1. Innledning
4.1 Omfang og utstrekning
“O ser humano vive a construção de sua própria identidade, que pressupõe a liberdade e a autonomia,
para tornar-se sujeito, a partir das dependências que alimenta, necessita ou tolera, como por exemplo, da
família, da escola, da linguagem, da cultura, da sociedade etc.”
Edgar Morin
1.3.1) Relações Familiares
Para Garcia (1997), o consumo abusivo de drogas pode ser visto como uma saída encontrada pela sociedade para suas tristezas e sentimentos de perda, onde o luto fica suspenso, mascarado e anestesiado.
É comum que esse início do uso de drogas se dê na adolescência, quando o jovem está em busca de novas experiências e novos desafios, mas não
quer dizer que este uso necessariamente evolua para um quadro de dependência química (Freitas, 2002).
No entanto, segundo Benoit (1997), conflitos não resolvidos e relações destrutivas podem ser indutores de toxicomanias e, normalmente, as famílias são tolerantes com esses sintomas demorando em demasia a pedir ajuda. Quando o fazem, os sinais caóticos já são visíveis no meio externo à família.
De acordo com Fender (1996), apesar de muitos estudos sobre família e drogadição terem surgido nestes últimos 50 anos, apenas recentemente tem sido dada importância ao papel das relações familiares e de seus padrões interacionais.
De acordo com Brasil (2004), o impacto da dependência química em um sistema familiar é variável e estabelece um processo contínuo de inter-relações em que a família influencia a drogadição de um ou mais de seus membros e é influenciada por ela.
Em pesquisa sobre a estrutura sociométrica de famílias alcoólatras, Carvalho (1987, p. 67) verificou que é possível comprovar as diferenças entre a estrutura de famílias ditas normais e de famílias alcoólatras. As famílias onde o alcoolismo se fazia presente, apresentaram índices de coesão grupal abaixo dos índices das famílias ditas normais, além do quê, nas famílias alcoólatras foi difícil, quando não impossível, identificar uma liderança.
Stanton, Todd e cols. (1999), descreveram a estrutura familiar de dependentes químicos a partir de estudos que tinham enfoque na tríade pai-mãe- filho dependente de drogas. A figura paterna podia ser descrita como ausente e emocionalmente distante e a figura materna como superenvolvida e muitas vezes simbiótica. (Penso, Sudbrack, Ferreira e Jacobina, 2004).
Segundo Ausloos (2003), alguns aspectos são encontrados com mais freqüência em famílias onde a toxicomania está presente, como: a mãe é ambivalente e o pai é de alguma forma muito passivo; há um desinteresse dos pais em relação aos objetivos que os filhos almejam na vida; grande permissividade dos pais frente às provocações dos filhos; dificuldade de impor limites desde a infância até a idade mais avançada; e filhos como veículos de grande revolta e inconformidade social não expressadas pelos pais.
Em pesquisa recente sobre a dinâmica familiar de adolescentes envolvidos em atos infracionais e com drogas, Penso (2003) apresenta a importância das relações familiares para a compreensão de situações de conflito. A pesquisadora ressalta a relação dos papéis desempenhados pelos genitores e pelos filhos na estruturação dos processos de pertencimento e individuação. Neste estudo a autora se dedica a compreender a construção identitária dos adolescentes participantes, através dos papéis familiares ao longo do Ciclo de Vida da família e também da história transgeracional.
De acordo com Penso (2003), quatro configurações relacionais descrevem dinâmicas familiares cruciais: o Filho parental, o Filho salvador da mãe, o Filho fora do tempo e o Filho fora da mãe. Nessas relações as duas primeiras configurações nos indicam a dificuldade do indivíduo em separar-se por não conseguir construir sua identidade e sentir-se pertencente a um todo que ele não diferencia. Nas outras duas configurações o processo de pertencimento está prejudicado porque o indivíduo não reconhece seu lugar na família e não consegue fazer sua diferenciação e, por este motivo, também não consegue separar-se. Há em todas as configurações um prejuízo da vivência do papel de filho, uma vez que
os pais não conseguem assumir seus papéis parentais deixando de ser modelos de identificação para os filhos.
Na dificuldade de vivenciar os processos naturais de pertencimento e individuação dentro da família, o indivíduo procura alternativas para construir uma identidade e para lidar com uma realidade dolorosa, que muitas vezes se apresenta desde sua infância. Neste sentido, o uso de drogas e o envolvimento em atos infracionais constituem um sintoma de alívio para esses indivíduos que não conseguem diferenciar-se em sua própria família (Penso, 2003).
