• No results found

REFLEXÕES DA “SEXOLOGIA ESCONDIDA” NOS PERÍODOS MEDIEVAIS E NEO-

RENASCENTISTAS

por José Manuel Martins Ferreira Coelho

Uma análise pessoal, muito própria, sobre o tema da nova edição do meu próximo escrito, “PORTUGAL MEDIEVO E RENASCENTISTA – Reflexões Valorativas”, levou-nos a que a criação desta obra, baseada em colectâneas soltas de temas históricos diversos, centralizados num dos períodos que mais nos fascina, nas múltiplas investigações e estudos da humanidade, como uma prova evolutiva e sequenciada, da “Idade Média”

para a Idade Moderna.

Esta época tornou-se uma era da vida humana em que múltiplas interrogações existem e em todos os seus mais elementares e complexos departamentos da sociedade, da economia, da cultura, da religião, da guerra, que se apresentam em nosso entender, com desfasamentos e correlações, por vezes em procuras livres ou forçadas, com cabimentos a alianças de matrimónios ao mesmo tempo de traições, em áreas geográficas continentais contíguas, já para não citar, as complexas e utópicas divisões inter-oceânicas.

De algumas análises e reflexões possíveis a uma escrita, concretizada e estabelecida em ensaios, procurámos editar em cadernos os temas que seleccionámos para conferências e palestras em Academias e Instituições Culturais Nacionais.

Pautámos do maior interesse e entusiasmo as reflexões históricas, o rigor e exigência reflectida, às observações atentas, norteadas por uma metodologia sequenciada dos critérios, semelhantes aos exigidos “na praxis” médica. Talvez com esta intuição e formação, a consciência do “exacto ou possível exacto”, possam ser mais facilmente entendidos por aqueles, em que o diagnóstico definitivo se possa considerar utópico, em abono dos múltiplos pontos alusivos, aos diagnósticos diferenciais.

As exigências de análise, deverão ser inteligentes, rigorosas e fundamentadas, talvez por isso, a “Ciência Histórica” seja tão aliciante, apaixonante, perturbadora e intrigante, deixando como valia inovadora o senso de integração das múltiplas áreas do saber, associadas ao “bom senso” do progresso, sabendo estas se integrarem igualmente, na visão do “tempo e do espaço”, do próprio passado.

A análise da “Sexualidade Escondida”, enquadrada na Idade Média, obedecendo ao – Discurso Religioso: conceito do corpo físico (mero invólucro temporário), satisfação sexual, conceito de promiscuidade e virgindade.

Conceito de Graça (trilogia feminina: Eva a pecadora, Virgem Maria Santíssima, Maria Madalena a arrependida).

CADERNOS BARÃO DE ARÊDE

Hot Ribs. «[...] a luzuriouly clad Gos the Father lifts up and blesses Eve, his new creation formed from Adam’s rib.» Prayer Book of Cardinal Albrecht of Brandenburg, c. 1525-1530, Ms. Ludwig

IX 19, f. 7v, The Paul Getty Museum.

http://www.getty.edu/art/gettyguide/artObjectDetails?artobj=4288

O sexo (apetecível) mas mal visto, relacionado ao pecado original de Adão e Eva. Base no “Génesis”, a Mulher (bonita e sexualmente atraente), mais susceptível do que o Homem às tentações do diabo.

Múltiplas alegorias e iconografias dos grandes Mestres da pintura europeia e flamenga dos séculos XIV, XV, XVI, estabelecendo como base metafórica à Deusa do Amor Vénus e ao catalisador sexual Cupido. (Nas culturas pagãs «orientais» o sexo era necessário, incentivado, relaxante e bem visto.)

Conceitos elaborados pelos “Escolásticos Medievais”, a Mulher muito próxima da carne e dos sentidos, por isso pecadora potencial. Ia-se ao extremo de considerar o fluxo menstrual como sinal do maligno.

“O casamento além do objectivo da procriação, era uma forma da Igreja Católica controlar o comportamento da sociedade”

“A mulher pertencia ao homem, porém, sua alma deveria pertencer a Deus, por isso deveria guardar- se casta mesmo no casamento, mantendo relações sexuais apenas para gerar descendentes. O marido deveria tomar cuidado para não fazer de sua mulher, sua amante, o mesmo valia para a mulher. A posição ideal da relação sexual entre marido e mulher deveria ser com a mulher deitada de costas (para que nada visualizasse), e o homem sobre ela. As demais posições deveriam ser evitadas…”

“Desde o final do século XII, a Igreja procura estabelecer idade mínima de doze anos para as meninas e catorze anos para os rapazes, para o envolvimento em laços matrimoniais ……

| 75

CADERNOS BARÃO DE ARÊDE

... [...]Uma forma bastante difundida na Idade Média como alternativa para casar-se com quem de vontade fosse era o rapto, do qual a culpa sempre recaia sobre o homem, como se tivesse roubado a moça utilizando-se de força e violência, mas que, na maioria das vezes teria impossível sem a cumplicidade da moça.” (Jéssica Fortunato do Amaral)

“As próprias freiras e monjas, a começar pelas abadessas, não se pejavam de solicitar cartas de legitimação para produtos de aventuras amorosas.

