144 Brasil/MEC/SEF, Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino
De modo geral, é tentador o problema de interface. Isto porque a zona interdisciplinar é complexa na medida em que para ela convergem vários pontos de vista. No caso do campo de interface HC&EC, a inter-relação é de extrema importância para ambas, pois que aquela comunica os resultados de suas investigações e por isso aplica seu conhecimento, enquanto que este outro enriquece a sua ação e o alcance de seus objetivos didático-cognitivos, através dos resultados daquela – que, por outro lado, leva a desmitificações do processo de re/construção de conhecimento científico.
Na especificidade HC&FIDC, a HC – por integrar à natureza de seu ser a dimensão crítica – possibilita apresentar uma construção do conhecimento científico não dogmático, não linear, não de “teorias vitoriosas”, mas busca mostrar o que esteve na base e no contexto da “vitória” de uma dada teoria e que teorias contrarias podem conviver num mesmo contexto histórico. A não linearidade implica na significação de que a construção do conhecimento científico se aloja num sistema complexo, onde convivem rupturas ou descontinuidades e continuidades.
Assim, a HC procura restituir à ciência o seu caráter histórico(-social) ao contextualizá-la. Nesse caso tal fundamentação contribui na formação docente, na medida em que os possibilita serem críticos diante das suas respectivas áreas e não só; por outro lado, ela proporciona-lhes a desenvolver propostas pedagógicas que contemplem a natureza histórica que é inerente as ciências e auxiliá-los a corrigir os enunciados pedagógicos dos manuais didáticos.
Embora dependa da instituição de ensino superior à ampliação dos sistemas curriculares – uma vez dada a liberdade curricular pela lei educacional e normas correlatas vigentes – é necessário rever a inclusão da HC nas licenciaturas, pois, é indispensável neste campo, e ela deve tornar-se mais efetiva. Do contrário
compactuar-se-á cada vez mais à dupla obliteração histórico-epistemológica, manter-se-ão obstáculos epistemológicos que sustentarão a dimensão acrítica dos licenciandos e as imagens caricaturais das ciências.
É incompreensível ensinar ciência e desconsiderando a sua dimensão histórica que possibilita uma compreensão contextualizada do labor científico, da produção e da transformação desse conhecimento, bem como, das situações implicadas nesse processo. A HC apresenta-se como um elemento facilitador do aprofundamento da compreensão conceitual da ciência e das concepções espontâneas dos discentes e possibilitadora das discussões e estratégias do ensino das ciências. A HC tem, na formação docente, sua maior importância na elaboração de uma crítica que deve acompanhar todo o processo de ensino nas áreas específicas do conhecimento.
Destarte, afastar a HC da formação inicial de docente em ciências significa: ignorar a dimensão histórica do conhecimento científico e da transformação dos conceitos no passado da ciência; a obliteração do ensino da HC/HC&EC é obnubilar a profissão docente. A ciência enquanto produto da atividade e da cultura dos seres humanos é emprenhada das vicissitudes que envolvem os humanos, nos seus diferentes momentos e nas suas diversas sociedades. Ora, pensemos o que seria se fosse negado o ensino e a aprendizagem da História do Brasil aos cidadãos brasileiros.
Outrossim, a ausência da HC na formação de tais docentes – ou ainda a sua inserção como disciplina optativa (isto seria uma certidão para a sua obliteração) – privilegia a dimensão utilitária e desfavorece a dimensão histórico-crítica da
produção, construção e transformação do conhecimento científico e dos seus relatos contextualizados, tornando os licenciandos sujeitos “saborosamente” acríticos.145
Da pesquisa das ementas resulta que as disciplinas de HC parece desfavorecerem a abordagem de temáticas ligadas à interfase HC&EC. Isto faz com que seja necessário repensar o ensino da HC nas licenciaturas, de modo que sejam incluídas abordagens de HC&EC na formação docente.
