Para introdução dessa discussão foi questionado junto às professoras, se enquanto alunas, tiveram alguma dificuldade com relação à matemática, se tinham facilidade para entender a matéria e se gostavam ou não desse componente curricular44.
Das quatro professoras, somente a Professora 4 afirmou não ter tido problemas com a matemática, salientando, inclusive, que gostava muito desse componente curricular. Das demais, as Professoras 1 e 3 disseram terem tido dificuldade e a Professora 2 salientou que teve problemas a partir da 5ª série.
Das três professoras que destacaram ter vivenciado problemas com relação à matemática enquanto alunas, a Professora 1 relacionou o fato à questão de não gostar de matemática, não vendo sentido no ensino da disciplina. Para a Professora 2 o fato de sua professora não motivá-la, desconfiando que ela copiasse os exercícios de suas amigas na hora da resolução, fez com que passasse a ter medo da matemática e não acreditasse em si mesma. Já a Professora 3 aponta o fato de que não encontrava lógica na disciplina.
Professora 1 – Eu tinha um pouco de dificuldade, mas eu conseguia fazer as atividades. Eu prestava atenção, então eu conseguia fazer. Eu não achava sentido na matemática assim. Geometria então, gente do céu. Nossa! Pra que, né?
[...]
Professora 3 – Eu também sempre tive dificuldade em matemática, assim como a P1 falou. Sempre assim, nunca tirava a nota pior, mas era assim, né?
Professora 1 – O mínimo. Professora 3 – ‘C’. É, o mínimo.
Pesquisadora – E tinha que estudar matemática?
Professora 3 – Tinha que estudar, mas também é o que ela falou. Também não via lógica, sentido naquilo. Tanto é que quando fala número, eu também não sabia que era dezena, que era unidade, centena e tem que... Sabia que era um número (Transcrição do 27º encontro – 08/03/2005).
44 Essa atividade foi realizada primeiro por escrito e, posteriormente, foi utilizada como disparadora das
Até a 4ª série não tive problemas, mas a partir da 5ª série encontrei problemas. A professora foi a mesma até a 8ª série. Ela nunca me motivou, sempre desconfiou de mim, falava que eu copiava das minhas amigas que eram excelentes alunas. Isso fez com que eu não acreditasse no meu potencial e passasse a ter medo da disciplina. E isso refletiu no colegial... (Relato escrito – Professora 2)
Com relação ao impacto dos professores que tiveram sobre o gostar ou não da matemática, algo já destacado pela Professora 2 na citação anterior, a Professora 1 é categórica em afirmar que teve professores traumáticos na condução dessa disciplina:
Professora 1 – ... Exatamente, porque eu tive professores de matemática, assim, traumáticos. Nossa, eu tive uma Dona Maria na 5ª série que eu tenho a imagem daquela mulher gravada na minha cabeça que a gente ficava tudo assim: Oh! E tinha que ir à lousa responder lá as continhas, fazer as coisas. Gente eu tenho aquela imagem na minha cabeça que foi tão traumatizante! Ela tinha uma caixinha de giz de madeira assim e dentro ela jogava a caneta ‘Bic’. Ela ficava toda suja. Uma folhinha quadriculada com o nosso número. Ela chamava a gente pelo número. Então a nós íamos, se não conseguíssemos fazer a conta não ganhávamos ponto positivo. Punha só uma bolinha assim. Agora se errássemos era negativo e aí se errássemos.
Professora 3 – Você acha.
Professora 1 – Nossa eu tenho aquela mulher na minha cabeça. Pesquisadora – Isso que série que foi?
Professora 1 – 5ª série. Pesquisadora – Quinta?
Professora 1 – Então, sabe, eu nunca... Já não gostava muito, então quando eu entrei no ginásio foi pior ainda. O de sétima, de oitava. Nossa! Foi super traumático. Depois o colegial eu não fiz, né? Eu fiz Técnico. Então não tinha. Tinha matemática financeira... (Transcrição do 27º encontro – 08/03/2005)
Tanto a Professora 1 como a Professora 3 fizeram curso técnico no Ensino Médio. A primeira cursou Técnico em Contabilidade e a segunda Técnico em Secretariado. Ambas, em seus cursos, lidaram bastante com a matemática e ao contrário da experiência vivida anteriormente, afirmaram não terem tido maiores dificuldades, talvez, como apontado pela Professora 3, devido ao estabelecimento de ligação com o cotidiano, como, por exemplo, no estudo de juros (matemática financeira).
