4. DET DAGLIGE OFFERRITUALET
4.4. O PPSUMMERING
MARCOS CESAR DANHONI NEVES
M
eu nome completo é Marcos Cesar Danhoni Neves. Nasci em Maringá, Paraná, no dia 11 de abril de 1963. Meu pai, pelo que eu me lembro, sempre foi corretor de imóveis, vendia terras (além de ter sido cobrador de ônibus, balconista de bar, e vereador!), e a minha mãe sempre foi uma pessoa do lar. Ambos influenciaram muito positivamente na minha vida, com aspectos ligados à promoção da educação. Vamos colocar a educação como a primeira coisa mais importante da vida. Ambos tinham só até a quarta série primária, mas a questão da educação, para eles, era muito importante. Eu sou de uma família de quatro irmãos; sou o mais velho. Meu pai, eu sempre me lembro, gostava de me levar ao cinema. Eu lembro sempre dos filmes do Mazzaropi (risos) e filmes de faroeste, de que ele gostava bastante. Então, a paixão minha pelo cinema nasce com meu pai, e a paixão pela leitura nasce com a minha mãe. Eu lembro que ela era uma leitora ávida dos livros da Agatha Christie, de livros que envolviam detetives, essa coisa toda. Tudo isso foi muito importante para mim, porque minha mãe gostava de ler bastante. Inclusive, outra leitura que caía bem nas mãos dela era a “Seleções”, doReader´s Digest, e era também a literatura que caía nas minhas mãos.
Da escola, eu não tive a oportunidade de fazer a pré-escola; eu fui logo para o primeiro ano. Eu lembro que foi uma experiência meio traumática! (risos). Eu não queria ficar na escola de jeito nenhum! Lembro que chorei bastante. Foi até uma questão marcante na minha primeira infância; é uma memória vívida daquele período.
Isso, se não me engano, foi em 1969, e 1969 marca um ano importante, não tanto pelo fato de eu ter ido à escola, mas como pelo fato do primeiro astronauta ter ido à Lua. E eu me lembro muito bem que a minha mãe estava
lavando a cozinha naquele dia, quando houve a transmissão televisiva da pegada do primeiro passo do homem na Lua. Eu fiquei impressionado com aquilo! Era uma coisa marcante, mesmo para mim!
Eu lembro que eu tinha um berço, que tinha servido aos meus outros três irmãos, e minha mãe achou que o berço estava muito velho e o dispensou num quintal. Eu lembro de chamar os meus coleguinhas do primeiro ano, e eu falando que aquilo era uma astronave que passeava pelo espaço. Eu tinha enchido aquilo lá de botões, umas “porcariadas” lá, para tentar mostrar que aquilo era uma nave espacial. No entanto, meus coleguinhas queriam ver a nave voando e, no final, a nave explodiu na decolagem (risos).
Eu acho que vem daí esse primeiro contato, esse primeiro encantamento com as coisas do céu, da Astronomia, etc.
Meu pai, também, me deu um telescópio refrator, do tipo Tasco, de 1.250 milímetros. Eu vivia desenhando as posições dos satélites de Júpiter, as crateras da Lua, a posição de Titã e Saturno. Eu fazia o desenho das nebulosas, tudo, e eu não tinha conhecido, para você ter uma ideia, o Sidereus Nuncius, de Galileo, pois não tinha sido traduzido ainda.
Ainda sobre minha vida escolar, eu me lembro que eu era um aluno com muita dificuldade em Matemática, mesmo em Português, mas eu acho que foi a minha mãe que me colocou em escolas erradas, onde os professores eram muito rígidos! Sempre essa questão da rigidez excessiva foi universal na minha vida. Até a quarta série, eu tinha extrema dificuldade nas operações básicas, para se ter uma ideia!
Na verdade, eu sempre fui uma pessoa muito tímida, mas, a partir da quinta série, eu comecei a melhorar. Foi mais uma busca pessoal. Eu comecei a melhorar porque eu ampliei as minhas leituras extracurriculares. Eu me lembro até hoje do atlas que minha avó tinha, um atlas geográfico, que tinha umas concepções de possíveis viagens interplanetárias, com uns desenhos da década de 1950. Era uma coisa que me encantava, aquilo! Assim, fiquei impressionado com tudo aquilo.
