2 Discussion of Theory
2.4 Corrective feedback
2.4.1 What is corrective feedback?
Conhecendo os seus pensamentos, Jesus lhes disse: “Todo reino dividido contra si mesmo acaba em ruína e nenhuma cidade ou casa dividida contra si mesma poderá subsistir. Ora, se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, então, poderá subsistir seu reinado? Se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes. Mas, se é pelo Espírito de Deus que eu expulso demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós (Mt 12, 23-28).
Os sinóticos falam diversas vezes de Satanás (Cf. Mc 1, 13; Mt 6, 13; Lc 4, 6; 8, 2; 11, 24; 22, 3). O poder satânico aparece quase sempre ligado à questão da doença, entendida como ausência de Deus e presença do demônio. Jesus é o terapeuta que cura as pessoas expulsando os demônios. Na profissão de fé de Pedro (Mc 8, 29), primeiro anúncio da paixão, o príncipe dos apóstolos, não aceita a paixão do Senhor em Jerusalém. A resposta de Jesus é
272 GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo
vitimário. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p. 239.
273 DANIÉLOU, Jean. Orígenes. Paris: Table Ronde, 1948. p. 265.
274 GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo
fulminante: “Afasta-te de mim Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos
homens” (Mc 8, 33). A afirmação de Jesus mostra a visão messiânica de Pedro como um obstáculo à revelação do mistério do Messias sofredor. Bem no quadro estudado por René Girard, Pedro é apresentado como um escândalo no caminho de Jesus; um obstáculo que causa a queda impede a realização do projeto 275.
Vejamos algumas perícopes dos sinóticos que falam sobre Satanás:
a) Marcos:
E os escribas que haviam descido de Jerusalém diziam: Beelzebu está nele, e também: É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa demônios. Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não poderá subsistir, tal casa não poderá manter-se, mas acabará (Mc 3, 22-26).
b) Mateus:
Então lhe trouxeram um endemoninhado cego e mudo. E ele o curou, de modo que o mudo podia falar e ver. Toda a multidão ficou espantada e pôs-se a dizer: Não será esse o Filho de Davi? Mas os fariseus ouvindo isto, disseram: Ele não expulsa demônios senão por Beelzebu, príncipe dos demônios (Mt 12, 22-24).
c) Lucas:
Voltaram os setenta e dois com alegria, dizendo: Senhor, em teu nome, até os demônios se nos submeteram. Ele lhe disse: Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago! (Lc 10, 17-18).
Os Evangelhos sinóticos destacam o maravilhoso poder terapêutico de Jesus, sua capacidade de cura deriva do fato de ser Filho de Deus. Os milagres são sinais de que o Reino de Deus chegou; pois somente o Messias pode realizar essas curas milagrosas. O fato de todos os sinóticos colocarem a expressão na boca de Jesus é testemunho sobre a historicidade do evento, ou seja, Jesus de fato pronunciou esta frase sobre Satanás 276.
O primeiro milagre no Evangelho de Marcos 277 é uma expulsão de demônios (Mc 1, 23-27), outro relato pormenorizado e amplo se encontra na seção dos milagres (Mc 4, 35-5; 5, 43), o endemoninhado de Gerasa (Mc 5, 1-10). Marcos resume a atividade de Jesus na Galileia, no ensinar e no expulsar demônios, quando os parentes e os escribas estão ao redor de Jesus, vindos de Jerusalém. Os parentes diziam: “enlouqueceu” (3, 21); os escribas diziam: “está possuído por Beelzebu” (Mc 3, 22.30). A acusação dos parentes não é relatada pelos
275 Cf. CARRARA, Alberto. Violenza, Sacro, Rivelazione Biblica: il pensiero di René Girard. Milano: Vita e
Pensiero, 1985. pp. 10-15.
276 Cf. BARBAGLIO, Giuseppe; FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos. Vol. I. São Paulo:
Loyola, 2002. pp. 201-202.
277 Cf. BALANCIN, Euclides Martins. Como Ler o Evangelho de Marcos: quem é Jesus? São Paulo: Paulus,
outros sinóticos. À acusação dos escribas é respondida nos versículos 28 a 29 como um pecado ao Espírito Santo.
Na verdade eu vos digo: tudo será perdoado aos filhos dos homens, os pecados e todas as blasfêmias que tiverem proferido. Aquele, porém, que blafesmar contra o Espírito Santo, jamais será perdoado: é culpado de pecado eterno (Mc 3, 28-29).
