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Questionnaire section two: the students’ reactions to and post-feedback activities

4 Summary and results of the questionnaire

4.2 Questionnaire section two: the students’ reactions to and post-feedback activities

Ele era a luz verdadeira que ilumina todo homem; ele vinha ao mundo. Ele estava no mundo

e o mundo foi feito por meio dele,

mas o mundo não o reconheceu ( Jo 1, 9-10).

O quarto Evangelho aborda o tema de Satanás como rejeição ao Verbo eterno do Pai que se encarnou e veio morar entre nós. Não crer em Jesus Cristo, não acolher a Luz do mundo que ilumina todo homem, não aceitar a Verdade revelada dizendo não ao Filho de Deus, significa aderir ao pai da mentira. Escolher Cristo é participar da vida intratrinitária de Deus, porque Deus é a vida. Rejeitar Cristo significa permanecer nas trevas da morte eterna, da qual Satanás é a origem.

Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira (Jo 8, 44).

Essa terceira parte do capítulo oito desenvolve um tema já presente na perícope anterior: Deus e Satanás. “Conhecereis a verdade, e a verdade há de vos tornar livres” (8, 31). Para teologia joanina, Deus é a verdade: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Deus é a verdade e Satanás é a mentira. Jesus e os judeus têm dois pais diferentes. Afirma de forma veemente que o pai dos judeus é Satanás. Ao recusarem Jesus, eles não pertencem à verdade, mas são do diabo, estão em sintonia com a mentira. O diabo é assassino e mentiroso desde o início, essa linha vem desde a mentira do paraíso que conduziu a humanidade inteira à morte, passou por Caim, por Jó, pelos profetas e chegou aos judeus, que mataram Jesus. Em todas essas situações houve a recusa de Deus e do amor e opção pela mentira e pela violência, 282 até “Durante a ceia, quando já o diabo pusera no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, o projeto de entregá-lo...” (Jo 13, 2).

A sessão do cenáculo (13, 1-16, 33) tem quatro subdivisões:

O lava-pés;

A predição de traição;

O discurso de despedida, como novo mandamento;

282 Cf. BARBAGLIO, Giuseppe; FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos. Vol. II. São Paulo:

A saída do cenáculo.

Durante a ceia, o diabo já havia contaminado o coração de Judas, ele estava decidido a trair Jesus. Durante esse período, o Senhor lavou os pés dos discípulos, cuja função era dos escravos. Eram costume os convivas ao sentarem-se à mesa para receberem os alimentos, terem seus pés lavados. Enquanto Jesus participa da ceia e lava os pés dos discípulos, o desejo de violência inspirado por Satanás tomou conta de Judas. Também nesse versículo, Satanás aparece como o pai da violência e da mentira que causa a queda do justo. No decorrer da história do cristianismo, os teólogos deram diferentes interpretações acerca das razões que levaram Judas Iscariotes a tomar tal decisão. Entre outras interpretações, aparece com maior relevância a questão da inveja283 e do ciúme de Judas em relação a Jesus e o grupo dos doze. Algo incomodava Judas, a ponto de levá-lo a tal decisão. O evangelista não hesita em dizer que as razões de Judas foram motivadas diretamente por Satanás.

Girard focaliza-se no fato de João chamar Satanás de mentiroso, pai da mentira e assassino desde o início. A mentira de Satanás é revelada na paixão. Essa fornece aos homens aquilo que precisam para escapar das algemas dessa eterna mentira, para reconhecer a calúnia de que a vítima se torna objeto 284. Graças à capacidade sedutora de Satanás com toda a sua habilidade mimética, consegue creditar sua própria mentira diante da comunidade sobre a culpa de uma vítima. Tanto é que Satanás em hebraico significa acusador.

