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Vilem Flusser70, ao traçar questionamentos sobre as possibilidades de um mapa do corpo, pensa na materialidade da palavra “corpo” como o lugar a partir do qual o indivíduo orienta-se no mundo. Ora, orientar-nos em relação ao nosso próprio corpo é a primeira necessidade surgida para mover-nos e, logo, para modificar o mundo em direção ao que consideramos importante para tornar nossa sobrevivência – nossas experiências - dotada de sentido.

O corpo é, pois, o intermediário entre o mundo tangível e meu mundo vital. É através do corpo que o mundo me penetra.71 É a primeira forma de experienciarmos

as coisas do mundo, de vivenciar a presença e torná-la significativa como condição de existência.

Essa relação constrói a experiência vital do indivíduo. Como consequência, os possíveis rascunhos de um mapa do mundo que circunda o corpo do sujeito (cujas circunstâncias e situações estratégicas ele quer conhecer) pressupõe um mapa de sua corporalidade.

Após a construção desta lógica, a partir da qual construir um mundo individual pressupõe orientar-se no próprio corpo, que, por sua vez, se relaciona e """"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""

70 Em texto “Sobre las possibilidades de un mapa del cuerpo”. LA FERLA, Jorge (Org.) Cine, vídeo y multimídia: la ruptura de lo audiovisual. Buenos Aires: Libros del Rojas UBA, 2001. p. 95-104. 71 Ibid. p. 95.

influencia na presença deste corpo no mundo, Flusser lança o desafio de seu raciocínio: é possível criar um mapa do mundo no qual estou inserido a partir de um mapa de meu próprio corpo? Como? Existe possibilidade de separar ou distinguir as características ou o aspecto deste mapa?

E aprofundaríamos ainda mais, há como separar a forma como oriento meu corpo do mundo que me circunda? Há como separar a percepção de minha presença no mundo da forma como conheço, movo, transformo e instauro minha corporalidade no mundo?

Nessa dúvida interminável, e como o próprio Flusser coloca, como pergunta de resposta “inacessível”, podemos encaixar as próximas palavras de Artaud sobre o corpo: uma multidão excitada!

Exacerbado ao expressar as possibilidades que representa, o corpo ao qual Artaud faz referência é uma “multidão excitada” ou o da “multidão excitada”? São os vários corpos que percorremos em nós mesmos ou a inseparabilidade de nossos corpos de um todo, do mundo, da tangibilidade do que somos com as coisas e a partir das coisas?

Pois segue sua afirmação deixando clara a impossibilidade de uma delimitação para a experiência do corpo no mundo: o corpo é tido como uma espécie de caixa de fundo falso que nunca mais acaba de revelar o que tem dentro. E tem dentro toda a realidade. Querendo isto dizer que cada indivíduo existente é tão grande como a imensidão inteira, e pode ver-se na imensidão inteira. Pela sua afirmação, a antiga pergunta de mapeamento do corpo, revisada por Flusser, se torna impossível, ou seja, mais uma vez torna-se, como ele próprio analisa, mal colocada.

A questão possível torna-se, então, ainda para Flusser, pensar qual método ou experimento que torna possível uma experiência do corpo que tenha por meta um mapa do corpo.

No modelo defendido por Flusser, a possibilidade de existência de um mapa do corpo é inscrita a partir de um sistema de coordenadas que o autor irá descrever como proposta para uma experiência corporal.

Em sua tentativa de uma tradução simbólica de uma representação formal do que chama de “mapa do corpo”, ou seja, do estar no mundo, o que aqui iremos pensar como “presença” surge, então, de um primeiro princípio: a experiência, ou seja, uma situação específica, delimitada por um continuum espaço-temporal.

Vamos a sua proposta:

Imaginemos uma esfera vazia, de modo que tanto seu espaço vazio é surpreendentemente pequeno em relação ao volume. Esta esfera vazia pulsa (ritmicamente ou não, tanto faz). As paredes extremamente grossas da esfera estão organizadas de um modo complexo e esta organização precisamente é uma incógnita.

A esfera está em um contexto e com este contexto mantém uma relação de feed-back: em parte o contexto flui o entorno à parede da esfera, em parte esta segrega secreções que coagulam no contexto. O próprio contexto evapora até um horizonte, do qual entretanto separa-se. Este modelo pode ser completado agora com etiquetas. O espaço vazio da esfera figurará como “Eu” (ou “nada”), a parede da esfera como “meu corpo”, o contexto como “meu entorno vital” e o horizonte como “minha morte ou “nada”, ou também pode ficar sem etiqueta. A finalidade do modelo é servir como sistema de coordenadas de minha experiência corporal.