Em Mateus, o povo começa a chamar Jesus de Filho de Davi, um título muito comum para indicar o Messias (Mt 12, 22-24). Os fariseus não acreditam que Jesus é o Messias e afirmam que expulsa demônios em nome de Beelzebu. A forma original dessa palavra era
Baalzebube, que significa “deus das moscas” e, provavelmente era adorado pelo povo por seu suposto poder de ter livrado o povo de uma peste de moscas. Posteriormente, os judeus passaram a usar o termo “Baalzebel” que significa “senhor do esterco”. Também o termo
Baalzebul que tem o sentido de “senhor da casa”, isto é, da casa dos demônios. E assim, o nome passou a ser sinônimo de Satanás. A posição mais aceita é que, no tempo de Jesus, o termo era usado com o sentido de casa dos demônios, identificando Jesus com Satanás, homem dominado por Satanás ou aliado a ele. Os fariseus acusam-no de realizar milagres pelo poder de Satanás. A figura de Satanás é uma das mais misteriosas da Bíblia, especialmente no Antigo Testamento, porque a percepção do diabo entre os povos antigos foi mudando no decorrer do tempo. O nome satã é hebreu, mas raramente aparece como uma figura distinta na Bíblia hebraica. Esse substantivo é muito mais comum ao Novo Testamento, onde aparece cerca de trinta vezes escrito em grego. Porém, seja o Satanás hebraico que o diabolos grego significa acusador, adversário, difamador, inimigo 278.
Em Lucas, os missionários voltam da missão e prestam contas a Jesus, dando informações detalhadas da atividade missionária, ficando admirados ante o poder de expulsar demônios; o tom da narração dos discípulos é marcado pela alegria, pois descobriram que o poder de Satanás poderia ser derrotado em nome do Senhor 279.
Satanás nos Sinóticos está ligado à opressão da dignidade humana, nos casos de doenças, de pecados ou escândalo no caminho das pessoas, são fatos que impedem a plenitude
278 O abade beneditino alemão Anselm Grün tem trabalhado o demônio na perspectiva da luta contra o mal.
Apresenta a experiência dos monges antigos diante do demônio como uma convivência otimista e realista, amparada na força de Cristo. Obviamente que a linha de Grün não tem nenhuma ligação com a posição girardiana sobre Satanás. A referência justifica-se pela grande aceitação das ideias de Grün na espiritualidade contemporânea e também para ser um ponto de debate e questionamento com o nosso referencial teórico. “As pessoas no mundo inteiro se preocupam com o mal. A psicologia procura explicá-lo a partir da história de vida de cada um, busca a causa no passado. A projeção parece um mecanismo inofensivo, mas pode ser a causa de uma avalanche do mal que arrasta consigo todas as sombras e repressões para cima das outras pessoas, submergindo e destruindo o mundo inteiro”. GRÜN, Anselm. Convivendo Com o Mal: a luta contra os
demônios no monaquismo antigo. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 8.
da vida. Jesus, enquanto, Filho de Deus, revela-se maior que o poder de Satanás. O poder terapêutico de Jesus, seus milagres e a obra do Reino de Deus como um todo desmascaram a força sombria de Satanás. Girard focaliza-se justamente nessa dimensão do evento histórico Jesus de Nazaré como superação do mundo criado pelo poder de Satanás, ou seja, pelo mimetismo nocivo que contamina a todos causando o sacrifício do bode expiatório e sua posterior divinização. Quando Girard analisa os textos dos Sinóticos referentes a Satanás, procura mostrar exatamente esse aspecto de Cristo que desmonta suas forças míticas, dando vida na vida das pessoas. Além de realizar milagres, curas e perdoar os pecados, desfaz a força simbólica de Satanás 280.
Nos Sinóticos, a figura de Satanás reúne uma multidão perseguidora quando converge a comunidade a perseguir algum doente por considerá-lo um maldito de Deus. A doença é entendida como castigo, punição divina por um pecado cometido. No caso de deficiência física, segunda a tese do mecanismo vitimário, há uma predisposição maior de absorção da violência humana que tem Satanás como mentor. “A ação do Filho de Deus é sempre de
libertação das pessoas que estão com a personalidade desintegrada pela violência do mimetismo que tem Satanás como pai” 281.
O Satanás dos sinóticos representa o mimetismo nocivo que conduz ao sacrifício do bode expiatório. Pode tratar-se do processo vitimário como um todo, ou apenas uma etapa desse mesmo mecanismo. Não é um ser, mas uma força capaz de convergir a violência de toda uma comunidade contra uma única vítima. Satanás é a corrente mimética, ou o circuito mimético. Nessa sociedade, onde os doentes e pecadores públicos são alvos privilegiados da violência praticada com motivações religiosas; Jesus os salva e revela que essas pessoas e grupos não são malditos de Deus, por isso, não podem ser condenados. Satanás é a eficácia do mecanismo violento, provocando a focalização dos olhares sedentos de ódio e violência sobre essas vítimas. O Filho de Deus não entra nesse jogo do mimetismo nocivo. Através da revelação do Reino cura os doentes, perdoa os pecadores, convida à conversão e à renúncia da violência.
280 Cf. TUGNOLI, Claudio. Girard: dal mito ai Vangeli. Padova: Messagero, 2001. p. 231.
281 GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo