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5.6 Foreldresamarbeid, nettverk og tillit

5.6.3 Oppsummering og drøfting. Foreldresamarbeid, nettverk og tillit

“O século XVIII amanheceu em Portugal com a guerra surda entre jesuítas e oratorianos” (DIAS, 1952, p. 143).

A chegada dos Jesuítas a Portugal está associada ao projeto de educação previsto por D. João III, que solicitara ao Geral da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola, seis Jesuítas dos dez primeiros que se encontravam em Roma à disposição do Papa para a missão. Mas o primeiro Geral da Companhia enviou somente dois a Portugal, com a ideia de fundar obras educacionais e irem para o Oriente, respondendo assim ao desejo do Rei e por ter a convicção de que essas obras dos novos missionários seriam aceitas pela população. Em carta escrita para Inácio, em 22 de outubro de 1540, antes de partir para a Índia, Francisco Xavier solicita esclarecimento de como proceder para construir uma casa para estudantes na Universidade de Coimbra, justificando que, em Portugal, as autoridades eram favoráveis a esse empreendimento. Francisco Xavier recomenda a “Inácio a conveniência de escrever ele mesmo a D. João III para lhe agradecer o bom ânimo com que se resolvera a levar a casa e o colégio” (RODRIGUES, 1931, p. 303). Em 1542, Simão Rodrigues fundava o Colégio de Jesus em Coimbra, concentrando as primeiras atividades pedagógicas junto à Universidade e, em 1553, inicia a criação de outro colégio na recém-fundada Província Jesuíta Portuguesa, o Colégio de Santo Antão. Esse colégio depois se destacou pelas suas aulas de assuntos científicos, especialmente de cosmologia e astronomia, e teve o curso de Matemática regulamentado em 1590, como veremos com mais profundidade no quarto capítulo. Sendo que o destaque maior para esse segundo colégio foi a chamada “Aula da Esfera”26, destinada a jesuítas e técnicos externos ao

colégio.

26 Para Henrique Leitão, a “Aula da Esfera” é singular na história científica portuguesa por mais de uma razão. Em primeiro lugar, pela sua longevidade, sendo certo que as aulas regulares de assuntos científico-matemáticos se

[...] aí se ensinou também geometria – baseada no estudo dos primeiros livros dos Elementos de Euclides – aritmética e os rudimentos da álgebra, trigonometria, náutica e temas vários (quer teóricos, quer aplicados) de navegação, de geografia, hidrografia e cartografia. Ensinou-se também óptica, perspectiva e cenografia, gnomónica, construção de instrumento científico de vários tipos e de máquinas simples, estática e hidroestática, técnica várias de arquitetura e engenharia militar e outros assuntos relacionados (pirotecnia, balística, etc). (LEITÃO, 2007, p. 21).

O investimento de D. João III no campo da educação e missionação da Companhia em Portugal e além-mar demonstrou que a Coroa tinha um interesse particular quanto á educação, o que se junta à intenção da Companhia de Jesus. Essa junção de interesses proporcionou aos inacianos muitos privilégios, os quais os colocaram, por mais de dois séculos, na condição hegemónica da ação pedagógica em relação às outras Ordens regulares.

Em meados do século XVIII, em Portugal e Ilhas, a Companhia tinha 20 colégios: Coimbra (2), Lisboa (2), Évora, Braga, Santarém, Porto, Beja, Setúbal, Portimão, Portalegre, Elvas, Faro, Bragança, Gouveia, Funchal, Angra do Heroismo, Ponta Delgada e Horta; uma universidade (Évora), três noviciados (Coimbra, Lisboa e Évora), quatro seminários (S. Patrício, Évora), duas casas professas (São Roque e Vila Viçosa) e 18 residências27. No entanto,

como vimos anteriormente, em meados do século XVIII, os inacianos não gozavam do prestígio incontestável da sua ação pedagógica em relação ao que gozara nos séculos XVI e XVII.

A resolução de D. João V (1707-1750), que permitiu contar a frequência das aulas dos alunos dos Oratorianos como um meio de ingressarem diretamente na universidade, privilégio concedido anteriormente só aos alunos dos Jesuítas, denotou que, no setor da educação, outros agentes educacionais surgiriam e causariam atritos com os inacianos. Portanto, aumentaria a crise destes no Reino português.

Os Oratorianos, congregação fundada em 1550 por Felipe Néri, chegam a Portugal em 16 de junho de 1668, tendo o padre Bartolomeu Quental (1627-1698) como superior. Instalados no norte de Portugal com o objetivo de proporcionar uma melhor formação ao clero e de educar a juventude, os Oratorianos desenvolveram intensas atividades pedagógicas e intelectuais que lhes proporciona grande visibilidade e reconhecimento na Igreja e na sociedade portuguesa, uma vez que esses discípulos de Felipe Néri estavam em sintonia com as

iniciaram nas últimas décadas do século XVI — o mais tardar em 1590 — e sabendo-se que prosseguiram sem interrupções até a data da expulsão dos Jesuítas, 1759. A “Aula da Esfera” foi lecionada sem interrupção pelo menos por 170 anos. (Leitão, 2007, p. 20-21)

27Dados colhidos na conferência de António Júlio Trigueiros — Simpósio Dois Períodos de uma mesma História, num mesmo Espírito—, São Paulo-SP, 2014.

proposições do Concílio de Trento e procuravam “educar no culto da verdade os que têm que constituir a sociedade e dirigir os negócios públicos” (FALCON, 1982, p. 208).

