5.4 Kulturelle prosesser, fysisk aktivitet, og foreldrepraksis
5.4.5 Oppdragelse i Norge, roller, sønner og døtre
Já fiquei em situação de rua, mas não foi período grande. Dormi na rua algumas vezes. Como minha avó vivia me expulsando de casa, eu acabei ficando na rua algumas vezes. Teve uns dias que bateu uma loucura, e peguei uma coberta e fui pra rua.
(...)então a pessoa que ficava lá mesmo e sofria com todas essas situações de humilhação, de cobrança, de achar que eu tinha que assumir a responsabilidade de tudo, era sempre eu, mas nada disso me fez afastar da minha família.
Diante do cenário que vivia dentro de casa, Davi resolve não apenas utilizar-se da rua como possibilidade de prover o sustento da vida, mas a rua se torna opção para ter um lugar onde viver.
A cobrança que tinha em casa por parte da avó, de ser o responsável pelo provimento da família, bem como as situações de humilhação e exploração que nos relata, o levam a passar um tempo de sua vida em situação de rua. Porém, conforme enfatiza, nada disso o faz afastar-se de sua família. Vemos, assim, que, desde o retorno à família de origem, emerge uma personagem central que expressa o processo identitário de Davi, o cuidador-responsável- pela-família:
E é igual o povo fala, se minha avó não tivesse sido tão dura comigo em questões de educação, eu acho que eu não seria essa pessoa que eu sou hoje, porque eu vejo o resultado da minha irmã, que teve tudo e hoje não tem nada, por conta de minha irmã não ter tido essa cobrança de trabalhar, de estudar, de pensar um pouco mais no futuro. E minha avó exigia isso de mim, mas acho que de alguma forma, por ela me cobrar de trabalhar, eu criei um pouco essa perspectiva de poder buscar coisas melhores pra gente, pra minha vida e pra vida da minha família. E foi o que acabou acontecendo.
O Davi de hoje narra que as vivências em sua adolescência dentro de casa não foram fáceis para ele, e que produziram formas de sofrimento que o marcam até hoje. Todavia, reconhece que mesmo tais vivências e o posicionamento de cobrança da avó, diferente e mais forte do que aquele dirigido à sua irmã, propiciou tornar-se a pessoa que é hoje.
Embora Davi critique o posicionamento da avó com relação a ele e à exigência para que sempre trabalhasse e ganhasse dinheiro para contribuir no sustento da casa, também reconhece que foi importante o papel da avó em sua formação; sua exigência propiciou que buscasse sempre estar em uma luta constante para garantir o sustento à própria vida e das pessoas a quem lhe caberia ajudar a prover o cuidado:
E pedir no semáforo dava um dinheiro bom mesmo. Na época a gente pega va cerca de 60 reais por dia. Aí eu comprava umas coisas pra mim. E assim, o meu padrinho que me conheceu no abrigo abriu uma poupança pra mim, e aí ele sempre fazia um depósito nessa conta pra mim de certa quantia por mês, e eu não falava pra minha avó o quanto eu ganhava no semáforo, porque eu sei que se falasse ela ia querer pegar tudo, então uma parte eu também depositava nessa conta e a outra parte era pra ajudar na casa, ou pra mim comprar um tênis, algo pra mim, essas coisas. Davi, mesmo tendo que lutar diariamente no semáforo pedindo ajuda de quem por ali passava, preocupa-se com o futuro que terá pela frente. Para tanto, cria uma estratégia para poder guardar uma parte do dinheiro que ganha e não ter que entregá-lo em sua totalidade à avó. Usa de uma artimanha para superar a contradição que marca sua vida, como em um movimento de regressão e progressão, cuja síntese podemos ver em seu relato:
Isso eu tinha cerca de 13, 14 anos de idade. Eu tinha projetos já para o futuro. Mas isso na realidade foi meu padrinho que trouxe pra mim. Ele disse que ia depositar esse dinheiro pra mim, pra no futuro eu poder pagar algum curso e tal, comprar material, essas coisas. E eu nunca cheguei a usar esse dinheiro. Tanto que uma parte da entrada que eu dei pra financiar a casa que eu comprei foi com esse dinheiro que estava na minha poupança que ele tinha dado.
Davi, o menino que foi para o abrigo e que não conhecia o próprio lar, conhece um padrinho (pai) que o incentiva e o ajuda a preocupar-se e preparar-se para o futuro; Entende a necessidade de tal projeto para o futuro e de investir em si mesmo, usando de uma artimanha para driblar a avó, com vistas a depositar uma parte do dinheiro que consegue na rua para fazer um curso profissionalizante. Como nos conta, ele nunca mexeu nesse dinheiro, o que nos faz ver que sua preocupação com aquilo que poderia tornar-se marca sua história. Como não precisou investir em um curso profissionalizante, nem em sua formação (como veremos mais adiante), Davi consegue comprar sua casa própria utilizando-se desse dinheiro para dar a entrada do imóvel. Eis um movimento: Davi, o menino que vai para o abrigo e se encontra longe de casa, e depois retorna, mas que em certo momento escolhe a rua, por não se identificar com o lar familiar, e ao mesmo tempo organiza seu projeto para o futuro; agora é dono da própria casa, possui o próprio lar, como veremos, e constitui a própria família.
4.9 Que busca não reproduzir o mundo da mesmice e seguir a política de identidade que