Segundo Sternschuss e Angel (citados por Bergeret e Leblanc, 1991) suas pesquisas com famílias de heroinômanos permitem dizer que não existe um
tipo único de organização estrutural da toxicomania, mas os diversos arranjos
relacionais observados podem ser encontrados na maior parte das famílias de toxicômanos. Em suas reflexões, os autores apontam dois eixos que devem ser levados em consideração: o eixo transgeracional, que “permite a análise de
transgressões, inversões de alianças, remanejamentos estruturais”; e o eixo ´aqui e agora´ que recoloca o “sintoma em seu contexto atual e avalia a função do sintoma na dinâmica familiar”. Alguns arranjos relacionais encontrados nessas famílias são:
sistemas rígidos de funcionamento, discursos estereotipados, falta de interiorização, pelos jovens, das regras e limites paternos, dificuldades de comunicação. Os resultados para o abandono do sintoma e modificação da homeostasia familiar foram obtidos a partir do enfoque terapêutico às lealdades secretas, ao fortalecimento das barreiras geracionais e à aprendizagem de processos metacomunicacionais.
Para Castilho (1994), os aspectos trigeracionais do desenvolvimento familiar devem ser levados em conta no acompanhamento de uma família onde o sintoma da drogadição está presente. O peso das lealdades entre as gerações e as
missões impossíveis que são delegadas entre os membros da família podem encontrar questões pulsionais individuais que levam o membro droga-dependente a ser na realidade um “família-dependente”.
De acordo com Geberowicz (2004), o dependente químico expressa uma relação estreita com a família, ao contrário do que a mídia propaga em referência ao usuário e sua conduta. A dependência de um indivíduo a uma substância atua como um compromisso com a família, que permite analisar sua autonomia em determinado ciclo familiar, o que para ele pode significar a sobrevivência da família. É um jogo onde as relações se estabelecem para mascarar problemas outros que, por algum motivo, não podem vir à tona sob pena de quebrar a homeostase familiar.
Segundo Bursztein e Stempliuk (1999), a abordagem familiar tem revelado dinâmicas predominantes que podem estar relacionadas ao comportamento adicto ou ao aparecimento de mitos familiares que escondem a rigidez da família e o comprometimento das relações. O entendimento de que o uso de drogas já revela uma dinâmica familiar comprometida, amplia a concepção e a compreensão de que não se trata de um indivíduo doente, mas de um sistema familiar onde o uso de drogas mantém um padrão de relacionamento.
Baumkarten (2001, p. 204) apresenta, em sua tese sobre o significado da drogadição, uma necessidade de mudança do paradigma existente de que a função do sintoma é recuperar o equilíbrio homeostático da família, e propõe que uma nova leitura recupere “o significado do sintoma no caos transformador da família”. Para a autora, a visão do sintoma como encobridor das dificuldades da família e mantenedor do seu equilíbrio já não se sustenta, uma vez que não engloba sua função paradoxal que é de proteção e denúncia, ao mesmo tempo. Nessa pesquisa que realizou com os usuários e abusadores de merla do Distrito Federal,
Baumkarten verificou que o movimento do sintoma tem um significado diferenciado, já que vai em busca de mudanças, de transformações e em busca de vida, e não se restringe ao papel apenas de mantenedor da homeostase.
Em seu trabalho sobre drogadição, relacionando jovens e atos infracionais, Pereira (2003, p. 224) apresenta a visão que os adolescentes em conflito com a lei têm sobre a droga e seu significado. Para esses jovens participantes da pesquisa “a droga possui um efeito mágico” e, no contexto de pobreza e exclusão social em que vivem, ela se torna um veículo “capaz de oferecer
poder e coragem para desafiarem, conquistarem e violarem”.
Entendido sob a ótica da abordagem sistêmica é possível dizer que o uso de drogas é um fenômeno relacional que reflete uma necessidade da vivência de pertencimento e de separação, que foi prejudicada em seu processo de construção nas interações vividas em família (Penso 2003).
No próximo item vamos apresentar o pensamento de alguns estudiosos sobre a comunicação e a interação nas famílias de dependentes químicos.
1.3.2) Interação nas Famílias de Dependentes Químicos
Segundo Colle (2001, p. 192), a família é um “conjunto de pessoas em
interação que não pode ser reduzida à descrição das características individuais de cada um de seus membros, nem à soma dessas características”. O autor nos
esclarece que uma pessoa não pode mudar sem provocar mudanças nos outros membros da família. Na verdade ela precisa se “adaptar a permanência de sua
estrutura às mudanças relacionais inerentes aos ciclos de vida e de morte que influenciam todos os sistemas vivos. As modificações passam por transformações
das regras comunicacionais”, o que aparece como sintoma manifesto traduzindo
uma disfunção relacional é o sinal de crise que a família está vivenciando.