Da análise do conjunto das ementas e da análise da legislação e política educacional resulta a proposta de que é necessário que a HC não seja apenas oferecida como uma disciplina optativa nas licenciaturas; que outra disciplina seja introduzida ou então que a HC se dê em dois níveis: HC1 (diz respeito à ciência específica) e HC2, que é HC&EC – está ultima teria por objetivo abordar assuntos relacionados à interface HC&EC: gestação de estratégias para materialização da perspectiva de ensinar ciências considerando aspectos históricos, sociais e políticos; estudos críticos dos livros didáticos, ou melhor, ainda, os livros didáticos sob a perspectiva historiográfica da ciência; elaboração de projetos pedagógicos tendo a HC como referência; a produção de material didático experimental usando a HC, avaliação discente aplicando a HC. Esses e outros seriam meios para instrumentalizar o neodocente na linguagem da HC aplicada ao ensino.
A indispensabilidade do ensino da HC&EC na formação inicial de docentes consistiria, não somente, no fato de contribuir no desenvolvimento da competência
científica (domínio do conteúdo da ciência a ensinar) e da competência didática
(domínio da arte de ensinar ciência), mas também em suscitar a competência investigativa e a postura crítica do licenciando ou do docente em atividade.
145 Que não se preocupariam em saber como e por quê se chegou até onde se encontra a transformação do conhecimento da ciência que estudam/aprendem para ensiná-la. O que deveria ser adquirido/aprendido durante e depois da graduação.
A relevância da abordagem HC&EC na formação docente transcende o simples ensino de HC. O docente desprovido do mínimo de conhecimento e formação em HC terá inúmeras dificuldades para selecionar tanto o material historiográfico quanto às estratégias do uso de HC na sala de aula, para avaliação dos discentes e na elaboração de projetos educativos; um docente apenas com formação em HC sem abordagem em HC&EC terá também dificuldades estratégicas, didáticas e de elaboração de projetos, embora não seja tanto quanto o anterior.
Repensar a formação docente tanto inicial quanto continuada é um fato necessário, bem como a requalificação dos gestores educacionais (universitários e escolares), para introduzi-los em novas perspectivas de elaboração de projeto educacionais, mudança de concepções e/ou mentalidades, etc. A inclusão da HC nas licenciaturas não pode nem deve ser entendida como uma disciplina a mais no sistema curricular. Deve ser concebida e tratada como uma fonte de trabalhos investigativos e práticos, como, por exemplo, desenvolver seminários-aula com abordagem em HC.
As atividades de pesquisa elaboradas durante a licenciatura, numa abordagem histórica, servirão de introdutório para que os docentes possam elaborar seus projetos educacionais contemplando aspectos históricos da ciência.
Para aqueles que criticam a inclusão da HC na formação docente ou mesmo o seu uso no ensino de ciências, além de atentarem contra a natureza das próprias ciências, afirmamos-lhes que não é da imposição de historiadores da ciência, mas sim, uma necessidade reconhecida pela política e legislação educacionais que a incluem nos seus objetivos. Afirmamos que entre os objetivos da educação básica e da formação docente há uma implicância recíproca.
A contextualização do conhecimento científico, no seu ensino, é um dos objetivos da política educacional e permite a apreensão da dimensão espaço- temporal e dos aspectos internos e externos da construção, circulação, consumo e comunicação deste conhecimento. Isto implica na formação de docentes à altura daqueles objetivos, para que sejam alcançados. Para as mentalidades utilitárias é necessário fazer saber que a HC proporciona esclarecimento e explicitação das concepções errôneas, ingênuas perpetuadas ao longo dos anos de “doutrinação científica”.146
Por outro lado, como em qualquer trabalho, encontramos dificuldades no que se refere à falta de bibliografia relacionada especificamente a HC na formação de docentes, ou, por extensão, sobre a HC no ensino superior. Está ausência constitui uma justificativa para que pesquisas sejam feitas nesse nível.
Portanto, o conhecimento de HC auxilia ricamente no desenvolvimento da competência profissional, intelectual ou didaticamente, assim como possibilita a eliminação de obstáculos conseqüentes e introduz inovações. Assim, é considerável que o diálogo entre HC&FD é defensável pela fundamentação apresentada ao longo do trabalho.
146 Para mais informações recomendamos a leitura de trabalhos de Lillian A.-C. Perreira Martins, Ana M. Alfonsfo-Goldfarb & Marcia H. M. Ferraz, Roberto de A. Martins, entre outros. Vide referencias.
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