Para a introdução das discussões relacionadas à temática indisciplina foi desenvolvida uma atividade individual15 que, posteriormente, funcionou como disparadora para discussões do grupo.
A indisciplina no âmbito escolar foi caracterizada pelas professoras iniciantes como comportamentos inadequados, desrespeito às regras, falta de colaboração do aluno ou mesmo falta de limites.
De modo geral, todas concebem a indisciplina de forma similar, ou seja, como algo que o aluno deixa de fazer e/ou algo que fazem inapropriadamente dentro do ambiente escolar.
Entendo por indisciplina comportamentos, atitudes, ações e reações realizadas pelos alunos inadequadas dentro do contexto, processo ou ambiente escolar (Relato Escrito – Professora 1).
Indisciplina é o ato de não atender ou respeitar as normas ou regras de determinado ambiente (Relato Escrito – Professora 2).
15 Na atividade em questão as professoras tinham que responder o que entendiam por indisciplina e
descrever situações envolvendo eventos de indisciplina. Esses dados foram organizados em um quadro que funcionou como elemento disparador das discussões. Maiores informações sobre as atividades desenvolvidas ver Anexo 1.
Entendo por indisciplina o fato de uma pessoa não colaborar em nenhum sentido para um ambiente de aprendizagem; não ser responsável pelo seu material, não ter o mínimo de consciência e domínio sobre seus atos, não conseguindo discernir o certo do errado; não mostrar-se interessado em nenhuma atividade, mesmo quando usamos formas concretas para apresentá-la. Não tem parâmetros, referência (Relato Escrito – Professora 3).
Indisciplina - se refere a falta de limites: conversas, brigas, discussões em horas impróprias que interferem no rendimento da sala e na concretização de objetivos (Relato Escrito – Professora 4).
A forma como as professoras participantes da pesquisa caracterizam a indisciplina é marcada principalmente pela especificação de comportamentos que, em suas falas, determinam e demonstram ações indisciplinares. Os diferentes comportamentos mencionados, de modo geral, encontram-se no quadro abaixo:
Quadro 1
Comportamentos de indisciplina
• Falta de atenção (P116); • Brincadeiras (P1);
• Furtar material da escola, da professora e colegas (P2); • Conversas paralelas (P1, P3, P4);
• Brigas entre os alunos (P1, P3, P4);
• O aluno se recusar a fazer as atividades mesmo antes de o professor apresentar o que deve ser feito ou mesmo diante de outras opções dadas pelo professor (P3, P4);
• Não fazer tarefa (P3);
• Não cuidar do material didático (P3); • Não respeitar professor e colegas (P3); • Respostas mal educadas (P4);
• Uso de “palavrões” (P4);
• Trazer objetos alheios à sala de aula, o que gera interrupções no momento de se resolver os problemas acarretados (P4).
Na citação abaixo é possível observar um exemplo de relato sobre eventos de indisciplina em que são destacados comportamentos característicos:
16 P1 – A letra P significa Professora Iniciante e o número indica a professora em questão, sendo que elas
Bem, nas classes em que leciono, os casos mais freqüentes envolvendo indisciplina são:
- conversa paralela o tempo todo.
- briga entre os colegas (os alunos se esmurram, se chutam, puxam cabelos, se beliscam, se ofendem verbalmente).
- brincadeiras (acham que a sala de aula é a continuação das brincadeiras realizadas em casa, no recreio). Essas variam; muitas vezes brincam com o seu próprio brinquedo, sozinhos; como por exemplo, bolinhas de gude, pião que são trazidos para a escola. Outras vezes brincam com os colegas de pega-pega dentro da sala de aula.
- Outra coisa muito comum é se recusar a fazer algo antes mesmo do professor apresentar o que deve ser feito.
- Outro aspecto importante a ser lembrado é o fato de esconderem o material do colega, fazendo este chorar. Só contam onde colocaram quando os ameaço dizendo que vou contar para a diretora da escola.
- Não fazem tarefa e não cuidam do material didático; não trazem lápis, borracha, etc.
- Não respeitam professor e colegas.
- Quando trocam de sala (na escola em que trabalho, temos salas- ambientes), gritam o tempo todo pelos corredores atrapalhando outras aulas.
- Na fila para a merenda se empurram o tempo todo, não deixando que ninguém tome a sua frente, até parece que a comida vai acabar (Relato Escrito – Professora 3).
Após as discussões do grupo sobre o que entendiam por indisciplina, as professoras realizaram uma atividade de reelaboração do conceito que possuíam. Assim, a partir das discussões do grupo deveriam sinalizar o que havia mudado, o que havia permanecido e/ou o que havia sido acrescentado na sua forma de entender o que era a indisciplina.
Acrescentou a sugestão de que o investimento na afetividade é uma forma de controlar ou amenizar a indisciplina. O cuidado e o equilíbrio da autoridade X autoritarismo é de grande importância também (Relato escrito – Professora 1).
Após a discussão com o grupo de estudo, meu entendimento por indisciplina se ampliou. Continua sendo uma quebra de normas ou regras do ambiente escolar, mas esta quebra ou não cumprimento das regras e das normas, são geradas por vários fatores e muitas vezes são geradas pela própria situação criada ou imposta pelo professor.
Com a discussão pode-se perceber que há vários tipos de indisciplina e várias situações que podem gerá-las e o mais importante, que existe também vários outros tipos ou formas de trabalhar que podem amenizar o problema e que se pode ter
esperança de que algo poderá ser melhorado ou mudado (Relato escrito – Professora 2).
O conceito de indisciplina permaneceu como uma forma de desrespeito às regras, porém, a discussão de hoje me fez entender o porquê muitas vezes ela acontece, como por exemplo, alguns fatores que geram a indisciplina.
Nossa discussão foi muito interessante, uma vez que contribuiu para a nossa prática pedagógica, assim como lidar com alguns tipos de indisciplina e os aspectos envolvidos, que vão muito além do desrespeito às regras (Relato escrito – Professora 3). Após as discussões, foi possível identificar a indisciplina presente em várias situações da sala de aula, situações semelhantes às apresentadas no grupo.
Permaneceu, neste sentido, a idéia de ser a indisciplina algo que foge às regras estabelecidas pelos alunos, mas levou-me a reflexão sobre o papel do professor como possível “gerador” de indisciplina e se diante delas sabemos realmente como resolvê- las (Relato escrito – Professora 4).
Nos relatos acima é possível observar, que de modo geral, as professoras destacaram como acréscimo ou ampliação em sua forma de pensar a indisciplina, a questão da afetividade como forma de controle; a necessidade de cuidado com a relação autoridade X autoritarismo e a responsabilidade que o professor pode ter, as vezes, como gerador de tais acontecimentos. A consideração da indisciplina como uma forma de desrespeito às regras estabelecidas pelos alunos ou próprias ao ambiente escolar, assim como, a existência de vários tipos de indisciplina, situações geradoras da mesma e formas de se trabalhar que possam amenizar o problema, foram os destaques feitos com relação ao o que permaneceu na forma de conceber a indisciplina após as discussões do grupo. Foi apontado, também, o entendimento sobre porque muitas vezes ocorre a indisciplina e alguns fatores geradores da mesma. A contribuição da discussão realizada também foi lembrada, relacionando-a a prática pedagógica e em como lidar com alguns tipos de indisciplina e aspectos envolvidos que vão além do desrespeito às regras. Foi apontada, ainda, a identificação de situações de indisciplina comuns entre a sala de aula das professoras e as apresentadas no grupo.