A discussão dos resultados encontrados a partir da primeira categoria do modelo de estudo - gestão dos mecanismos de coordenação - implicou na verificação das duas relações teóricas propostas no modelo conceitual definido na coordenação evolutiva das redes de cooperação. Vale destacar que a primeira relação definida a partir desse modelo está baseada teoricamente na abordagem estrutural da análise de redes sociais (WASSERMAUN; FAUST, 1994; SCOTT, 2000). Por meio dessa relação, propõe-se que os mecanismos de coordenação podem ser gerenciados por atores centrais visando a superação de limitações internas e externas da rede em cada fase evolutiva da mesma.
A partir dos resultados encontrados nas três fases evolutivas da rede APROVALE, percebe-se que essa primeira relação apontada no modelo conceitual foi verificada de forma positiva, inferindo que os mecanismos de coordenação são gerenciados por atores centrais durante a evolução da rede. Conforme foi demonstrado na análise dos resultados dos mecanismos de coordenação da APROVALE, a superação de limitações internas e externas constituíram-se na principal razão considerada pelas vinícolas cooperantes que adotaram a decisão de formação dessa rede de cooperação para sua evolução. Portanto, com base em Thompson (2003), pode-se afirmar que a atividade de coordenação evolutiva dessa rede dependeu do sucesso do processo de comunicação estabelecido pelos seus componentes, bem como, na coerência entre os objetivos definidos na rede e pelas organizações cooperantes.
Na fase de formação, por exemplo, a pluralidade de visões dos atores centrais identificadas permitiram a superação das limitações internas da rede, seja com relação a quantidade de recursos existentes ou a capacidade de coordenação dos mesmos. Portanto, o gerenciamento de relacionamentos com cunho técnico e afetivos foram complementares para a consolidação do processo de cooperação a partir da visão proposta pelos atores centrais da
rede. Por isso, a inserção do ator central EMBRAPA Uva e Vinho nas três fases evolutivas da rede, como uma extensão do apoio governamental para o desenvolvimento do setor vitivinícola nacional, só possibilitou sucesso no processo para esse processo de gestão com a inclusão das pequenas vinícolas que faziam parte da rede em decisões sobre os novos cenários que eram demandados na consecução dos objetivos relacionados ao reconhecimento da Indicação de Procedência e das atividades relacionadas ao turismo.
Os estudos propostos por Ring e Van de Ven (1994) e Dhanaraj e Parkhe (2006) demonstram que o processo de superação das limitações internas e externas vivenciadas pelas redes de cooperação durante sua evolução faz com que as organizações associadas modifiquem com sucesso as formas de relacionamentos estabelecidas. Nota-se, nessa direção, que na rede APROVALE, a incorporação de novos conhecimentos por meio do compartilhamento e complementariedade de recursos promovidos pelos atores centrais, tornaram possíveis a modificação de hábitos na gestão dos negócios individuais dado ao aumento da abrangência que os relacionamentos estabelecidos pela rede obteve durante sua evolução.
No início, como a rede era composta por poucas organizações, os relacionamentos coordenados por atores centrais necessitaram das redes pessoais e sociais para a criação de novos conhecimentos técnicos e de gestão. Esse fato corrobora os estudos de Butler, Phan e Hansen (1990), no qual, esses autores argumentam que para a formação das redes de cooperação, as redes pessoais e sociais dos atores envolvidos assumem extrema importância. Na consolidação, dado o aumento de interesses e número de associados na rede, os atores centrais necessitaram coordenar relacionamentos externos que interessassem os associados, criando novas formas de agregação de valor para a rede e para as vinícolas envolvidas. Por fim, no desenvolvimento, os atores centrais precisaram coordenar relacionamentos com base em visões institucionais, uma vez que a imagem da rede começou influenciar atividades desempenhadas por outros atores do seu contexto de inserção.