Aprendi a desenhar, a mão livre, com meu pai, que fazia um curso de correspondência de desenho, que era pelo Instituto Universal Brasileiro (risos). Então, ele acabava de fazer as lições dele, e eu ia lá escondido, pegava os livros. E, aí, eu comecei a fazer vários desenhos. Inclusive, porque eu virei aquele que fazia os desenhos para os alunos que não faziam a tarefa da escola. Então, muito rapidamente, eu desenhava mapas para eles, coisas de Biologia, essas coisas todas. E também me interessei muito pelas questões de Arqueologia. Eu lembro que eu vivia decorando os nomes de grandes répteis. Nesse sentido, eu comecei a virar um “nerd” (risos).
Na segunda fase do Ensino Fundamental, da quinta à oitava série, no Instituto de Educação, que era uma escola tradicional pública da rede de Ma-
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ringá e do Paraná, eu decidi que eu queria fazer Astronomia. No final da oitava série, eu já tinha claro que eu queria ser astrônomo. Trazia isso em mente, gra- ças a todas essas leituras, a todo aquele impacto da NASA1. Eu estava acom-
panhando as Pioneers, as Mariners, a Voyager, aparecendo em 1970 e pou- co. E eu falei: “- Vou ser astrônomo!” Meus pais estavam horrorizados! Meu pai queria que eu fosse engenheiro, porque ser astrônomo não dava dinheiro. Naquela época, era a Lei 5.692, e eu escolhi o ensino profissionalizante de Eletricidade. Fui para uma outra escola tradicional pública da minha cidade, que era o “Gastão Vidigal”, onde tinha Eletricidade e, portanto, a Física era mais “puxada”. Realmente, era mais “puxada” e me deu uma boa base. Deu duas boas bases: a de Física, por um lado, e a de inconformismo com o sistema educacional, por outro.
Isso, porque os professores eram muito rígidos! Uma avaliação sempre careta, aquela avaliação memorística, e eu sempre fui um cara que lutei contra esse tipo de avaliação, baseada na memória, mnemônica. No entanto foi ali que acho que eu até aprendi a ter um certo espírito libertário. Pela primeira vez, eu fui expulso de uma sala de aula, porque o professor queria dar uma prova surpresa e ele nunca falou que ia dar prova surpresa, portanto, eu me rebelei. Mas pensei que outros me seguiriam na rebelião e, no fim, eu “paguei o pato” sozinho. Aprendi também um pouco sobre coletividades inexistentes. Mas foi importante!
Nessa época, é que eu comecei a escrever para NASA. Eu acho que eu li uma reportagem sobre alguma nave ou alguma coisa de uma nave que seria enviada para Júpiter. Consegui o endereço, lá, em algum livro, e falei assim: “- Ah! Sabe de uma coisa? Eu acho que eu vou escrever pra NASA”. Eu não sabia inglês e escrevi em português mesmo! Isso foi na época do lançamento
da Voyager, março de 1978, 79, se não me engano. Mas mandei aquilo, assim,
como uma garrafa de náufrago. Pensei: “- Não vai chegar nunca lá, eles nunca vão me responder...”.
Nessa carta, eu falava assim: “- Escuta, vocês podem me mandar pôsteres, fotos, tudo o que tiverem aí? Porque eu sou uma pessoa que está interessada nessas missões para Marte, para Júpiter... E o que precisa fazer para ser um astronauta (risos)?” Pedi foto de astronauta, ou seja, mandei um monte de perguntas, um menu completo.
Quatro meses depois, chegou o pacote! Eles entenderam a mensagem. E foram pacotes generosos! Tinham todas as concepções artísticas da ida da
Voyager para todos os planetas exteriores, porque a Voyager não tinha chegado
ainda. E fotos também do que seria aquele ônibus espacial, que era aquele primeiro protótipo, já grande. Então, eu fiquei impressionado! Inclusive, eu estava no quintal, acho que fazendo algum serviço prático para minha mãe,
batendo um martelo, e eu me lembro que eu até martelei o dedo de tanta emoção (risos), porque eu estava lá e chegou o pacote da NASA!
