6.4 Sammenligning 2006
6.4.1 Volatilitet 2006
A Professora 2, durante as discussões de um encontro, apontou o fato de passar a considerar uma estratégia que até então não havia pensado: colocar os alunos que apresentam problemas de indisciplina como ajudantes do dia22, a fim de, atribuindo responsabilidade aos mesmos, impulsionar mudanças de comportamento. Tal fato pode ser considerado como um indício por representar algo que nunca havia pensado, sendo tal reflexão impulsionada pelos debates do grupo, representando aumento no “leque de opções” de estratégias a serem utilizadas pelas professoras.
Professora 2 – Sabe uma coisa que me veio agora na cabeça, que eu não tentei ainda? É ser o ajudante do dia. [...] Não, eu tenho mais eu nunca coloquei eles. [...] Então eu vou tentar. Quem sabe....
[...]
Pesquisadora – Porque assim, você atribui responsabilidades para ele. Às vezes pode ser uma forma de...
Professora 2 – É, entregar uma folhinha, apagar a lousa, se tiver que fazer alguma coisa... [...] Porque o meu único medo é assim, ele ameaçar os amigos. Então eu tenho medo dele agredir não só
22 Prática muito adotada pelas professoras das séries iniciais do Ensino Fundamental, em que um ou mais
verbalmente, mas fisicamente os outros alunos. [...] E não gosto daquela coisa de marcar. Marcar menino, marcar menina... Só que tem hora que eles me enchem tanto que eu falo: “Está bom vai”. Apesar de nem olhar para lousa, eles ficam lá marcando. E outro dia ele foi para lousa. Eu falei: “Eu vou deixar.” Só que ele começou assim: “Ele é meu mano. Não marco ele. Esse aqui...” (risos)
Várias vozes – risos.
Professora 2 – “Eu não marco ele. Ele é da minha gangue. Não marco ele”. (risos) Então, sabe? Eu falei: “Meu Deus do céu!” Pesquisadora – Talvez para ele as atividades de ajudante do dia funcionariam mais...
Professora 2 – É, então, eu vou tentar. Que veio agora, sabe assim, com essas conversas me veio isso na cabeça. [grifo nosso] Que eu nunca... Assim de... Eu nunca o coloquei de receio, porque assim eu não sigo a lista da chamada. Eu falo que vai ser o mais bonzinho, aquele mais dedicado...
Pesquisadora – Só que aí você já não vai poder usar esses argumentos.
Professora 2 – É. Vou ter que parar esses argumentos e aí: “(...), hoje você vai me ajudar”.
Pesquisadora – Aí coloca para ele a questão da responsabilidade que ele está tendo com aquilo.
Professora 2 – Certo. Eu vou tentar. Vamos ver se vai ter resultado, né? Porque, olha, eu não sei mais o que eu faço com o (...) (Transcrição do 5º encontro – 29/06/2004).
A Professora 3 destacou que muitas vezes não consegue conter a classe, mas que depois das discussões no grupo tem tentado agir de maneira diferente e julga estar dando resultado. Chama atenção, ainda, para uma aprendizagem que teve com relação à questão da ameaça e a estratégia de encaminhar o aluno para a diretoria representar uma transferência de autoridade e não surtir efeito em sala de aula.
Professora 3 – Aí, são esses comportamentos mesmo. Muitas vezes eu não consigo conter a sala. Agora, depois das nossas discussões aqui, eu tenho tentado, embora eu não tenha feito a atividade individual ainda, não relatei nada, mas eu tenho tentado agir de outra maneira. Ao invés de... Porque antes a gente se irritava, começava a gritar, esse tipo de coisa, né? Então eu estou tentando conversar mais com o aluno mesmo, diretamente com ele, sozinho. As vezes eu chamo, né? Tentar cativar ele com outras coisas, né? Não chamando a atenção dele, gritando, né? Eu tento mostrar que se ele agisse de uma outra determinada maneira, de uma maneira diferente da que ele está agindo, que ele poderia acompanhar a classe, né? As vezes eu estou vendo... Vejo também... Percebi que pode ser que eles não estejam interessados justamente porque não estão aprendendo,
não estão conseguindo acompanhar, né? Então, assim, eu estou vendo um pouco com outros olhos. Eu estou tentando. Vamos ver. Pesquisadora – E você acha que está... Está sendo legal?
Professora 3 – Eu acho que está dando resultado.