Ausloos (2003) apresenta uma idéia de que nas famílias aditivas, regras de dependência são passadas constantemente aos seus membros. A comunicação é feita por meio de injunções paradoxais que sugerem mensagens explícitas de individuação e mensagens implícitas de subordinação. A metacomunicação seria o ponto chave de trabalho para que essas famílias aditivas encontrassem outras formas de relacionamento, que não necessitem do sintoma da dependência química para se equilibrar.
Outro aspecto levantado por este autor, sobre famílias aditivas, diz respeito ao tempo e às mudanças constantes no sistema familiar. Para Ausloos (2003) essas famílias aditivas vivenciam um tempo eventual, ou seja, sem passado nem futuro e consideram apenas o tempo imediato. Nesse processo de percepção do tempo nas famílias de transações caóticas (famílias aditivas), as mudanças são constantes mas não são duráveis e existe uma sobrecarga de informações vinda do próprio grupo familiar ou do ambiente externo. Para o autor os conflitos permanentes constroem os acontecimentos familiares e a dificuldade em resolvê-los reside no fato da família passar rapidamente por esses acontecimentos e por várias crises de forma sucessiva e constante (Ausloos, 2003).
Para que possamos entender com mais propriedade as interações e a comunicação humana, vamos apresentar algumas características ou propriedades descritas por Watzlawick, Beavin e Jackson (2004), em sua obra Pragmática da Comunicação Humana:
a) A primeira delas é que é impossível não comunicar: “assim como o
então podemos entender que num sistema interacional o comportamento tem uma mensagem, e dessa forma é impossível não comunicar” (Watzlawick, Beavin e
Jackson, 2004, p. 44). Ainda assim não podemos dizer que a comunicação seja sempre intencional, consciente e bem sucedida. Mas há casos em que a incompreensão das mensagens comunicadas leva a patologias;
b) Outra propriedade diz respeito ao conteúdo e aos níveis de relação da
comunicação: os aspectos são o relato e a ordem. O relato transmite a informação e
é sinônimo de conteúdo e a ordem refere-se à espécie de mensagem e como deve ser considerada, ou seja, refere-se às relações entre os comunicantes. Para que se possa melhor compreender as interações humanas é pertinente que se examine a relação entre o relato (conteúdo) e a ordem (relação entre os comunicantes) (Watzlawick e cols., 2004);
c) A propriedade seguinte diz respeito à pontuação da seqüência de
eventos, onde a interação, ou seja, a troca de mensagens entre os comunicantes é
entendida a partir de seqüências de estímulos, respostas e reforços. Para isso é preciso que haja uma diferenciação nos papéis dos comunicantes, por exemplo: o experimentador fornece os estímulos e os reforços e o sujeito fornece as respostas. As definições de papéis são criadas pela disposição dos comunicantes em aceitar o sistema de pontuação (Watzlawick e cols., 2004);
d) Mais uma propriedade básica da comunicação diz respeito aos dois modos digital e analógico de se comunicar. Na forma digital temos a palavra para denominar coisas e na forma analógica temos a comunicação não-verbal ou, por assim dizer, “qualquer manifestação (postura, gestos, expressões faciais, ritmo,
seqüência, tom de voz) que o organismo possa dar para que uma interação ocorra.”
e) Outra característica da comunicação abrange as interações complementar e simétrica. Gregory Bateson, em 1935, estudando a tribo Iatmul, em Nova Guiné, descreveu um fenômeno interacional desse grupo que chamou de cismogênese e o definiu como “um processo de diferenciação nas normas de
comportamento individual resultante da interação cumulativa entre os indivíduos” (p.
62). Os sistemas de relações entre os indivíduos ou grupos contêm uma tendência para a mudança progressiva e essas mudanças podem acontecer de acordo com dois padrões de relacionamento: a cismogênese complementar, onde um indivíduo age, por exemplo, de forma imperativa e outro age de forma submissa, e esse comportamento de ambos é afirmado e reafirmado nessa interação; e a
cismogênese simétrica, onde há uma igualdade no padrão cultural de
relacionamento. Os padrões de relacionamento complementar e simétrico se baseiam na diferença e igualdade respectivamente, sendo que a cismogênese complementar aumenta as diferenças e a cismogênese simétrica minimiza as diferenças (Watzlawick e cols. 2004).
