A universidade assume-se como uma estrutura organizacional muito semelhante a estruturas organizacionais privadas, como empresas, instituições religiosas ou militares. Nela exercem-se processos de liderança, conflito, cooperação, segundo um regulamento jurídico próprio. Além disso, representa um sistema organizado composto por um grupo vasto de pessoas, tal como nas estruturas referidas anteriormente.
Porém, a universidade possui características que a tornam distinta, que lhe conferem uma particularidade específica diferenciando-a das restantes organizações. O facto de a universidade estar voltada para o ensino e para a investigação confere-lhe essa particularidade, assim como o tipo de profissionais que nela actuam. Contudo, apesar de se reconhecer que a universidade é uma organização particular, há diferentes autores que procuram identificá-la como uma organização comum a tantas outras, com base nas semelhanças que possam apresentar com outras formas de actividade. A própria UNESCO (1988:14) refere que
“todas as organizações têm, sob muitos pontos de vista, funções similares e tarefas administrativas correspondentes a alguns princípios gerais que lhes são comuns permitindo deste modo utilizar as mesmas técnicas em mesmos casos.”
Katz e Kahn (1970:163) caracterizam a universidade nesta mesma linha, afirmando que que esta é uma “empresa de pesquisa em grande escala”; já Poster (1976:3) refuta estas teorias, alertando para o risco que poderá constituir englobar as organizações educativas no mesmo campo que as organizações industriais, empresariais e outras, precisamente pelas especificidades de cada uma.
Podemos afirmar que haverá, de facto, semelhanças, mas tal como há semelhanças entre um veículo ligeiro e uma motorizada, não podemos afirmar que são iguais e que funcionam do mesmo modo. Parece-nos que a universidade deve ser analisada de uma forma distinta e particular, fundamentalmente pelo papel social que a mesma teve no passado e que desempenha actualmente.
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A universidade contemporânea, surgida por volta do século XII, e que foi evoluindo até à actualidade, representa na sociedade uma das “construções” mais sólidas e respeitadas, ocupando um lugar privilegiado na estrutura hierárquica social. Nela há algo mais abrangente, para além do seu importante papel na formação dos estudantes e preparação para a profissionalização destes. Nos seus laboratórios procede-se à pesquisa, à investigação e produção de conhecimento a favor da sociedade.
Assim, percebe-se que a universidade não vive para o seu interior, ela é importante na formação dos estudantes, mas é igualmente importante para o desenvolvimento da sociedade, seja no domínio tecnológico, informático, seja na esfera da medicina, no fundo, a universidade é o laboratório experimental da sociedade.
Numa sociedade cada vez mais globalizada, onde termos como competitividade e conhecimento se assumem como os elementos-chave para o desenvolvimento, as universidades como centros de criação de conhecimento desempenham cada vez mais um papel muito importante.
Facilmente se percebe que mesmo nos países em desenvolvimento, a relação entre as universidades e a indústria ocupa um lugar central no seu progresso e sua construção como territórios de inovação não só pela transferência de graduados para as empresas, mas também devido ao desenvolvimento directo de actividades e suporte técnico de inovação e conhecimento das universidades para as empresas.
Característica comum à grande maioria dos países em desenvolvimento é o baixo nível de escolarização e profissionalização na camada populacional empregada, consequentemente, a grande parte das empresas estão assentes em modelos produtivos tradicionais, longe dos padrões científicos e da inovação tecnológica, caracterizando-se por pequena ou média dimensão muito aquém da estrutura de grandes empresas multinacionais tecnicamente avançadas.
É de extrema importância que a relação entre as universidades e a indústria seja percebida como uma relação de complementaridade, onde, se por um lado, as primeiras auxiliam as segundas com transferência de conhecimento e suporte técnico, por outro, as segundas podem e devem auxiliar as primeiras contribuindo monetariamente para o investimento na ciência e investigação.
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Caracteriza-se assim a universidade, ao longo da história, como uma comunidade cada vez mais aberta à sociedade, sendo, presentemente o conceito de comunidade que serve para designar a universidade da actualidade. Uma comunidade colectiva do saber.
O conhecimento é considerado como um bem público, onde a universidade é livre e autónoma perante o Estado e o mercado, porém financiado pelo mesmo já que presta um importante serviço social.
A universidade enquanto organização, assume na hierarquia uma posição de destaque, já que ela terá, ainda que indirectamente, influência sobre as outras organizações, pois dela sairão os indivíduos que, à partida, irão integrá-las.
Efectivamente, a instituição universitária é o resultado da evolução demográfica, viária, urbana e social que ocorreu entre os séculos XI e XIII; inicialmente as universidades surgiram de um modo mais ou menos espontâneo entre as mentes criativas e os indivíduos activistas, na procura de respostas aos problemas sociais.
Mais tarde, na época medieval, as universidades são denominadas de universitas, representando uma associação quase jurídica de indivíduos em prol de um trabalho comum. Mais tarde, na Idade Média, os professores e estudantes são referenciados como elementos importantes e caracterizadores desta associação, a qual é assumida cada vez mais como espaço de educação, cultura e aprendizagem.
