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Clarification and discussion of the findings, questionnaire section one

5 Findings, Discussion and Conclusion

5.1 Clarification and discussion of the findings, questionnaire section one

A esperança protelada é doença do coração, mas, o desejo realizado é a arvore da vida (Pr 13, 12).

O processo mimético é presente em (Pr 10-15). Pois sua articulação tem origem numa resposta à crise social causada pela violência recíproca que ameaçava destruir todo o povo de Judá. Nesta situação, a coletânea de provérbios tem a função de restabelecer as diferenças entre justo e ímpio para mostrar o caminho da vida como superação da crise. “Na senda da

justiça está a vida; uma estrada batida leva à morte” (Pr 12, 28).

O núcleo da crise sacrificial está na supressão das diferenças. A sabedoria encontra-se no discernimento da indiferenciação introduzida pela violência fulminante que ameaça a comunidade. Em (Pr 10-15), o discernimento consiste em mostrar a diferença entre o Filho

Sábio e o Insensato, no interior da família. O restabelecimento das diferenças acontece através da descrição do desejo e da maneira de agir dos diversos tipos sociais. Os modelos fundamentais são: o preguiçoso, o insensato, o estulto, o zombador e o ingênuo. “Esses

modelos são rivais do Filho Sábio, eis a base do processo mimético: sujeito + objeto do desejo + rival” 313. O critério básico para recuperar a diferença está no dinamismo do desejo do Justo e do Ímpio: um leva à violência e à morte, e o outro, à justiça e à vida (11, 23; 13, 12).

A crise social em questão foi a situação vivida por Jerusalém no final da monarquia davídica. Esta situação instalou-se depois da morte de Josias que havia feito a reforma deuteronomista. Quem o sucedeu foi um rei considerado ímpio. A crise foi agravada e implantada de modo devastador pela invasão do exército neobabilônico entre 604 e 600 a. C., conforme o testemunho de Habacuc (Hab 1, 6 e 9). A invasão semeia e espalha a violência destruidora 314.

A violência dos caldeus causou a indiferenciação responsável pela destruição da sociedade em todos os níveis (econômico político e ideológico). “Da massa de seus rostos sai

um vento destruidor, ele junta os cativos como areia” (Hab 1, 9b).

Até quando, Javé, gritarei por ajuda, e tu não escutas.

gritarei por Ti: violência! sem que venhas em minha ajuda?

Por que Tu me fazes ver a iniquidade e devo olhar a pena? Pilhagem e violência estão diante de mim,

há disputa, e suscitam-se querelas. Por isso a Lei está paralisada,

313 GORGULHO, Gilberto da Silva. Sabedoria e desejo mimético. In: ASSMANN, Hugo (org.). René Girard

com Teólogos da Libertação: um diálogo sobre ídolos e sacrifícios. Petrópolis: Vozes, Piracicaba: UNIMEP, 1991. p. 251.

e o direito não mais aparece. Como o ímpio envolve o justo,

é por isso que o direito aparece torcido.

Eis o presunçoso: não é um bem próprio, sua vida nele. Mas, o justo viverá por sua fidelidade (Hab 2-4).

O invasor é o orgulhoso violento. Usa de sua força e riqueza. Despeja sua violência sobre toda Judá. O invasor representa a divinização ilusória da força triunfante da violência. A profecia é clara: o justo viverá por sua fidelidade porque se apóia em Deus que não morre (Hab 1, 12). Na fidelidade está o caminho para a saída da crise. Nessa situação de crise e ameaça, a sabedoria entra em cena para defender a liberdade e vida do povo. Os sábios não aceitam a lógica mimética embutida na perseguição. O justo não pode ser devorado pela violência e nem sacrificado. A sabedoria procura o caminho da justiça que liberta da morte (Pr 10, 2). Os sábios procuram estabelecer um caminho de vida para resgatar o povo do processo de violência. Um projeto que desvende a árvore da vida e mostre que a justiça conduz à vida 315 (Pr 12, 28).

