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4 METODE

4.3 Operasjonalisering

A experiência corporificada também foi além do princípio de “encarnar” uma representação textual a partir da forma como Jerzy Grotowski definiu a vinculação entre ator e seu papel na indissociação entre Ter-corpo e Ser-corpo. É neste vínculo entre atividade do ator e energia por ele criada que Grotowski traz à tona a definição de “Mente Corporificada” (Embodied Mind) cujo significado é “deixar que o próprio corpo apareça como algo mental (…) fazer com que a mente apareça através de seu corpo ao conferir-lhe capacidade operativa.”82

Em sua obra “O Teatro Pobre”83, Grotowski defende um método no qual

performar ou atuar é tanto Ser-corpo quanto Ter-corpo. É uma capacidade de executar o “ato solene e profundo de revelação. […] É como um passo até o mais alto do organismo do ator no qual a consciência e os instintos estarão unidos.” A materialidade corporal do ator em cena torna-se um corpo carnal e espiritual ao mesmo tempo.

Erika aponta que a insistência nos efeitos da presença através do corpo do ator e ator e consequente sensação física no espectador de experimentá-la provém não de um fenômeno físico, se não mental. Tal fenômeno tem relação com a consciência, e é um processo intemporal que acontece tanto dentro quanto fora do transcurso do tempo.

Sua tese estará em sintonia com nossa tese de modalidade sincrética de experiência, a partir da mesma ideia de consciência lançada por Roy Ascott.

Ela defende a tese de que a presença é um tipo de fenômeno sobre o qual não podemos nos dar conta recorrendo a categorias da dicotomia corpo-mente ou corpo-consciência.

Em ambos, a presença acontece primeiramente quando o ator gera o seu corpo fenomênico ou energético para si mesmo, na Embodied Mind, a partir de uma concepção de que um ser em que um corpo e mente ou consciência são

"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 82 Apud Fischer-Lichte, p. 169. 83 Apud Fischer-Lichte, p.170.

absolutamente inseparáveis, um ser em quem ambos estão dados de antemão como uno.

Então, como lugar da percepção de “si mesmo” e logo da consciência, quando em situações de compartilhamento, a mente corporificada (Embodied Mind) serve para atores e espectadores. Aos atores atribuímos a presença na performance, pois é em presença do ator que o espectador experimenta, sente o ator, ao mesmo tempo que sente a si mesmo como parte desta mente corporificada. Ambos formam uma única consciência de seres em permanente devir. A energia circulante é percebida pelo público como força transformadora e vital.

Essa presença, então, suprime a dicotomía entre corpo e mente, e ao anular esta condição materialista de separação, surge a possibilidade de ator e público de experimentarem juntos suas mentes corporificadas.

Na presença não há mente sem corpo, e a mente articula-se no corpo e como corpo. Algo simples torna-se acontecimento: a singularidade de sermos todos mente corporificada. Significa experimentar o outro e experimentar-se como mente corporificada e viver, a partir desta experiência ordinária algo extraordinário, transformador, transfigurador.

Enquanto o conceito de aura enfatiza esta transformação no momento do encantamento, o conceito de presença orienta-se mais ao que chama atenção do ordinário, da forma como aparece, como algo é manifestado fisicamente e que por esta forma de manifestação converte-se em acontecimento. Por isso Erika não compara auratização e presença pois centram-se em aspectos e momentos diferentes do mesmo processo que transforma o espectador.

Consideramos a relação de seu conceito de Embodied Mind como um modo de conceber o corporal como espiritualizado, em estado de troca e não separação. Ou seja, a partir desta concepção de não dualidade pela sintonía produzida na execução de ações semelhantes, voltadas ao afeto coletivo ou formação de consciência, vislumbramos a relação entre presença ritual e presença em artes do corpo. Para além dos preconceitos advindos de uma concepção racionalista e materialista de seu significado, o espiritual não é pensado como transcedência ou conexão com o divino e sim vinculado às capacidades mentais individuais como parte das coletivas, tal como as filosofias orientais e muitas práticas espirituais há muito concebem a indissociação corpo-mente.

|2.2.d|

Quiasma

Outra interpretação do termo Embodied Mind como consciência corporificada é articulada pela fenomenologia ou pelas ciências cognitivas. A partir da ênfase da materialidade do corpo no substantivo “carne” Merleau-Ponty84 traz o

conceito de “entrelaçamento” ou “quiasma” como uma sobreposição entre percepções e capacidades intelectíveis acontecendo até chegar a realizações corporais.

A primeira camada dessa interpretação acontece no sentido da visão. Merleau-Ponty associa a capacidade intelectiva, e como consequencia a ação, primeiramente ao visível. Ele formula, nesta relação, um “enigma”85 que parte da

seguinte lógica de simultaneidade e percepção:

(…) meu corpo simultaneamente vê e é visto. Aquele que olha para todas as coisas e para os outros também está olhando para si mesmo. A partir do alcance de sua visão, o indivíduo está reconhecendo no que vê o “outro lado” de sua capacidade de olhar e agir. Ao perceber a si mesmo olhando, o sujeito poderá ver a si mesmo agindo e tocando. Estar presente é ser visível e sensível, em primeiro lugar, a si mesmo.

A visão passa ser concebida como princípio de operação do pensamento e, consequentemente, como fundante de nossa percepção. Em outra camada, logo, vem o afeto. Como eu vejo o outro afeta como eu me vejo no mundo, e, desta forma, compõe minha corporalidade e minha presença no mundo.

Fundamentalmente, a visão tem, portanto, um estatuto de origem da corporificação anterior à concepção mental. A materialidade do corpo passa pela captura de como nossas ações são afetadas pela minha visão das pessoas e das coisas em meu mundo.

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84 Em MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 1984.

85 Em “Eye and Mind” (Apud Kozel, Suzan Kozel, p. 37) Merleau-Ponty interpreta “The enigma is that my body simultaneously sees and is seen. That which looks at all things can also look at itself and recognize, in what it sees, the “other side” of its power of looking. It sees itself seeing; it touches itself touching; it is visible and sensitive for itself.”"

Com nossa visão e percepção de nós mesmos realizadas, poderemos afetar o outro que também sentir-se-há afetado. A forma como vemos será a forma como seremos vistos. E assim nós tocamos e somos tocados por objetos e outros seres.

Interpretamos que esta perspectiva de interdependência, em camadas voláteis, formando um emaranhado entre o “como” me vejo e crio afeto em relação às coisas e os outros compõe a capacidade de produção de presença como performer.

|2.2.e|