Alguns autores vêm falando na perda do sentido de “comunidade académica”, sustentando a ideia de que os valores comunitários se vêm perdendo. Outros falam da perda de ligação e do sentido de união, de uma maior divisão interior em detrimento da hierarquização, e do excessivo controlo externo sobre as instituições universitárias. Apesar de as universidades e igrejas serem as instituições mais antigas que permanecem ao longo da história, as universidades não têm sido isentas de mudanças provocadas pela mudança dos tempos. Elas também estão sujeitas a conflitos e tensões, à mudança dos seus membros, às alterações e oscilações da economia, etc.
A especificidade da universidade não pode ser banalizada, ao considerá-la uma organização igual a tantas outras. Facilmente se encontram semelhanças com uma organização empresarial, diversos autores fazem esse paralelismo, pois caracterizaram a universidade como “empresa de pesquisa em grande escala”.
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Albuquerque (1980:1, in http://www.ajos.org.br/biblioteca/11.pdf) diz-nos “a universidade moderna é caracterizada pela existência de sectores onde a prática cientifica produz conhecimentos dotados de um valor no mercado de bens económicos (…)”. Porém, há outros autores que discordam desta associação, uma vez que consideram que as universidades, enquanto organizações educativas, merecem um estudo particular.
Há, efectivamente, convergências e divergências entre a organização do conhecimento (universidade) e a organização empresarial. Numa época em que as organizações empresariais se afastam intensamente dos modelos de unidade fabril tendendo cada vez mais para os modelos baseados no conhecimento, é natural que a separação destes dois modelos seja dificultada. Face ao exposto, as universidades vêem-se forçadas a mudar a sua posição e a adoptar novos modelos.
Diversos autores têm-se debruçado sobre as organizações educacionais, recorrendo a várias tipologias de análise, destacando os seus aspectos comportamentais, o indivíduo em particular, ou através de uma análise mais estruturalista e funcional defendida por Perrow (1972:214) que afirmava que:
“(…) acreditamos que, se quisermos estudar as organizações (…) o ponto de vista estrutural, característico da abordagem sociológica, é o melhor. Além do mais, acreditamos que este ponto de vista possibilita uma abordagem mais económica ao aspecto de mudanças e solução de problemas organizacionais.”
Efectivamente, a grande vantagem da perspectiva estruturalista, surgida nos anos 50, foi o facto de introduzir uma análise mais abrangente sobre a organização e, como consequência, tê-la revelado como um sistema mais aberto e em constante mutação, uma vez que se focaliza nas tarefas nela contidas, nas pressões do ambiente interno e externo, no próprio desempenho organizacional e na sua relação com outras organizações.
Não há uma só teoria que seja suficientemente válida e abrangente e que possa ser considerada como a teoria correcta para o estudo da organização educacional. Existem teorias que, em conjunto, podem ajudar a caracterizar este tipo de organização.
Resumidamente, poderemos recorrer a alguns autores para melhor definir uma organização educativa. Por exemplo, Etzioni (1974:72) refere que estas “empregam caracteristicamente controlos normativos (…) que incluem a manipulação de símbolos de prestígio tais como honrarias, títulos e elogios, influencia pessoal do professor (…)”.
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Mayntz (1987:16) define-a dentro de uma ”crescente racionalização da estrutura interna à formação de corpos técnicos nos seus órgãos e instâncias, à diferenciação, às relações de carácter predominantemente impessoal (…)”. Blau & Scott (1977:66-67), vêem a universidade como:
“uma organização cujo principal beneficiário é a parte do público que tem com ela contacto directo, com quem e para quem os seus membros trabalham – em resumo, uma organização cuja função básica é servir os seus clientes.”
Fazendo ainda referência a Etzioni (1974:86 e 142), que nos apresenta uma visão muito oportuna, o mesmo considera que:
“Transformar uma universidade em uma firma comercial, que dá aos seus clientes aquilo que eles pedem não serve os melhores interesses educacionais dos estudantes; (…) os estudantes são melhor servidos quando os educadores profissionais determinam o que e como eles devem ser ensinados.”
Kast & Rosenzweing (1970:130) falam-nos de “organizações adaptativas” que se dedicam à criação de conhecimento, testar teorias e aplicar informações disponíveis a problemas existentes.
Assim, concluímos que a universidade enquanto organização é palco de excelência de relações e interacções individuais e institucionais com uma regência hierárquica e normativa. Assenta num sistema de regras e condutas que devem ser respeitadas, sob pena de existir punição e numa padronização comportamental. Ainda assim, a universidade não pode deixar de ser encarada pelo interesse público no qual se constitui, pois ela está voltada para a sociedade e a ela presta serviços de ordem educacional, atendendo às necessidades e exigências da sociedade em geral.
Porém, estas organizações estão certamente dotadas de profissionais com qualidades que lhes permitam perceber o que devem oferecer aos “clientes”, ou seja, aos alunos, não esquecendo a perspectiva educacional, não podendo deixar prevalecer a pressão externa e os interesses de agentes externos, mas sabendo acompanhar a evolução e o contexto histórico- cultural das diferentes épocas nas quais se inserem.
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