos pessoais e tipos de produtos. Da mesma forma, o relacionamento que contem somente uma similaridade é considerado como fraco, cabendo para aquelas organizações que possuem duas ou três similaridades com seus parceiros de negócio, um relacionamento com força intermediária.

Uma explicação complementar sugere que nas redes de cooperação produtivas, conforme Tonietto (2002), as semelhanças entre associados podem ser denotadas por tamanho da empresa, vínculo parentesco, tipo de produto, técnica de plantio e objetivos estratégicos compartilhados. Assim, em termos gerais, nesse tipo de rede de cooperação pode-se esperar maior homogeneidade nos relacionamentos estabelecidos entre atores que estão frequentemente em contato, quando comparados com aqueles que não estão conectados diretamente na rede (FRIEDKIN, 2001).

A definição da posição de atores centrais na rede acontece por meio da verificação da centralidade. Para Wasserman e Faust (1994), a centralidade pode ser considerada uma medida da importância ou proeminência da posição de um ator em relação aos demais que formam as redes de cooperação, ou seja, a centralidade pode compreender tanto o grau que conecta um ator aos outros atores, quanto o grau em que o ator é referenciado pelos demais. Segundo Galaskiewicz e Burt (1991), a centralidade não deve ser confundida com prestígio, apesar de estar associada ao prestígio. Enquanto a centralidade trata necessariamente da consideração de todas as relações da rede, o prestígio incide em relações assimétricas. Para esses autores citados, a centralidade pode ser mais importante que o prestígio quando se objetiva a difusão de inovações na rede (GALASKIEWICZ; BURT, 1991).

Apesar da importância destacada na literatura sobre aspectos estruturais que definem o papel desempenhado por atores centrais na gestão de mecanismos de coordenação das redes de cooperação, há de se destacar que nas redes os relacionamentos de autoridade e poder baseados em hierarquia são de difíceis consecução quando comparados com sua utilização em organizações não estabelecidas em rede, pois, a igualdade é um pressuposto para o sucesso da

cooperação (KICKERT et al. 1997; BOEHS; SEGATTO-MENDES, 2006). Devido a essa característica da coordenação das redes, Balestro (2004) aborda que para a coordenação entre empresas acontecer de maneira eficaz, existe a necessidade de uma combinação de elementos que contemple a complexidade envolvida na integração da estrutura da rede e os relacionamentos interorganizacionais mantidos durante sua evolução.

Dessa forma, o estudo proposto pelos professores Charles Dhanaraj e Arvind Parkhe, respectivamente filiados à Kelley School of Business (Indiana University) e Fox School of Business Management (Temple University), denominado modelo coordenador de redes de cooperação, diferencia-se das abordagens tradicionais de coordenação, contemplando mecanismos de coordenação capazes de propiciar a evolução de redes de cooperação ao longo de sua trajetória evolutiva por meio da inovação. Para esses autores, a autoridade e o poder hierárquico não são os únicos mecanismos possíveis de coordenação capazes de propiciar a evolução das redes. Tal fato pode ser conseguido, também, por meio do gerenciamento da mobilidade do conhecimento, gerenciamento da apropriabilidade da inovação e o gerenciamento da estrutura da rede, permitindo com isso, maior flexibilidade diante de mudanças vivenciadas pela rede durante sua trajetória evolutiva (DHANARAJ; PARKHE, 2006).

No que se refere ao gerenciamento da mobilidade do conhecimento, quanto maior a transferência de conhecimentos tácitos, efetuada por atores centrais aos demais atores, maior a probabilidade de evolução das redes de cooperação. Esse fato ocorre por meio de três processos específicos que são requeridos dos atores centrais envolvidos, quer sejam: capacidade de absorção de conhecimento, criação de uma identidade percebida pela rede e capacidade de socialização interorganizacional. Na literatura, essa afirmação encontra relação com diversos estudos clássicos, tais como, Schumpeter (1982), Freeman (1991), Grandori e Kogut (1988), Hargadon e Sutton (1997), entre outros. Tais evidências validam a consideração desse argumento como um dos mecanismos que deve ser considerado para a coordenação da evolução das redes de cooperação que objetivam contemplar aspectos de maior abrangência e complexidade.

Da mesma forma, Dhanaraj e Parkhe (2006) indicam que o gerenciamento da apropriabilidade da inovação pode estar relacionado com a capacidade atribuída aos atores de assegurar uma distribuição equitativa dos valores criados no estabelecimento da rede. Isto ocorre por meio de processos de confiança, procedimentos justos e participação do direito de propriedade da inovação. Sobre essa afirmação, foram verificadas evidências na literatura em diversos trabalhos, entre outros: Kim e Mauborgne (1998), Teece, Pisano e Shuen (1997) e

Williamson (1985), que já tinham demonstrado a importância deste mecanismo de coordenação na evolução coordenada das redes de cooperação.