Pesquisadora – Quando eu comecei a dar aulas eu também percebi isso, que quanto mais eu me agitava, mais a sala se agitava junto.
Vozes – É.
Professora 1 – É reflexo, né?
Pesquisadora – Quanto mais nervosa você ficar e der uma de doida lá, mais a sala se agitará junto.
Professora 3 – É, é.
Pesquisadora – Ao invés de diminuir, parece que se nós subirmos na cadeira e começarmos a gritar, eles vão parar, mas é exatamente o contrário. Eles gritam junto (risos). Mais eles se agitavam mesmo. E aí essa relação de que talvez eles estejam assim porque está difícil deles aprenderem ou qualquer outra coisa, também pode acarretar em problemas de indisciplina. Vozes – É.
Pesquisadora – Alguns desses problemas acontecem também na sala da P2 e acho que em outras também. Principalmente essa história de pegar material, esconder...
Professora 3 – Uma coisa que também conversamos aqui e é interessante é estabelecer mesmo o respeito em sala de aula. Acho que também, o que eu acabei aprendendo é que não adianta muito ameaçar: “Eu vou chamar a diretora, eu vou levar...” Nós mesmos temos que acabar estabelecendo. O que a P2 estava falando a semana passada, que ela... Que acabou indo um aluninho dela lá para a diretoria porque a coordenadora viu, né? Que ela também está achando melhor não chamar.
Professora 1 – A gente transfere a autoridade para o outro, né? Nós temos que saber administrá-la dentro de sala.
Pesquisadora – Nem sempre o outro vai estar ali. E quando o outro não estiver?
Professora 1 – Nós temos que ser a autoridade ali do ambiente da sala. Se nós transferirmos... (Transcrição do 6º encontro – 06/07/2004).
Sentir mais segurança e tentar utilizar novas estratégias de ação com relação ao manejo de sala e também com relação à forma de ensinar as operações matemáticas, evidenciando processos de reflexão sobre as situações vivenciadas, como durante as férias, por exemplo, também é destacado pela Professora 3:
Pesquisadora – Bom, vamos ver aqui. Situação da P3... Eu fiquei contente de ver a sua descrição aqui, P3, principalmente quando você falou aqui que você se sentiu mais segura.
Professora 3 – É eu me sinto mais segura agora, depois dos debates aqui. Eu acho que me ajudou bastante. A postura
também. Aquilo que nós estávamos falando, do professor não chegar já mostrando... (risos) Eu cheguei mais firme, pelo menos esse semestre. Eu sei que não vou mudar muita coisa agora, mas já consegui alguma...
Pesquisadora – E as tentativas que você fez... Mudou de lugar as crianças...
Professora 3 – Ah, mudei é... Fiz um mapa da classe. Já levei pra casa isso, durante as férias né, aí mudei todos eles de lugar. Tentei dar uma misturada, porque geralmente ficava mais menina de um lado e ...
Professora 2 – É.
Pesquisadora – E menino do outro.
Professora 3 - E menino do outro. Então agora eu misturei todos e eles não reclamaram não. Eu achei que fosse ter uma resistência, mas eles não reclamaram não. Agora, de vez em quando eles vão lá, porque eles esquecem, eles vão lá procurar: “Ah... Deixa eu ver o mapa”.
Pesquisadora – Eles mudam de sala, né?
Professora 3 – É eles mudam de sala. Acho que por causa do outro professor...
Pesquisadora – Mudam de lugar.
Professora 3 – É... Então eles vão lá olhar. E eles não estão assim trocando, mesmo sendo... Porque as fileiras... As carteiras estão enfileiradas né, não estão em dupla nada. Estão individuais assim. Mas eles estão trocando experiência, um ajuda o outro: “Ah, porque que você errou aqui?” “Ai, porque que eu errei?” Eu estou achando que está dando mais resultado essa troca e, também, o jeito de ensinar, porque eles saíram [de férias] eu estava batendo nas quatro operações, mas a principal... Estava pegando mesmo era mais a divisão né. Então agora eu peguei desse outro jeito, falei: “Ah, deve ter alguma coisa errada! Não é possível. Vou tentar mudar. Tem que aprender meu Deus!” Aí, tentei desse jeito. Agora eles tão pegando... Eles já formam grupinhos né. Esse dia que eu fiquei quase louca, que eu falei que eu tinha que dar apoio para dezesseis, eles começaram, eles mesmo já: “Ah não, então vamos formar um grupinho”. Aí ficaram de cinco em cinco. Eu fui atendendo, eles foram se ajudando... Está melhorando. Se Deus quiser... (risos)
Pesquisadora – Que bom! Professora 3 - Eu chego lá.