Eu mostrei aquilo na escola e todo mundo ficou surpreso... E eu falei assim: “- Bom, tá decidido, astronauta não vou ser, mas astrônomo eu serei!” No terceiro ano, eu fiz o vestibular como “treineiro”, na minha universidade, na UEM, a Universidade Estadual de Maringá, e passei em Física. Eu lembro que o meu pai foi até ao reitor pedir se eu não podia fazer a matrícula... O Reitor, quando nos acolheu lá, começou a falar: “- Ah! Não pode, porque ele não tem nem o terceiro ano, etc etc”.
Bem, aí eu escrevi para o Observatório Nacional, para saber como era a questão do vestibular de Astronomia lá no Rio de Janeiro, no Observatório do Valongo. Eles me explicaram: “- Olha, esse aqui é o único curso de graduação, que é aqui na UFRJ...”. Por conta, eu estudei alguns vestibulares do Cesgranrio2, não fiz cursinho, e fui fazer o vestibular. Era o vestibular que
me bloqueava de fazer o vestibular em Maringá, ou seja, falei: “- Se eu perder esse, perdi, pelo menos, um semestre!”
Fiz e não passei. Eu tinha estudado bastante; eu tinha colocado muita expectativa; era para eu passar e acabei não passando. Porém, depois, já reequilibrado, falei: “- Bom, vou fazer o vestibular de Física na UEM, no meio do ano”. Fiz o vestibular e passei. Passei muito bem! Já entrei para o inglês, e falei: “- Não, agora eu vou fazer o inglês também”, animado pela correspondência da NASA.
No primeiro semestre, muito bem. No início, quarenta alunos, no final do primeiro ano, já não tinha mais nenhum, só eu! E isso foi outro aprendizado para mim. Por que que há tanta desistência, tanto abandono? Mas, no final do primeiro semestre para o segundo semestre dos anos 80, eu ainda queria ser astrônomo. E eu fiz nova inscrição na Cesgranrio, para o vestibular de Astronomia.
Aí eu passei e veio a dúvida. Eu estava indo muito bem em Física. Tinha passado nas disciplinas mais “cabeludas”, inclusive geometria analítica, que reprovou todo mundo, e eu gostava de geometria! E aí veio a dúvida e eu falei: “- Nossa, eu vou ou não vou fazer esse curso de Astronomia?” Lá tinham duas fases de matrícula. Eu fiz a primeira fase, e a segunda fase, não lembro se era um mês depois. Eu não sei por que é que tinha essa questão de fazer duas fases. Eu fiquei na dúvida e escrevi, aleatoriamente, a esmo, para USP e para o Valongo, para me darem uma luz. Falei: “- Gente, meu caso é esse, estou fazendo Física, estou vivendo um dilema. Alguém pode me ajudar a resolver esse dilema?”
No final, quem me respondeu a carta, do IAG3 da USP, foi o Boczko. Ele
escreveu o belo livro: “Conceitos de Astronomia”. E o outro, o do Valongo, eu
2 Centro de Seleção de Candidatos ao Ensino Superior do Grande Rio.
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não me lembro quem foi, me fugiu o nome agora. Eu sei que o tempo passava e ninguém me respondia. E eu tinha que fazer o alistamento no serviço militar, que eu queria abandonar, pois eu não queria fazer o serviço militar. Lembro que meu avô já tinha me prometido que um tio meu me tiraria do serviço militar. Mas eu tive que fazer o alistamento correndo, porque precisava de certificado de alistamento militar para a primeira fase da matrícula.
Bem, eu sei que eu já tinha comprado, inclusive, a passagem de ônibus para fazer a 2ª fase de matrícula, quando chegou a resposta do IAG da USP. Então, o Boczko falava assim: “- Olha, o campo para o astrônomo no Brasil é muito restrito, não é? Já que você está fazendo Física, o ideal seria que você terminasse o curso de Física e fizesse um Mestrado em Astronomia.”
Achei muito sensata a carta, e como eu estava entusiasmado com o curso de Física, eu já havia passado em tudo, Geometria, Cálculo e em Física 1, estava fazendo inglês e tinha ido muito bem, eu falei: “- Ah! Quer saber de uma coisa? Eu vou ‘chutar o balde’!” Uma semana depois chegou a outra correspondência, do Observatório do Valongo, aconselhando exatamente o contrário. Só que aí já tinha decidido, já tinha passado a fase e tudo mais.