... [...] Muitos trovadores eram clérigos. Faziam corte às mulheres e exaltavam em trovas os encantos do amor” (A. Oliveira Marques)

Numa reflexão atenta a esta temática, impõe-se como esclarecedora a revisão da literatura medieva da história de Espanha, em que o grande historiador dos tempos medievais, Pero López de Ayala, “hombre que vivió una vida intensa, mezclado en todas las agitaciones y tumultos de su tiempo. «escritor eminente en prosa, y el primero de la Edad Media en quien la historia aparece com el mismo carácter de reflexión humana y social, que habían de imprimir en ella mucho después los grandes narradores del Renacimiento italiano…, mediante él se abren las puertas de Castilla a un nuevo género de prosa de tendências clásicas, muy diversa de la deleitable prosa semioriental que campea en los patriarcales esccritos del Rey Sabio, de su hijo y su sobrino.» Su obra abarca cuatro reinados: los de Don Pedro, Don Enrique II, Don Juan I y Don Enrique III……”

Importantíssimas obras originais foram divulgadas “Libro de Cetreria”, a crónica de Don Alvaro de Luna, “Libro de las Claras e virtuosas mujeres”, no século XV, Fernán Pérez de Guzmán, “Mar de Historias (Generaciones y semblanzas). Outras obras de valor “Libro de la Caza”, “Libro del Cauallero et del Escudero”, “Libro de los Estados”, “Libro del Conde Lucanor”, Libro de los Enxiemplos”

A novela cavaleiresca toma força com Juan Rodríguez del Padrón, no “Triunpho de las donas” (novela amorosa e autobiográfica).

“Alfonso Martínez de Toledo (1398-1466), nos há dejado en ‘Reprobación del amor mundano o El Corbacho’ que es una sátira contra las mujeres, muestras del adelanto de la prosa.”

CADERNOS BARÃO DE ARÊDE

“No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende glosam-se alguns aspectos de homossexualidade masculina e feminina, a par da masturbação. E o nosso maior cronista não hesitou em lançar suspeitas sobre o rei D. Pedro, que amava o seu escudeiro Afonso Madeira «mais se deve aqui de dizer» e o mandou castrar por evidentes ciúmes” (A. Oliveira Marques).

“A posição ideal da relação sexual entre marido e mulher deveria ser com a mulher deitada de costas (para que nada visualizasse), e o homem sobre ela. As demais posições deveriam ser evitadas…”

| 77

CADERNOS BARÃO DE ARÊDE

Rummaging II. «A lascivious and fashionably dressed young woman attempts ro seduce na elegante young man, reaching her hands inside his tunic andu o his thing.»

Belles Heures of Jean de France, duc de Berry, c.1405-1408/9, The Cloisters Collection, 1954 (54.1.1), f. 191r, The Metropolitan Museum of Art, New York.

http://blog.metmuseum.org/artofillumination/manuscript-pages/folio-191r/

A vivência na Sociedade Medieval, muito dependente da Igreja ligada ao princípio quase de obrigatoriedade da vivência “eunuca” do apostolado de Santo Agostinho. Contudo assiste-se a divergências múltiplas, (escondidas por princípios), de monges, de freires cavaleiros, de priores, de cónegos, de bispos e de papas, à sua sucessão hereditária.

“A Igreja fulminava com excomunhões os sacrílegos que fornicassem dentro das igrejas ou se deitassem com religiosas. Barregãs de clérigos ou de homens casados entravam no rol das excomungadas assim como os barregueiros respectivos... O que desflorasse moça virgem ou se deitasse com dona viúva era obrigado a casamento. A bigamia punia-se com a morte. O que fornicasse com mulher casada, por consentimento desta, seria punido com desterro e confiscados os bens havidos da Coroa, sendo fidalgo. Se o não fosse, perderia a vida. (A. Oliveira Marques)

CADERNOS BARÃO DE ARÊDE

Handwriting, Livre d’heures à l’usage de Paris, c. 1475, Ms. lat. 33, f. 6r Bibliothéque de Genève http://www.e-codices.unifr.ch/en/bge/lat0033/6r

| 79

CADERNOS BARÃO DE ARÊDE

_______________________________________________________________ “Pertenceu ao rei São Luís da França e mais tarde a Afonso X, o Sábio. Foi copiada e iluminada entre 1226-1234, em Paris. A Idade Média pode ser lida em imagens através desta Bíblia. O texto bíblico e os seus comentários formam um todo indissolúvel com o conjunto iconográfico. Monumento único da arte livresca que constitui uma mina inesgotável para o historiador e uma fonte de gozo sublime para os sentidos.”

________________________________________________________________