Pesquisadora – Você retomou as regras com eles também, fez cartazes...
Professora 3 – É, é. Porque eu não tinha feito cartaz. No começo do ano eu... Fiz... Construí as regras com eles, na verdade eles que construíram. Coloquei na lousa, só ficou no caderno e eu fiquei meio assim de fazer o cartaz, porque eu divido sala com a outra... A outra moça da manhã né e já tinha numerais, já tinha formas geométricas, eu falei: “Nossa, daqui a pouco vai ficar uma poluição visual isso aqui né!”. Mas agora nós tiramos umas coisas lá que achamos que não fazia muita diferença e eu acabei
colocando o cartaz e aí no começo da aula, no primeiro dia
[depois das férias] eu já reli com eles de novo, lembrei, combinei
com eles também de me ajudarem na hora que o colega estiver né... Estiver desrespeitando alguma regra tal... Então tem dado mais resultado.
Pesquisadora – Então esse semestre está melhor.
Professora 3 – Está melhor. Vamos ver né? (risos) (Transcrição do 9º encontro – 03/08/2004).
Realizamos o último encontro antes das férias do meio do ano no dia 06/07/2004. Era então o nosso 6º encontro. Naquele momento estávamos trabalhando a temática Indisciplina. As professoras relatavam muitos problemas nesse sentido e muitas trocas de experiências, sugestões de estratégias, análise de eventos de indisciplina foram realizadas. Vieram as férias e quando retornamos pudemos perceber um certo entusiasmo e a busca de estratégias que pudessem minimizar os problemas que vinham vivenciando.
Percebemos que as discussões sobre indisciplina feitas no grupo suscitaram importantes momentos de reflexão. De modo geral, todas as professoras aparentaram ter refletido durante as férias, tomando várias atitudes ao retornar às aulas. Isso pode ser considerado como um ponto positivo do nosso trabalho.
A Professora 2, durante os encontros do grupo, havia afirmado que a correção de exercícios representava um momento de indisciplina em sua sala23. Com o decorrer dos encontros e as discussões realizadas, a professora afirmou ter mudado suas estratégias e que não vem mais enfrentando tais problemas na hora da correção.
Professora 2 – Então, assim, comoveu mais os alunos. Eles participam mais, não tem tanta bagunça mais na hora da correção, porque eu tenho pegado muito no pé deles e foi o que melhorou. Sabe mais eu passei por isso também. Assim, nas primeiras semanas, nos primeiros meses foi muito difícil. Eu estava tendo muita indisciplina na correção, mas depois daquela conversa que nós tivemos aqui, sabe?
Professora 1 – Ai, aquele dia eu faltei! Eu tive a reunião. Você não gravou? (risos)
Pesquisadora – Gravei. Depois eu dou para você ler. Professora 1 – Então tá. (risos)
Professora 2 – Então e assim, sabe, eu acabei... A Professora 4 que falou, sabe, que trocou essas idéias e isso valeu na minha sala, valeu mesmo! Então eu faço assim, corrijo aos poucos... (Transcrição do 10º encontro – 10/08/2004).
Outras aprendizagens impulsionadas pelo grupo, segundo as professoras, envolvem a discussão das regras com os alunos, a utilização do diálogo como forma de solução dos problemas vivenciados na sala e não encaminhar mais os alunos para a diretoria. Uma professora aponta, ainda, que sua sala está melhorando a partir do que tem vivenciado nas discussões do grupo.
Professora 2 -... Então eles estão aprendendo certas coisas que eles não tinham o hábito, sabe. Então, mais foi tudo na base da conversa. Outra coisa que eu aprendi aqui é aquela discussão das regras com eles, sabe?
Professora 1 – Isso. É um contrato.
