2 Discussion of Theory
3.3 Instrument
Já dissemos anteriormente que Jó é altamente significativo para intuições girardianas. Por isso, o retomamos uma vez mais, para mostrar como a retribuição se manisfesta no texto e justifica-se com coberturas religiosas: como se fosse vontade de Deus. Os amigos que vêm para consolar Jó, o bode expiatório, são os defensores da tese da retribuição, defendem que o sofrimento de Jó é consequência do pecado. “A teologia dos amigos é a expressão mais
desenvolvida do sagrado violento” 301. O discurso dos três teólogos da retribuição é repleto de violência sacrifical. Disparam à queima-roupa o autoritarismo arrogante da retribuição sobre o inocente, aumentando ainda mais seu sofrimento. Através da teologia da retribuição, condenam Jó com voz unânime, sem sequer ouvir suas queixas 302.
Para ilustrar aquilo que dissemos anteriormente, vejamos estas palavras de Elifaz:
Deus derrama sobre ele o ardor de sua ira, lança-lhe na carne uma chuva de flechas. Se escapar das armas de ferro,
atravessa-lo-à o arco de bronze; uma flecha sai de suas costas,
e um dardo chamejante, do seu fígado. Terrores avançarão sobre ele,
todas as trevas escondidas lá estão para apanhá-lo (Jo 20, 23-26).
Elifaz um dos três amigos de Jó ignora completamente o grito da vítima, que clama a solidariedade à causa de sua inocência. Ao contrário, despeja sempre com maior intensidade a violência destruidora, ligitimada pela teologia da retribuição do qual é representante legítimo 303.
O tema da infelicidade reservada ao ímpio é repartido com bastante igualdade entre os três amigos. No primeiro ciclo, (4-14) trata-se apenas de um argumento entre outros, sendo a morte do ímpio o tema mais frequentemente descrito. No segundo ciclo (15-21), a punição do mal é a única prova que os visitantes retêm para fundamentar sua tese, por isso é desenvolvida mais extensamente: toda a vida do ímpio é pintada, desta vez, como um tormento perpétuo. Enfim, no último ciclo (21- 27), é Sofar, de modo especial, que volta à idéia 304.
A ideologia da retribuição é assustadora. Sequer a morte pode acabar com o castigo, pois a punição atinge até os descendentes e, se tiver prole numerosa, será igualmente destinada ao sofrimento, sem a obrigação de indenizar todos os pobres lesados pelo pai. Os
301 GIRARD, René. Job et le bouc émissaire. Bulletin du Centre Protestant d’Etude, Genebra, Vol. 35, n. 6, p.
16, 1983.
302 Cf. STADELMANN, Luís. Itinerário Espiritual de Jó. São Paulo: Loyola, 1997. p. 20.
303 Cf. STORNIOLO, Ivo. Como Ler o Livro de Jó: o desafio da verdadeira religião. São Paulo: Paulus, 1992.
pp. 40-41.
304 Cf. LÉVÊQUE, Jean. Tradição e traição nos discursos dos amigos. Concilium, Brescia, Vol. 189, n. 9, pp. 51-
três amigos não têm dúvidas, de que Deus é o autor desse castigo: “O ímpio tropeça em seus
próprios desígnios, colhe o que semeou” (Pr 14, 22). Portanto, é o pecador que provoca seu próprio castigo, e, segundo Elifaz, o insensato causa a sua própria morte por seu desprezo e sua própria irritação 305.
No entanto, o Livro de Jó é um exemplo clássico do desmascaramento da violência religiosa. É uma contestação memorável de um dos mais antigos mitos da cultura humana. A experiência de Jó escancara a perversidade do velho princípio da retribuição. Sua inocência mostra a mentira escandalosa da retribuição, por isso perde a paciência e quer saber por que foi condenado, exigindo satisfações de Deus. Ao final, teremos a revelação do Deus Go’el e a consequente superação do mito primitivo. O processo de Jó é uma verdadeira revelação do monoteísmo hebraico. Ensina que retribuição é uma ideologia humana ligitimada por coberturas religiosas.
Os amigos haviam descrito o destino trágico do injusto. Jó responde, falando da felicidade do injusto. Ao contrário daquilo que afirma a tese da retribuição, o injusto vive tranquilo, prospera e fica cada vez mais rico:
Por que os ímpios continuam a viver, e ao envelhecer se tornam ainda mais ricos? Veem assegurada a própria descendência, e os seus rebentos aos seus olhos subsistem. Suas casas, em paz e sem temor,
a vara de Deus não os atinge. Seu touro reproduz sem falhar, sua vaca dá cria sem abortar.
Deixam as crianças correr como cabritos, e seus pequenos saltar como cervos. Cantam ao som dos tamborins e da cítara e divertem-se aos som da flauta.
Sua vida termina na felicidade, descem em paz ao Xeol (21, 7-13).
A voz de Jó é a negação completa da retribuição. A experiência confirma a perversidade deste princípio primitivo. Mostra que os ímpios têm longa vida, prestígio social, descendência numerosa e feliz, ótima condição econômica, proteção divina. Para Jó, os sinais característicos da bênção divina, apresentados pela tradição sapiencial favorecem os ímpios e não os justos inocentes. Como aceitar a ideia da justiça divina, quando tais pessoas gozam de uma felicidade que não merecem? 306
305 Cf. LÉVÊQUE, Jean. Tradição e traição nos discursos dos amigos. Concilium, Brescia, vol. 189, n. 9, pp. 54-
57, 1978.
Como não podemos aqui analisar todos os textos do Antigo Testamento que tratam acerca da tese da retribuição, nos limitamos a Jó. Justifica-se a escolha pela significação deste Livro nos estudos de Girard. Pelo fato de Jó ter um significado especial dentro da Bíblia hebraica na superação da religião arcaica é que nosso estudo frequentemente refere-se a ele. Por isso, após tratarmos de Jó, o grande personagem do Antigo Testamento na contestação da ideologia vitimária, prefiguração de Cristo, passamos ao Novo Testamento. O evento histórico Jesus de Nazaré, especificamente a paixão, esclarece e realiza as profecias de Jó. Jesus é o Filho de Deus, vítima sem mancha que morreu na cruz e ressuscitou.