Diante destes aspectos mencionados, conclui-se então que os resultados apresentados na coordenação da APROVALE permitem afirmar que seus atores centrais podem ser considerados como os responsáveis pela gestão dos recursos individuais presentes na rede. Esse processo de gestão, que levou em consideração a definição de objetivos comuns a todos os atores, permitiu a orientação de atividades da rede em torno da superação de limitações internas e externas comuns a todos os envolvidos. Com isso, propiciando uma trajetória de desenvolvimento comum as organizações cooperantes. No entanto, no caso da APROVALE, o foco da coordenação estabelecida pelos atores centrais se torna limitado ao conjunto de
características que definiram os ambientes internos e externos da rede com base nos objetivos propostos para sua criação, incutindo com isso, maior direcionamento na alocação dos recursos existentes na superação das limitações encontradas a partir dos atores centrais.
A segunda relação no modelo conceitual propôs que os mecanismos de coordenação podem estar relacionados com os determinantes à inovação no contexto que engloba as atividades gerenciadas pelos atores centrais. A literatura que deu suporte teórico a essa proposição está relacionada aos estudos de Grandori e Kogut (1988), Hargadon e Sutton (1997), Doz, Olk e Ring (2000), Schipika e Wilson (2006), Hite e Hesterly (2001), Porter (1989), entre outros. Com base nessa proposição, compreende-se que características determinantes à inovação presentes no ambiente de inserção das redes de cooperação influenciam a forma que os atores centrais atuam na gestão dos mecanismos de coordenação dessas redes. Neste estudo, essa relação foi identificada de forma positiva com base nos resultados encontrados.
Na gestão dos mecanismos de coordenação da rede APROVALE, a relação foi encontrada durante os seus três momentos evolutivos. Na formação da APROVALE, nota-se que o conhecimento agregado de outros modelos de redes de cooperação, principalmente europeus, por meio dos seus atores centrais, permitiram para a rede APROVALE identificar direcionamentos que suas atividades deveriam seguir rumo a um processo evolutivo baseado no aumento contínuo de qualidade nos produtos e processos gerenciados. Esses resultados demonstram compatibilidade com as abordagens propostas por Grandori e Kogut (1988) e Hargadon e Sutton (1997), ao demonstrar que a agregação de conhecimentos nas redes de cooperação a partir de outras fontes e modelos de gestão, possibilita uma melhor percepção sobre as variáveis que interferem no relacionamento entre os mecanismos de coordenação e os contextos que inserem as atividades das redes. Incorporando com isso, conhecimentos prévios subjacentes ao papel desempenhado pelo ambiente das redes durante seu processo evolutivo.
Na fase de consolidação e desenvolvimento da rede APROVALE, a relação encontrada entre os mecanismos de coordenação com os determinantes à inovação ganha suporte teórico nos estudos desenvolvidos por Belussi e Arcangeli (1998) e Schipka e Wilson (2006). Esses autores ao apontarem que a gestão dos mecanismos de coordenação possuem no processo evolutivo das redes uma profunda relação de dependência com seu passado, tornam possível a percepção que a os mecanismos de coordenação dessa rede incrementaram relacionamentos com o ambiente externo a partir de pontos de competitividade planejados no momento de sua concepção. Isso demonstra que a coordenação dessa rede analisada teve como principal fator as ações iniciais dos seus atores centrais, repercutindo dessa forma,
apesar da agregação de maior complexidade e diversidade nos relacionamentos estabelecidos, manutenção de sua linha evolutiva.
Em síntese, percebe-se que a relação entre os mecanismos de coordenação e os determinantes à inovação surge como resultado de prerrogativas implementadas por um pequeno grupo de vinícolas, com apoio da EMBRAPA Uva e Vinho, na definição de uma forma específica de atuação no mercado mediante as possibilidades existentes para essas organizações. O que demonstra que estes dois elementos estão relacionados, uma vez que o contexto local de inserção da APROVALE foi crítico na orientação da forma que seus atores centrais orientassem, nos distintos momentos vivenciados pela rede, a prática de condução dos negócios estabelecidos nas empresas cooperantes, bem como a forma de relacionamento entre a rede e o mercado. Com isso, tornando plausível a segunda relação proposta no modelo conceitual.