Bem, então, a minha história na graduação foi assim. Saíram as primeiras bolsas de PIBIC4 da minha universidade, inclusive, o programa
PIBIC foi instalado como protótipo experimental na UEM. Eu fui um dos primeiros a pegar a bolsa, um dos primeiros PIBICanos do país. Aliás, eu diria que eu e um colega meu fomos os dois primeiros, o José, que virou físico duro,
hard physics.
A gente trabalhava, naquela época, no Departamento de Física da UEM, com o secador de grãos de leito fluidizado, movido por energia solar. Era um discurso de época, que produzia energia solar, energias alternativas e tudo mais. Inclusive, eu me lembro que eu adorava fazer aqueles painéis solares, desenhava no projeto, fazia o “diabo”! Mas, junto, tinha essa preocupação educacional. Eu achava que o meu Ensino Fundamental e Médio, e muitas outras disciplinas do curso de Física, tinham sido uma “porcaria”. Eu é que tinha suprido as minhas lacunas. E eu tinha visto que toda a minha turma de quarenta alunos, trinta e nove abandonaram o curso; trinta e nove mesmo!
Foi uma solidão terrível! Eu lembro que, quando eu fiz meu estágio supervisionado, porque eu fiz a licenciatura em Física, não tinha o bacharelado, mas eu queria ser licenciado, mesmo que tivesse bacharelado, eu lembro que a gente reestruturou o laboratório de Física da minha escola de Ensino Médio, do “Gastão Vidigal”. Porque, apesar de eu ter feito três anos de Eletricidade, nós nunca entramos no laboratório. Ele estava todo detonado! Eu lembrava que tinham caixas da BENDER (caixas de madeira com laboratórios com
experimentos tópicos de Física), que nunca foram abertas. Então, o que é que a gente fez? A gente foi para lá, nós tivemos que, primeiro, fazer um trabalho de limpeza, lavar chão, limpar, tirar pó, fazer o “diabo”! Fizemos um levantamento do que tinha ainda nas caixas BENDER, bolamos os experimentos e deixamos como acervo para a escola. Depois, morreu tudo de novo. Porque as caixas BENDER é como “Santo Graal”, ninguém mexe, não é?
Eu acho que tanto aqui quanto lá ou em qualquer outro Estado do país, você vai encontrar escolas que têm caixas BENDER intocáveis até hoje. Porque as caixas, os governos acho que andaram comprando para as escolas, porque se tratava de um projeto de âmbito nacional.
Bem, moral da história: terminei o curso de Física e aí precisava decidir o mestrado. Um colega nosso, um professor muito amigo nosso, sugeriu que a gente procurasse o laboratório de Cristalografia do Instituto de Física da UNICAMP5, pois tinha uns colegas dele lá. Eu e mais esse colega, José, fomos
para lá e fomos aceitos no programa. Fizeram análise do histórico escolar, currículo, acho que tinha entrevista também, e fomos aceitos. Eu havia abandonado a ideia de fazer pós-graduação em Astronomia, porque, no final do curso, a gente foi tomado por aquela coisa de física experimental, pelo PIBIC e tudo mais. Mas eu mesmo não estava muito convencido.
Eu fui para a UNICAMP e fiquei decepcionado. Olha, foram quatro meses de depressão naquele laboratório. Falei: “- Gente, mas que que eu estou fazendo aqui?” (risos). Pegava uns materiais e tentava adivinhar a geometria. Pensei: “- Não! Mas eu preciso procurar alguma coisa e alguém que faça ensino de Física.”
Isso foi 1983. Eu me formei em 1982, e já em março de 1983, eu tinha começado o Mestrado nesse laboratório. Eu estava fazendo francês, nessa época, porque eu já tinha me formado no inglês; e eu precisava até para fazer a proficiência na segunda língua. Uma amiga minha, a Paula Dutra, uma grande amiga com quem eu fiz amizade no francês, ela é uma pessoa bem esperta, e assim falou: “- Olha, eu conheço um professor que trabalha com isso aí, que é o Argüello, Carlos Argüello.”
