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Post-CF activities: oral vs. written communication/tasks

5 Findings, Discussion and Conclusion

5.2 Questionnaire results, section 2: examination of the participants’ reactions to

5.2.1 Post-CF activities: oral vs. written communication/tasks

Girard dedica um capítulo do livro “O Bode Expiatório” à questão do Beezebu, o príncipe dos demônios.

Se minha ação vier do diabo, de onde virá a de vocês e a dos adeptos de vocês, dos filhos espirituais de vocês? Jesus remete seus críticos às acusações deles: são eles que expulsam Satanás por Satanás e ele reivindica para si mesmo um tipo de expulsão radicalmente diferente, uma expulsão pelo Espírito de Deus: mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós 293.

Segundo a teoria do mecanismo vitimário, Satanás é a origem do bode expiatório que conduz ao sacrifício do inocente e ao nascimento do sagrado violento. A mentira de Satanás que convence toda a comunidade sobre a culpa faz com que todo o grupo se volte contra a vítima exigindo a sua condenação. Foi assim, por exemplo, no caso de Édipo Rei, onde a fome e a peste que assolava Tebas foram interpretadas como castigo divino pelo parricídio e o incesto. Para acalmar a fúria divina era necessário condenar Édipo. Satanás conduz ao sacrifício do bode expiatório, quando acontece a projeção inconsciente das agressividades sombrias guardadas no coração do homem e, decorrentes das relações interpessoais. Esse mecanismo de projeção inconsciente causa uma sensação de paz e harmonia no grupo. Mas isso é temporário, pois à medida que o tempo passa, surgem novamente os conflitos e as rivalidades e, novamente, aparecerá Satanás para acusar e escolher um bode expiatório no grupo 294.

Satanás nos coloca na estrada que conduz ao sacrifício do bode expiatório. O mistério de Satanás é trazer a harmonia na comunidade através da mentira que contagia todo o grupo, causando o sacrifício da vítima ao semear escândalos e depois recolhe a tempestade da crise

292 Cf. GIRARD, René. Vedo Satana Cadere come la Folgore. Milano: Adelphi, 2001. p. 64. 293 GIRARD, René. O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 2004. p. 241.

294 Cf. SCHWAGER, Raymund. Haine sans raison. La perspective de René Girard. Christus, Paris, vol. 31, n.

mimética. Nesse sentido, é o princípio da ordem e da desordem na história do mundo. Segundo Girard, Satanás é o mimetismo sedutor que convence a unanimidade da culpa da vítima. A comunidade acredita na culpa da vítima, e o inocente torna-se, o escândalo supremo. A vítima torna-se o inimigo comum de uma multidão enfurecida pela violência da crise que ameaça a subsistência do grupo. O mérito de Satanás é reportar a paz à comunidade, pois pelo sacrifício do bode expiatório, acontece a purificação do grupo, antes desintegrado pela rivalidade mimética 295.

O reino de Satanás, na visão de Girard, é a lógica do mundo desde sua origem, ou seja, todo esse processo é fundado na mentira e na violência para resolver as crises comunitárias. Esse universo das religiões mitológicas tem Satanás como pai. Eis a questão colocada por Raymund Schwager: será que precisamos de bode expiatório? O ser humano e, principalmente, o cristianismo, precisa construir sua história no mundo, fundando-se nesta antiga lógica da projeção inconsciente das sombras num bode expiatório, escolhido pela acusação mentirosa de Satanás 296.

Jesus apresenta o reino de Deus como uma realidade absolutamente nova e diferente do reino de Satanás, baseada na mentira, vingança e no descarregamento do ódio e das intolerâncias sobre o próximo, como forma de libertação. O Reino de Deus fundamenta-se no amor, na gratuidade, na misericórdia e no perdão, ao invés de escolher alguém inocente do grupo para descarregar aquilo que perturba a pessoa ou grupo, Jesus pede o perdão, a doação e o amor. Na proposta de Jesus, somente o sacrifício de amor, o dom gratuito e generoso de si mesmo, é capaz de desmascarar a lógica perversa dos sistemas mitológicos fundados na mentira do príncipe deste mundo: Satanás.