Este projeto se faz com sentenças de origem e conteúdo diversos. Os exegetas fizeram várias tentativas para encontrar um critério para classificar estas sentenças. “A maioria dessas

tentativas fica no nível da gramática, da forma literária e dos artifícios linguísticos” 316. O nervo do projeto dos sábios está na relação entre desejo e vida. O caminho para a saída da crise está no dinamismo do desejo de justiça que liberta da morte e realiza o justo (Pr 10, 3). A realização do justo está na fidelidade a Deus que reverte a violência e orienta o desejo para a justiça. Assim, o fundamento da vida consiste em fazer vontade de Deus, expressa em termos “abominação e benevolência a Iahweh” (Pr 12, 22).

A sabedoria é discernimento e apropriação pessoal da verdade que possibilita perceber o que é “abominação e benevolência a Iahweh”. A expressão é um dos eixos da ética deuteronomista. A sabedoria é discernimento da vontade de Deus, na vida comunitária (Pr 10, 31-11,12; 12, 22; 15, 8). A sabedoria vem do temor de Deus, que é o princípio e a medida do dinamismo do desejo como caminho de vida. Há uma nova transcendência, não aquela do sagrado violento. Mas, o Deus da vida que manifesta a sua presença como um dom que reverte o processo destruidor da violência recíproca. “Em Deus está a fonte da vida” 317. “O

justo viverá na fidelidade” (Hab 2, 4).

315 Cf. GORGULHO, Gilberto da Silva. Sabedoria e desejo mimético. In: ASSMANN, Hugo (org.). René

Girard com Teólogos da Libertação: um diálogo sobre ídolos e sacrifícios. Petrópolis: Vozes, Piracicaba: UNIMEP, 1991. p. 254.

316 Ibidem.p. 255. 317 Ibidem. p. 258.

CAPÍTULO III – REINO DE DEUS: A MÍMESIS DA VIDA

Os estudos de René Girard sobre o Novo Testamento confirmam que a teoria mimética funciona muito bem na leitura do evento Cristo, principalmente da sua paixão, pois enfoca a encarnação como desmistificação da religião arcaica e a paixão como revelação da inocência da vítima.

Neste capítulo, vamos analisar o evento histórico Jesus de Nazaré, partindo do mistério da encarnação, onde Deus, através do Filho, assume a carne humana para destruir o reino de Satanás inteiramente ligado à unanimidade mimética. Depois trataremos sobre o Reino de Deus e o mistério do Messias libertador, além da questão dos milagres, enquanto sinais de que o Reino chegou. Queremos mostrar que o Reino leva à superação do mecanismo do bode expiatório e do sagrado violento. Faremos também a análise de alguns títulos cristológicos que revelam a identidade do Messias, para ajudar a percebermos como Jesus interpretou sua vida e sua missão e como esses títulos cristológicos se configuram com a tese de Girard, segundo a qual, Jesus desconstrói a lógica violenta. Outro aspecto importante é a análise de alguns bodes expiatórios nos Evangelhos. Jesus é radicalmente solidário com as vítimas da violência unânime; jamais fica ao lado dos perseguidores, mas sempre ao lado das vítimas, mais que isso, assume o partido das vítimas e as defende profeticamente. Por fim, mencionaremos a questão da violência no cristianismo e a complexidade do mecanismo da projeção da violência sobre o próximo em nome de Deus, com o objetivo de esconder a própria culpa na condenação do outro, justificando-a como sendo a vontade de Deus.

A intenção deste capítulo é mostrar que, como afirma René Girard em seus escritos, o ministério de Jesus, descrito nos Evangelhos destrói o reino de Satanás, ou seja, revela a perversidade do mecanismo vitimário. A irrupção do reino de Deus é a criação de uma nova antropologia fundada no amor, na generosidade, no perdão, na compaixão. Este Reino não é criação humana, mas dom gratuito de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que assumiu a carne humana para libertar o homem do pecado, reconciliando-o com Deus.

1 Encarnação de Deus em Jesus de Nazaré

Quando chegou a plenitude dos tempos, enviou Deus seu Filho, nascido da mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que se achavam sob a lei e para que recebêssemos a filiação adotiva. A prova de que sois filhos é que Deus enviou a nossos corações o Espírito de seu Filho que clama Abbá, Pai! (Gl 4, 4-6).