Flusser então começa a inscrever as experiências do corpo neste modelo. Para tornar mais clara sua descrição, por sua característica simbólica, eis um desenho que interpreta parcialmente sua descrição. O esquema não pretende dar conta da complexidade do pensamento do autor, assim como não pretende-se concluir uma interpretação que dê conta da frase de Antonin Artaud aqui colocada em diálogo com a possibilidade de modelo de mapa de corpo formulada por Flusser.

A partir deste modelo simplificado, Flusser inscreve uma série de possibilidades de fruição da experiência corporal. Na parte externa da esfera central estão os “problemas” ou o “futuro”. Já “o lugar e o instante do fluir, podem denominar-se “presente” ou meu “sofrimento do mundo” (paixão, passividade).”72

A totalidade de influencias ou secreções difusas do lado externo são denominadas como presente no sentido de ação ou atividade no mundo. Também podem ser pensadas como “metabolismo de meu corpo”, ou “meu-ser-no-mundo”. Problemas futuros podem ser experienciados pelo corpo no tempo presente. Então, cada parte deste corpo é afetada entre si. Um conhecimento teórico, um saber ou um órgão vital do corpo estão relacionados e um pensamento, mesmo que sobre uma questão futura, afeta uma parte de meu corpo. Nesse sentido, todas as características - espaciais e temporais, que constituem esse sistema de mapeamento podem ser sincrônicas. Não há, por fim, fronteiras entre “meu corpo” e “meu mundo vital”.

A estrutura fundante do modelo é o pulso, o que está vivo, e o corpo é como se fosse uma parede que às vezes pode ser uma negação do que ele chama de """"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""

“espaço-vazio-eu”. Nesse ponto há uma organização fundamental na explicação de Flusser:

A dialética entre a posição “parede-corpo” e a negação “espaço-vazio-eu” pode chegar a ser representada pelo menos de dois modos. Primeiro, como uma organização bem estruturada de flechas, que em parte apontam do corpo até o “eu”, e por outra parte do “eu até o corpo”, e funcionam de maneira reversível. Segundo, podem chegar a romper-se na cara interna da parede espelho aquelas que se refletem no lado oposto, sempre que a esfera é aberta. Pode-se imaginar ambas direções durante o curso de funcionamento do modelo intercambiando-se ou cruzando-se (“overlap”).

As flechas podem ser os olhos, os dedos, o falo, e são superfícies de contato intermediário entre parede externa e interna. O olho, aparelho de visibilidade, conforme especula Flusser, pode transportar um problema para o “eu”, bem como o dedo pode transformar uma ação através do corpo, do “eu” ativo, para o mundo circundante tangível. Cada flecha transmite uma destas mensagens, imprimindo sua marca na relação criada. Por esta evidencia de uma marca, ou de uma relação específica, tal sistema demonstra como o modelo não visa abarcar uma totalidade pois também deve-se ter em conta uma série de aspectos não visíveis, como sentimentos, formas percebidas, percepções, os quais podem se relacionar em probabilidades infinitas de combinações.

Entre os elementos combinados em seu sistema circular, Flusser cria uma analogia de espelhamento ou combinação, em “dispositivos especulares”, que serão ajustados de tal forma que os aspectos podem refletir-se de forma combinada uns nos outros.

Mesmo com as possibilidades de combinação, há aspectos do corpo externo que podem manifestar-se e refletir de forma mais direta no “eu”. O olhar, por exemplo, por ser o olho um órgão formador de visibilidade, pode ter uma distância maior do mundo externo, vital ou circundante, para refletir no “eu”.

Flusser também pensa na palavra cartografia para nomear este mapa do corpo e manifesta que é um modelo dinâmico de experiências, as quais o autor divide como práticas, teóricas e “religiosas”. Ou seja, há uma série de repostas disponíveis entre corpo e seu entorno. E há em cada experiência uma mudança, o que torna o modelo ilegível em algumas situações.

Seu modelo circular pode servir para entender e orientar um entendimento da orientação do corpo no tempo e no espaço, mas sua “índole técnica”73 não pode """"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""

ser considerado suficiente para dar conta das experiências reais pelas quais o corpo, sempre em transformação, passa. É mais bem uma esquematização e um sistema de coordenadas cuja fascinação é demonstrar como podem estar interligadas as experiências pelas quais o corpo pode passar que um mapa estruturante da orientação do corpo no mundo.