Mas a proposta do Reino foi rejeitada por alguns grupos da sociedade hebraica da época, particularmente pelos grupos que detinham o poder religioso, político e social de Israel, (fariseus, sumo-sacerdotes e doutores da lei) 297. Jesus, durante seu ministério terreno, desmascara as forças opressoras da sociedade, a ideia do sofrimento como castigo de Deus e presença de Satanás na vida da pessoa. Jesus, no anúncio do Reino, propõe-se libertar as pessoas do poder de Satanás, mas o Satanás que Jesus expulsou dos doentes, pobres e marginalizados, volta-se contra Ele, conseguindo constituir uma unanimidade contra o Filho

295 Cf. GIRARD, René. Vedo Satana Cadere come la Folgore. Milano: Adelphi, 2001. pp. 56-60.

296 Cf. SCHWAGER, Raymund. Must There Be Scapegoats: violence and redemption in the Bible. San

Francisco: Harper & Row Publishers, 1987. p. 82.

297 Para um estudo aprofundado desses grupos indicamos: JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no Tempo de Jesus:

pesquisas de história econômico-social no período neotestamentário. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1983. pp. 207- 333.

de Deus, que tem como consequência a paixão. Contudo, a entrega de amor de Jesus, mostra de maneira clara ao mundo sua inocência e a mentira dos acusadores. Portanto, a cruz do Senhor, ilumina as trevas do reino de Satanás, revelando a mentira do sistema mitológico 298. A tese de Girard quer mostrar Satanás como uma realidade presente no mundo, nas relações humanas, principalmente como uma etapa decisiva do mecanismo mimético. Não se trata de um ser, mas de uma função bem definida dentro da dinâmica das relações humanas.

7 Tese da retribuição

Outra expressão da violência sagrada no mundo bíblico é a tese da retribuição que nos estudos de Girard equivale à religião mitológica do sagrado violento. A ideologia da retribuição aparece no Antigo e no Novo Testamento como violência religiosa projetada sobre pessoas ou grupos que se tornam verdadeiros bodes expiatórios da sociedade.

Segundo a tese da retribuição, a pessoa que age em conformidade com a vontade de Deus é recompensada, porém aquela que age ao contrário é punida e castigada. Deus recompensa o justo e castiga o ímpio. Essa recompensa consistia em longevidade, família numerosa e riqueza. Há um paralelo entre sucesso temporal e justiça pessoal, se alguém sofre é para pagar as culpas do passado 299. A experiência do exílio babilônico (587 a.C.) mostrou a fragilidade dessa tese; os livros sapienciais, especialmente Jó e Coélet, revelam suas latentes contradições 300. A tese da retribuição é uma expressão do sagrado violento. Abre caminho para o fenômeno do “todos contra um” próprio do mecanismo vitimário, causa da indiferenciação, que gera a violência unânime contra a vítima inocente. Essa perspectiva do sofrimento, como punição de Deus pelas culpas individuais, familiares e sociais, cria as condições necessárias para a escolha e o sacrifício do bode expiatório. Aquele que está sofrendo, sempre será considerado culpado pela comunidade, que coletivamente, pedirá o seu sacrifício. Portanto, a teologia da retribuição é o fio condutor da violência recíproca, que desemboca no sacrifício do bode expiatório.

298 Cf. GIRARD, René. Vedo Satana Cadere come la Folgore. Milano: Adelphi, 2001. p. 182.

299 Cf. BONORA, Antonio. Retribuzione. In: ROSSANO, Pietro; RAVASI, Gianfranco; GIRLANDA, Antonio

(orgs.). Nuovo Dizionario di Teologia Biblica. Milano: 1998. pp. 1332-1335.