A teologia nos ensina que o Pai enviou seu Filho ao mundo para realizar a obra da redenção. O amor de Deus pelos homens é a única razão do envio do seu Filho ao mundo 318: “Eis como se manifestou o amor de Deus entre nós: Deus enviou seu Filho único ao mundo

para que vivêssemos por meio dele” (1 Jo 4, 9).

A habitação de Deus na história atinge sua plenitude na Encarnação. Encarnação em Jesus, o Galileu, o homem pobre de Nazaré, que é relatada de forma cálida e concreta por um versículo do prólogo do Evangelho de João: “E a Palavra se fez

carne e pôs sua morada entre nós” (Jo 1, 44). A Bíblia espanhola traduz: “E a

Palavra se fez homem, acampou entre nós”. São modos de expressar a mesma certeza: a habitação de Deus na história, que com a Encarnação atinge sua mais complexa realização. Mateus o ressalta assumindo a profecia de Isaías: Jesus é o Emanuel, o “Deus conosco” (Mt 1, 23). O Evangelho de João se empenha em transmitir a importância desse encontro 319.

O Logos se torna carne, isto é, aparece como ser humano, sem que isso signifique um abandono de sua divindade. A identificação do Logos com o Jesus histórico é absoluta, o Verbo é capaz de revelar Deus e conceder a vida eterna (Jo 5, 26). O Filho, pré-existente que está no seio do Pai, tornou-se humano: “Eu saí do Pai e vim ao mundo; ao passo que agora

deixo o mundo e vou para o Pai” (Jo 16, 28). A teologia joanina mostra a orientação total no envio exclusivo do Filho pelo Pai a um mundo que não conhece a vida eterna e cuja salvação reside, unicamente, na aceitação das palavras da vida eterna (Jo 6, 68). Jesus veio ao mundo em nome de seu Pai celestial e não em nome próprio: “Eu não vim por mim mesmo, foi ele

(Deus) que me enviou” (Jo 8, 42). Assim, a encarnação é interpretada como amor de Deus pelo mundo e Jesus é o portador absoluto da salvação 320.

No mistério da encarnação, ocorre o encontro fundamental entre o divino e o humano, quando Jesus de Nazaré, Deus em pessoa, assume radicalmente a natureza humana, e essa, a partir daí, participa da natureza divina. A Palavra de Deus assumiu a carne humana (e se fez homem) para iluminar os homens no caminho do mundo. A encarnação é a livre autocomunicação de Deus com o mundo, ou melhor, com homens e mulheres de todas as raças e línguas, para oferecer a salvação gratuita do amor de Deus 321.

O teólogo Torres Queiruga afirma que pela fé cristã, acreditamos que Jesus Cristo seja a chave última, mas não exclusiva, para as perguntas decisivas da vida humana. Ele é a síntese extraordinária de um homem que manifesta a majestade divina, Deus passeando pela

318 Cf. LADARIA, Luis. O Deus Vivo e Verdadeiro: o mistério da Trindade. São Paulo: Loyola, 2005. pp. 56-

57.

319 GUTIÉRREZ, Gustavo. O Deus da Vida. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1992. p. 112.

320 Cf. MÜLLER, Ulrich B. A Encarnação do Filho de Deus: concepções da encarnação no cristianismo

incipiente e os primórdios do docetismo. São Paulo: Loyola, 2004. p. 59.

321 Cf. RAHNER, Karl. Curso Fundamental da Fé: introdução ao conceito de cristianismo. 3. ed. São Paulo:

paisagem cotidiana da Palestina. Não como um Deus que despeja os esplendores de sua onipotência sobre nós, mas como um ser humano comum que dá respostas às grandes interrogações humanas, compartilhando conosco sua humanidade. Jesus não se apresenta como um super-homem, como alguém que sofreu mais que todos, ultrapassando a dor de milhares subjugados por torturas, ditaduras, mas como um “simples homem”. O Novo Testamento nos revela o mistério da humanidade de Cristo a partir da profundidade de seu amor, da autoridade da sua Palavra, da generosidade da sua entrega 322.