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In document Høringsnotat juli 2005 (sider 51-55)

O discurso político é terreno rico para a análise de ethos. Para Charaudeau (2005a, p. 88), no seu Le Discours Politique, o ethos precisa ser encarado como cruzamento de olhares: “regard de l’autre sur celui qui parle, regard de celui qui parle sur la façon dont il pense que l’autre le voit72”, o que é frequentemente possível de se ver nos jogos de

imagens que são feitos no processo eleitoral, por exemplo. Amossy (2008), por sua vez, considera que o ethos é a construção de uma imagem de si e do outro. Segundo ela, o

ethos seria tanto uma imagem criada no processo enunciativo e, portanto, seria o ethos

discursivo, e um ethos prévio, depreendido na tomada de palavra do enunciador, carregado de imagens pré-construídas, fora do presente momento enunciativo, decorrente de processos de estereotipagem (AMOSSY, 2008).

Regressando às origens, aparentemente mais simples, mas não deixando de ser complexo em sua profundidade, o conceito de ethos em Aristóteles remete ao “caráter moral” do orador (ARISTÓTELES, 2012, 1356a), os valores de si e a capacidade de ser encarado pelo auditório como digno de fé. Sendo assim, segundo os Gregos, para se construir um ethos precisa-se da capacidade do próprio orador em ser credível e dotado de virtude. Para Meyer (2008, p. 152), “ l’ethos est alors la sagesse qui se cache en

71 A doxa não se põe como uma prova retórica. Antes, ela dá substância a todas elas, fundamentando

qualquer sentido argumentativo que se possa construir pela operação com tais provas. Desenvolveremos o que entendemos por doxa no próximo capítulo.

72 O olhar do outro sobre aquele que fala, o olhar daquele que fala sobre a maneira que ele pensa que o

l’homme, dans tous les hommes, parce qu’ils sont des hommes, avec des sentiments, des passions, des craintes et des espoirs qu’ils partagent de par leur condition même73”. No

desenvolvimento dessa noção de ethos, Cícero despendeu a maior parte do tempo de seu percurso intelectual, bem antes mesmo de o humanismo renascentista ter colocado tal noção como uma doutrina própria e independente como a ética.

Ora, o ethos se apresenta como a expressão “mais profunda de uma humanidade partilhada, graças à qual nos somos todos levados a responder às grandes questões próprias a cada um” (MEYER, 2008, p. 152). Isso significa dizer que o ethos apenas existe porque existe o pathos. A sua existência é totalmente vinculada a esta dimensão pela óbvia razão de serem tais dimensões as duas exatas posições de um processo dialógico, ainda que em uma deliberação íntima74. Destarte, o ethos precisa ser autoridade

frente a um pathos que o desafia, que o espera ansiosamente como aquele que pode pôr termo a qualquer indagação iminente. O ethos assumiria, assim, a posição de autor, portador de auctoritas, alguém que se pode prezar como “respondedor” (MEYER, 2008, p. 152).

Por assim dizer, Meyer, em sua análise problematológica, afirma-nos: o ethos é o “ponto final do questionamento” (MEYER, 2007b, p. 35), a saber, é a capacidade de um orador de dar fim aos anseios e dúvidas do auditório, provocando, dessa forma, uma possível adesão à tese pretendida. Para ele, o orador precisa ser aquele que é capaz de responder às perguntas que suscitam debate e que são aquilo sobre o que negociamos (MEYER, 2007b). Por isso, o orador precisa construir um ethos enquanto solução, colocando-se, assim, como ponto final do questionamento. A propósito, para o autor, o

ethos não pode ser entendido apenas como a dimensão do orador pura e simplesmente, mas o ethos é “aquele ou aquela com quem o auditório se identifica, o que tem como resultado conseguir que suas respostas sobre a questão tratada sejam aceitas” (Meyer, 2007b, p. 35). Para o filósofo,

o ethos se refere sempre ao pathos e ao logos, atestando valor moral em uma relação com o outro, ou em sua gestão de coisas, mas também no modo de conduzir a própria vida, pela escolha dos meios (o aspecto social, os costumes,

73 O ethos é, logo, a sabedoria que se esconde no homem, em todos os homens, porque eles são homens,

com seus sentimentos, paixões, temores e esperanças que eles partilham devido a sua própria condição.

a prudência, a coragem, etc....) e dos fins (a justiça, a felicidade, o prazer etc....) (MEYER, 2007b, p. 36).

Nesse viés, o próprio ethos se configura como um reservatório de argumentos e de respostas que o orador veicula implicitamente ou explicitamente, objetivando criar uma imagem de si, ou mesmo sendo esta imagem de si criada à sua revelia.

Ademais, assim como a proposta de uma retórica como negociação das distâncias, tal como veremos mais a fundo na próxima seção, as dimensões retóricas seguem obviamente a mesma lógica. Desse modo, o ethos poderia ser igualmente definido em função das distâncias estabelecidas dentro da própria dimensão e mesmo diante às outras dimensões. Isto é, podemos dizer que, por ser a argumentação oriunda de diferenças e conflitos, quanto mais se negocia a identidade e a diferença dentro da dimensão do ethos em relação ao pathos, mais chances existirão de a argumentação ser bem-sucedida e a negociação retórica ser efetiva. Por isso mesmo, quanto mais o ethos se projeta como ad

rem, argumentação fechada no objeto da argumentação, mais a sua força se limitará a uma questão de pura apreciação da qualidade do orador, por sua inteligência ou oratória, por exemplo; por outro lado, quanto mais se direciona ao ad hominem, como a argumentação que preza pelo o que há de identidade entre os interactantes, orador e auditório, mais a argumentação é retórica e mais eficiente ela será em termos de adesão. Isso se dá pelo fato de o ethos, sobretudo no discurso político, ir muito além da capacidade do orador e de sua moral, mas atinge a confiança do auditório em si, cria-se uma credibilidade construída no discurso e pelo discurso, e apresenta-se como um mediador das diferenças entre si e o outro, entre a identidade e a distinção.

A problematologia do ethos estaria, assim, na sua própria condição de ser problema e resposta ao mesmo tempo; pelo fato de ser a partir dessa dimensão que a persuasão se projeta, apesar de sabermos que é no pathos e através dele que tal persuasão se concretiza. Podemos definir e salientar que, em última instância, o ethos é o fim dos questionamentos. Não obstante, sabemos que nem sempre ele responde.

No tocante a isso, a (im)possibilidade de resolução das diferenças pelo ethos se dá, sobretudo, em razão de admitir o próprio ethos uma diferença em si mesmo. Estamos falando do ethos como projeção da imagem de si, aquela que o orador quer dar de si aos

outros, por entender que é a construção adequada para os fins persuasivos específicos; e o ethos efetivamente instituído, aquele que é, de fato, recebido pelo auditório (pelo

pathos). O ethos seria, dessa forma, projetivo e efetivo, cabendo ao auditório definir a aceitação daquela imagem do orador que se projeta, ou se procurará entendê-lo além da projeção, aprofundando-se em suas reais intenções.

Destarte, o ethos é tanto a competência como o caráter do orador, também a sua humanidade, mas é, sobretudo, a capacidade deste em se identificar com o auditório. Meyer afirma que toda essa variabilidade corresponde ao jogo sobre a distância entre os indivíduos e que, no total, a distância é a mesma, apenas os meios de encará-las é que diferem entre si (MEYER, 2008, p. 156).

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