O início dos conflitos entre Jesuítas e Oratorianos expressa-se nas mudanças dos métodos de ensino, privilégios e reconhecimento régio dos estabelecimentos educacionais destes últimos, sobretudo, na inovação filosófica. Segundo a literatura mais corrente, os Oratorianos teriam passado, por exemplo, a ensinar usando um novo plano pedagógico-didático e a utilizar métodos filosófico-científicos baseados em John Locke, Newton, aplicando assim outros paradigmas diferenciados da escolástica. Eles aderiram ao cartesianismo, defenderam a física experimental, elegeram a língua portuguesa para as aulas e empenharam-se pela simplificação da gramática do latim.

Em resposta à alcunha dada à Congregação do Oratório por ter aderido à Filosofia Moderna, chamada Congregação dos Átomos, designação satírica de autoria jesuítica, o satirista (Diogo Barbosa de Machado28) responde (querendo acentuar o abatimento presente do prestígio da Companhia superada pela referida Congregação adversária), declarando que os Jesuítas é que deveriam ser chamados átomos em razão da sua

inferioridade em relação aos adjetivados “grandes mestres” do Oratório (FRANCO,

2006, p. 371).

Um símbolo da ascensão dos Oratorianos foi a fundação da Casa das Necessidades, por D. João V, em 1745:

Os congregados estavam, há muito tempo, associados, sobretudo na capital, à nobreza, particularmente através das ações públicas oferecidas à comunidade culta de Lisboa pela Casa das Necessidades. A sua riquíssima biblioteca, para a qual D. João V contribuíra magnanimamente e que contava com mais de 30.000 volumes, incluía todas as áreas científicas, desde teologia, filosofia, jurisprudência às mais modernas correntes de ciência contemporânea, onde estavam representados Newton, Gassendi, Copérnico, Descartes, Gravezant, Muskembrock... Muitos eruditas e curiosos da corte frequentavam esses espaços de saber, os gabinetes experimentais, as coleções didáticas. A mais alta nobreza por aí passava regularmente (SANTOS, 2003, p. 84).

Lisboa conheceu, em meados do século XVIII, um novo centro de conhecimento de grande relevância para a cultura portuguesa e que reunia vários intelectuais. A Casa das Necessidades foi um meio de demonstrar as novidades no currículo e nos métodos pedagógicos diferenciados dos já conhecidos e defendidos métodos da Companhia de Jesus. O oratoriano Manuel Monteiro (1667-1758) afronta, em 1746, didaticamente os Jesuítas com o Novo Método para aprender a gramática latina ordenado para o uso das escolas da Congregação do Oratoriano na Casa de Nossa Senhora das Necessidades. A intenção de Manuel Monteiro era

28 Diogo Barbosa de Machado é autor da obra antijesuítica a Biblioteca Lusitana, 1753, escrita durante a controvérsia pedagógica entre os pedagogos iluministas e o sistema de ensino escolástico dos Jesuítas.

substituir o manual de latim De institutione grammatica,de autoria do jesuíta Manuel Álvares (1526-1583), que havia sido publicado pela primeira vez em 1572 e vigorava “inconteste” nas escolas e universidades inacianas29. A Casa das Necessidades foi também um meio dos Oratorianos apresentarem a sua espiritualidade e se aproximarem das camadas médias da sociedade, marcadamente da juventude.

As ações dos Oratorianos vinculadas diretamente ao ensino e à juventude não poderiam deixar de causar na missão da Companhia um impacto, que, num movimento progressivo, parte de rivalidades pedagógicas e chega a hostilidades e disputas no campo político-social, o que levou o historiador José Sebastião da Silva Dias, em sua obra Portugal e a Cultura Europeia, de 1952, a afirmar que o “século XVIII amanheceu em Portugal com a guerra surda entre Jesuítas e Oratorianos” e que, no princípio, os Oratorianos disputavam somente a orientação espiritual de pessoas mais qualificadas para mais influenciarem na sociedade, “mas logo adveio a pretensão oratoriana de obter os mesmos privilégios concedidos à Companhia de Jesus” (DIAS, 1952, p. 143).

Um forte vestígio do conflito entre inacianos e discípulos de Felipe Néri é apresentado por Tiago C. P. dos Reis Miranda em Memória por Alvará: registros legais/monumentos políticos, de 2009, quando atribui ao oratoriano Filipe José da Gama, acadêmico de renome da Academia Real da História Portuguesa e oficial da Secretaria de Estado do Reino, um dos primeiros manuscritos da Lei de 3 de setembro de 1759, lei da expulsão dos Jesuítas de Portugal. A posição de Filipe José da Gama indica, também, um imenso prestígio dos pedagogos oratorianos junto a Pombal e, consequentemente, junto à Coroa portuguesa.

2.3 Alterações políticas em meados dos setecentos: a transição de D. João V para