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4 Summary and results of the questionnaire

4.3 Questionnaire section three

4.3.1 Oral communication

A sociedade no qual Jesus viveu caracteriza-se pela baixa estimativa de vida e por várias doenças. Os Evangelhos testemunham a existência de muita gente doente; pessoas abandonadas, sem nenhum tipo de assistência. Jesus sente grande compaixão dos doentes e realiza curas, que são sinais presença do Reino de Deus. Queremos aqui refletir sobre como os doentes eram tratados na época de Jesus. Isto é, qual a interpretação que a sociedade dava para a doença e para o sofrimento. Havia na época de Jesus grande chance de contrair doenças, uma realidade do mundo antigo, o grupo dos fariseus radicalizou a lei da purificação, justamente por medo de contraí-las. Um dos questionamentos que os fariseus fazem a Jesus e aos discípulos é porque comem sem lavar as mãos: “Por que teus discípulos transgridem a lei

dos antigos? De fato, eles não lavam as mãos ao tomar as refeições” (Mt 15, 2) 307.

Na época de Jesus ligam-se as doenças e enfermidades em geral à atuação de inúmeros demônios. Curas, exorcismos quase não se distinguem nos Evangelhos Sinóticos, portanto, a doença nos Evangelhos é interpretada como estado de pecado e ausência de Deus (Mc 2, 5.11). A expulsão de um demônio significa que o Reino de Deus chegou (Mt 12, 22-28) 308. Os leprosos eram amplamente discriminados na Palestina na época de Jesus. Segundo a lei do Levítico, a constatação da lepra deveria ser feita por um sacerdote (Lv 13, 2-3). O leproso

307 O uso da ablução das mãos, antes e depois das refeições, de origem provavelmente cultual na religião israelita

(Ex 30,18-21; Dt 21,6), inicialmente reservado aos oficiantes do Templo, foi estendido ao povo fiel pela piedade farisaica, mais ou menos, na época de Jesus. Os membros da comunidade de Qumran praticavam-no sob a forma de abluções corporais em tanques cujos os vestígios foram descobertos. Por dirigir-se a um meio ao qual eram estranhos tais costumes, Marcos (7,3-4) julgou necessário explicá-los a seus ouvintes. Cf. BÍBLIA: teb tradução

ecumênica brasileira. São Paulo: Loyola, 1994. p. 1887.

308 Cf. SEGALLA, Giuseppe. Evangelo e Vangeli: quattro evangelisti, quattro vangeli, quattro destinatari.

deve gritar: “impuro” quando se aproximasse alguém, e habitar fora da comunidade (Lv 13, 45-46).

O leproso portador dessa enfermidade trará suas vestes rasgadas e seus cabelos desgrenhados; cobrirá o bigode e clamará: Impuro! Impuro! Enquanto durar a sua enfermidade, ficará impuro, morará à parte: sua habitação será fora do acampamento.A cura se denomina purificação e deve ser atestada por um sacerdote (Lv 14, 3).

O doente era afastado do convívio social, muitas vezes, instalava-se no mazbala, espécie de um lixão público que se situava na entrada das aldeias; ali os doentes marcados pela maldição conviviam com cães, raposas, insetos e abutres. Na Palestina da época de Jesus, encontram-se os resquícios da tese da retribuição: os justos eram premiados e os ímpios eram punidos, isso é presente no imaginário religioso do judaísmo do primeiro século. Dentro dessa mentalidade, os doentes são castigados por Deus porque pecaram. A doença é vista como castigo pelo pecado. Jesus nega categoricamente a existência de uma ligação individual entre pecado e o sofrimento (Lc 13, 2).

Os doentes na época de Jesus se tornavam bode expiatório da violência coletiva. A visão de que a doença resultava do castigo, fazia com que toda a sociedade marginalizasse os doentes. Muitos doentes corriam atrás de Jesus pedindo a cura, que significava também reintegração social. A atitude de Jesus era de profunda misericórdia para com os doentes. Os sinóticos mostram o maravilhoso poder terapêutico de Jesus, como sinal da sua filiação divina e da vinda do Reino de Deus 309.

8 Saber bíblico sobre a violência

Um exame atento do Antigo Testamento nos revela que na Bíblia hebraica existe uma concepção original sobre o desejo e os conflitos por ele provocado. A segunda metade do Decálogo tem como objetivo a proibição da violência contra o próximo. Os mandamentos que vão do sexto ao nono, proíbem a violência contra o próximo.

Não matar.

Não cometer adultério. Não roubar.

Não levantar falso testemunho contra o próximo (Ex 20, 13-16).

O décimo mandamento contrasta-se com aqueles precedentes. Ao invés, de proibir uma ação como os quatro anteriores proíbem um desejo.

Não desejar a casa do teu próximo. Não desejar a mulher do teu próximo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu burro, nem coisa nenhuma que lhe pertença (Ex 20, 17).