Ora, já nas primeiras linhas de descrição do modelo proposto por Flusser, por ser uma esfera tendo o indivíduo como centro, e em diálogo com a afirmação de Artaud de que há pode-se ver uma imensidão inteira em cada corpo, colocamos ambos em relação com outra conhecida representação do cosmos, válida também para o individuo. Trata-se da forma simbólica do mandala, cuja estrutura e significados utilizamos de inspiração para instaurar a poética das performances multimídia de #LiveLivingPerformanceProject. ´

Figuras 3 e 4 – Scketches de projetos de Lícia na Orla das Maravilhas e Awakening Performance. Estruturas circulares utilizadas em #LiveLivingPerformanceProject. Concepção: Carolina Berger. Desenho e direção de arte: Laura Carvalho.

Os mandalas, presentes em várias culturas e em sistemas de pensamento voltados para o estudo do indivíduo, conseguem, em primeira instância, traduzir a ideia de Flusser de que na esfera as paredes extremamente grossas estão organizadas de um modo complexo e esta organização precisamente é uma incógnita. À explicação de Flusser, podemos somar que as mandalas são estruturas simbólicas simétricas e, por este princípio, representações harmônicas do que Artaud ainda chama de “imensidão inteira”. Equivale, pois, a um corpo com força e coesão, com capacidades de razão e intuição, completo na percepção do uso de suas capacidades, como uma imagem psicagógica gerada para significar a “(…) presença divina no centro do mundo.”74

“O mandala é uma imagem ao mesmo tempo sintética e dinamogênica, que representa e tende a superar as oposições do múltiplo e do un, do decomposto e do integrado, do diferenciado e do indiferenciado, do exterior e do interior, do difuso e do concentrado, do visível aparente ao invisível real, do espaço-temporal ao intemporal e extra-espacial.”75

As relações, as camadas, a estrutura circular, o centro, a possibilidade incalculável de combinações, entre outros aspectos visíveis da mandala entram em diálogo com os modelos e interpretações do corpo, ou da experiência do corpo, proposta pelos dois autores que aqui relacionamos.

Nos mandalas que pensamos para cada uma das performances de #LiveLivingPerformanceProject o corpo e a tríade feminina é o centro, e as telas ou superficies de projeção compõem as camadas mnemônicas da mente corporificada, bem como fundam a concepção expressiva que relaciona a composição corporal aos quatro ou cinco elementos da natureza ao qual cada obra refere-se. Referimo- nos ao éter, ar, água, terra e fogo, reconhecidos em muitas filosofias, sistemas de pensamento e mitologias como componentes de nossa corporalidade e não dualidade. Basta pensarmos nos mitos de inúmeras culturas que são relacionados com elementos, no caso de nossa pesquisa, na mitologia afrobrasileira, teremos a força e fruição das águas personificada em Iemanjá e Oxum, assim como o ar é relacionado com capacidade de ação, na figura de Iansã.

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74 Em CHEVALIER, Jean et CHEERBRANT, Alain. (Org.) Dicionário de símbolos: mitos, sonhos,

costumes, gestos, formas figuras e números. 24a. Edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. p. 585.

Em #LiveLivingPerformanceProject, o sujeito real e suas representações – alterego e heterônimo literário - compõem a mente corporificada do performer que concebe e comanda a poética. Quem funda a poética é o centro e o elo entre público e recursos expressivos, equivalendo ao “espaço vazio” ou a “imensidão inteira” com a qual há inúmeras relações de feed-back complexas estabelecidas através das ações.

Figura 5 e 6 – Círculo de sal e telas circulares onde vídeos são projetadas formam imagem de mandalas em Lícia na Orla das Maravilhas. Fonte: Divulgação Mostra Curta-Se Live Cinema – Aracaju – 10/2013

A partir desta forma circular do mapa corporal, a primeira modalidade de presença é estabelecida na relação entre o sujeito e os seus meios de expressão e ação. O círculo ou espiral tido como forma real de nossas conexões em muitas culturas permite intersecções entre o sujeito e os espaços com os quais ele estabelece relações. Pela magia de sua composição, o mapa do corpo de Flusser é aqui equivalente ao manda por demonstrar uma “(…) interiorização cada vez mais elevada da vida e através de uma concentração progressive do múltiplo no uno: o eu reintegrado no todo, o todo reintegrado no eu.”76

Nas artes da performance, entretanto, acreditamos que esse meio não precisa ser visível e formalmente circular. É por si o universo de realização cênica, aqui tratado como “espaço performático”, no qual o artista produtor não está separado de seu material de trabalho e do público.

É o que C.G. Jung designa como uma representação da psique humana, aqui equivalente à mente corporificada do performer, um espaço harmônico organizado para produzir afeto com o público e entre o público.

Ou seja, o espaço performático envolve um todo no qual materialidade corporal, composta pelas premissas conceituais e expressivas da obra, e o dispositivo técnico instaurado pelo performer formam a poética de execução da obra.

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