Não sei se foi ela que me apresentou ou eu me apresentei sozinho e falei: “- Professor, é o seguinte: eu sempre me interessei pelo ensino de Física, pelas coisas das (ciências) humanas, tal, tal, tal... Mas vim aqui fazer Cristalografia e estou decepcionado, estou procurando alguém que tenha uma vaga para oferecer nessa área.” Ele falou assim: “- Olha, eu tenho. Eu trabalho com Astronomia Instrumental. Se você quiser, a gente pode tentar aqui. A pós-graduação aqui tem instrumentação para o ensino de Física.” Ah! Não tive dúvidas!
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O Argüello, que tinha uma casa gigantesca, próxima à UNICAMP, pois havia uma oficina na casa dele, que era coisa espetacular. Ele me ensinou a trabalhar com alguns materiais, e eu lembro que ele falou assim: “- Olha, você vai se virar aqui, não é? Aqui estão os livros, aqui está a minha oficina. E você vai ler esse almanaque aqui, almanaque náutico russo. Vai aprender todos os sistemas de coordenadas, vai fazer todos os exercícios, vai construir uma esfera celeste” (risos).
Durante a graduação, eu não tive nenhuma disciplina específica de Astronomia, absolutamente nada! A única disciplina que eu tinha tido e que poderia tangenciar alguma coisa era “Introdução ao Pensamento Científico”. Bem, eu lembro que eu estudei com afinco aquilo tudo. Resolvi todos os exercícios desse livro russo de Astronomia. Eu lembro, até hoje, da Editorial Mir. Lembro que, depois, eu fuçava livros russos em tudo quanto é lugar, até na Livraria Técnico-Científica, que tinha em São Paulo. Era época em que o regime militar ainda estava vigente, então era um barato a gente procurar livros russos (risos).
Eu construí uma esfera celeste e adaptei um anel equatorial que dava para calcular o horário do nascer e do pôr do Sol para qualquer latitude do planeta. O Argüello estava com um projeto junto à Prefeitura e a UNICAMP, que era o NIMEC (Núcleo Interdisciplinar para a Melhoria do Ensino de Ciências), e o município tinha ganhado um projetor, ou melhor, um planetário ZKP.2, eu acho, da Alemanha, em troca de sacos de café. Foi um acordo bilateral Brasil-Alemanha, e ele, Argüello, estava montando o planetário. Então, eu lembro que me dediquei com afinco a várias coisas, à tese em si, que virou o livro, antes de sua defesa. O livro ficou pronto seis meses antes da tese. Tanto é que parte da tese que eu escrevi, até hoje, é uma fotocópia do livro.
Tem uma parte introdutória, que é uma parte educacional, que acabou não entrando no livro, mas da metade até o final é a fotocópia do livro, que se chama “Astronomia de Régua e Compasso: de Kepler a Ptolomeu”. A gente desenvolveu um método geométrico, partindo de Kepler, que é o método das circunferências descentradas e do método da reprodução dos triângulos na elipse para órbita de grande excentricidade. Mas um método bastante simples! Inclusive, eu o apliquei para alunos de Ensino Médio, e é uma parte que eu relato na tese.
Isso tudo foi o mestrado. Junto com isso, eu desenvolvi atividades de ensino não formal e divulgação científica no Museu de Ciências, no Parque Taquaral, em Campinas. A gente desenvolveu várias atividades, como o “Brincando e Aprendendo com a Água”, “Biologia no Parque”, “Astronomia a olho nu”, várias coisas. Foi uma época muito criativa! Foi quando, eu escrevi meu segundo livro, que é o “Reflexões sobre o Ensino de Ciências”.
Eu defendi a tese e fui aceito para o doutorado, mas havia um diretor da pós-graduação, o coordenador da pós, que não queria que a área do Ensino de Ciências se desenvolvesse ali de jeito nenhum. Era um cara reacionário ao extremo, e o Argüello falou assim: “- Marcos, eu vou ter que fazer uma consulta ao Conselho do Programa para ver se eles aceitam essa tese.” Daí, teve que fazer correndo sobre a História da Ciência e Astronomia. Falei: “- Argüello, eu acho que é melhor a gente se fingir de morto e continuar a desenvolver a pesquisa.” Mas ele quis formalizar tudo, e o Conselho decidiu pela extinção da linha “Instrumentação para o Ensino”.
Esse programa de pós-graduação era na Física. Eu fiz tanto mestrado