Dhanaraj e Parkhe (2006) atribuem como último mecanismo de coordenação, o gerenciamento da estrutura da rede e indicam que as organizações envolvidas neste tipo de estrutura obtêm essa condição por meio da percepção de três fatores: aumento da reputação do ator central perante os outros atores (fato que levaria ao estabelecimento de novos relacionamentos), definição de uma visão de futuro para a rede (que gera uma promoção efetiva da cooperação entre os atores de uma rede) e fortalecimento dos relacionamentos existentes, tornando-os mais complexos. Vale ressaltar que um relacionamento se torna complexo, na visão de Kenis e Knoke (2002), quando dois ou mais tipos de relações (ou eventos) ocorrem entre os mesmos atores de maneira simultânea. A respeito do componente gerenciamento da estrutura da rede e a relação com as atividades de inovação são encontradas na literatura evidências nos trabalhos de Podolny e Stuart (1995), Michelet, (1992), Uzzi, (1997), Wasserman e Galaskiewicz (1994), entre outros, que ressaltam a importância deste mecanismo para a coordenação das redes de cooperação.

Desse modo, esses três mecanismos de coordenação, quando combinados, tornam-se importantes fatores para explicar a dinâmica que envolve sua evolução. Pois, conforme se refere Saxton (1997), um modelo que inclui relacionamentos e características de atores envolvidos em uma rede de cooperação de forma coordenada pode explicar melhor os benefícios e resultados do que um modelo que incorpore somente um conjunto de variáveis isoladas e indutivas, como aquelas observadas em mecanismos de coordenação baseados no uso da autoridade e do poder hierárquico. Portanto, estar atento para outros aspectos além daqueles contidos nas hierarquias das redes de cooperação permitem compreender o fenômeno evolutivo das mesmas com maior abrangência. No entanto, faz-se necessário considerar, conforme proposto por Child, Faulkner e Pitkethly (2000), que a coordenação das redes de cooperação pode variar de acordo com o tipo de aliança empreendida e o maior ou menor uso de mecanismos de coordenação pode influenciar na confiança e no desempenho de seus associados, mesmo em situações que os membros da rede possuem uma história comum ou desenvolvam atividades em setores próximos (STABER, 2006).

Por esta razão, apesar de maior abrangência, o modelo de Dhanaraj e Parkhe (2006) utilizado de forma desassociada do contexto que insere as atividades das redes não proporciona explicações sobre a dinâmica responsável por seu processo evolutivo tendo como elemento a inovação. De forma contrária, sua utilização por atores centrais remete a consideração de aspectos não condizentes com a realidade vivenciada pela redes, condenando

a interpretação do seu processo evolutivo a um enfoque determinista e indutivo. Condição essa, que não representa os elementos que demonstram com clareza a realidade na qual a rede está imersa, tão pouco, as contribuições que os mecanismos de coordenação podem gerar em torno da sua evolução. Por isso, nota-se que o modelo proposto por Dhanaraj e Parkhe (2006) para explicar a coordenação da evolução das redes de cooperação deve ser agregado com elementos que superem estas limitações.

A primeira limitação engloba a ausência da consideração sobre um possível relacionamento entre determinantes do processo de inovação presentes nos contextos de inserção das redes e os mecanismos de coordenação gerenciados por meio de atores centrais. Ora, se a gestão de mecanismos de coordenação promove novas possibilidades que poderão permitir processos inovadores por meio das redes de cooperação, um modelo que tenha por propósito analisar este aspecto não pode deixar de considerar a importância dentre outras características: proximidades geográfica, tecnológica e organizacional, condições de demanda, influências institucionais e nível de relacionamento entre indústrias, que em algum momento, durante a trajetória evolutiva da rede, influenciaram ou influenciam decisões adotadas pelos atores centrais neste processo de coordenação.

A segunda limitação identificada na estrutura de coordenação proposta por Dhanaraj e Parkhe (2006) faz menção a relação estabelecida entre os mecanismos de coordenação e os tipos de inovações gerados para a superação de limitações internas e externas que envolvem a trajetória evolutiva das redes de cooperação. Este ponto reflete uma fragilidade do modelo proposto por esses autores em termos de representatividade que os mecanismos de coordenação possuem no processo evolutivo das redes. No entendimento geral que se faz na aplicação deste modelo, todos os mecanismos de coordenação possuem a mesma importância para qualquer tipo inovação que é desencadeada para que evolução da rede aconteça, sejam estas em matérias-primas, produtos, processos, organizacionais e marketing (OCDE, 2006).