Procurando especificar como era desenvolvida a disciplina de matemática em sua época, a Professora 3 aponta a não utilização de recursos didáticos no desenvolvimento das aulas, ficando restrito a utilização apenas da lousa, giz e livro
didático. Aponta ainda a questão da falta de seqüência entre os conteúdos de uma série para outra.
Percebendo que somente uma das professoras não apontava dificuldades como aluna com relação à matemática, foi abordada a questão da relação entre a busca do magistério como forma de fuga da matemática, fato muitas vezes comentado com relação aos professores das séries iniciais do Ensino Fundamental. Todas as quatro professoras afirmaram que a escolha pelo magistério não possuí nenhuma relação com a disciplina de matemática, não exercendo, portanto, influência sobre a escolha.
Pesquisadora – ... E por falar nisso, quando vocês escolheram o magistério teve alguma relação? Porque existe o comentário que tem quem vai para o magistério por conta da matemática, porque fala que não...
Professora 4 e 2 – Não (Transcrição do 26º encontro – 01/03/2005).
Pesquisadora – E a escolha pelo magistério tem alguma coisa haver com o não gostar muito da matemática ou não?
Professora 1 – Você fez magistério P3? Professora 3 – Não.
Professora 1 – Eu também não fiz.
Pesquisadora – Sim, mas no caso você fez Pedagogia.
Professora 3 – Não, acredito que não... (Transcrição do 27º encontro – 08/03/2005)
O “trauma” com relação à matemática começou a diminuir e as professoras começaram a gostar da mesma em diferentes momentos de sua vida. No caso da Professora 1 aconteceu após ouvir uma palestra do professor Luiz Roberto Dante e no caso da Professora 3, a partir do Ensino Médio, quando fez um curso técnico e passou a estabelecer relação entre a matemática e o dia-a-dia. A mesma professora destacou, ainda, que agora está gostando, pois está entendendo o fundamento da disciplina. A Professora 2 não destacou quando isso aconteceu.
Professora 1 – Primeira a quarta eu não tenho assim nenhum trauma que ficou marcado. Foi da quinta em diante, mas eu nunca fui de Matemática. Nunca.
Pesquisadora – Nunca gostou muito.
Professora 1 – É. Depois eu mudei um pouco a idéia sobre matemática, quando eu tive a oportunidade, por duas vezes de assistir uma palestra com o Dante. Aquele homem tem um amor por matemática. Ele consegue contagiar a gente. Então daquele tempo pra cá, que eu já estava trabalhando, foi mais ou menos
noventa e cinco, noventa e seis, que todo período assim, do início de ano tinha várias palestras ótimas.
Pesquisadora – Eram para os professores as palestras?
Professora 1 – Isso, isso e como eu era auxiliar de educação infantil eu participei. Aí depois eu passei pra biblioteca, aí eu não participei mais dessas palestras. Nossa, eu me encantei com a matemática vendo esse homem falar. Assim, a didática de como ensinar, aí assim já mudei a idéia que eu tinha da matemática, porque faz parte... Ele falava muito isso aqui: a vida é uma matemática. Então, ele colocou vida na matemática.
[...]
Professora 3 - ... Agora, eu também comecei a gostar um pouco de matemática também no colegial, só que eu também fiz técnico. Técnico de Secretariado, mas aí também tinha um pouco de financeira, contabilidade eu vi um pouquinho, só que aí eu não sei se era também porque eu já era mais madura. Não sei, porque aí eu comecei a entender um pouquinho mais ou se eu fazia lógica com coisas do cotidiano, porque era juro... (Transcrição do 27º encontro – 08/03/2005)
Professora 3 - Eu sempre detestei matemática. Eu estou gostando agora. (risos)
Todas – risos. [...]
Professora 3 – Porque agora eu estou entendendo o fundamento da coisa (Transcrição do 9º encontro – 03/08/2004).
A Professora 4, única que afirmou nunca ter tido problemas relacionados à matemática enquanto aluna, destacou que sempre gostou da disciplina e que a partir do magistério (Ensino Médio), passou a gostar muito mais.
Sabe, eu sempre gostei, só que no magistério eu gostei muito mais porque eu comecei a compreender. Sabe, no magistério quando você aprende... (Professora 4 - Transcrição do 26º encontro – 01/03/2005)