O texto de João ajuda Girard a confirmar suas intuições antropológicas fundadas no desejo mimético. A catequese joanina confirma a sua tese de que a cultura, a lei, o mito e o rito têm como fundamento a mentira de Satanás. No contexto da discussão sobre os verdadeiros discípulos, Jesus diz que esses não têm como pai nem Deus e nem Abraão como afirmam, mas que seu pai é o diabo, pois realizam os seus desejos, rejeitando a vontade de Deus. Usando uma terminologia girardiana: esses falsos discípulos tomam Satanás como modelo de seus desejos, são imitadores dele. Na opinião de Girard, a figura do Pai no texto, coincide com aquela do modelo que desperta no ser humano a imitação. Deus e Satanás são os dois modelos supremos. O primeiro é caminho da vida, da verdade, da sabedoria e do amor e

283 A inveja é um sentimento relevante para o desenvolvimento do processo mimético, principalmente em sua

fase inicial, quando se escolhe um modelo a ser imitado. Diante da resistência do modelo que se torna obstáculo dentro da dialética, desejo e proibição, surge a inveja. Essa é conseqüência da proibição do modelo que impede o sujeito de realizar seu sonho. A inveja é um verdadeiro trampolim do processo mimético, pois dá um grande impulso para o surgimento da rivalidade na chamada mímesis de apropriação.

284 Cf. SCHWAGER, Raymund. Must There Be Scapegoats: violence and redemption in the Bible. San

o segundo, o caminho da mentira, da projeção do ódio e da agressividade sobre o bode expiatório.

O diabo no texto de João é exatamente isso. O modelo das trevas fundado na mentira do qual surgiu a estrutura do mundo no esquema do processo mimético. Os filhos do diabo são aqueles que se deixam conduzir pela lógica vitimária; inconscientemente tornam-se protagonistas da violência mimética, como projeção das realidades sombrias da condição humana sobre o próximo para reconciliar-se consigo próprio e com a comunidade. Diz Girard: “Se o leitor não compreender o ciclo mimético, não conseguirá compreender esse versículo” 285.

O texto de João nos dá uma nova definição, extremamente rápida e completa, do ciclo mimético. Os escândalos proliferam-se dentro e fora de nós e nos envolvem na violência mimética, nos transformando em cúmplices do assassinato fundador. Quanto mais enganados pelo diabo, menos conscientes dessa cumplicidade somos. Não temos nenhuma consciência dessa cumplicidade. Nos imaginamos virtuosamente estranhos a qualquer violência 286.

Finalmente, Girard define aquilo que torna “Satanás príncipe deste mundo”, devido ao sistema de acusações que conduz à condenação da vítima inocente. O diabo é o mentiroso, é o pai da mentira e dos mentirosos, pois sua mentira se propaga de geração em geração em todas as culturas humanas. A teologia joanina exige uma opção fundamental da parte do discípulo: imitar Jesus e seguir o caminho da vida e da salvação ou imitar o diabo e seguir o caminho da mentira, da morte e da condenação.

O Satanás dos Evangelhos sinóticos e o diabo do Evangelho de João designam o mimetismo conflitivo que conduz ao mecanismo do bode expiatório. Essa terminologia dá aos exegetas modernos, cegos como são ao ciclo mimético, a impressão de indicar coisas diferentes e insignificantes. Mas é uma impressão equivocada. Se reconsiderarem as preposições que analisei e se confrontarem o Satanás sinótico com o diabo joanino, poderão constatar, sem fadiga, como a doutrina ao qual esses textos apontam são coerentes e não são modificadas na passagem do sentido evangélico para a terminologia mimética. Longe de ser um absurdo para merecer nossa atenção, este texto evangélico contém uma sabedoria incomparável sobre as relações existentes entre os seres humanos e nas sociedades que resultam dessas relações 287.

O livro da Revelação descreve a batalha liderada pelo arcanjo Miguel contra Satanás:

Houve, então, uma batalha no céu: Miguel e seus anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou juntamente com seus anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu. Foi expulso o grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada, foi expulso para a terra, e seus Anjos foram expulsos com ele (Ap 12, 7-9).