O verbo hebraico desejar é o mesmo que indica o desejo de Eva pela fruta proibida, o desejo do pecado original. Os indivíduos humanos são por natureza, inclinados a desejar, aquilo que pertence ao próximo, ou simplesmente, aquilo que o próximo deseja. Portanto, existe no interior dos grupos humanos uma fortíssima tendência à rivalidade, que senão controlada, ameaçaria a paz e a própria sobrevivência da comunidade 310.

O legislador que proíbe o desejo dos bens alheios está procurando resolver o problema central de toda comunidade humana: a violência interna. O décimo mandamento tem por objetivo proibir os homens de entrar em conflito. Os objetos desejados pertencem sempre ao próximo. Somos cegos para a rivalidade mimética e celebramos o poder dos nossos desejos. Mas não vemos que o desejo esconde a idolatria do nosso próximo, associada à idolatria de nós mesmos.

Os conflitos que surgem desta dupla idolatria são a fonte principal da violência humana. Somos destinados a creditar ao nosso próximo uma adoração que se transforma em ódio quanto mais desesperadamente procuramos adorar a nós mesmos. O Levítico para barrar isso apresenta o famoso mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18).

Será que tudo na história, na cultura, nas religiões e na vida limita-se a expressão de um desejo mimético desintegrador, negativo? Será intrínseco ao ser humano desejar o desejo do outro? Haverá possibilidade de superar esse aspiral de violência? A leitura de René Girard nos mostra que sim. Há verdadeiramente a possibilidade de superação desse processo. E o cristianismo, o Filho de Deus, Jesus Cristo, é a chave que abre a porta para um novo olhar do ser humano, sua história, sua cultura, sua religião, sua vida e suas relações interpessoais. A superação da mímesis desintegradora remonta-se à Bíblia hebraica. O monoteísmo hebraico não é outra coisa senão uma antropogeneses, tomada de consciência do ser humano acerca da revelação do Deus da vida que supera o sagrado violento.

Franz Hinkelammert falando de René Girard, afirma que no processo mimético trata- se de abolir o sacrificialismo, de fazê-lo desaparecer, de superá-lo definitivamente. Seu pensamento aponta sempre em direção à superação do sacrifício, ir além do sacrifício. Seu

310 Cf. LEVORATTI, Armando J. La lectura no sacrificial del Evangelio en la obra de René Girard. Revista

pensamento tem uma constante carga utópica. Busca uma vida situada além do sacrifício. Não pactuar com o sacrifício. Todo pacto com o sacrifício é sacrificial 311.

O ciclo sacrificial só é rompido uma única vez na história, com o advento do cristianismo. Cristo proclama a inocência das vítimas, a inocuidade dos sacrifícios, a falsidade dos deuses vingativos. Substitui a projeção da violência e a vingança social pelo perdão, restabelecendo o nexo racional entre os atos e as consequências, antes nublado pela mitologia sacrificial. Da desmistificação do sistema antigo nasce não somente a consciência moral autônoma, mas a possibilidade do conhecimento objetivo da natureza: Cristo inaugura a nova civilização que, sabe haver mais justiça no perdão do que na vingança. A paixão de Cristo é o grande evento da história capaz de destruir para sempre a velha lógica de Satanás escondida desde a origem do mundo nas relações humanas. O amor gratuito e generoso de Cristo que dá a vida como oferenda de amor revela para sempre o segredo de Satanás, escondido desde o início no núcleo do mecanismo vitimário e responsável pela matança de milhares de bodes expiatórios no decorrer da história do mundo, bem como a formação dos sistemas mitológicos e do sagrado violento. A paixão de Cristo ilumina as sombras do sistema vitimário, tornando claro para o mundo a inocência da vítima e a perversidade dos perseguidores. A paixão mostra que as razões da condenação das vítimas são perversas e enganosas. Nosso estudo vai nessa direção, nos próximos capítulos buscaremos aprofundar essa dimensão.

A cruz de Cristo é o grande momento da história, a hora definitiva, da redenção do homem, no qual, o velho sistema mimético, é definitivamente desmascarado. Entretanto, desde o Antigo Testamento, inicia-se um longo caminho de superação desta velha mentalidade. O judaísmo é longo caminho pedagógico de tomada de consciência que o Deus da Bíblia não é o “deus do sagrado violento das representações mitológicas. Girard chama atenção para a briga fratricida entre Caim e Abel, onde Deus defende o assassino para interromper o ciclo da violência (Gn 4, 15). O estudo do sacrifício no judaísmo nos mostra várias etapas que indicam justamente um gradativo processo de conscientização acerca da necessidade de superação. A literatura profética crítica incisivamente a ineficácia do sistema sacrifica 312.

311 Cf. HINKELAMMERT, Franz. A distinção entre não-sacrificial e anti-sacrificial. In: ASSMANN, Hugo

(org.). René Girard com Teólogos da Libertação: um diálogo sobre ídolos e sacrifícios. Petrópolis: Vozes; Piracicaba: UNIMEP, 1991. pp. 142-144.

312 Cf. BOUTTIER, Michel. L’Evangeli selon René Girard. Études Théologiques, Paris, vol. 54, n. 4, pp. 393-