Por fim, a terceira limitação identificada no modelo proposto por Dhanaraj e Parkhe (2006) incute na ausência de uma sequência coordenada com tipos de inovações capazes de orientar a trajetória de evolução das redes de cooperação. Vale mencionar que este ponto não representa apenas uma limitação pertinente ao modelo de coordenação proposto por esses autores, uma vez que a literatura que analisa o tema também não tem uma resposta definitiva a respeito da questão: que tipos de inovações são desencadeadas para que uma rede de cooperação tenha sucesso durante sua trajetória evolutiva? Com isso, este ponto merece destaque dentre as três limitações identificadas, pois sua discussão representa, mediante a complexidade do tema, a geração de direcionamentos para o avanço de novas abordagens

evolutivas de redes que priorizam a inovação como alternativa para o desenvolvimento econômico e social (OCDE, 2006).

Dessa forma, procurando avançar nesta a discussão dando maior objetividade ao modelo de Dhanaraj e Parkhe (2006), bem como possibilitando superar com as limitações apresentadas, são agregados ao modelo de coordenação indicadores sugeridos por Grandori e Soda (1997), objetivando a coordenação das redes de cooperação. Dessa forma, a visão de coordenação proposta ganha maior abrangência, evoluindo com a visão do uso da autoridade e do poder hierárquico na gestão evolutiva das redes de cooperação. Também permite que o ambiente externo esteja relacionado com as redes na geração de inovações, principalmente, agindo por meio dos relacionamentos constituídos por atores centrais da rede. Esta influência relacionada aos atores centrais, faz com que a evolução das redes possa acontecer de forma coordenada, criando valor para seus contextos de inserção por meio da geração de inovações.

O quadro a seguir apresenta a associação sugerida entre os tipos de mecanismos de coordenação e indicadores relacionados aos mesmos.

Tipo do mecanismo Processos requeridos Indicadores

Gerenciamento da mobilidade do conhecimento

Capacidade de absorção de conhecimento

Qualificação, treinamento e inserção do corpo funcional nas atividades internas e externas à rede. Identidade percebida na rede Tipo de identidade percebida: institucional, vínculo

parentesco ou visão empreendedora.

Capacidade de socialização Presença de apoio governamental e instituições de suporte, como universidades; reunião e encontros de associados; grau e tipo de formalização na troca de informações e conhecimentos (constatação de manuais, palestras, treinamentos).

Gerenciamento da apropriabilidade da

inovação

Processos de confiança Base de confiança; monitoramento de ações da rede; normas de comportamento, necessidade de controle de resultados da rede

Procedimentos justos Presença de contratos, ausência de comportamentos unilaterais Participação do direito de

propriedade da inovação Tipo de participação nos ganhos da rede; gestão e atividades voltadas à promoção de ganhos coletivos

Gerenciamento da estrutura da rede

Reputação do ator central Contexto de reputação do ator central (rede, local, regional, nacional e internacional)

Definição da visão de futuro Objetivo e conteúdo estratégico almejado para o futuro da rede

Aumento da complexidade dos

relacionamento Tipo de relacionamentos conjuntos desenvolvidos (amizade, técnicos, comerciais, sociais, políticos, gestão, pesquisa e desenvolvimento

compartilhados)

Quadro 8 Mecanismos de coordenação em redes de cooperação Fonte: adaptado de Dhanaraj e Parkhe (2006) e Grandori e Soda (1997)

A partir desta relação demonstrada no quadro acima, a discussão a respeito de interações existentes entre os contextos internos e externos das redes ganham destaque, pois abrangem dimensões que podem permitir o processo de coordenação das redes de forma

interativa e compartilhada, criando-se condições para que a inovação ocorra e se torne a dinâmica que direciona o seu fluxo evolutivo. Além disso, características relacionadas ao estabelecimento de uma fonte centralizadora, que age de maneira compartilhada com outros atores do contexto que envolvem as atividades de coordenação torna-se plausível, principalmente quando são objetivadas prioridades sobre o conteúdo transacional que poderá ser desenvolvido pela rede como resposta às possíveis barreiras que surgem durante seu processo evolutivo.

Assim, discutidos os principais pontos considerados na trajetória de evolução de uma rede de cooperação, tem-se no próximo tópico, a síntese dessas ideias na proposição de um modelo conceitual como forma de integração da discussão proposta neste marco teórico. Portanto, nesse modelo são estabelecidas relações entre os conceitos de redes de cooperação e inovação, considerando elementos que diferenciam as fases evolutivas das redes no contexto interorganizacional, bem como, a importância que os mecanismos de coordenação geridos por atores centrais possuem no sucesso da evolução das redes, superando com isso, as limitações encontradas no modelo sugerido por Dhanaraj e Parkhe (2006).