Na conclusão desses estudos os autores ressaltam a importância de se entender a comunicação como sistema, em seu nível transacional e não apenas pelo paradigma da ação-reação, e atentar para o fato que cada característica tem suas limitações e suas patologias inerentes. No que se refere às categorias simétrica e complementar, pode-se afirmar que “elas não são intrinsecamente ‘boas’
ou ‘más’, ‘normais’ ou ‘anormais’, mas devem estar presentes de modo alternado, em áreas diferentes nas interações humanas” (p. 96).
De acordo com Silva (1999, p. 109), sua pesquisa sobre drogadição na adolescência verificou que a dependência “consiste em uma resposta possível à
família”. A partir da dependência, o adolescente, desafiando os limites, se envolve
em situações delinqüentes que mantém o padrão comunicacional delituoso aprendido no contexto familiar. Este modelo relacional de desafio e desqualificação tem sua base principalmente em aspectos de uma função paterna fracassada e de uma comunicação de duplo vínculo, que gera dificuldades na aprendizagem dos vínculos afetivos. Dessa forma o jovem tem nas drogas uma fonte de prazer, que dá forças para o enfrentamento das adversidades e ao mesmo tempo estabelece uma forma de pertencimento e de estar no mundo, que é idealizada e permite mediar suas relações sociais.
Trindade (1992), em seu trabalho sobre o alcoolismo através das gerações, pôde observar que o discurso de “famílias alcoólicas” ou do próprio indivíduo alcoólico é repleto de angústia, tristezas, perdas, revoltas e, normalmente, a tônica é a dependência. A independência é vivida de maneira ameaçadora e persecutória e neste contexto “a dimensão de autoridade se perde ou torna-se muito
rígida, centralizada e repressora” (p. 193). A autora também verificou que essas
famílias ficaram fixadas em alguma etapa de seu ciclo vital, agindo de maneira rígida frente a situações que exigiam mudanças nas relações conjugais e parentais, como por exemplo, a adolescência dos filhos.
Este fato foi confirmado pelo trabalho de Gláucia M. Silva (Silva, 1999), onde ela observou que a drogadição na adolescência pode servir como resposta a algum impasse que a família está vivendo em seu ciclo vital, onde as renegociações de papéis, relações afetivas, lealdades, segredos, conflitos geram “um movimento
caótico, imprevisível e com uma comunicação peculiar entre seus membros” (p. 11).
Outros trabalhos demonstram essas idéias de rigidez e dificuldades para a mudança. De acordo com Lehnen (1991), a toxicomania na adolescência encontra
sustentação no referencial sistêmico, quando apresenta os sinais de denúncia das relações estáticas e rígidas da família, impedindo a evolução do ciclo vital familiar e suas conseqüentes mudanças, e encobre a disfunção que geralmente se encontra no subsistema conjugal. O sintoma adquire uma função paradoxal quando, além de sua função denunciadora de problemas, passa a agir em favor da homeostase para proteger o sistema familiar que não consegue deixar de ser disfuncional.
Em sua pesquisa sobre a representação da família pelo dependente de drogas, Fonseca (1997), constatou que nas famílias onde o problema da drogadição se faz presente, o diálogo entre os membros é bastante prejudicado, afetando assim as relações familiares; a ausência física e psicológica dos pais sedimenta nos adolescentes sentimentos de abandono e solidão; e a vivência da agressão como forma de autoridade permeia o contato dos membros da família contribuindo para uma visão banalizada de violência.
“A droga, para o usuário, está ligada a uma complexa relação que reflete um conflito muito grande entre a representação idealizada da família equivalente à união, harmonia, ajuda mútua, diálogo, compreensão das diferenças e compartilhamento, e a realidade familiar vivida repleta de violência, infidelidade, autoritarismo e ausência de diálogo”. (Fonseca, 1997, p. 47).
Olievenstein (1977, p. 243), em seus relatos sobre o tratamento para toxicômanos no Hospital Marmottan, em Paris, nos descreve suas experiências juntamente com sua equipe durante os anos em que se dedicou a este trabalho. Segundo ele a frase mais ouvida em Marmottan era: “Eu e meu pai não nos
entendemos, nós não conversamos”. Para Olievenstein estava claro que a droga é
um fenômeno social, que se apresenta com “um dos símbolos mais característicos
de nossa época traumatizada”, e mais do que nunca era preciso entender que para
relacionamentos familiares vivenciados como um conflito sem solução. Quando os pais chegaram para o tratamento junto com seus filhos foi fácil perceber como eles estavam emaranhados no mesmo problema, sem saberem, no entanto, o quanto estavam adoecidos.