Professora 2 – Antes... Por exemplo, que nem hoje teve uma briga na sala e os dois são amigos. Eu não sei o que aconteceu, um derrubou a carteira do outro e a cadeira veio em cima da cabeça dele e ele falou que a cabeça estava machucado e eles começaram se pegar na sala. Aí eu parei, conversei com eles. Falei: “Gente, vocês são amigos. Vocês vão pedir desculpas... Por que vocês brigaram?” Aí a sala: “Aí, pa pa pa... porque não sei o quê...” Aí eles começaram aquela algazarra. Aí eles explicaram. Eu falei: “Olha, pedi desculpas um para o outro porque vocês são amigos...” Eles acabaram se abraçando. Eu achei tão bonito aquilo. Abraçaram-se... Então é tudo na base da conversa, porque que nem aquela... Teve um dia que eu fui para a diretoria e acabei levando um, gente, sabe? Aquilo ficou muito na minha cabeça.
Professora 1 – Não é legal. [...]
Professora 2 – Isso. Sabe, aquilo foi um, mas eu acho que teve um outro caso também. Assim, eu percebi que não adianta levar tudo para a direção. [...] Não adianta. O problema... O negócio é você resolver ali.
Professora 1 – Ali. Nós com os alunos ali.
Professora 2 – Sabe? Colocar as regras de novo com eles,:”Olha, o que nós fizemos? O que está acontecendo de errado?” Conversar com eles. Foi... Assim, a minha sala está melhorando a partir do momento que nós discutimos isso aqui. Professora 1 – Eu penso dessa forma também. Tem que resolver ali, nós e os alunos.
Professora 2 – Porque sabe o que aconteceu...
Pesquisadora – Porque no dia-a-dia quem está ali são vocês. Professora 1 – É então.
Professora 2 – Sabe o que aconteceu? Esse negócio de ir para a diretoria eles perceberam que não tem retorno depois, que ninguém vai cobrar deles.
Professora 1 – Isso, então é o que aconteceu lá, na fala da vice- diretora, que aquele dia seria o último. Então é como se tivesse queimado a última... A autoridade máxima. Voltou a acontecer novamente a mesma situação. Havia-se dito que seria
convocação, que iria chamar o Conselho, que iria chamar a..., né! Então, assim, acabaram os recursos (Transcrição do 10º encontro – 10/08/2004).
Para finalizar a apresentação dos dados relativos à temática indisciplina destacaremos as colocações das Professoras 1 e 2 que apresentam, a nosso ver, indícios de desenvolvimento profissional e do processo de aprender a ensinar:
Professora 2 – Da negociação, do diálogo. Já não falo mais da direção toda hora, como eu falava: “Vou levar lá pra diretora. Vou chamar a diretora. Vou chamar a coordenadora...”. Tanto é que eles até esqueceram um pouco dela, sabe? Hoje a diretora apareceu de surpresa, mas para dar um recado na sala e eles ficaram: “Aí, professora, que medo!” “Não precisa ter medo. Vocês estão fazendo alguma coisa de errado?” Ela chegou ainda em uma hora que eles estavam falando muitas coisas. Eles ficaram todos assustados, né. Mais... Eu já não tenho mais esse hábito, porque eu vi que não adianta.
Professora 1 – Não adianta é.
Professora 2 – Não adianta, porque aí... Que nem aqueles que foram com o alerta, que talvez, que nem foi levantado aqui pelo grupo, às vezes nem mostraram para os pais, voltaram falando: “Ééé, olha aqui!”
Professora 1 – Não aconteceu nada.
Professora 2 – Você entendeu? “Não aconteceu nada comigo!” Aquele dia eu fiquei, assim, super frustrada. Então eu falei: “Ah, não, agora vai ser tudo na base da conversa”. E tem dado muito resultado na minha sala e assim, é o que eu tenho feito, mais não que... Que nem eu iniciante... Tinha acabado de... Não tinha, sabe?...
Professora 1 – Idem.
Professora 2 – Não tinha experiência nenhuma.
Pesquisadora – Tem muita coisa que você vai aprendendo com o dia-a-dia.
Professora 1 – Exatamente, eu também, muita coisa, nossa! Professora 2 – Hoje eu já não... Que nem na primeira semana eu colocava o (...) para fora, porque eu achava que atrapalhava muito. Hoje eu não faço mais isso. Eu não ponho mais nenhum aluno para fora. Eu cheguei a por o (...), o ... E, assim, deixava a porta aberta e estava vendo ele ali, porque umas vezes eu coloquei o (...) e ele é bem mais esperto, ele sumia. Ele sumia. Ele ía lá para o pátio e eu tinha que ir buscar (Transcrição do 10º encontro – 10/08/2004).