285 GIRARD, René. Vedo Satana Cadere come la Folgore. Milano: Adelphi, 2001. p. 64. 286 Ibidem. p. 65.

No final, Satanás, o grande sedutor, “foi lançado no lago de fogo e de enxofre, para

ser atormentado dia e noite, pelos séculos dos séculos” (Ap 20, 10). Na perspectiva de Girard, nesse caso, Satanás é uma função exercida pelos fariseus. Eles atacam Jesus acusando-o e caluniando-o como chefe dos demônios. Procuram a todo custo convencer o povo de que Jesus realiza milagres em nome de Satanás; contudo não percebem que Satanás são eles próprios, quando acusam, caluniam e mentem buscando semear escândalos que levem a violência unânime contra Jesus 288.

O tema apocalíptico cristão é o terror humano e não divino, é o que tem mais chances de triunfar pelo fato de os homens estarem mais libertos desses espantalhos sagrados, os quais nossos humanistas acreditam poder pulverizar por sua própria iniciativa que eles reprovam ao judaico-cristão de perpetuarem em demasia. Eis nos, agora livres 289.

A literatura apocalíptica não é violência destruidora de Deus, mas destrói a violência humana pelo poder do amor de Deus 290. As manifestações cósmicas são a revelação do poder divino que desmascara as contradições humanas e revelam a Verdade de Deus. Trata-se da superação do esquema do “príncipe deste mundo”. No caso especifico, o “príncipe das

trevas” é o Império Romano que persegue e tortura os cristãos. Esse modelo da sociedade imperialista é sacrificial.

O ensinamento do Apocalipse é geralmente apresentado como síntese e conclusão do ensinamento bíblico. A humanidade é liberta dos poderes do grande Sedutor. Impotente diante da “Mulher vestida de sol” (Ap 12, 1-9) e daquele ao qual dá à luz. “Enfurecido por causa da

Mulher, o Dragão foi então guerrear contra o resto de seus descendentes, os que observam os mandamentos de Deus e mantêm o Testamento de Jesus” (Ap 12, 17). Entretanto, terminará com a vitória do Cordeiro e da Igreja sua esposa 291 (Ap 18, 22).

Para Girard, podemos falar de uma antropologia mimética fundada no processo mimético que termina no sacrifício do bode expiatório e no sagrado violento. Em João (8, 42- 44), Jesus afirma que aqueles que não escutam sua palavra e não o amam são filho do diabo,

288 Cf. KASPER, Walter; LEHMANN, Karl (orgs.). Diavolo, Demoni, Possessione: sulla realtà del male. 3. ed.

Brescia: Queriniana, 2005. pp. 45-56.

289 GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo

vitimário. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p. 241.

290 “O Apocalipse é uma fonte importante, tanto para compreender a história das comunidades cristãs dentro do

Império Romano, quanto para perceber o significado da atual prática pastoral. Com efeito, mostra concretamente o que foi o cristianismo em suas origens e como agiram as comunidades cristãs no meio do povo. O Apocalipse contém uma mensagem bem determinada. Visava animar os primeiros cristãos perseguidos e martirizados por causa da sua fé. É uma mensagem de esperança para essas comunidades, baseada na fé em Jesus Cristo Ressuscitado, o único Senhor e o Vencedor de todas as forças do mal”. GORGULHO, Gilberto da Silva; ANDERSON, Ana Flora. Não Tenham Medo! Apocalipse. São Paulo: Paulus, 1977. p. 9.

291 Cf. PACOMIO, Luciano. Satana, il diavolo. In : MARTINI, Carlo Maria. et al. La Storia di Gesù, Vol. III.

homicida desde o princípio do mundo e pai da mentira. Aqueles que praticam a violência, o ódio e a perseguição, imitam o diabo. Temos dois modelos para imitar: Deus e o diabo. Se escolhermos imitar o diabo, entraremos no caminho da mímesis destruidora que leva ao sacrifício do bode expiatório. Se, ao contrário, escolhermos imitar Deus, entraremos no caminho da mímesis boa; imitaremos o amor, o perdão, a solidariedade, a misericórdia e todos os valores do Evangelho 292.